Uma vida feliz para Arlequina?
11 Capítulo 11 - Delírios
Notas iniciais
Capítulo 11 — Delírios
As paredes do edifício abandonado a cada segundo se pareciam mais com uma peneira na troca de tiros entre o Coringa e os outros dois criminosos, enquanto mais bombas explodiam lá fora e já não havia um único cidadão no meio da rua.
— EU VOU MATAR OS DOIS!!! E SE ARLEQUINA ESTIVER MORTA VOU PERSEGUI-LOS NO INFERNO!!!
Os outros dois riram.
— Você já tentou matá-la propositalmente, por que tanto amor agora? Ou devo dizer obcessão?
— Quem salta mais alto que os prédios? – Charada perguntou com uma grande gargalhada.
— Prédios não saltam seu idiota!!! Qualquer um pode fazer isso!!! E vou fazer você ser melhor nisso do que a minha garota!!!
Charada fez uma careta de raiva e decepção ao ter mais uma vez seu enigma decifrado instantaneamente pelo Coringa. Mais tiros foram trocados.
Alguns tiros eram acertados de raspão e manchas de sangue se espalhavam pelo lugar.
— NÃO!! SANGUE NÃO!!! – Charada gritou dando passos atrás e segurando a cabeça com as mãos, de olhos arregalados, como se um monstro fosse engoli-lo – NÃO! NÃO!! NÃO!!! O que é tão pequeno, mas o significado não cabe dentro de ninguém?!!
Os tiros pararam, mas as armas continuaram apontadas.
— Nunca vou entender porque contrataram esse covarde – o Espantalho comentou.
— Nem enigmas criativos consegue mais fazer – o Coringa provocou.
O homem vestido de verde se enfureceu, levantando-se e incensando o local com o gás da verdade.
— Você sabe que isso é inútil pra nós dois – o Coringa lhe disse – Por que você aumentou a dosagem dos componentes desse gás acha que vou abrir minha boca?
Lembranças vieram, mas ele não falaria delas. Lembrou-se de Harley. Precisava vê-la.
— Aonde vai? Não terminamos. E não vamos terminar tão cedo – o Espantalho lhe disse enquanto as armas permaneciam apontadas e Charada continuava quieto num canto olhando com pavor as manchas de sangue no chão.
O Coringa apenas riu, riu loucamente enquanto andava para trás em direção ao lugar onde Harley caíra. O Espantalho correu até a beirada e observou o príncipe palhaço despencar em direção ao chão. Observaria o rei de Gotham se espatifar, mas a chegada de alguém desviou sua atenção.
— O que foi aquilo?! Eu disse que queria a Arlequina viva!
— Ela não nos deixou escolha.
— Onde está a retaguarda.
— O príncipe palhaço deve ter matado todos. Não viu a quantidade de bombas lá fora?
— E qual é o problema dele? –Waller perguntou ao ver Charada encolhido num canto, ainda com a arma na mão, mas parecia paralisado.
— Eu disse que ele não gosta de ver sangue.
******
— Jonny...
— Senhor?! Onde está?! Por que sua voz está tão alterada?!
— No momento caindo de vários metros de altura.
— Tem certeza que o paraquedas embutido em suas roupas está em ordem?
— Tudo na mais perfeita ordem. Me encontre em frente ao lugar onde a última bomba explodiu. Quanto aos outros, mande encontrarem Harley.
Ele desligou e guardou o telefone, abrindo o paraquedas a tempo de não se emborrachar no asfalto. Livrou-se das lonas coloridas e das cordas e olhou em volta. Onde ela estava?! Não podia ver nem o corpo. Várias manchas de sangue se espalhavam pelo chão, como se tivessem escorrido por alguns minutos e seguiam numa trilha que desaparecia após alguns metros.
— Senhor.
— Temos que encontrá-la, Jonny. Me tire daqui antes que alguém olhe lá de cima.
******
O Batman corria na direção do vulto que vira cair de um prédio. Ainda estava confuso e abalado após ser atacado pelo gás do medo, mas não correria o risco de deixar uma vida se perder. Com tanta sorte como poucas vezes teve conseguiu apanhar a mulher antes que ela atingisse o chão, ouvindo-a emitir um grito abafado de dor ao cair em seus braços. O taco de baseball e o revólver caíram ao lado dela no chão. Ela chorava e gemia de dor. O Batman abaixou-se para apoiá-la no chão. As roupas dela começavam a se encharcar de sangue a partir do tiro em seu abdômen. A bala ainda devia estar lá.
— Arlequina – ele chamou, mas ela não respondeu.
Parecia confusa, mas estava semiconsciente, uma vez que sequer abria os olhos ou dava sinais de ter a mínima noção do que se passava.
— Isso dói muito, Pudinzinho – ela chorou num sussurro e contorceu o rosto de dor.
— Arlequina, diga se me ouve — o homem morcego pediu ao posicionar a mão em cima do ferimento para tentar reduzir o sangramento.
Ela gritou e ele suavizou a pressão.
— Por que está preocupado comigo agora... Por que não me conta o que aconteceu antes... Por que você não me ama mais...? Dói muito... Não vai dar tempo... Diga à Pam que a amo... Cuide de Bud e Lou... Eu não sei nadar! – Ela murmurava frases soltas, deixando o Batman confuso.
— Espero que essa bala não tenha sido atirada pelo palhaço. E um dia você vai ter que se conformar que ele nunca amou você de verdade.
O morcego já se preparava para pegar o taco e a arma e levantar-se com ela, não poderia mandá-la à Arkham naquela situação, ela precisava de cuidados urgentes antes. Depois resolveria as coisas com o Coringa e os outros dois. Enquanto estivessem tentando se matar num lugar abandonado estava bom demais, com sorte teriam sucesso todos os três. O Batman levantou com Harley ouvindo-a chorar de dor outra vez, por mais cuidadoso que tivesse sido o movimento. Ela ainda sangrava muito e ficava cada segundo mais pálida. Ele precisava ser rápido.
— Tudo culpa do Batsy... Meus bebês – ela chorou de novo, e dessa vez as lágrimas rolaram por seu rosto.
Os bebês não poderiam ser as hienas, ao menos não parecia que era delas que Arlequina havia acabado de falar. Então ele se lembrou. E não pode evitar sentir um aperto incômodo de culpa. Onde estariam aquelas duas crianças agora? Só podia esperar que o Coringa não os tivesse matado. Jamais imaginaria que aquela mulher louca e psicótica poderia amar tanto aquelas crianças, amar de verdade, como uma verdadeira mãe. O amor naquelas palavras inconscientes parecia maior e mais sincero que o amor dela pelo Coringa, deixando o Batman realmente surpreso.
— HARLEY!!
O Batman ergueu o olhar ao ouvir a voz desesperada da Hera Venenosa, que ignorou totalmente o perigo da presença do homem morcego e correu para ele ao ver a amiga em seus braços. Pâmela se segurou para não chorar.
— O que foi isso?!!
— Ela caiu lá de cima. Um dos três atirou nela. Acredito que ainda esteja sofrendo alucinações ou sonhos, ela já murmurou várias frases soltas e nada faz muito sentido. Deve conhecer o gás do medo.
A Hera ficou sem ação e sem palavras por alguns segundos enquanto olhava o lugar de onde Harley havia despencado. Via clarões de luz e explosões vindos de lá. Olhou novamente para a amiga, lembrando-se do pesadelo que ambas tinham visto semanas atrás e deixou que as lágrimas caíssem por seu rosto. Harley tinha parado de falar, finalmente estava desmaiada. Pâmela observou o lugar onde fora atingida, o sangue não parava e manchava as roupas negras do homem morcego.
— Harley, não se atreva a morrer!! Precisamos cuidar dela!!!
— Nós vamos. Mas Arkham não parece bom ainda.
— Dane-se Arkham!! Dane-se qualquer coisa!! Eu tenho o que preciso aqui. Vamos pra algum lugar longe desse tiroteio, dessa nuvem de poeira e dessas paredes destruídas.
Pâmela apanhou a arma e o taco de baseball de Harley e pela primeira vez na vida o Batman se viu seguindo os conselhos de uma criminosa. Os dois invadiram um restaurante vazio a uma boa distância dali. Pâmela o orientou a deitar Harley em cima do Balcão e segurar suas mãos o mais firme que podia sem machucá-la. Pâmela retirou as botas da amiga para evitar machucar alguém, caso ela chutasse o ar no processo. Em seguida levantou a blusa, esterilizou o ferimento e se preparou para remover a bala. Além de acender as luzes que ficavam bem acima deles, ainda encontrou uma lamparina de mesa e a acendeu por perto. Tentou se acalmar e respirou fundo.
— Me desculpe por isso, Harley. Só aguente, por favor!
Mesmo desacordada, Harley chorou, gritou e se contorceu quando Pâmela inseriu o metal para puxar a bala para fora.
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