Unbreak Me, Unchain Me.
3 Lembranças: "Seize the Day.”
Notas iniciais
Lembrei-me de quando tinha oito anos. Meu cachorrinho havia sido atropelado. Eu estava aos prantos, chorando no colo de Jimmy e ele apenas me dizia: "Acalme-se, vai ficar tudo bem." acariciando meus cabelos e beijando minha testa, ao contrário de Leana, que só sabia ficar andando de um lado para outro do consultório veterinário, dizendo que aquilo era perda de tempo e dinheiro, que cachorro é como curva, há uma a cada esquina; e toda a ladainha que as pessoas que não entendem o significado do companheirismo dizem.
Lembrei-me também do dia em que ele me deu o colar com o pingente de deathbat, que há pouco beijei. Era final de ano, todos estavam felizes naquele Natal de 2009. A família e os amigos do Avenged Sevenfold todos reunidos em nossa casa. Meu pai era o mais animado, mas deixou um pouco os outros de lado para subir até meu quarto e perguntar por que eu tinha me distanciado.
(Flashback on)
– Aud — disse batendo na porta.
– Entre. — e então ele veio até mim com uma feição
preocupada. Sentou-se a meu lado na cama e pegou minha mão.
– Não está se sentindo bem, minha querida? — hesitei por um momento. Não sabia responder aquela pergunta. Não estava passando mal, mas também havia algo de errado, algo que eu sentia, mas não sabia descrever.
De repente meus olhos se encheram de lágrimas inexplicáveis. Não consegui
contê-las, caiam abundantes por meu rosto, manchando minha maquiagem. Diante da cena, Jimmy me envolveu em seu abraço apertado e nada falamos por alguns minutos. Até que eu me acalmei e pus fim ao silêncio.
– Me desculpe, pai. Não queria atrapalhar sua noite,
você estava tão feliz... — minha voz falhou.
– Não se preocupe por mim, meu amor. — disse ele
enquanto enxugava a última lágrima que caía por sobre meu rosto. — Mas o que
aconteceu? Você quer me contar alguma coisa?
– O problema é esse. Eu não tenho nada para contar,
também não sei o que aconteceu. Simplesmente senti uma tristeza profunda e
incontrolável.
– Muitas pessoas sentem isso, mas não você. Você só
chora ou fica triste quando tem motivo... Quando Leana apronta alguma... — ele
falou franzindo o cenho, analisando a situação.
– É, eu também não entendi isso. — concordei. — Talvez eu seja propensa à bipolaridade mesmo. — sorri para mostrar que já estava bem novamente.
– E então, agora você está no lado bom ou ruim da bipolaridade? — disse desfazendo o semblante tenso e formando um sorriso torto, o meu preferido.
– Estou no meu lado ótimo! — levantei da cama dando
um pulo e beijei a bochecha de Jimmy.
– Podemos descer, então?
– É claro. Se você conseguir desgrudar a bunda daí! Acho que comeu tanto hoje que nem vai conseguir se levantar! — gargalhamos e ele me deu o colar da "sorte", entregando-me com um beijo. – Filha, fique com
isso aqui. É para espantar o lado ruim da bipolaridade.
– Obrigada, pai. – o abracei apertado.
– Então vá arrumar essa maquiagem aí. Você é minha filha e não do coringa. — levantou-se e me guiou até o espelho, dando risada.
Admito que levei um pequeno choque. Meu rosto estava todo borrado, numa mistura exata de estilos de maquiagem de Kiss, Black Veil Brides e Coringa, como meu pai citou. Também comecei a rir enquanto limpava minha pele e fazia outra make.
– Vamos? — disse enquanto estendia a mão para ele.
– Mas já? Pensei que passaríamos a virada do ano aqui! — ele disse pegando minha mão e rindo. Não pude deixar de rir também. E então descemos as escadas, abraçados.
– Mas onde vocês estavam? — disse Matt num tom
descontraído. — O Brian já estava quase pegando os rojões do Réveillon pra
fazer vocês perceberem que a gente estava chamando há horas. — tudo em Matt é exagerado, desde seu tamanho até seu jeito de falar e dar ênfase às palavras. Mas eu o adoro, assim como todos os outros da banda.
– Pior que é verdade! — concordou Brian chegando com
mais uma garrafa de Heineken na mão, ao lado de Johnny, que segurava outras duas. Uma ele entregou a Jimmy.
– Valeu. — meu pai disse dando um tapinha nas costas de Johnny. Mesmo o tapinha não sendo muito forte, Johnny quase se desequilibrou. Já havia bebido um bocado. Jimmy riu e voltou-se a Brian e Zacky, que agora estavam sentados no sofá assistindo Valary e Michelle jogarem A Call of Duty, jogo que ganhou uma música do Avenged como tema.
– Mas vem cá, eu não escutei ninguém me chamando.
Você escutou, Audrey?
– Não também.
– "Ih" Matt, acho então que seus gritos não estão mais surtindo efeito... Sua voz deve estar fraca e fina demais para que ouvíssemos lá de cima. — gargalhou sabendo que a provocação funcionaria. Matt odiava que falassem que ele não conseguia mais gritar como em suas músicas mais antigas. E quando se irritava, ninguém ousava se aproximar, só Jimmy tinha coragem de provocá-lo e continuar perto dele.
– Deve ser porque esse monte de cabelo na orelha não
te deixa ouvir nada, seu veado! — deixou o vinho de lado e foi em direção ao
abusado que ousava insultá-lo. Percebendo, Jimmy saiu correndo para a varanda, gritando coisas sem sentido que eu mal entendi. Só consegui compreender um "Socorro, o maricas quer me pegar". Na sala todos começaram a rir, eu peguei a câmera imediatamente e a liguei indo para fora da casa e os outros me acompanharam.
Era uma cena beirando o bizarro! Dois bêbados correndo meio desajeitados pelo quintal e gritando ofensas que ninguém sabia se eram verdadeiras. Mas era engraçado... Dando zoom — eu não fui louca de filmar Matt de perto — captei sua expressão furiosa e gargalhei. Foi então que ele alcançou Jimmy, que o contra-atacou rindo. Zacky, Johnny e Brian se aproximaram com caras de criança sapeca que planejava aprontar e empurraram Jimmy e Matt na piscina. Estavam atônitos de tanto rir quando foram surpreendidos por Valary, Lacey, Michelle e Gena, que chegaram os empurrando também e em seguida se jogando e se juntando a eles. Eu não quis ficar de fora, coloquei a câmera num ponto estratégico para que continuasse a filmar as
brincadeiras e corri para a piscina. Até a azeda da Leana entrou sorridente.
Jimmy abraçava Matt gritando "me perdoe, eu te
amo" e Matt tentava se desgrudar de seus braços. Zacky saiu da piscina
para voltar pulando em cima dos dois.
– Sai daqui, filho da puta. Lugar de baleia é no mar
e não na piscina! — Matt começou gritando, mas a frase não soou perfeitamente
clara porque não conseguia controlar o riso.
– Não precisa ficar com ciúmes, Zacky. TEM JIMMY PRA
TODO MUNDO E PRA SEMPRE!
Aquela noite, mesmo com o meu momento bipolar, foi a melhor da minha vida. Estava com as pessoas que amava, no lugar que amava. Tínhamos ido para nossa casa de praia, numa ilha do nordeste brasileiro. Queríamos fazer estas festas na piscina e o rigoroso inverno americano não as possibilitava. Mesmo em Huntington Beach, onde ficava nossa casa, sendo no litoral californiano, o frio era de congelar. Todos gostamos do Brasil, tinha um ar diferente, onde as pessoas pareciam ser realmente felizes. Vivemos ótimos momentos ali, momentos de plena felicidade, como aquela noite de Natal.
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