Umbra
10 Outro dia quase normal
As coisas pareciam meio agitadas, eu podia sentir grande tensão vinda do leste. Pulei de cima do amontoado de rochas e me desloquei até o Jardim do Sol. Não havia ninguém lá, apenas aqueles lindos pilares feitos de cristal que rodeavam uma grande fonte. Um barulho estranho vibrava da porta de Lilith, fui até ela e dei uma leve batida em sua superfície. A porta se abriu sozinha, o que era estranho porque as portas de cada guardião sempre se mantinham trancadas. Segui a trilha de pedras que afundavam na fina areia branca. O lugar era pouco iluminado, mais como uma imensa penumbra, tinha várias árvores espalhadas, mas não a ponto de cobrir a visão do que havia em volta e também possuía uma sensação úmida no ar. Era uma paisagem interessante, o clima lembrava praia, a vegetação uma floresta e as construções templos antigos. Subi uma grande escada de pedras, que dava para um vasto campo aberto onde uma enorme cúpula transparente crescia.
–O que está acontecendo aqui...? –perguntei a mim mesma em voz alta.
Quando cheguei mais perto vi Ícelo e Lilith dentro da cúpula, um de cada lado. Coh estava sentado em uma espécie de banco de pedra, olhando para os dois, então fui até ele tentar entender o que estava acontecendo.
–Eles brigaram de novo? -perguntei olhando fixamente para a cúpula.
–Hm? Ah, oi Kim. É o que parece não? –disse Coh olhando para mim ligeiramente e depois voltando o seu olhar para os dois. Sua testa franzida mostrava sua preocupação.
Ícelo e Lilith se encaravam, seus olhares pareciam gerar faíscas ao se chocarem.
–Alguém tem que te colocar no seu lugar. –disse Lilith, com a sua cobra Ivy enrolada no pescoço.
–Me colocar no meu lugar?! Você quem vêm pra cima de todo mundo com essa cara de “foda-se, a partir de agora eu mando aqui”! –rosnou Ícelo de volta.
–Você tem algum problema em manter o tom de voz baixo? –perguntou Lilith com uma das mãos sobre o ouvido como se a voz dele machucasse seus tímpanos.
–Tenho! Vem aqui tentar consertar! –gritou Ícelo alto de propósito, com um sorriso.
Sentei junto a Coh. Era engraçado porque eles eram como uma família. Coh era o irmão mais velho e o mais responsável, Lilith a segunda mais velha que não aguentava crianças e Ícelo o filho rebelde que sempre voltava para casa com um novo machucado. As brigas podiam parecer feias para quem observasse, mas na verdade eram “irmãos” se estapeando.
Lilith e Ícelo se encararam por alguns segundos e em um piscar de olhos partiram para cima um do outro. Lilith era ágil e tinha muita habilidade com as mãos, conseguia perfurar o torso de alguém com a mão estendida, já Ícelo era forte e conseguia desintegrar as partes do corpo em poeira. Lilith tentava golpear ou perfurar Ícelo, seus movimentos eram tão rápidos que mal podiam ser vistos, lembravam velozes botes de cobra. Quando ela teve o peito dele totalmente desprotegido aproveitou para acerta-lo, mas antes que pudesse atingi-lo pulou para trás mantendo distância, enquanto Ícelo sorria. Uma neblina começou a subir do chão e Lilith logo começou a tossir, Ícelo aproveitou a brecha para ataca-la pelas costas, mas antes que ele conseguisse chegar perto dela ela se desviou e deu um chute alto na cara dele.
Coh e eu colocamos a mão sobre no rosto em um suspiro.
–Você nunca aprende né? –perguntou Lilith já conseguindo respirar melhor.
–Ah sim, como pude me esquecer disso. Você é do tipo “As Visões da Raven”. –disse Ícelo em um tom debochado. –Mas só porque você sabe o que eu vou fazer não significa que você possa se defender. Certo? –ele disse em um sorriso.
Lilith começa a recuar. Ícelo transformou todo o seu corpo em poeira negra e avançou da direção dela, que parecia confusa olhando para todos os lados. Fazia sentido. A quantidade de movimentos possíveis de Ícelo deixava difícil de Lilith prever aonde se proteger. Se ele fosse atacar pela frente ela provavelmente saberia, mas aí ele a atravessaria e acharia outro ângulo e assim ia indo. Tudo isso em um minúsculo espaço de tempo. Ela também não teria como atacar usando o próprio corpo porque ele passaria por Ícelo.
–Não dá pra ver nada... –murmurou Coh. –O que você acha, Kimétria, a especialista em lutas? -perguntou com um sorriso.
–Bem pensado. –respondi.
A poeira envolvia os dois. Quando ela se juntou em um só ponto pude ver Ícelo jogando Lilith para longe. Ivy saltou para o chão e foi rastejando até o seu adversário, tornando-se uma cobra gigante. Uma sombra em forma de monstro, mais ou menos de mesmo tamanho que a cobra, surgiu e bloqueou seu bote. Os dois gigantes tentavam emburrar um ao outro, ambos tinham muita força. A cúpula começou a rachar, Coh e eu nos levantamos e recuamos em um salto. Aquilo parecia que ia explodir.
–Isso não vai acabar bem... –falei atenta a qualquer detalhe.
Quando a barreira estava quase rachando por inteira tudo a minha frente parou. Os gigantes não se moviam mais, assim como Ícelo e Lilith. Troquei olhares com Coh, que parecia não entender nada assim como eu. Em um segundo para o outro tudo havia voltado ao normal. A cúpula não estava mais lá, Ivy estava em seu tamanho original e a grande sombra havia desaparecido. Ouvi paços vindos por trás de mim. Uma mulher de cabelos loiros e vestido amarelo bem claro até a metade do joelho passou por mim, foi até Lilith e Ícelo, parou em frente a eles e cruzou os braços. Os dois se encolheram e olharam para ela com um olhar trêmulo.
–E-E aí chefia. –disse Ícelo.
–Por que vocês estão brigando? –perguntou Faith com um tom sério.
–Ele é quem veio aqui comprar briga. –disse Lilith se levantando do chão e lançando um olhar de ódio para Ícelo enquanto se aproximava.
–VOCÊ É QUE... –começou a dizer Ícelo que foi interferido por um puxão de orelha, que também se repetiu em Lilith.
Tentei conter a risada.
–Parem de brigar tanto! –disse Faith.
Ícelo afastou o braço dela em um movimento rápido, passou por ela e assim por nós, indo até a porta.
–Tanto faz. –ele disse friamente saindo do quarto.
O silêncio prevaleceu. Suspirei. Ícelo era alguém muito complicado, volta e meia dava trabalho...
–Esse garoto não tem jeito... E ainda sumiu por dois dias... –murmurou Coh.
–E vocês... –começou a dizer Faith, que largou Lilith e se virou para mim e para Coh. –Vocês ficaram só olhando não? –ela pergunta com um sorriso que me deu frio na espinha.
–S-Sabe como é que é... –disse Coh.
–Não dava pra passar pela barreira. –falei completando a frase dele.
Eu podia não ser a Lilith, mas previa um chingão.
Fale com o autor