Umbra Viscerum: O terror que vem do céu.

2 Capítulo I: A Patrulha Desaparecida.


O sol da manhã, um disco pálido e indiferente, mal conseguia penetrar a névoa persistente que se agarrava à floresta, transformando as árvores em silhuetas fantasmagóricas. Gaius Valerius Aquila, centurião da Legio I Germanica, observava a cena com uma carranca. A história do sentinela sobre a “estrela cadente” havia sido rapidamente abafada pelos oficiais superiores, atribuída à superstição e ao medo de um recruta inexperiente. No entanto, a patrulha de reconhecimento que deveria ter retornado ao amanhecer não havia dado sinal de vida. E essa era uma preocupação que nem mesmo a disciplina romana podia ignorar.

“Valerius!” A voz de Titus Flavius Corvus, seu optio, era afiada e impaciente. Corvus era jovem, ambicioso e, na opinião de Valerius, excessivamente zeloso. Ele via cada problema como uma oportunidade de glória, uma falha que ele, e somente ele, poderia corrigir. “Os homens estão prontos. Quanto mais esperamos, mais os bárbaros se envalentonam.”

Valerius virou-se para o jovem, seus olhos cinzentos endurecidos pela experiência. “Não são bárbaros, Corvus. Bárbaros deixam rastros. Bárbaros deixam corpos. E bárbaros não derretem árvores.” Ele gesticulou para a floresta, onde, mesmo à distância, era possível ver uma estranha descoloração nas copas das árvores, como se tivessem sido queimadas por um fogo invisível. “Prepare a centúria. Vamos investigar. E mantenha os olhos abertos. Não sabemos o que estamos procurando.”



A centúria, cinquenta homens endurecidos pela guerra e pelo clima, marchou em formação cerrada para a floresta. O silêncio era opressor, quebrado apenas pelo rangido da armadura e o som abafado de suas sandálias nas folhas úmidas. A névoa se adensava à medida que avançavam, transformando o mundo em um labirinto de sombras e sussurros. Valerius liderava, sua gladius desembainhada, os sentidos aguçados. Ele havia lutado contra tribos germânicas, gauleses e até mesmo os selvagens pictos na Britânia. Ele conhecia o cheiro da emboscada, o som de um arco sendo armado. Mas ali, não havia nada disso. Apenas o silêncio, e um cheiro estranho, metálico e acre, que pairava no ar.

Após uma hora de marcha tensa, eles encontraram o que restava da patrulha. Não havia corpos, apenas fragmentos. Um pilum retorcido, como se tivesse sido esmagado por uma força inimaginável. Um escudo de madeira e couro, com um buraco perfeitamente circular no centro, as bordas carbonizadas. E, o mais perturbador de tudo, um pedaço de armadura de bronze, derretido e fundido à rocha, como se tivesse sido exposto a um calor infernal. Não havia sangue, nem sinais de luta convencional. Era como se os homens tivessem simplesmente… evaporado.

Corvus, que havia mantido uma postura arrogante até então, empalideceu. “Pelos deuses… o que poderia ter feito isso?”

Valerius se ajoelhou, examinando o metal derretido. O cheiro metálico era mais forte aqui, quase insuportável. Ele tocou a rocha vitrificada, sentindo o calor residual. “Não é obra de homens, Corvus. Nem de feras. Isso… isso é algo que nunca vimos antes.” Ele olhou para o céu, para o ponto onde o sentinela havia relatado a queda da “estrela”. Uma sensação de frio percorreu sua espinha, um pressentimento sombrio que ele não conseguia afastar. O Império Romano havia conquistado o mundo conhecido, mas o que estava além do conhecido? O que estava além das estrelas?

Ele ordenou que os homens procurassem por qualquer coisa, qualquer pista. Mas não havia nada além da destruição silenciosa. A floresta parecia ter absorvido os homens, deixando apenas a evidência de sua aniquilação. Enquanto a centúria se preparava para retornar ao castrum, um dos legionários, um jovem chamado Lucius, soltou um grito abafado. Ele apontava para uma árvore alta, onde, pendurado em um galho, estava o que parecia ser um elmo romano. Mas não era um elmo comum. Estava deformado, esticado e retorcido, como se tivesse sido moldado por uma mão invisível, e pulsava com uma luz fraca e esverdeada, a mesma cor da “estrela” que havia caído. O terror se espalhou entre os homens. Valerius sentiu o medo, um medo primordial que ele não sentia desde os dias mais sombrios da Britânia. Ele sabia que a floresta havia mudado. E eles estavam no meio dela.



A Voz na Névoa O retorno ao castrum foi tenso. O elmo pulsante, que Valerius havia ordenado que fosse deixado para trás, assombrava a mente de cada homem. A névoa, que antes era apenas um incômodo matinal, agora se adensava ao redor da fortaleza, mais espessa e opaca do que o normal. Não era uma névoa comum; ela parecia ter uma vida própria, rastejando e se contorcendo, envolvendo as torres de vigia e as paliçadas em um abraço úmido e frio. O cheiro metálico e acre da floresta parecia ter vindo com eles, impregnando o ar dentro das muralhas.

Naquela noite, o castrum estava em alerta máximo. As sentinelas dobraram, e as fogueiras crepitavam com uma intensidade incomum, como se pudessem afastar a escuridão que a névoa trazia. Mas a escuridão não era o problema; era o que a névoa escondia. Os primeiros relatos começaram com sussurros. Soldados juravam ter ouvido vozes distantes, chamando seus nomes, ou proferindo palavras em uma língua que não era latina, nem germânica, nem qualquer outra que conhecessem. As vozes eram etéreas, parecendo vir de todos os lugares e de lugar nenhum ao mesmo tempo, penetrando a mente e semeando a dúvida. Valerius tentou manter a ordem, atribuindo os relatos ao cansaço e ao medo. “É a floresta, homens. Ela prega peças na mente. Mantenham a disciplina!” Mas ele mesmo sentia o peso da névoa, a forma como ela parecia sugar o som e a luz, deixando apenas um vazio opressor. Ele se pegou olhando para as sombras, esperando ver algo, qualquer coisa, emergir da brancura leitosa. Foi então que as luzes começaram. Pequenos pontos de luz esverdeada, pulsando suavemente, apareceram na névoa, flutuando sem rumo aparente. No início, eram poucos, facilmente confundidos com vaga-lumes ou reflexos. Mas logo se multiplicaram, formando padrões complexos, movendo-se em sincronia, como um balé silencioso e sinistro.

Os soldados, observando das muralhas, apontavam e murmuravam, seus rostos iluminados por um brilho doentio. “É um sinal dos deuses!” exclamou um legionário, seus olhos arregalados de terror. “Os deuses estão zangados!” Titus Corvus, no entanto, via a situação de forma diferente. “Bobagem! São truques dos bárbaros! Eles tentam nos assustar com suas feitiçarias. Devemos atacar! Uma demonstração de força esmagará sua moral!” Ele batia o punho na palma da mão, impaciente. “Permita-me liderar uma coorte, centurião. Vamos dispersar essa névoa e esses ‘espíritos’ com nossas espadas!

Valerius olhou para o jovem optio, vendo a faísca de ambição em seus olhos, misturada com uma dose perigosa de ignorância. “Eles não são bárbaros, Corvus. E não são espíritos. O que quer que esteja lá fora, não responde a espadas ou a gritos de guerra.” Ele se lembrou do metal derretido, das árvores vitrificadas. “Precisamos entender o que estamos enfrentando antes de agir. A cautela é a melhor arma contra o desconhecido.”

Mas a paranoia estava se espalhando como uma praga. Soldados começaram a relatar pesadelos vívidos, onde as luzes esverdeadas dançavam em suas mentes, e as vozes sussurravam segredos terríveis. Alguns se recusavam a dormir, temendo o que a escuridão e a névoa poderiam trazer. Outros se tornaram agressivos, discutindo por ninharias, seus nervos à flor da pele. Valerius viu homens que haviam enfrentado a morte sem piscar, agora tremendo de medo de uma névoa e de luzes. Uma noite, um sentinela foi encontrado em sua torre, os olhos vidrados, murmurando incoerências sobre “olhos no céu” e “o fogo que consome a alma”. Ele havia tentado arrancar os próprios olhos.

Valerius ordenou que ele fosse amarrado e levado ao valetudinarium, o hospital do castrum, mas o incidente apenas aprofundou o terror. Não era mais apenas o medo do desconhecido; era o medo de perder a própria mente. A névoa persistia, um véu impenetrável que separava o castrum do mundo exterior.

As luzes pulsavam incessantemente, e os sussurros se tornavam mais claros, mais insistentes, convidando os homens a sair, a se juntar a elas na brancura. Valerius sabia que não podiam ficar ali, presos em sua própria fortaleza, enquanto a sanidade de seus homens se desintegrava. Algo precisava ser feito. Mas o que? Contra um inimigo que não podia ser tocado, que atacava a mente e a alma, as táticas romanas de disciplina e força pareciam inúteis. A floresta, antes uma fronteira a ser protegida, agora era uma boca aberta, e a névoa, sua respiração gélida, convidando-os para dentro.