Uma vida de raposa

5 O sonho da raposa


Taro fecha o punho e o lança rapidamente em minha direção, acabo desviando por reflexo sem ter tempo de pensar em qualquer coisa, a cena se repetiu 2, 3, 4 vezes, mas logo consigo me esconder em um buraco de uma árvore oca.

— Volte aqui! — ele fala ferozmente em um rugido

— O que faremos? — A e Un perguntam juntos sussurrando

— Nosso trabalho. — desembainho a katana

— Não vamos arranjar... — A começa

— Um problema? — e Un termina

— Ele não é mais um de nós. — suspiro me preparando para correr pra fora — Daichi confiou em mim pra isso é eu não vou hesitar

Saio do local de onde estava escondida, Taro olha para mim com um sorriso sádico mostrando sua presas assustadoramente afiadas, corre até mim, garras prontas para arrancar minha cabeça, eu deslizo por debaixo dele e cravo a katana em seu peito, o deixando imóvel por um momento, até que seus braços pendem para baixo, suas pernas vacilam e seu corpo começa a cair.

Fujo debaixo dele para que não fosse esmagada pelo corpo grande e peludo, A e Un saem do esconderijo e começam a me rodear gritando de alegria, mas nós 3 ficamos parados quando vimos uma densa fumaça negra sair debaixo dele, seu corpo começa a derreter e virar uma gosma escura que se movia levemente para lá e para cá.

— O que é isso? — A flutua envolta da coisa

— Devemos contar pro Daichi? — Un segue o irmão e cutuca a coisa

A gosma se move violentamente e se atira para cima a uma velocidade absurda, muda sua rota no ar e começa a ir para o lado oeste.

— Ele está indo em direção ao templo, vamos! — grito correndo para tentar alcançar aquilo

Corro o mais rápido que consigo, minhas pernas ardiam, mas eu não podia parar, tinha que ir mais rápido, Daichi estava lá, ele estava me esperando, eu tinha que ir até ele.

Quando finalmente chego na frente do templo, Daichi estava de pé olhando para a coisa no chão da varanda, ela começa a tremer e crescer, ele apenas a encara com os braços cruzados.

— Daichi! — corro até ele

— Fique longe! — ele se desconcentra e olha para mim, fazendo com que a coisa crescesse rapidamente e agarrasse metade de seu corpo

Subo a varanda e tento puxar seu braço livre.

— Nana, fuja daqui

— Mas você...

— Eu não vou morrer por tão pouco, apenas saia daqui!

Eu obedeço relutante e corro para a floresta, fico escondida encima de uma árvore por horas, estava cansada, todos o seu meus músculos doíam, meus pés e meu quimono estavam bem sujos.

— Desça aqui. — escuto a voz de Daichi lá embaixo

— Desculpe. — digo pulando do galho

— Desculpar por que?

— Não fiz meu trabalho como deveria. — abaixo a cabeça e o entrego a katana com as duas mãos abertas

— Do que está falando? — ele fecha minhas mãos e levanta minha cabeça — Voce foi incrível, eu não sabia que aquilo estava sendo movido por rancor, um rancor tão antigo que se materializou naquela..... eu não sei como chamar aquilo, mas você sabe como é, tive que fazer um belo dum exorcismo. — ele ri

— Tem certeza que tudo bem?

— É claro que tenho. — ele prende a katana de volta na minha cintura e me abraça acariciando minha cabeça — Vamos ter que purificar essa katana quando voltarmos, eu ensino você a fazer isso

— Obrigada. — o abraço de volta

— Fuyuki vai trazer comida hoje, pedi pra ele comprar um livro de culinária, prometo que vou tentar fazer algo comestível

— Não acho uma boa ideia. — rio

— Mas vou tentar mesmo assim

Ele me leva de volta pra casa segurando minha mão, conversamos todo o caminho, me sentia calma, como se toda a dor no meu corpo estivesse passado.

— Está começando a parecer mais como um pai. — digo

— Pais costumam mandar suas filhas pra matar monstros?

— Provavelmente não

— Ainda bem, achei que estivesse ficando louco. — ele suspira aliviado levando uma mão ao peito e rindo

— Voces demoraram bastante, o que aconteceu? Por que a casa está com cheiro de incenso? Vocês fizeram um exorcismo? Nana está bem? — Fuyuki pergunta nervoso com as sacolas de compras no chão perto dele

— Calma, peludão, você acha mesmo que eu deixaria alguma coisa acontecer com ela? — Daichi afaga sua cabeça

— Acho, acho sim. — diz furioso

— Adoro a confiança que vocês colocam em mim. — Daichi entra na casa e deita no chão puxando o livro de dentro da sacola e o abrindo em uma página aleatória para lê-lo

— Como uma raposa pode ser tão forte e tão desconfiável ao mesmo tempo? — suspira

— Acho que ele é assim porque sabe o que faz. — rio e levo as sacolas para a cozinha

Daichi fica um tempo lendo o livro até que finalmente o fecha e se levanta do chão.

— Curry não parece tão complicado, acho que vou tentar. — diz se arrastando pra cozinha

— Você vai queimar o templo. — Fuyuki morde seu quimono tentando segura-lo o impedindo de ir à cozinha

— Relaxe, vai dar tudo certo

A cozinha não queimou por bem pouco, mas ao menos a comida não estava terrível, comemos bem feliz por conseguirmos comer algo caseiro e não queimado depois de tanto tempo.

Daichi não tinha nada pra fazer o dia todo, então sentamos na sala e ele passou o dia me ensinando, me ensinou a purificar a espada a molhando com a água que ele mesmo abençoara, me ensinou a ler alguns kanjis dos pergaminhos antigos das raposas que já moraram no templo, mas depois de algumas horas se cansou e usou o pincel e a tinta que antes estava usando pra escrever para desenhar algumas coisas no pergaminho branco.

No jantar eu acabei tendo que cozinhar usando o livro, Daichi ficou deitado no chão ainda desenhando e alegou que estava muito cansado pra cozinhar, aprendi a fazer omelete de arroz graças a preguiça dele.

— Só de pensar que amanhã vou ter que sair pra trabalhar eu já fico cansado. — Daichi reclama se deitando

— Se você não fizer isso, então é inútil morar no templo

— É um preço muito alto a se pagar. — ele ri e fecha os olhos

Peguei no sono sem perceber, mas demorei um tempo para notar que estava sonhando, estava do lado de fora, perto do lago, a água azul brilhava refletindo a luz da lua, mas uma sombra começou a cobrir a água, as árvores, o céu, era como se tudo tivesse sido coberto por uma cúpula negra.

— Você sabe o que é aqui? — escuto uma voz desconhecida

— Quem está aí? — pergunto

— Você gosta daqui?

— Quem é você?

— Eu? Eu sou você

— O que? — olho para os lados sem conseguir ver nada

— Não se incomode com isso agora, apenas..... — a voz para por uns minutos

— Apenas o que?

— Você vai saber quando chegar a hora

Sinto um calafrio correndo pelo meu corpo e escuto gritos agonizantes se aproximando, acordo com o susto, estava suando, respirava com dificuldade. Olho em volta por um tempo, estava tudo como sempre, a sala do templo, Daichi roncando ao meu lado, os gatos no meu travesseiro, o pequeno altar a minha frente.

— Devo estar ficando louca. — rio sozinha sentada no futon

— Não esqueça. — escuto uma voz me fazendo dar um pequenos pulo de medo, Daichi olhava para mim sorrindo

— Não esquecer?

— Pode ser importante. — se vira de costas e volta a dormir

Fico ali deitada olhando para o teto por um tempo, não entendia o que queria dizer, poderia ser importante ou poderia não ser, passei nisso por tanto tempo que não notei quando peguei no sono novamente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.