Uma vida de raposa

2 A aprendiz de raposa


— Daichi, ei Daichiiiii. — eu o balanço pela gola enquanto ele dorme no chão do pátio de madeira

— Fique quieta. — ele resmunga empurrando meu rosto com sua mão

— Você prometeu que me levaria pra treinar hoje! — digo com a voz sendo abafada pela mão à minha frente — Ei, Daichiiiii, levantaaaaa — Grito ainda puxando sua gola com minhas pequenas mãos

— Já vou, já vou! — ele se vira de lado e me derruba de cima dele — Você é terrível, pirralha

— Treino, treino! — grito animadamente e paro ouvindo minha barriga roncar — Daichi, me alimente!

— Agora? — pergunta desanimado com voz de sono e coçando a parte de trás da cabeça

— Agora! — me seguro no braço dele, que ele levanta me deixando suspensa no ar

— Ok, eu faço alguma coisa — diz ainda com o braço levantado comigo me balançando nele

Daichi me leva pra cozinha e faz torrada com ovo para nós dois, e ele queimou tanto as torradas quanto os ovos, ele colocou o alimento queimado num prato a minha frente.

— Como você consegue dar isso para uma criança? Você é o que? Um monstro?

— Apenas coma logo, desde que você não morra de fome está tudo bem. — ele pega a torrada queimada com o ovo encima, dá uma mordida e faz uma careta

— Amargo! — digo depois de morder também — Espero aprender a cozinhar logo, ai não teremos que comer comida assim sempre

— Também espero que você aprenda a cozinhar logo. — ele suspira — Espero que Fuyuki volte logo com a comida

— Macarrão instantâneo de novo?

— Prefere comida queimada? — eu suspiro e balanço a comida negativamente

Daichi me leva para longe do templo, uma área aberta com um lago claro perto, a água era tão limpa que eu podia até mesmo ver as pedrinhas em seu fundo, amarro a barra de meu quimono e entro na água fria.

— Daichi, vem brincar! — digo animada

— Eu não quero. — resmunga

Escuto algo se aproximando pela água, algo bem maior do que um peixe, chegando bem perto dos meus pés.

— Nana! — grita Goro saindo da água, ele era um youkai com a aparência de um sapo do tamanho de uma criança, tinha dedos arredondados, uma pele verde mucosa e uma sorriso largo — Achei que a velha raposa nunca ia te deixar vir treinar com a gente! — ele ri coaxando

— N-não diga isso, Goro, o sensei pode ficar irritado. — diz timidamente Izumi saindo da água também, ele era um kappa e era meu amigo assim como Goro

— Não se preocupe com isso, eu estou acostumado a lidar com pirralhos. — Daichi responde indiferente

— Espero que não esteja falando de mim! — falo chutando suas pernas

— Eu claramente estou falando de você! — ele me carrega pelos ombros me impedindo de chuta-lo — Você é muito forte para alguém de 6 anos. — me põe de volta no chão — Certo, faltam apenas dois e poderemos começar

— Desculpe a demora, sensei. — fala a garota vindo de trás da moita correndo até nós, seu nome era Midori, ela tinha um cabelo longo e loiro com pequenos chifres vermelhos crescendo no topo de sua cabeça

— Eu não queria vir. — reclama Taro, um garoto arrogante vindo junto com Midori, ele era um bakeneko, tinha um cabelo castanho escuro bagunçado e jogado para trás, olhos amarelos brilhantes e tinha muito orgulho das marcas em suas bochechas que lembravam bigodes de gato — Não faria diferença eu vir ou não, todos sabem que eu posso derrotar esses 3 fracotes com um braço amarrado nas costas

— E eu não me importo se você vem ou não, de toda forma, um único bakeneko a menos não faria diferença na proteção da montanha quando temos vários outros youkais mais fortes prontos para defender nosso lar. — Daichi fala tranquilamente — Bem, hoje temos uma aluna nova, Nana finalmente tem idade o suficiente para treinar conosco, então espero que se deem bem com ela

— I-isso é ótimo, Nana! E-estou muito feliz! — Izumi fala timidamente

— É isso ai, Nana! — Goro grita alegremente

— Tem certeza disso, sensei? — Midori fala baixo puxando o quimono de Daichi — Afinal, a Nana é....

— Uma humana! — grita furiosamente Taro — E uma humana não pode ficar aqui com a gente! — ele se aproxima e empurra meu ombro

Eu o agarro pela gola e começo a socar repetidamente seu rosto, ele me empurra tentando fugir e correr para longe, mas eu pulo encima dele o derrubando e o levanto pela gola me preparando para soca-lo de novo.

— Você não vai fazer nada? — Midori pergunta para Daichi

— Hmmmm. — ele para e coça a parte de trás da cabeça como de costume — Nana. — ele chama e eu o olho — Se vai fazer isso ao menos ajeite sua posição

— Entendido! — digo arrumando meus pés e deixando meus ombros retos socando fortemente seu rosto o fazendo cair a alguns passos de distância

— Você vai se arrepender disso. — ele grita correndo para dentro da floresta

— Bom trabalho. — Daichi acaricia minha cabeça — Eu avisei que se machucariam treinando, então não é minha responsabilidade, e foi um bom teste de força

Goro e Izumi ficaram felizes de treinar comigo, mesmo que eu exagerasse na força algumas vezes, Midori nunca gostou muito de mim e não parecia especialmente feliz de treinar comigo, talvez porquê eu fosse diferente deles. O sol estava se pondo, os corvo grasnavam enquanto voavam sob nossas cabeças, Daichi me levava calmamente até o templo.

— Ei, Daichi. — digo puxando seu quimono — Me carrega!

— Não. — continua andando

— Daichiiiii. — me seguro nele que me puxa enquanto anda — Me carrega!

— Já disse que não! — eu pulo em suas costas e começo a escala-lo me sentando em seus ombros e me segurando em seus cabelos castanhos claro um pouco acima do ombro e completamente bagunçado — Você não tem jeito, né?

— Não tenho não. — cantarolo abraçando sua cabeça e sorrindo

— Só dessa vez. — ele sorri e continua andando

Fuyuki estava nos esperando no pátio do templo com duas sacolas na boca.

— Fuyuki! — grito animadamente quando o vejo e Daichi me coloca no chão para que eu corresse até ele e o desse um abraço

— Como foi o primeiro dia, pequena? — ele pergunta gentilmente

— Foi muito legal! Quero ir até lá para nadarmos um dia!

— Claro, vamos irritar o Daichi até que ele te leve, ok? — sorri

— Você é meu espirito familiar, você supostamente deveria ficar do meu lado. — Daichi fala se sentando perto de nós e abrindo as sacolas cheias — Ninguém o viu, certo?

— Eu sou bom no meu trabalho, diferente de você. — responde Fuyuki arrogantemente

— Ora seu....

— Por que pegamos comida escondidos? — pergunto

— Porque se nos virem iriamos ter problemas. — Daichi suspira — E Fuyuki é o único que consegue disfarçar sua presença, além do mais, não temos dinheiro, não trabalhamos

— Não podemos comer comida de youkai?

— Você já sabe cozinhar?

— Não

— Então certamente não podemos comer comida de youkai

— Por falar nisso. — Fuyuki interrompe — Eu trouxe o bolo e velas, vamos poder comemorar seu aniversario do jeito certo esse ano!

— Mesmo? — eu o abraço — Muito obrigada, Fuyuki!

— Não há de quê, pequena. — sorri balançando seu rabo — Ei, Daichi, ajeite as coisas pra ela!

— Eu não quero. — se deita

— Não me faça ir até ai te morder, seu monge preguiçoso

— Ok, ok, eu já vou. — se levanta resmungando

Daichi ajeita o bolo com as velas na pequena mesa de madeira da do templo e nos sentamos no chão em volta dela, os dois cantam parabéns para mim.

— Obrigada Fuyuki, obrigada Daichi! Vocês são os melhores! — levanto para abraçar os dois e volto ao meu lugar — Vocês dois são a melhor família do mundo e eu nunca poderia pedir por uma melhor!

— Nana, você... — Daichi me olhava assustado

— O que? — olho para cima e percebo o motivo dele estar tão assustado, uma grande bola brilhante rodeava minha cabeça, ela se dividiu em duas bolas menores e as duas flutuaram a minha frente

As duas bolas de luz criaram, cada uma, um rabo longo, patas curtas e uma cabeça retangular com orelhas triangulares, abriram seus olhos brilhantes, um tinha olhos que pareciam duas bolinhas completamente verde azuladas e o outro tinha olhos do mesmo tipo, mas eram amarelos cor de âmbar. O de olhos verde azulados mudou de cor branca para negra e ambos abriram suas bocas mostrando seus dentes triangulares, não parecia ter uma divisória entre seus lábios e dentes, o que ao fazia parecer com os desenhos de criança que eu faço. Os dois se espreguiçaram e começaram a rodear meu corpo.

— É ela, é ela? — perguntou o preto

— Nossa mestra, nossa mestra! — diz o branco

— O que são eles? — pergunto para Daichi

— Eu, eu acho que..... acho que você ganhou espíritos familiares....

— Como uma raposa? — pergunto animada

— Isso... — ele fala surpreendido e feliz ao mesmo tempo — Fez um bom trabalho, aprendiz de raposa. — sorri para mim

— Eu sou como uma raposa! — levanto animada correndo pelo templo com os estranhos gatos voando e rindo atrás de mim, eu abraços os dois e rodeio a mesa gritando de alegria.

— Como vai chama-los? — pergunta Fuyuki

— Hmmmm. — olho os dois por um tempo — A... — olho para o preto — Un..... — olho para o branco — A, Un!

— Esses nomes são um pouco..... — Daichi começa a falar, mas Fuyuki o encara ameaçadoramente — São ótimos

— Gostam do nome de vocês? — pergunto deles

— A, Un, A, Un! — repetem alegremente voando pelo templo

Comemos o bolo todos juntos e depois que terminamos, fomos todos para fora ver os vagalumes como de costume. Daichi puxou os futon do armário e os ajeitou para que dormíssemos, Fuyuki dormia ao pé de Daichi, enquanto A e Un se deitavam em meus ombros.

— Raposa, raposa, raposa. — eu cantarolava de olhos fechados

— Raposas gostam de silêncio para dormir, sabia?

— Isso é só com raposas velhas. — continuo cantarolando

— Se você dormir rápido, amanhã eu faço uma máscara de raposa pra você

— Mesmo?!

— Faço, mas só se ficar quietinha até dormir

— Eu irei. — ficamos no silêncio com nada mais do que o barulho das corujas e dos grilos lá fora — Ei, Daichi

— O que? — murmura com voz de sono

— Obrigada por hoje

— Não tem problema, pirralha.