Uma vida para viver
2 Sal, areia e água do mar
“Fingir que não sente dor não te torna adulto.
Eu quero salvar seu olhar
Acreditando no amor que pode transformar tristeza em força”
Heero acordou com o som das ondas. O ritmo das águas era suave, recolhendo-se para o mar, expandindo-se sobre as areias, salpicando as pedras. Enchia os ouvidos com uma melodia de paz. Ele fitou o teto por longos minutos, mergulhado no presente. Sentiu a maresia inundar suas narinas, acordando seus sentidos. “A missão”, pensou. Enfim saberia do que se tratava. Ele pulou da cama e vestiu a primeira roupa que viu no armário: uma regata branca e uma bermuda azul clara larga. Andou pela casa até encontrar Maya na cozinha, sentada tomando chá despreocupadamente. Ela observava as ondas pela janela acima da pia, imersa no movimento delas.
— Qual é a missão?
Ela se virou devagar e fitou os olhos de Heero.
— Bom dia. Está com fome?
— Me responda.
— Eu não falo sobre nada sério antes de comer.
Heero deu uma risada gutural. Estava perdendo a paciência.
— Temos tempo. Não se apresse. — Maya disse antes de voltar a bebericar o chá e voltar a contemplar as ondas.
Heero se aproximou e pôs a mão no ombro dela, obrigando-a a encará-lo. Travou as palavras ao perceber um fio de raiva contido nas íris cor de mel. Sentiu como se estivesse cometendo um grande desrespeito.
— Tenha. Paciência. — A voz de Maya saiu quase num sussurro. — Você vai precisar.
— Você me contactou e me trouxe pra cá sem dar explicações e agora me pede paciência?
— Não, Heero. Não pedi. É uma ordem. — Maya colocou a xícara na mesa com um baque. Seu olhar ardia, mas ainda mantinha uma fina nuvem de calma. — A primeira coisa que você deve fazer é se ajustar ao ritmo daqui.
Heero se aquietou com certa resistência. Buscaria as respostas por outros meios.
A areia da Praia Dourada era de uma maciez incomum, andar sobre ela era como receber uma massagem gratuita nos pés. Sua cor fazia jus ao nome, um amarelo que, banhado pelo sol da manhã, cintilava como se ali estivessem abrigados fragmentos de pedras preciosas. A brisa morna da primavera aumentava a temperatura, dando os primeiros passos em direção ao verão. Heero sentia seus olhos reclamarem da luz conforme caminhava, o brilho da areia invadindo sua retina sem nenhum cuidado. Havia ignorado o conselho de Maya e dispensado os óculos escuros.
Ela o olhava como quem olha para um idiota teimoso e segurava revirar os olhos pela terceira vez. “Por que comigo é tão difícil?”, pensava ao lembrar do quanto ouvira elogios à obediência do soldado perfeito.
Maya tirou a canga que estava amarrada a sua cintura e estendeu-a na areia após ganhar a luta contra o vento, logo chamando Heero para se sentar dando três batidinhas na canga.
— As pessoas que moram aqui fazem parte de uma comunidade de pescadores. — Disse olhando para o mar. — Não são muitas, por isso todas se conhecem. Elas têm um olhar muito afiado para os que vêm de fora. Isso significa que elas desconfiam de gente nova com muita facilidade. — Fitou Heero. — Pra uma comunidade como essa, atitudes individualistas são um sinal de alerta. Quero dizer, você estar aqui e destoar do jeito de viver deles.
— Por isso as roupas?
— Sim. Mas isso não é o suficiente. Você vai precisar se integrar
— Como?
— Observe como eles agem. Você vai descobrir.
Heero percebeu um casal de idosos sentar próximo a eles. Eles se ajeitaram com um pouco de dificuldade e a mulher logo notou que alguém os observava. Ela esboçou um pequeno sorriso e acenou suavemente, fazendo o marido se virar e fazer o mesmo. Heero devolveu o aceno e fingiu um sorriso enquanto Maya deu um “bom dia” alegre e entusiasmado, sendo respondida com igual alegria.
— Vai precisar ser melhor do que isso nas interações sociais. — Maya pontuou.
— Posso ser perfeito se souber o motivo.
— Nesse quesito, nem se você quisesse… — Maya sussurrou e voltou a olhar para o mar. — Existem rumores que uma fonte de gundanium foi encontrada perto daqui e está sendo usada para a produção de novos gundam. Sua missão é investigar e deter isso.
Heero apertou os lábios sentindo a gravidade da situação. Seria a paz uma ilusão inalcançável?
— Vamos, vou te levar pra conhecer a praia.
Eles caminharam por toda a extensão da praia enquanto ela contava sobre as pessoas, suas rotinas e seus costumes. A comunidade tinha pouco mais de 100 pessoas, um terço dela era de idosos, a maioria adultos e algumas poucas crianças e adolescentes.
Heero ouvia tudo atentamente, ajeitando a canga que Maya insistira para que ele usasse a fim de ao menos cobrir a cabeça. Vez ou outra a água vinha lhe molhar os pés e ele se surpreendia como aquela sensação era sempre satisfatória. O sol, o sal, a areia suave e a voz de Maya se misturavam de tal forma que fazia ele se sentir como num sonho. Todas as coisas ali estranhamente lhe sopravam tranquilidade.
— Heero, você está bem?
— Sim.
Maya fitou aqueles olhos sonolentos e se deu conta de que estavam andando por mais de uma hora debaixo do sol.
— Vai precisar aprender a viver na praia. Lição um: você pode pegar facilmente uma insolação se for teimoso com o sol.
— Eu estou bem. — Ele retrucou tirando a canga da cabeça.
— Não vou cuidar de ninguém doente hoje. — rebateu puxando Heero em direção a um jovem que alugava bicicletas.
O rapaz sorriu para Maya e encarou Heero por alguns instantes antes de entregar a bicicleta para ela.
— Vamos, sobe! E segura em mim.
Heero não conseguiu aproveitar a viagem apesar do ritmo lento. Sentia a barriga de Maya colando e descolando de seu braço esquerdo conforme ela pedalava, sentia a mão dela segurando seu braço direito e o movimento. O movimento do corpo dela que seu corpo acompanhava. Tentou se concentrar na paisagem, mas uma pedra obrigou Maya a desviar rapidamente e com isso ele a sentiu ainda mais perto. O cabelo dela lhe roçava o rosto, primeiro como um incômodo, depois como um carinho. As coxas mostravam seu tônus a cada pedalada e Heero se viu descobrindo uma pinta perto do joelho esquerdo dela.
Chegar em casa foi um alívio que durou poucos minutos, apenas o suficiente para Heero dar uma respiração profunda antes de Maya vir em sua direção com um termômetro e os “5 mandamentos sobre viver na praia”.
— Eu sei me cuidar sozinho.
— Ótimo!
Heero devolveu o termômetro sem olhar para o visor e deu as costas para Maya que conferiu a temperatura: 37,5. Ele já havia deixado a sala quando ela abriu a boca para dizer o resultado.
“Não vai ser uma convivência fácil.” Ambos pensaram.
“Vou cumprir essa missão o quanto antes e ir embora daqui.” Heero disse a si mesmo.
Longe dali, um jovem de longos cabelos trançados contemplava o céu azul da janela de seu quarto. Duo demorou a atender o telefone, esperava que a pessoa desistisse, mas depois de um minuto inteiro com aquele barulho na cabeça concluiu que era algo importante, ou alguém muito chato. Ao ouvir a voz de Heero, Duo arqueou a sobrancelha e se preparou para o que poderia vir.
— Duo, quero sua ajuda.
Ele inclinou a cabeça processando o que acabara de ouvir. Heero Yuy pedindo ajuda? Será que tinha ouvido direito?
— Ah… Heero está muito barulho aqui, pode repetir?
— Quero a sua ajuda para cumprir uma missão.
O piloto do Deathscythe pôs a mão na cintura ainda com dificuldade de acreditar. Era como se seu cérebro estivesse tentando aceitar que 1+1 era 3.
— Duo?
— Então… sim, o que você quer que eu faça?
Duo escutou com cuidado e anotou as instruções. Ao desligar o telefone tinha uma localização geográfica e seus próximos passos.
— É… vamos fazer uma pequena viagem…
Longos foram os dias que se seguiram, ao menos para Heero. O soldado perfeito observou minuciosamente todos os aspectos do seu cotidiano e do ambiente que agora fazia parte enquanto investigava sobre a reserva de gundanium. Sua mente se tornara um hábil processador do mundo ao seu redor, registrando detalhes e fazendo conexões. Havia assimilado onde o sol nascia e se punha, as horas de maré baixa e alta, o canto dos pássaros, os dias que as pessoas mais iam à praia. Gravou o rosto de alguns pescadores e outras pessoas que trabalhavam na orla, mapeou mentalmente as casas e os poucos estabelecimentos comerciais, as ruelas e a pracinha das crianças.
Assimilou também muito de Maya, por vontade, mas também a contragosto. Guardava uma desconfiança sobre ela que não se dissipava, por isso, prestava mais atenção nela do que seria necessário. Assim, ele memorizara seus hábitos: tomar chá olhando as ondas pela janela da cozinha, ler na varanda sentada no chão entre almofadas, cobrindo o colo com uma manta, às vezes até cochilar, perto do entardecer. Cantar músicas românticas, daquelas cheias dos exageros da paixão ou um romantismo enjoado, que irritavam Heero até a espinha.
Foi preciso apenas um único dia para ele decretar que aquele era o hábito mais detestável de Maya. Heero entrara na cozinha, silencioso como de costume, e viu Maya perdida em pensamentos fitando o mar. Ela suspirou de leve e começou uma melodia de “na… nanana…” se mexendo ao som dela até cantar nitidamente:
Fly me to the moon
Let me play among the stars
Let me see what spring is like
On a, Jupiter and Mars
In other words, hold my hand…
Maya, então, parou suavemente seu movimento, virou o rosto para fitar Heero e com a expressão tomada pelas emoções da música completou: “In other words, baby, kiss me…”
Era uma provocação. Clara e inequívoca. Desnecessária e estúpida. Descabida, imatura… Heero ia acumulando adjetivos em sua mente, tomado de irritação. Nunca mais deixou de se incomodar quando Maya cantava. Contudo, ainda era uma mania fácil de lidar, bastava sair de perto dela ou tapar os ouvidos. O que Heero não estava preparado para enfrentar era o desfile de moda que assistia todos os dias.
Maya era uma garota da praia. Isso se via na pele bronzeada, no cabelo constantemente bagunçado pelo vento, no andar malemolente e nos trajes que variavam entre shorts curtos, tops, vestidos leves e incrivelmente sensíveis a qualquer sopro, blusões claros e biquínis. Para Heero, isso significava ver, todos os dias, ao menos um pouco das pernas, barriga, costas e da curva dos seios de Maya, às vezes tudo isso num único dia. Era absurdo e irritante como ela não tinha a menor preocupação de se cobrir o mínimo que fosse tendo Heero debaixo do mesmo teto. Internamente, ele criticava isso a cada vez que via mais do que queria ver. Lembrava de Relena e sua postura discreta, sua vestimenta que lhe conferia elegância sem mostrar além do que devia. Olhava para Maya e a reprovava, como quem procura alimentar um desafeto.
Havia vasculhado tudo que pôde para saber mais dela, sem sucesso algum. Foi descoberto por ter deixado o vidro de perfume encostado na caixa de esmaltes em vez de afastado um dedo de distância. Aturou uma Maya incrédula e irritada que lhe passou um sermão de cinco minutos inteiros e por dois dias lhe lançou olhares enviesados todas as vezes que se viram. Achou aquilo insuportável, mas se calou. Pensou em como era possível que aquela garotinha fofa que viu na foto do porta-retratos tivesse se tornado uma mulher assim, desagradável.
Evitava-a tanto quanto podia. Não havia motivos para iniciar qualquer conversa que não girasse em torno da missão que deveria cumprir. Dessa forma, Heero passava os dias num silêncio quase absoluto e Maya preenchia o vazio cantando.
Contudo, o silêncio não foi o único hábito que Heero desenvolveu. Ele passou a dedicar vários minutos do dia ouvindo o som das ondas. Às vezes parava o que estava fazendo e deixava seus ouvidos serem invadidos por aquela melodia, fechava os olhos, respirava devagar, o coração no ritmo do mar. Embriagava-se com o balanço das árvores, um braço esticado na janela, o queixo sobre ele e o olhar descansando no horizonte. O pôr do sol com sua luz laranja e quente se tornara um dos espetáculos preferidos dele. Heero perdia a noção do tempo.
Um dia, depois de assistir a mais um crepúsculo, ele se deixou descobrir as nuances da noite. As primeiras estrelas cintilando no manto azul cada vez mais escuro, a nitidez mágica com que podia vê-las ali do seu próprio quarto, a sensação de que o mundo lhe estendia um tapete de incontáveis oportunidades. Heero se sentia estranho e bobo, aquelas sensações não tinham nenhuma raiz na realidade, eram como sintomas de um coração que devaneia. E para ele o coração metafórico era a desculpa perfeita para todas as fraquezas. Emoções eram para ser domadas, subjugadas à razão e silenciadas para não atrapalhar as missões.
Heero despertou de seus pensamentos ao perceber Maya voltando para casa. Seu andar era lento, pesado. Girou a chave devagar no portão, fechou-o como se fizesse esforço, demorou alguns minutos para entrar em casa. O barulho do sino da porta soou estranhamente quebrado e então não se ouviu mais nenhum ruído.
Ele se inquietou. Tentou ignorar. Irritou-se pela inquietação e levantou de repente decidido a descobrir o que acontecia. Encontrou Maya na cozinha mexendo em uma caixa, de onde tirou uma cartela e um comprimido que colocou na boca e engoliu a seco. Ela o notou, fitou-o e abriu a gaveta do armário como se Heero não estivesse ali. De súbito parou e apoiou a mão na cadeira, apertando-a com força, respirou profundamente e tateando se sentou. Curvou-se sobre a mesa, apoiando sua testa sobre o punho e respirou profundamente outra vez.
— Do que você precisa?
— Tem uma bolsa de gel na gaveta… ferve a água e coloca ela dentro… por favor. — disse num sussurro.
Heero atendeu prontamente com a atenção dividida entre Maya e o que estava fazendo. Notou que ela se levantara e se movia a passos lentos, curvada, o braço sobre o abdômen. Ele se aproximou e ofereceu ajuda, recebeu um olhar confuso, mas nenhuma resposta.
— Se está com dificuldade de andar não deveria tentar… posso te carregar.
Maya quis negar, porém não tinha espaço para orgulho. Deixou que Heero a colocasse no colo, ainda que se sentisse estranha por estar nos braços deles. Dois passos depois e uma dor aguda e fria lhe rasgou o ventre. Ela se encolheu, apertando o rosto contra o peito de Heero enquanto segurava a camisa dele. Instintivamente, o soldado perfeito a trouxe para mais perto de si.
— Você tem isso sempre?
— Às vezes… É uma loteria.
Ele a colocou no sofá e minutos depois trouxe a bolsa de gel. Maya parecia derrotada pela dor.
— É por isso que você ficou no meu lugar — soltou com um sorriso afetado, provocando a dúvida no rosto de Heero. — Imagina ficar assim pilotando um gundam.
— Você poderia morrer na batalha. — Ele devolveu seco. Ela assentiu.
— O Dr. J me dispensou assim que percebeu.
— Ele fez o certo.
— Talvez…
Maya fitou o teto, seu pensamento parecia ter ido pra longe. Heero permaneceu na sala com a sensação de que ainda havia algo a ser dito.
— Mas ele me tirou o rumo. Eu não tinha o que fazer da vida além de me tornar piloto… E o que você faz quando a única opção da sua vida é tirada de você? Quando você não enxerga um futuro?
Os olhos deles se conectaram de uma forma profunda. Heero deixara a distância para entender aquela nova Maya que se apresentava a ele.
— Você não precisa viver uma vida sem objetivo. — Ele respondeu sombrio.
— E fazer o quê? — Maya exprimiu com um tom cuidadoso.
— Acabar com ela.
Maya engoliu a saliva devagar, processando a naturalidade com que Heero dissera aquilo. Era triste e assustador.
— Fazer isso me tira todas as opções de futuro…
— E poupa do vazio.
Maya sentiu um aperto no peito. Havia uma decisão nas palavras de Heero. A decisão da qual ela esperava que ele voltasse atrás.
— Quando eu vim pra cá, eu não conseguia enxergar nada… como se não existisse um horizonte. Então eu só fui vivendo e vivendo dias iguais, estranhos… Com o tempo, as pessoas daqui me notaram. Elas têm uma regra que diz que todos da comunidade têm uma família, isso significa que se você não tem uma, a comunidade é a sua família… Eles me incluíram em tudo. — A voz embargada anunciou as lágrimas que logo caíram. — Então, mesmo que eu ainda não veja o futuro, eu decidi ter esperança porque os anos em que apenas continuei valeram à pena.
Heero tinha uma resposta ácida na ponta da língua, mas a deteve ao ver Maya secando as lágrimas. Não tinha o direito de tirar dela o alento que ela havia encontrado. Ele é quem desistira da vida e estava esperando a hora de tornar realidade o que diversas vezes já havia imaginado em seus pensamentos. Naquela noite, Heero se manteve atento a qualquer ruído que Maya fizesse, pronto para ir ao encontro dela caso necessário. Levou a vigília até às três da manhã quando se deu conta de que a madrugada há muito havia chegado e Maya parecia dormir tranquilamente. Crispou os lábios diante do excesso de cuidado e criticou-se por agir daquela forma. Dormiu um sono pesado no qual sonhou um misto de cenas embaçadas. Numa delas, Maya aparecia triste vendo-o caminhar para longe enquanto estendia a mão, quando ele se virou e a segurou, o sorriso dela se abriu como o sol afastando as nuvens. “Você vai ficar?”, foi a última coisa que ouviu antes de acordar. A frase permaneceu em sua mente durante o dia inteiro como um fragmento vívido de realidade.
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