O vinho começava a deixá-la com um pouco de calor. Olhou para o celular enquanto servia-se com um pouco mais de vinho. Era a última taça que não havia quebrado. Em um momento de impulso pegou o celular, escreveu a mensagem e enviou. Não sabia se aquilo realmente era uma boa ideia, mas se sentia tão sozinha desde que seu namorado havia saído para sua viagem de 20 dias…

O celular vibrou com a resposta para sua mensagem. “Melhor eu dar uma arrumada aqui” pensou enquanto se dirigia para a sala. Não estava tão bagunçada, mas tinha um profundo medo de que as pessoas achassem sua casa suja e bagunçada. Obviamente não daria para varrer, já que ele morava no mesmo condomínio. Tirou a poeira de cima da mesa de centro e da bancada da cozinha “Sempre esse vento enchendo tudo de pó”. Acendeu um incenso para tirar o cheiro da erva que havia fumado minutos atrás e foi se olhar no espelho. Estava maquiada, não para ele, mas estava feliz que ele a visse assim.

A campainha toca e ela se dirige para a porta. Respira fundo e sente um gosto metálico no fundo de sua boca. “Deve ser só a ansiedade”. Abre a porta tentando se manter calma.

—Oi — disse meio sem jeito — pode entrar, obrigada por vir — disse sorrindo timidamente.

—Nada, não estava fazendo nada também — disse o rapaz. Era baixo, com cabelos pretos um tanto arrepiados, muito branco e cheio de pintas. Parecia confiante e trazia um ar diferente… talvez superioridade?

—Desculpa não ter mandado mensagem antes, fiquei um pouco sem jeito de falar com você. Você bebe? Estou tomando um vinho, sei que está quente, mas gosto muito de vinho. Se você não for do tipo que bebe tenho suco de uva também, ou água — disparou tudo em menos de um segundo de forma nervosa.

—Do tipo que bebe? — perguntou erguendo uma sobrancelha e com um sorriso na cara.

—É… quer dizer… — tentou falar mas não sabia como consertar a situação. Colocou uma mecha de seu cabelo castanho desbotado atrás da orelha.

—Só tô brincando. As coisas estavam muito sérias. Eu não bebo, mas aceito um suco.

Ela deu uma risada de alívio e foi em direção a cozinha para pegar o suco. “Será que deveria ter falado algo a mais?”



Com o suco e vinho em mãos, os dois se encontravam sentados no sofá com uma música baixa tocando ao fundo. “Sabia que seria constrangedor”, suspirou enquanto dava um gole do líquido roxo.

—Então — disse ele chamando sua atenção — faz tempo que você se mudou para cá?

—Não muito… aproximadamente 4 meses — “Quatro meses é pouco tempo, não é?”

—E como foi que aconteceu de você voltar a morar aqui?

—Ah, sabe como é. O apartamento era do meu avô, depois que ele faleceu no final do ano passado descobriram que ele deixou para mim, já que éramos próximos — “droga, a conversa do avô morto de novo” — então depois de lidar com toda a burocracia e advogados e essas coisas chatas eu vim pra cá — odiava falar sobre isso, sempre ficava um clima tenso ao mencionar a morte do avô. A verdade é que eles nem eram mais próximos, ele provavelmente só nunca tirou o nome dela do testamento. Sentiu o gosto metálico no fundo de sua boca mais uma vez, dessa vez mais forte.

—Entendi… e como tá seu irmão?

—Ah, tá bem… a gente não tem se falado tanto. Sou bem ruim em manter contato — ficou aliviada que ele mudou de assunto, agora poderia voltar a pergunta para ele — E você? Como anda a vida? O que tem feito? — sempre muitas perguntas de uma vez.

—Tô bem… sabe como é — ele sorriu um pouco — não consegui entrar em uma faculdade federal e agora tô fazendo o curso de direito em uma faculdade particular.

—Bom, pelo menos vai se formar… é difícil conseguir se formar de forma rápida na federal — “sempre com os comentários desnecessários”.

—É verdade — riu ele — mas é basicamente isso. Eu e minha irmã estamos praticamente morando sozinhos. Quando meus pais se aposentaram eles decidiram comprar uma fazenda, passam a maior parte do tempo lá.

—Parece mesmo que esse é o destino de todos na faixa etária — relaxou um pouco, sentia que a conversa se desenrolava bem — meu pai fez o mesmo.

—É, acho que somos os adultos agora

—Bom, nós realmente temos mais de 20, somos os adultos agora — sorriu de volta para ele.

Lembrou-se de quando eram crianças e como brincavam no condomínio até tarde da noite. Sentia falta dessa época, as coisas eram mais fáceis. “Será que tô demorando para falar mais alguma coisa?”. Tomou mais um gole do vinho.

—Você parece um pouco tensa, tá tudo bem? — Perguntou ele parecendo um pouco preocupado.

—Tá sim… Só não estou mais tão acostumada a ter interações humanas… Já faz uma semana e meia que o Theo viajou e eu só tenho falado comigo mesma — sorriu sem jeito.

—Ah sim, imagino que deva ser meio solitário.

—Sim… muito tempo com meus próprios pensamentos, sabe? De repente quando vejo já estou pensando em como a falta de uma família bem estruturada me levou para o exato momento que estou. Com os exatos problemas que eu enfrento, em especial com minha própria saúde mental — começou a disparar sem se preocupar. O vinho e a erva que fumara mais cedo a deixando um pouco fora da realidade. — Agora deve estar se perguntando: quem diria que a Helena acabaria assim? Bom, como poderia uma menina, que já demonstrava tanta instabilidade desde a infância, acabar assim? Não é só isso, sabe? Eu já não era muito bem da cabeça, mas era sempre “Nossa, que linda sua filha, você fez um ótimo trabalho com ela, é muito educada” dos outros enquanto na minha família eu era a decepção.

“Não sei porque sentiam tanto ódio de mim, eu só estava tentando ser eu mesma. Mas depois de um tempo eu simplesmente… desisti. Ser eu mesma não leva a nada. Porque ‘Não vão te amar se você for assim' 'Ninguém vai gostar de você desse jeito’. Nunca entendi bem que jeito é esse, mas imaginei que seria tudo em relação a mim. O que eu gosto, o jeito que falo, o jeito que me expresso, o jeito que penso… Bom, o último não tem jeito, não tinha como mudar, mas o resto… o resto eu poderia fingir. Poderia fingir ser a boa filha, a boa neta, a boa irmã. Poderia entrar nessa fantasia da minha família de sermos a família quase perfeita.”

“Não importa o que minha mãe tenha feito, somos a família perfeita, criados pelo pai solo. Criados pelo pai solo o caralho. Eu e meu irmão nos criamos. Eu me criei. Meu avô, enquanto morei com ele, fez algo próximo a me criar, mas não era o trabalho dele. Não era trabalho meu. Não era trabalho do meu irmão.”

Deu três longos goles na taça de vinho, deixando-a vazia. Sua visão estava embaçada, mas serviu-se de mais uma taça. Sua cabeça doía, mas deu mais um gole em seu vinho. O gosto metálico ficando cada vez mais forte.

—Sabe o que é pior? Que não importa o que digam, eu ainda vou ficar presa dentro dessa visão, dessa vida que inventei para mim mesma. Sempre seguindo uma regra que nunca existiu. Uma regra que me foi imposta de forma silenciosa, mas quase impossível de não entender. É como viver presa, presa em uma realidade que nem existe, é tudo inventado. Quem sou eu? Quem sou eu? Essa pergunta não me sai da cabeça. Eu não sei. Tive que desistir da Helena de verdade quando essas regras me foram impostas. Agora não tenho mais saída. Não tenho como fugir disso. Não tenho como ser eu se eu nem sei quem sou. É tudo uma grande mentira e o único jeito de chegar na verdade é acabar com tudo.

Sua cabeça estava cada vez mais leve, sua visão cada vez mais escura.

—Vítor, você ainda tá aí? — apenas a música que tocava de forma baixa a respondeu. Sua cabeça girava. O gosto metálico no fundo de sua garganta ficava cada vez mais forte. Sentiu lágrimas rolarem de seus olhos.

Era sempre assim, ela sempre acabava sozinha. Lembrou-se de todos os momentos que passara ali. Todos os choros, todos os cortes, todos os abusos, toda a dor. Do… sentiu uma dor forte atravessar seu peito. Seus olhos agora soltando lágrimas e mais lágrimas encharcando todo seu rosto. Tentou limpar e se deparou com uma mão cheia de sangue.

—O que… — ficava cada vez mais fraca.

—Fica com a gente — escutou uma voz falar, mas não sabia de onde vinha — Vamos garota, você consegue.

Sua visão voltava aos poucos como um borrão. Um rosto que nunca vira antes. Um local um tanto claro. Um barulho alto de… ambulância? Seus olhos pesavam e seus pensamentos quase se organizavam.

Vítor nunca esteve na casa dela, esteve? Ela chegou a mandar a mensagem? Tentou refazer seus passos mentalmente enquanto ainda lhe sobrava o mínimo de consciência.

O vinho começava a deixá-la com um pouco de calor. Olhou para o celular enquanto servia-se com um pouco mais de vinho. Era a última taça que não havia quebrado. Em um momento de impulso pegou a bolsa de remédios. Não foi o celular que ela pegou naquele momento. Pegou a caixa recém comprada de remédios para dor de cabeça. Nunca mandara a mensagem. Não sabe bem quantos comprimidos tomou, mas lembra que engoliu tudo com um longo gole de vinho. Se olhou no espelho, estava maquiada. A campainha nunca tocou. Colocou música na televisão e acendeu um incenso. Ela nunca abriu a porta. Se deitou no sofá e fechou os olhos.

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