Uma Última Chance
2 Tomada de Decisões
Notas iniciais
Uma forte tempestade castigava a aldeia shinobi da vila oculta da folha sem indícios de que pararia tão cedo. Era como se o próprio céu estivesse triste pelos últimos acontecimentos ocorridos naquele local. Raios e relampados iluminavam o monte na orla sob a vila parcialmente destruída. Os grandes rostos esculpidos na maciça rocha naquele dia em especial, mostravam-se mais rígidos do que de costume, como se fosse realmente possível que as estátuas demonstrassem tamanha expressão.
O ataque da Kyuubi não só fizera o seu líder perder a vida, mas como muitos outros homens e mulheres que trocaram suas chances de estarem neste mundo para ganharem tempo para que suas famílias conseguissem a oportunidade de fugir.
Era de baixo daquela forte chuva que os líderes daquela aldeia se aproximavam do prédio Hokage. Uma grande construção vermelha de características únicas e inconfundível, que abrigava a sede do poder da vila.
Os poucos, homens e mulheres atravessavam as portas caminhando por passagem e corredores até encontrarem uma sala ampla e espaçosa. Distribuída uniformemente estavam dispostas vinte e cinco cadeiras ao redor de uma comprida mesa de pedra, onde muitas das quais encontravam-se ocupadas por seus respectivos donos. Na ponta da mesa, oposta a porta, encontrava-se sentado um velho senhor de aparência desgastada e que inutilmente tentava esconder o pesar que estava sentindo. O velho que a pouco tempo havia se aposentado não esperava se encontrar naquela situação tendo que mais uma vez ocupar o cargo que ele acreditava permanecer preenchido até o final de seus dias.
Quando a última cadeira foi ocupada, o velho desligou de seus pensamentos e passou a encarrar os shinobis que em um momento de necessidade, atenderam ao seu chamado. Todos na sala permaneciam em silencio, encarando sentados o homem que conhecido como o Deus shinobi.
A mesa composta pelos líderes dos clãs, também possuía uma cadeira reservada para o líder jonin que representava todos os jonin de Konoha, uma para o representante a Ambu (Esquadrão Especial de Assassinato e Tática), uma para o representante civil da aldeia, e por último, porém menos importante para os dois conselheiros.
O homem encarava cada um dos membros daquele conselho, pensando nos recentes acontecimentos. Em todos esses anos como shinobi, o velho viu e ouviu muitas coisas, mas a experiência adquirida não prepararia uma pessoa para os demasiados assuntos. Ele encarava com angustia, uma cadeira em especial ao seu lado, onde até algumas horas atrás pertencia a uma kunoichi que ele havia visto crescer e ajudado a criar. Não havia palavras para descrever a dor em seu coração por pensar que nunca mais veria o sorriso daquela menina ou de seu marido que com muito orgulho, havia-lhe passado seu cargo e depositado em suas mãos a maior responsabilidade que um shinobi que daquela vila poderia ganhar.
O homem sem nem mesmo perceber, deixou que uma fina porem carregada lagrima escorresse pelo seu olho direito, o que fez com que alguns membros da reunião se espantassem por nunca terem visto seu líder de tantos anos, demonstrar tamanha tristeza.
— Peço que me perdoem-me por ter-lhes chamado desse jeito. — Começou o velho se recuperando do ressente momento. — Principalmente aos que perderam seus entes queridos a tão pouco tempo.
Seis das pessoas sentadas a mesa se remexeram, não conseguindo impedir suas tristezas perante ao comentário do velho. Os demais nada disseram apenas permaneceram em silencio em forma de respeito aos companheiros.
— Todos sabem o porquê de os chamar aqui. Mesmo sendo muito recente, não podemos ignorar os últimos acontecimentos, e muito menos trata-los tardiamente. A Kyuubi no Youko atacou a vila e levou com ela muitas pessoas importantes e shinobis valorosos. Sei que não é hora para tratar deste assunto, mas peço que todos os clãs em conjunto dos civis, permaneçam em completo silencio sobre o recente ataque com pessoas de fora da vila. Se espalhar que Konoha perdeu quase quarenta por cento de seu poderio militar, poderemos sofrer ataques inimigos por todos os lados...
— Hokage-sama. — Interrompeu um homem de aspecto rígido e feições serias. Possuía cabelos negros e olhos da mesma cor. Com um leque de papel bordado em suas vestimentas de modo que se destacassem as cores vermelho e branco. O termo Hokage quando dirigido ao senhor na ponta da mesa, foi ouvido com pesar pela maioria dos membros na sala. — Como espera que possamos permanecer imponentes perante as outras vilas com tão poucos shinobis?
— Todos teremos que trabalhar duramente nos tempos que viram. Temos que fazer com que a vontade do fogo permaneça queimando incessantemente nos corações de nossos ninjas. Não podemos mostrar que Konohagakure no Sato se torne fraca aos olhos das grandes vilas, ao ponto de abrirmos brechas para que mais guerras desnecessárias se iniciem.
Os shinobis e kunoichis presentes, assentem em concordância levando em consideração os pontos de vista do homem que sem precisarem discutir, novamente ocupava o cargo de seu líder.
— Não querendo ser inconveniente Hokage-sama, mas e quanto a Kyuubi? — Desta vez quem perguntou foi uma kunoichi de jovem aparência, de cabelos castanhos arrepiados com marcas vermelhas nas bochechas.
A pergunta que foi de interesse geral por todos naquela sala, também foi de grande temor. Muitos se perguntavam o que havia acontecido com a grande besta, mas somente Sarutobi Hiruzen o Sandaime Hokage e os conselheiros sabiam o que havia sido feito da grande e temida raposa de nove caudas.
O Terceiro olhou para todos na sala, encarando um a um, sem que deixasse passar um dos membros presente a encontrar seus olhos duros e carregados de anos de experiência, mostrando por que ele e não outro shinobi foi escolhido a ocupar o cargo de Sandaime Hokage.
— O que eu disser aqui agora será considerado segredo nível S. Aquele que espalhar essa informação será acusado de traição e sentenciado a morte por crimes contra Konoha. — Falou o senhor, impressionando muitos pelo tom usado.
Até os conselheiros que sempre achavam um meio de criticar o velho colega de equipe, não poderão esconder o olhar curioso e orgulhoso que pela primeira vez direcionaram a Sarutobi. Os dois velhos acreditavam que eram decisões assim que um verdadeiro Hokage deveria tomar.
Os demais ninjas olharam para o homem com temor. Muitos mesmo que permaneciam neutros em demonstrar emoções, falhavam internamente com relação a suas preocupações quanto ao Deus shinobi. O homem considerado por muitos como o mais bondoso dos Hokages, chegando a ser espelhado como um pai por muitos, naquele momento se mostrava digno do cargo que voltara a ocupar.
— Em seus últimos momentos, Namikaze Minato, o Yondaime Hokage fez uma coisa que poucos teriam coragem de fazer, muito menos em seu próprio filho. — Começou o velho calmamente, esperando a reação de entendimento por parte do grupo, que não tardou a aparecer, junto com os olhares chocados dos que assim que compreendiam o que aquelas simples palavras queriam expressar.
— Você está querendo disser que... — Começou Yamanaka Inoichi, mas foi cortado pelo Hokage.
— Sim, Inoichi-san. Konohagakure no Sato ganhou um novo jinchuuriki.
Os olhares foram dos mais variados possíveis, acompanhado de inúmeras reações. Nenhum membro naquela sala acreditava que seu antigo Hokage seria capaz de condenar seu próprio filho a tamanho fardo.
— Por isso eu peso, não, exijo descrição por parte dos membros deste conselho. Se descobrirem que esse garoto for filho do mais forte ninja que esta vila já teve, Konoha sofrera diversos ataques por conta dos inimigos que os pais dessa criança possuem. Para todos os efeitos, o filho que a esposa do Yondaime esperava, morreu assim como os seus pais. — Falou o Sarutobi com tristeza, contando uma pequena mentirinha como forma de proteção ao legado deixado pelo Quarto.
— E onde se encontra essa criança agora? — Perguntou uma voz rouca do lado oposto onde o Hokage se encontrava.
Na porta, parado em pé, um homem de aparência frágil, com uma faixa cobrindo boa parte do seu braço direito, empunhando uma muleta na mão esquerda. Sua aparição foi motivo de atenção para que os membros reunidos o fitasse.
— Danzou! — Intimou o Hokage. — Por onde esteve quando mais precisamos de você?
O homem o olhou de modo calmo, um pouco entediado, mas por dentro sua fúria aumentava por ver seu rival sentado na cadeira que por direito ele achava que merecia.
— Estive me assegurando que nossas fronteiras permaneçam protegidas, não queremos um ataque repentino sobre a aldeia, não é mesmo? — Respondeu o homem encarando seu rival, mas desviando para algumas poucas pessoas que se encontravam na sala. — O que será feito a respeito do menino, Sarutobi?
Os ninjas fingiram não perceber o modo informal, como o velho falou com o agora líder da vila. Detalhe que até mesmo o Terceiro fez questão de ignorar.
— Naruto está sobre minha tutela até que eu ache um local adequado para ele. — Respondeu o Sandaime, ganhando novamente a atenção das pessoas na sala.
— Hokage se me permite, gostaria de cuidar do Naruto-kun. — Falou um homem vestindo com um colete jonin, de cabelo espetado com duas grandes cicatrizes em seu rosto do lado direito. — Tenho um filho recém-nascido e será bom para ele crescer na companhia de alguém da sua idade.
— Isso é um absurdo Sarutobi. — Interrompeu Homura, o conselheiro antes mesmo que o velho pudesse responder. — Leve-o até um orfanato. Não podemos admitir que ele cresça junto as crianças da vila, afinal, ele agora é o demônio de nove caudas.
O Sandaime olhou para o conselheiro como a décadas não olhava para alguém do mesmo modo. Sua expressão de ódio e fúria tomou seu semblante calmo e compreensível, seus dentes se contraíram uns contra os outros, assim como suas mãos que se apertaram até que os nós dos dedos se mostrassem brancos por tamanha pressão. Seu olhar carregado de fúria assustou tanto Homura, quanto Koharu e os demais presentes na reunião, pois nunca em suas vidas viram Sarutobi Hiruzen olhar daquele modo para alguém como agora encarava o conselheiro.
— Antes que venha com seus julgamentos sem fundamentos, conselheiro Homura, lembre-se que Naruto é o jinchuuriki da Kyuubi e não a própria. Ele é filho de Namikaze Minato o Yondaime Hokage e Usumaki Kushina a pimenta sanguinária. Dois dos maiores shinobis que Konoha possuiu o prazer de em sua história abrigar. Então não ficarei sentado escutando você difamar o legado deixado por esses exímios ninjas que deram suas vidas em proteção da vila.
A pequena explosão do Hokage, impressionou grande parte da sala que nunca esperavam tamanha reação do mesmo. Tal ato fez com que outros ninjas mudassem seus pensamentos sobre o menino que até então sem saber, já possuía um sentimento de ódio e desprezo direcionados a si.
— Hokage-sama assim como o Shikaku-san, eu também gostaria de cuidar do Naruto. É o mínimo que posso fazer para compensar o que os pais dele fizeram por toda nossa vila. — Falou Tsume para o velho, que sentiu em seu coração, um calor reconfortante por saber que nem todos iriam odiar o menino pelo demônio que carregava.
Sarutobi voltou a se sentar confortavelmente em sua cadeira e olhou para os membros do conselho da vila sentados envolta da mesa.
— Minha ideia inicial era sim, levar o jovem Naruto para um orfanato. Pensei que quando soubessem sobre ele, ninguém mais iria querer ele por perto. O mais indicado seria um orfanato para esconder sua real identidade, como mais um jovem que cresceu sem pais, se tornado órfão devido o ataque da raposa, mas vendo vocês se oferecerem para abrigar e cuidar dele, agora vejo que o que ele mais precisa no momento é de uma família que o apoie e ajude a lidar com o seu grande fardo.
— Então proponho uma votação. — Falou Danzou, escondendo ao máximo sua indignação por saber que o moleque raposa possuía pessoas que o queriam. — Aqueles que apoiam a ideia do conselheiro Homura, de levar o garoto para um orfanato levantem a mão.
Das vinte e cinco cadeiras ocupadas, somente onze mãos se ergueram no ar, dentre elas estavam as mãos dos dois conselheiros Homura e Koharu, a do representante civil e dos líderes dos clãs Hyuga e Uchira. Dois dos clãs mais influentes em Konoha. E para quem quisesse ver erguida, a mão do próprio Danzou.
Um número mais que esperado pelo Hokage, mas Sarutobi não pode deixar de se impressionar por ver que muitos não acompanharam os dois clãs mais influentes como de costume.
Danzou vendo o que acontecia, não conseguiu esconder seu ódio e falou quase como rosnados, porem entre dentes a pergunta o Terceiro estava louco para saber a resposta.
— Aqueles que apoiam o Hokage... — Quase cuspindo as palavras. — De acolher o menino na casa de alguém que o aceite, levantem as mãos.
Das pessoas restantes, todas levantaram as mãos, totalizando quatorze, as que mais se destacavam era a do próprio Hokage, a do líder do clã Nara, Yamanaka, Akimichi, Inuzuka e Aburame.
— Pois bem. — Falou o Sandaime alegre do jeito que todos estavam acostumados a ver, fazendo as mãos que estavam erguidas se abaixarem. — De acordo com as minhas contas, o Naruto-kun não irá para um orfanato. Agora o que eu quero saber é, qual de vocês iram o abrigar?
De todas as mãos que se ergueram, somente três com a última pergunta voltaram a subir.
— Eu me ofereço novamente para cuidar do Naruto-kun, Hokage-sama. — Falou Nara Shikaku para o Hokage.
— Eu também me ofereço. — Agora foi a vez de se pronunciar Inuzuka Tsume.
— Se precisarem, pode contar comigo. — Falou Yamanaka Inoichi se apresentando formalmente na conversa.
Sarutobi estava mais do que feliz por saber que tinha opções para decidir com quem deixar aos cuidados, Naruto. Ele se lembrou do momento que encontrou o menino e seus pais na clareira. Naquele momento, diante dos corpos do falecido Hokage e da pimenta sanguinária, ele havia feito uma promessa silenciosa que ajudaria o jovem menino em tudo o que ele mais precisasse. Como forma de agradecer e compensar os dois shinobis por tudo que fizeram, e honrar suas memorias e seu legado.
— Como Nara Shikaku, foi o primeiro a se oferecer para cuidar do Naruto. Não vejo por que negar esse pedido a ele. Mas os outros tem total permissão se assim quiserem ajudar em sua criação da melhor forma possível. — Os outros dois shinobis assentiram com a cabeça.
O tempo restante da reunião foi usado para tratar dos assuntos destinados a reconstrução das áreas destruídas e compensar as famílias que perderam seus entes queridos ou bens materiais.
Com o encerramento do encontro entre os líderes dos clãs. Nara Shikaku seguiu junto do novo/velho Hokage até sua sala. Onde um berço montado as presas, mostrava-se parado próximo ao sofá da sala do líder da aldeia.
A chuva do lado de fora do prédio do fogo, já não mais caia como antes. Ainda chovia, mas de modo mais suave e delicado, como uma fina garoa sobre as casas e o Monte Hokage. O homem de cabelo espetado se aproximou do móvel, e não pode deixar de reparar na beleza que o filho do seu amigo possuía. Com cabelos loiros e olhos azuis profundos, o menino definitivamente havia puxado as características de Minato. Pouco foram os traços que herdou de Kushina.
O Nara havia ficado muito triste quando descobriu sobre a morte de seus amigos, amigos que ele havia prometido cuidar, mas que acabou por falhar miseravelmente em sua promessa. Mas quando escutou sobre o filho que estavam esperando permaneceu vivo, não pode deixar de ficar alegre, e como forma de reparar seus erros prometeu a si mesmo que iria criar o filho deles como se fosse o seu. Prometendo não cometer os mesmos erros com a criança que o encarava sem uma expressão definida.
— Eu vou cuidar de você pequeno.
O menino não conseguia falar, apenas soltava barulhos aleatórios que o mais velho não compreendia. O shinobi então o pegou e passou pela porta da sala do Hokage em direção ao seu clã...
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