Uma vida para viver
1 Para onde o sol é mais quente
"Just wild beat communication"(Apenas comunicação em um ritmo selvagem)
Heero caminhava para o ponto de encontro com uma leve desconfiança no rosto. Tinha certeza que o Dr. J não designara nenhuma missão após a última, que deveria ter acabado com o soldado perfeito deixando esse mundo. Então, como e de onde surgiu essa nova e estranha incumbência? Seria uma última ordem do velho antes de morrer? E quem teria enviado o e-mail e as informações e o endereço do encontro? Mais importante do que isso: quem ele iria encontrar lá? As perguntas se acumulavam e flutuavam na mente de Heero de uma forma desconfortável, fazendo aumentar a tensão que ele se esforçava para controlar, mas já formava uma linha fina em seus lábios.
Ele avistou um carro branco parado em frente a cafeteria, um conversível de um modelo antigo, mas bem cuidado, que tinha ao volante uma mulher de cabelos castanhos claros e longos. Ela olhava para o painel com a mão apoiada na cabeça, a expressão serena e despreocupada e parecia cantarolar uma música suave.
Heero seguiu em direção a cafeteria quando percebeu que a mulher escorregou lentamente o queixo na mão ao escutar seus passos. Ele continuou seu caminho, devolvendo o olhar que ela lhe lançara, de relance a fixo até ambos assumirem um olhar de profunda análise.
Heero pensou ser uma armadilha. Amaldiçoou a ingenuidade de ter ido desarmado e correu os olhos pelo local em busca de algo que pudesse usar como arma. Nada. Seria pego de uma forma humilhante. Sentiu-se ridículo.
— Yo, Heero. Há quanto tempo…
— Quem é você?
— Maya, filha do Dr J. — A mulher respondeu como se fosse óbvio. — Imaginei que você não me conheceria. Mas eu lembro bem de você e dos seus resultados nos treinamentos. Você era formidável.
Heero tentou se lembrar de tê-la visto no laboratório ou em qualquer outro lugar. Nenhuma memória. Nem jamais ouvira aquele nome antes. Forçou-se mais um pouco. Nada. Definitivamente não sabia quem ela era. Mas ela o conhecia. Sabia como entrar em contato com ele e agora estava ali em sua frente, talvez armada, tramando algo que Heero não conseguia sequer arriscar um palpite.
Maya percebeu a postura defensiva de Heero e saiu do carro. Um raio de sol iluminou os olhos dela por um instante e Heero foi capturado pela lembrança daqueles olhos lhe observando de cima, entre as barras de ferro de uma mureta de segurança, numa idade que ele não sabia dizer qual era, mas sabia que era pequeno demais, o suficiente para não se lembrar e ao mesmo tempo guardar um detalhe.
— Você estava no laboratório naquele dia.
— Eu ficava lá às vezes até o Dr. J me proibir de ir. Ele não queria que eu fosse uma distração pra você.
— Você jamais seria. — Heero rebateu secamente.
— É normal uma criança sentir falta da companhia de outras. — Maya respondeu dando de ombros. — Podemos? — Perguntou apontando para o carro.
Heero entrou a contragosto.
Maya deu a partida e partiu para a estrada. Os olhos dela alternando entre o asfalto e a expressão desconfiada de Heero.
— Feliz aniversário. — Ela soltou, espiando a reação dele pelo retrovisor. — Tem um presente pra você no porta-luvas.
Heero abriu a caixa e franziu as sobrancelhas ao ver os óculos escuros.
— Você vai precisar para essa missão.
— É melhor você me dizer exatamente o que está acontecendo.
— Você tem uma missão, Heero, e você vai para o litoral comigo para cumpri-la. Ela vai durar um ano e depois disso você estará livre. É simples.
— Que tipo de missão?
— Você vai ver.
Heero puxou o cinto de segurança.
— Não faça isso. Vamos perder a direção e bater. — Maya disse num tom calmo com um toque de ordem na voz. — Você vai saber quando chegarmos lá. Não torne a viagem desagradável.
Heero encaixou a fivela do cinto, recostando-se no banco e passou a analisar o interior do carro. Era simples, limpo. Tinha uma estrela-do-mar pendurada no retrovisor central e um aroma suave e fresco. Pequenos cristais de areia brilhavam perto dos pés de Maya, que dirigia descalça e tinha as unhas pintadas de um branco transparente. No banco de trás uma bolsa rosa de viagem virou alvo da desconfiança de Heero e ele estendeu a mão para pegá-la.
— Quer ver minha calcinhas? — Maya perguntou com um fio de ironia na voz extremamente calma.
Heero hesitou por um instante, mas no minuto seguinte colocou a bolsa no colo e começou a inspecioná-la. Blusas, shorts, cremes, pente, sutiã, absorvente… Heero movia tudo de um lado para o outro, abria frascos, bagunçava as roupas, esvaziava bolsos.
— Se você for mais pra esquerda vai achar o que está procurando.
Heero esbarrou numa nécessaire caramelo, abrindo-a de imediato e puxando o que tinha dentro sem raciocinar. Esticou o pano sem a menor delicadeza e piscou ao reconhecer uma calcinha branca de renda.
— É da cor que você gosta? — Maya perguntou com um sorriso jocoso, fazendo Heero atirar tudo de volta ao banco de trás. — Não tem nenhuma arma aqui nem nada que vá te dar alguma pista sobre a missão. Então, você pode parar de procurar e simplesmente aproveitar a viagem… Ah, e ponha os óculos, vou abrir a capota.
Maya sentiu o vento sacudir seus cabelos e abriu um sorriso satisfeito. Uma música lhe veio à cabeça e ela começou a cantarolar baixinho numa alegria singela e profunda. Heero a fitou como se ela fosse anormal, mas sendo filha de quem era não era possível esperar algo diferente. Ele colocou, enfim, os óculos e se olhou brevemente no retrovisor antes de virar o rosto para observar a paisagem. O dia se aproximava da hora dourada e o sol beijava com delicadeza tudo que estava ao seu alcance, deixando o clima relaxante e preguiçoso. Porém, Heero não se entregava à beleza do momento.
— Você é mesmo filha do Dr. J?
— Sim, adotiva… — Maya fez uma pausa longa. — Na verdade, ele se viu obrigado a ficar comigo. Eu fui a aposta que não deu certo.
— Aposta? — Heero ergueu uma das sobrancelhas.
— Você não foi o primeiro a ser treinado para ser piloto… Eu era boa, não como você, mas eu era… como era mesmo que ele dizia? Mocinha demais. Então, ele me tirou do treinamento assim que encontrou alguém pra me substituir. — Maya olhou de relance para Heero. — E eu fiquei por um tempo vendo se o garoto era bom mesmo.
— Deveria me agradecer,… assim você pôde viver sua vida.
Maya engoliu a saliva. A lembrança do pequeno Heero chegando ao laboratório lhe inundou a mente. Era um garoto de olhos puros e curiosos, carregava a inocência que se perdeu de forma abrupta. Ela observou a expressão de Heero, fria, distante, vazia e comparou mentalmente com a do garoto de anos atrás. Era, no mínimo, triste ver o que ele havia se tornado.
— Mais alguma coisa que queira saber?
— Não.
O resto da viagem se seguiu por um silêncio maciço, entrecortado pela voz de Maya cantando alguma canção doce. Heero baixou a guarda sem perceber e quando deu por si estava quase no mundo dos sonhos embalado pela cantoria. Os últimos raios de sol se espreguiçavam pela estrada quando a maresia invadiu seu nariz e a brisa do mar roçou sua pele. Não demorou até que o carro virasse numa pequena rua e chegasse a uma casa na parte alta da praia.
— A missão começa aqui. — Maya disse acionando o portão automático.
A casa tinha dois andares e paredes de um branco puro com vasos de flores coloridas junto a elas. Uma árvore frondosa ocupava um grande espaço no jardim perto de onde Maya estacionou o carro. Havia nela um balanço pendurado com as cordas enfeitadas com ramos de folhas verdes. O lugar parecia o cenário ideal para férias de verão, o que deixava Heero ainda mais desconfiado.
— Aqui?... — Os olhos dele passearam pelos detalhes do local.
— Exatamente.
Maya apresentou a casa como quem apresenta o próprio lar. Estava familiarizada com cada canto e falava deles com gosto. Mostrou a Heero qual seria seu quarto antes de partir para a cozinha para colocar algo no fogo porque estava morrendo de fome.
“Que mulher estranha”. Heero pensou enquanto descobria que no armário havia peças de roupa para ele. Nada de preto ou verde escuro, e sim, branco, azul claro, verde água e até estampas de palmeiras. “Ela acha que eu vou vestir isso?” De repente se deu conta que tudo aquilo combinava com o lugar e talvez se camuflar fosse o objetivo. O silêncio se quebrou com uma batida na porta e o aviso do menu do jantar. Naquela noite, Heero teve companhia durante a refeição. Ele havia esquecido qual era a sensação de ter isso.
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