Unblesseds
1 Prólogo
Notas iniciais
Blane passou seu braço pela cintura de Marceline. Juntos, entraram em uma dança majestosa, quase mágica, ao som da melhor orquestra do reino.
O vestido azul bebê da jovem princesa levantava a cada giro que eles davam. Seu parceiro a conduziu por todo o salão elegantemente ao ritmo da música. Vez ou outra algum par descuidado ameaçava atrapalha-los, mas com a devida agilidade, Blane desviava, evitando esbarroes.
– Suas habilidades na valsa são notáveis, Barão — A princesa dera um leve sorriso para Blane, que retribuiu com um sorriso cheio de dentes — E devo acrescenta: O senhor esta excepcionalmente belo está noite.
– Muito obrigado, alteza — Agradeceu o Barão de forma cordial — a senhorita esta linda, como sempre.
Ela soltou risos abafados, da maneira que sempre fazia quando era cortejada.
– Ora! Não diga tal blasfêmia — Sua voz assumira um tom brincalhão, e seus lábios se abriram em um sorriso desdenhoso — Como podes afirmar isto se ainda não vistes meu rosto?
Ainda em meio à dança o barão tocou, com a ponta dos dedos, a máscara branca que a princesa usava. Era delicada, sem muitos detalhes. Perfeita para alguém como Marceline, que chamava atenção a quilômetros de onde estava por causa de sua beleza fenomenal.
– Digo o mesmo a senhorita — Ele sorriu — Também estou de máscara.
Ambos caíram em gargalhadas abafadas. Blane olhou de um lado a outro. Não notando a presença dos guardas, muito menos a do Rei de Juno, retirou sua mão esquerda da cintura de seu par, segurando delicadamente a dela. O barão não precisou a falar mais nada, Marceline concordou com um sutil movimento de cabeça e logo o casal, a passos rápidos, dirigia-se a sacada do salão de Bailes, sempre olhando para os lados, tomando cuidado para que ninguém os notasse.
Não demoraram muito e, finalmente, estavam a sós. Apenas eles, as infinitas estrelas do céu e a lua que brilhava em um prateado cintilante.
– Estive esperando por isto a noite toda, Marceline... — Blane tirou sua máscara, exibindo seus reluzentes olhos que mais pareciam um par de esmeraldas em seu rosto. A princesa fez o mesmo com sua máscara. Ambos sorriram e antes que pudesse ser dito algo, o Barão a puxou para um beijo apaixonado. Marceline entregou-se completamente a seus braços. Não tinha mais medo que alguém os pegasse no flagra. Isso porque, quando estava com aquele homem, seu corpo era preenchido de coragem. Algo que lhe ocorria apenas quando desembainhava sua espada, o que não era o caso. O leve sabor doce dos lábios do amante escapou-lhe, quando ele a afastou carinhosamente de si.
– Minha doce Marceline... — Ele a admirava. Blane passou a acariciar sua face, começando pela testa, descendo pelas maçãs do rosto bem definidas, passando por seu queixo delicado e, por fim, detendo-se a passar a mão por seus longos cabelos castanhos que, pela falta de iluminação, estavam negros como uma noite sem luar.
Blane fora mandado pelo rei de Mars para ser capitão da guarda principal de Juno. Aphonse, o pai de Marceline e patriarca do reino de Juno, confiava sua vida ao jovem rapaz de cabelos negros e isso o tornava muito íntimo da família real.
Marceline lembrava-se muito bem da primeira vez em que o viu. O pai dera um jantar para comemorar o tratado de paz entre os quatro reinos do continente de Cazz e ele estava em meio aos convidados. Foi amor a primeira vista e desde aquele dia, a três anos atrás, Marceline prometera ser completamente dele e de mais nenhum homem. Ele, Barão de Albaran no Reino de Mars. Ela, princesa e segunda filha do regente do Reino de Juno. Poderia ate ser um romance possível, se não houvesse um pai super protetor na história. O que complicava tudo.
– Minha Marceline... — Blane segurou o pequeno e delicado rosto da garota com a palma das mãos — Quantos anos mais terei de esperar antes de desposa-la?
A garota revirou os olhos. Algo que sempre fazia quando estava sozinha com alguém que conhecia sua verdadeira personalidade. Ela afastou as mãos do barão de si e caminhou até a beirada da sacada, apoiando os cotovelos no pequeno muro de pedra.
– Blane... — começou, seus olhos miravam o horizonte. Luzes fracas piscavam na linha em que a terra e o céu se encontravam. Marceline fechou os olhos com força e os reabriu. Ficou desapontada quando percebeu que as luzes já não estavam mais lá. Teria ela imaginado?
– Blane, você sabe que em quanto eu não completar meus 20 anos, não poderei fazer nada a respeito.
Ele aproximou-se dela e apertou levemente seu braço magro.
– Teremos então que esperar mais três longos anos? — Sua voz era um poço de desanimação — Quero logo mostrar ao mundo o tamanho do nosso amor!
– Eu também... — Disse-lhe, um pouco distante. Ela se apoiara mais ainda no pequeno muro, desta vez inclinado seu corpo levemente para a frente. Eram luzes alaranjadas que acabara de ver?
– Marceline! — Ele a chamou, virando-a bruscamente para fita-la, olho no olho — Não quero mais esperar, case-se comigo!
A garota não sabia como responder a aquilo. No fundo, era tudo o que queria, mas não pretendia casar-se com um homem — mesmo sendo o homem que mais amava no mundo — sem o consentimento de seu pai, sua benção. A princesa orou em silêncio para que algo os interrompe-se e, suspirou aliviada quando seu pedido foi atendido.
O barão Blane a soltara e agora seus olhos olhavam para o céu noturno. Ele estava boquiaberto, seus ombros ficaram tensos. De início, Marceline não entendera o porque, mas quando acompanhou seu campo de visão, deu de cara com uma bola de fogo flamejante que voava em direção a torre principal.
O incêndio foi instantâneo. E como se não bastasse, uma saraivada de bolas flamejantes começou a atingir o palácio, seguidas da primeira.
– Vamos! Temos que sair daqui! — Blane segurara sua mão com firmeza e juntos, adentraram o salão de bailes.
Estava tudo um caos. Os convidados corriam de um lado a outro. Gritos ecoavam pelo lugar. O fogo consumia grande parte da decoração e inclusive muitas das pessoas estavam em combustão.
Em meio a confusão, o barão a arrastou para a escadaria a qual estava bloqueada pelo acumulo de aristocratas que tentavam desesperadamente deixar o recinto. Uma fumaça negra tomava conta do lugar. Blane estendeu um lenço para Marceline, que assim como ele, pousara sobre o nariz.
– Por aqui! — Gritou ela, o som da sua voz saia abafado — Conheço uma passagem!
Ele assentiu e desta vez, a princesa o guiou até a extremidade oposta do salão.
Pararam em frente a uma estatueta de anjo ao estilo Barroca. Marceline apertou o centro da barriga do bebê alado que afundou. Ouviu-se um ruído. A estátua começara a mover-e para frente, deixando visível um pequeno alçapão a baixo dela.
– Vamos! — Ela abriu a portinhola. Era escuro ali dentro, mas sem hesitar, a princesa de olhos castanhos pulou para dentro, seguida de Blane.
Caminharam por vários minutos por um corredor estreito e escuro que acabou os levando até um amplo salão secreto com sofás de seda e decoração extravagante.
– Um lugar assim existe?! — O barão, novamente aquela noite, estava boquiaberto.
– Sim... — Ela voltou-se a estante de livros recostada a parede. Procurava por algo — Foi construído a séculos. Não existe na planta original e apenas os membros da família real conhecem esta sala. E agora você...
Ela afastou alguns livros e, para a surpresa de Blane, a parede moveu-se, revelando a ampla biblioteca do castelo.
– Temos que encontrar meu pai. — Sem nem ao menos olhar para trás, ela atirou seus sapatos de salto para o lado e começou a correr. Estava absorta em pensamentos. O que estava acontecendo ali? Estaria seu pai bem? Eram perguntas que giravam em sua cabeça. Milhões de respostas eram formuladas, cada uma mais trágica que a outra. A princesa só voltou a si, quando percebeu que estava em frente a enorme porta de madeira da sala do trono. Sem pensar duas vezes, ali entrou seguida de seu amante.
– Minha filha! Blane! Meu Deus, eu pensei que estivessem mortos. — Aphonse fora de encontro a Marceline, dando-lhe um abraço apertado o qual a garota retribui de mesma forma.
– Majestade, — Blane fizera uma reverência — Qual a situação?
– Soldados, — Começou Brown — no mínimo mil. Carregam o estandarte de Mars.
– Como..?!
Ao invés de responder, Brown foi até sua irmã e, assim como seu pai, a abraçou.
– Você nos deu um susto dos grandes, mocinha.
– É, eu sei. — respondeu impaciente — Agora, alguém pode nos explicar o que esta acontecendo?
Houve silêncio. Nem o rei, nem seu filho, muito menos qualquer soldado presente no recinto falou.
Ouviu-se outra explosão. Marceline estava prestes a perguntar novamente, quando foi interrompida.
– Não sei ao certo... — Aphonse parecia pensativo, talvez um pouco distante — Mas esta manhã, eu recebi uma carta um tanto suspeita de um dos ministros do Reino de Mars. Dizia algo como um golpe de estado ter tirado Vernilion, o Patriarca de Mars, do trono. Os oficiais do magistério estavam sendo mortos um por um.
– E...? — Marceline estava realmente impaciente.
– Não sabemos. — Quem lhe respondeu foi Brown — A carta não fora terminada. Quem quer que a tenha escrito, deve ter sido interceptado, tendo tempo apenas para envia-la as pressas.
– De início achamos que era algum tipo de piada de mal gosto. — Continuou Aphonse, passando as mãos pelos seus cabelos grisalhos — Mas agora vejo que não era...
– Qual a situação? — Repetiu Blane.
– Soldados inimigos no portão leste, no murro norte e na entrada principal do sul. — Respondeu Brown — Já posicionamos a tropa H e os arqueiros para combaterem os malditos com as catapultas no portão leste e acabamos de mandar a tropa A para o Leste.
– E a entrada principal? Tem algo estranho...
– Também percebemos isto. O principal é a falta de combatentes na área Oeste.
– Talvez uma cilada...? — Marceline entrara na conversa — Talvez estejam apenas espreitando. A área Oeste é a que da na floresta da noite.
– É isto que nos preocupa — Interveio o Rei — Aquela floresta é lotada de criaturas e espíritos.
– Acredito que eles não estejam contando com a passagem subterrânea e sim com nossa fuga floresta adentro, onde nossas chances de sobrevivência são menores do que a metade. — Supôs Blane, pensativo — Acredito que nossa única chance seja... Não. Esqueçam.
Marceline arqueou a sobrancelha. Ela sabia exatamente do que estavam falando. Não pode deixar de sorrir.
– Eu vou — pronunciou-se — Posso cruzar a floresta da noite e ir vê-la. Ela pode nos ajudar e...
– Não. — Interrompeu o Rei. Estava sério e não parecia querer levar aquela conversa adiante — Não vou arriscar sua vida em vão, minha filha.
– Mas pai! — Protestou — é nossa única chance!
– Não. Nós vamos derrotar o exercito inimigo. Não teremos ajuda daquela velha. Não me rebaixarei a este nível! Nunca!
Marceline, discretamente, revirou os olhos. Ela sabia muito bem que há três anos atrás, como medidas do acordo de paz, todo tipo de magia e feitiçaria deveria ser banida dos reinos. Avallon era a única escolha para a salvação do castelo, seu pai sabia disso, mas seus princípios eram maiores que a necessidade de pedir ajuda. Uma atitude nobre, se a vida — ou no caso, a morte — de muitos não estivesse envolvida. Não pensou duas vezes, sai da sala do trono as carreiras. Não iria deixar seu reino ser destruído por mero capricho do pai. O mais rápido que pode, dirigiu-se para o corredor que levava a pequena e oculta saída da área Oeste. Tinha na cabeça a certeza de conseguir ajuda da velha Avalon, mas mal sabia ela que esta era a ultima vez que veria seu pai, seu irmão e seu tão amado Blane.
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