Umbra
11 De volta às ruas
Passei pela porta bufando, Ivy vinha logo atrás de mim, ordenei que fechassem a porta, me sentei próxima ao lago, estava envergonhada, irritada, me sentindo um lixo.
–Como pude "perder"- resmungava sozinha- Como?- gritava.
Joguei uma pedra no lago fazendo todo o ambiente ficar sombrio, logo, toda a areia branca seria coberta por neblina negra e todas as árvores se curvariam.
Ivy apenas me olhava, parecia estar com medo, até eu teria medo se me visse. Como mágica, fiz um trono surgir do chão, era imponente, refletia minha raiva, então com um estrondo uma estrutura de ferro surgiu ao meu redor, como uma “capela”, me separando de tudo que estava ao redor, outro estrondo e um raio apareceu, logo a neblina preta tomou conta do lugar tornando-o intransitável.
Olhando para o horizonte, vi alguém se aproximando, era Lunna, estava usando um vestido claro e uma mecha de seu cabelo branco caia sobre um de seus olhos azuis, ela se aproximou com cautela.
–Lith? Tudo bem?
Fiquei em silêncio.
–Todos estão preocupados — falava pausadamente- então vim ver como está.
Olhei para ela com desprezo, sabia que não se importava e estava aqui apenas por obrigação.
–Já viu como estou, agora pode sair.
–Lilith, não seja tão dura consigo mesma- seus olhos estavam fixos nos meus
–Ok, quer saber como estou? Estou com raiva — pausei- Fui humilhada na frente de todos e você quer que eu me sinta bem?
Protestei mais algumas vezes, mas por fim ela me abraçou e consolou, mantendo o tom calmo, eu me sentia uma criança mimada e birrenta.
– Vai ficar tudo bem Lith, tudo vai dar certo.
O ambiente voltava ao normal a medida que me acalmava, definitivamente Lunna era a melhor irmã mais velha do mundo.
Coh entrou silenciosamente e ficou olhando para nós, hesitei um pouco antes de perguntar o que ele queria.
–Ah eu gostaria de falar com você...- estava sério- é importante.
Lunna se levantou e lançou um olhar de “vai ficar tudo bem” por cima do ombro ao cruzar a porta.
–O que houve?- disse enxugando as lágrimas que restavam.
–É sobre o sétimo, acho que encontrei ele.
Parei surpresa e fiquei olhando pra Coh espantada.
–O sétimo? Tem certeza?
Permaneceu em silêncio e fez que sim com a cabeça.
–Como? – tentava esconder o espanto.
–Há algumas semanas venho seguindo Ícelo ás sombras e descobri que ele vem se encontrando com o sétimo –olhava fixo para mim.
–Como pode ter tanta certeza?- pausei- Pode ser qualquer um...
–Mas não é qualquer um que consegue lançar uma flecha com tanta precisão, se mover com tanta agilidade ou simplesmente criar raízes no chão – seu tom era animado – É ele.
Sei que deveria ter ficado animada com a descoberta, mas estava preocupada, me sentia tonta como se algo estivesse errado. Coh continuava me olhando como quem diz “tá e ai? Vai ficar aqui ou nós vamos atrás dele?”, voltando a realidade olhei para Coh hesitando um pouco.
–Me leve até ele, não conte a mais ninguém a respeito.
Coh consentiu com a cabeça e nos levou a uma pequena cidade. “Midnight Hollow, 1.200 habitantes” era o que a placa dizia.
–Aja naturalmente e finja que é humana- disse, me entregando uma trouxinha de roupas.
– Está me pedindo para usar isso?- protestei olhando para a trouxinha.
– Hm... estou.
–Onde espera que eu me troque?
–Tá vendo aquela placa? Vai pra trás dela – falou apontando.
Tentei protestar, mas vi que era inútil, fui para trás da placa como ele disse e lá me troquei. Eca... estava parecendo uma mortal.
Ele me olhou de cima a baixo e eu fiz o mesmo, ele estava usando jeans, uma camiseta azul com uma flanela vermelha por cima, uma toca e all stars preto. Ele estava muito bem. Já eu, estava usando uma blusa meio decotada, jeans cintura alta e all star nos pés, por cima da blusa tinha um cardigã.
–Algum problema?
–Nenhum, só acho que falta uma coisa – ele pegou uma sacola e tirou um óculo preto de aro grande, se aproximou e o colocou em mim- perfeito.
Ele continuava perto, dava para sentir sua respiração e ouvir seu coração bater. Levantou a mão e acariciou meu rosto, com medo do que iria vir a seguir, me afastei e refiz minha expressão.
–Vamos?
Ele olhou por alguns segundos para o chão, reconstruiu sua postura e sorriu meio torto.
– Claro – disse pegando na minha mão, olhei espantada- É isso que os mortais fazem. Tudo bem por você?- mesmo que achasse aquilo muita ousadia, fiz que sim com a cabeça e sorri- ótimo.
Nós entramos na cidade, as pessoas nos olhavam meio curiosas, a maioria delas mantinha um padrão e nós como alguns outros quebravam ele, era até que engraçado.
–Quero te levar em um lugar antes. – sorriu e eu fiz que sim com a cabeça.
Nós andamos pela avenida principal até chegar em uma pequena barraquinha. Coh se dirigiu ao atendente e pediu dois cachorros-quentes, não sei o que é isso, mas ele jura que é bom. Coh me entregou algo que parecia ser um pão com uma salsicha dentro? Dei uma mordida e nossa, meu deus era muito bom. Ele pegou minha mão livre e me conduziu para uma praça no meio da cidade.
–Como você descobriu isso?- disse dando mais uma mordida.
–Ah eu tenho minhas fontes – brincou.
Quando nós dois acabamos, fomos até o cemitério da cidade e de lá corremos em direção a floresta.
–Você não cansa não? – disse ofegante.
Olhei para ele de canto de olho e sorri.
– Estou apenas começando – brinquei.
Seguimos nosso rumo, até que uma flecha perdida nos fez parar.
–Será que é ele?- sussurrei
Mas antes que Coh pudesse me responder, ouvimos uma voz vindo da direção oposta a da flecha.
– Quem está ai?- gritava- Dessa vez não vou hesitar em te matar.
Coh me olhou e saiu de trás da árvore com as mãos na cabeça e eu saí atrás.
– Calma, por favor não nos mate, somos apenas dois estudantes de...biologia – sua voz era firme, o dono da flecha abaixou o arco e se aproximou de nós.
– Como se chamam?
– Me chamo Cory e ela Lilian, e você?
– Me chame de Ahmset.
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