Uma vida antes da luta
1 Capítulo único
Notas iniciais
Homens dificilmente se abrem.
E com Aramis não seria diferente.
Mas como reagir? Fazia um dia que havia reencontrado ela, reencontrado seu primeiro amor.
E ela havia morrido. Na sua frente, e por ele.
Aramis foi criado com a ideologia que homens não choram. Afinal, qual menino, jovem ou homem nunca ouviu isso? “Chorar é coisa de maricas”. Mas como segurar o choro? As lágrimas saiam involuntariamente de seus olhos, e a única coisa que ele conseguia pensar era na vida que ele perdera.
De novo.
Isabelle. Doce e forte Isabelle.
Ela sabia mais dele do que ele mesmo.
Ele podia ter se acabado em bebida, se acabado com outras mulheres, mas não. A memória de Isabelle merecia algo maior.
Merecia seu luto.
Aramis se deitou na sua cama, exausto. Ele não conseguira comer na janta e seu cabelo estava molhado por causa do banho que não fazia muito tempo que tinha tomado. Quando fechou os olhos, sentiu arder. Mas qual era a solução para agora? Qual seria? Ele mergulhou na escuridão dos sonhos, e ela estava lá. Estava pequena, aos dezesseis anos e com o mesmo rosto da garota que ele se apaixonou.
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ALGUNS ANOS ANTES
Aramis foi atender a porta de sua casa. Ao abrir viu que estava na sua frente a visinha, Isabelle, filha de um dos melhores amigos de seu pai. Ele sorriu, e seu sorriso era magnético.
Mesmo aos dezesseis anos Aramis tinha um dom com as meninas de dar inveja.
Se você comparar aquele Aramis com o Aramis mosqueteiro veria uma grande diferença. Antes ele era bem magro e com um cabelo de corte de campo bem aparado. Seu rosto não era contornado pela barba que ele ostenta hoje e suas roupas eram simples e folgadas.
- Sim, senhorita Isabelle?
- Vim encomendar um pouco da cachaça de seu pai? – ela disse com seriedade.
- Isabelle, desde quando virou uma beberrona? – Aramis provocou.
- Não sou uma beberrona! É para meu pai, obviamente.
- Pois entre.
Isabelle entrou, seu vestido de campo contornando muito bem seu corpo de jovem. Aramis a conhecia desde sempre já que eles têm a mesma idade, mas ele precisava confessar: quando foi que ela havia ficado tão bela?
Aramis se repreendeu. Não, ele não podia desejar as mulheres. Ele viraria padre e isto já estava decido. Seu pai confiava nele, confiava que seu filho mais novo se tornaria um grande padre, um representante da santa igreja.
Ele pigarreou antes de dizer.
- Siga-me que eu te sirvo o conhaque.
Aramis abaixou a cabeça ao passar pela porta do porão onde seu pai deixava o conhaque. Isabelle entregou a ele a jarra que trouxera consigo para colocar a bebida de seu pai. Enquanto Aramis se encarregava se encher o jarro, Isabelle o encarava.
Ele sorriu.
- Algum problema?
- Não. – ela abaixou a cabeça, envergonhada. – Só estava pensando.
- Em que exatamente?
- Em quando éramos crianças. – ela disse após hesitar um pouco.
- O que tem isso?
- Lembra, Aramis, quando brincávamos escondidos com as espadas de madeira do meu irmão?
- Lembro, e isso era idiotice.
- Eu não achava. Aliás, acho que foi bem útil.
- Útil em quê? – Aramis entregou a jarra cheia para Isabelle. – Eu serei padre, não preciso saber lutar. E você é mulher.
- Mas padres e mulheres também deve saber se defenderem.
Eles estavam saindo do porão, Aramis trancando a porta com a costa arqueada.
Isabelle riu.
- Qual o problema? – ele olhou para ela na defensiva.
- Nada. É que agora está tão alto que precisa ficar arqueado. Não me lembro de você ter ficado tão alto assim de uma hora para a outra.
- E eu não me lembro de você ter ficado tão tagarela.
Isabelle deu um chute leve na canela de Aramis e então continuou andando para sair da casa.
Na porta, Isabelle se curvou para dar adeus.
- Sua benção, padre. – ela zombou.
- Calada, Isabelle. – ele ficou um pouco irritado. Mas por quê? Ele não seria padre mesmo?
No fundo essa ideia de ser parte do clero era terrível.
***
Todo domingo de manhã Aramis e sua família iam para a missa. Era sagrado e nunca falhava. Aramis sempre se sentia mal pois nunca prestava atenção na celebração e nunca conseguia absorver nada. Qual era seu problema? Era tão pecador assim? Como seria um padre desse jeito?
Provavelmente seria o pior padre do mundo.
Isabelle e sua família estavam sentados uns três bancos para trás. Ele virou levemente sua cabeça e ficou surpreso. Isabelle estava tão concentrada na missa que parecia uma santa com seus cabelos castanhos lisos bem penteados e seu vestido bege. Algo brotou de seu coração, uma palpitação estranha e nunca sentida antes.
Ele abominou a sensação. Um futuro padre provavelmente não poderia sentir algo semelhante. Nunca mais.
***
A vila do campo em que Aramis morava era bem pequena. Todos se conheciam no lugar, sabiam da vida dos outros. Fofocas facilmente se espalhavam pelo lugar.
Aramis decidiu nadar no lago da floresta em uma tarde quente de verão. Sem que seu pai soubesse ele pegou a espada da família escondido e levou consigo. Se o pai descobrisse estaria morto.
Na borda do lago Aramis treinava. Seus adversários eram as árvores, mas que mal tinha? Era o único modo de aprender a manejar uma espada. Como os mosqueteiros do rei fazem mesmo? Ah, sim. Um golpe pra lá, um movimento aqui e touché!
Estava calor demais e voltar para a casa suado não seria inteligente. Seu pai provavelmente faria muitas perguntas. Então Aramis aproveitou e deu um mergulho no lago transparente e relaxante.
Ele nunca ficava sozinho como estava naquele momento. Sempre esteve na casa cheia de irmãos mais velhos e mais novos, sempre esteve perto do povo unido da vila. Estar ali sozinho era uma sensação nova.
Era uma sensação de unidade.
Ele fechou os olhos e relaxou os músculos que ardiam por conta da atividade física que era manejar a espada.
E então ouviu um som. Risadas femininas.
Ele abriu os olhos assustado.
- Ora, se não é o Aramis?
- O que faz aqui, Isabelle? – ele exclamou e então viu que uma amiga de Isabelle a acompanhava. – E Maxime.
- Viemos buscar umas ervas para a irmã de Maxime. – ela disse, desviando o olhar do peito nu de Aramis. – Ela acordou enferma hoje.
- E já encontraram a tal erva? – ele saiu da água e colocou apressadamente a camisa.
- Já sim, obrigada.
- Belle? – Maxime puxou Isabelle pelo cotovelo.
- Sim, Maxime?
- Precisamos ir rápido antes que o estado de Adele piore.
- Você pode ir na frente? Tenho algumas coisas para falar com Aramis.
Maxime encarou Isabelle como se ela fosse doida. Por fim cedeu.
- Não demore. E tome cuidado.
Maxime saiu apressada, deixando a amiga.
Isabelle soltou uma risada áspera.
- O que você tem para falar? – Aramis questionou confuso.
- Quando você vai para o seminário?
- Provavelmente no fim do inverno.
Ela fez que sim com a cabeça e mudou o peso do pé.
- E está feliz?
Ele deveria dizer a verdade?
- Estou, claro. É o sonho do meu pai.
- E seu? É seu sonho?
- Isabelle, por que está fazendo essas perguntas?
- Eu só quero saber se você está certo do que está fazendo, só isso.
- Não, não é só isso.
- Bem, vamos levar isso para um lado lógico. Você é bonito demais para ser padre. Acha mesmo que com essa aparência alguma dama prestará atenção na sua homilia?
O coração de Aramis palpitava loucamente naquele momento. Era estranho, mas ele aceitava e gostava do que sentia. Tudo ao redor se dissolvera e apenas Isabelle importava naquele momento.
Que nome se dá a esse sentimento?
Aramis analisou Isabelle. Ela era diferente das outras garotas da vila. Ela tinha uma beleza tímida, do tipo que não reconhece o quão bela é. Seus olhos eram grandes e expressivos, sua boca tinha formato de coração e cor de morango. Tudo nela fazia com que Aramis quisesse se aproximar e...
Antes que pudesse notar eles já estavam se beijando. Aramis ignorou o fato que seria padre e precisava estar longe de qualquer tentação, ignorou que Isabelle nunca seria nada para ele. Não poderia, certo? Beijar era bom, e, Deus, como ele poderia viver sem ao menos experimentar isso antes? Ele havia colocado sua mão esguia na cintura de Isabelle, e ela segurava seu pescoço, o beijo desesperado em razão de estarem fazendo algo proibido.
Quem ligava? Proibido é sempre mais gostoso.
Isabelle se soltou do beijo e encarou Aramis confusa.
- Não deveríamos ter feito isso.
Aramis não processava direito.
- Mas nós dois desejávamos isso, admita.
Isabelle colocou a mão atrás da cabeça, nervosa.
- Mas você vai ser padre, Aramis!
- E daí?
- E daí que isso significa que... significa que isso não poderá durar.
Aramis não tinha certeza do que fazer. Ele se aproximou de Isabelle e tocou em seu pulso.
- Mas será eterno enquanto durar. Que seja um segundo, um milésimo, eu quero. Eu quero estar com você.
Como podia se render tão rápido assim? Era engraçado, mas não foi tão rápido quanto parece. Anos eles se observavam, anos eles tinham algo em aberto entre eles no qual ambos não tinham coragem de admitir. Mas justamente agora eles se abriam, justamente agora que Aramis iria embora.
Mas eles ainda tinham alguns meses. Os últimos meses em que Aramis poderia vivenciar a chama do amor.
E o pavio da chama queimava rapidamente. Afinal, o tempo era curto. Isabelle e Aramis constantemente se encontravam as escondidas de noite, depois da missa e no porão da casa de Aramis. Seu pai notava algo diferente no filho.
- Aramis, ultimamente você anda sorridente.
- Ando?
- Sim. Há alguma razão em especial?
- Certamente não, pai.
- Hm, sei. Não esqueça de estudar bíblia antes de dormir, te peço. Espero um brilhante padre de você.
Era inegável que Aramis estava diferente. Seus olhos brilhavam mais, e ele dificilmente se irritava. Para ele o futuro pouco importava; ele apenas queria aproveitar intensamente seus meses ao lado de Isabelle.
Em uma madrugada aleatória Aramis saiu furtivamente de sua cama. Na manhã daquele dia ele recebera um recado de Isabelle dizendo que o esperava na floresta, na beira do lago em que haviam se beijado na primeira vez.
Em pouco tempo o verão iria acabar.
Ao chegar no lugar marcado, Aramis se assustou quando viu que ela havia preparado um banquete.
- Um picnic noturno? – ele sorriu.
- Gostou? – ela se levantou e deu beijo nele. – Lembro de você ter me dito que adorava bolo com frutas secas.
- Frutas secas são caras, não deveria ter comprado isso.
- Ei, relaxa! – eles se sentaram no pano esticado no chão. – Vamos comer em paz.
Olhar para ela é como olhar para o sol ao amanhecer. Uma sensação boa de recomeço, de proteção.
E ele temia o dia que se distanciaria dela.
- Há semanas nos encontramos. E a cada semana juntos que passamos, menos semanas teremos para passar futuramente.
- Isto está confuso.
- Você entendeu o que eu disse. E o que eu mais gostaria de fazer é congelar este momento e vivermos assim juntos para sempre.
- Aramis.
- Sim?
- Você ainda está treinando com a espada não é?
- Estou. – ele soou meio tímido. – Pode parecer estranho, mas as vezes sinto que a espada é uma extensão do meu braço, os movimentos saem naturais e eu gosto disso. É tão errado, mas o que eu posso fazer?
- Talvez você não deveria dar a salvação para as pessoas com uma oração. – ela disse enquanto passava a mão no peito de Aramis. – Talvez você deveria mandar os maus para o inferno com uma espada.
- Isso é ridículo.
- Aramis, desde pequenos você sempre teve um talento único com a espada! Não quero soar pretensiosa, mas sempre te observei e sempre notei essa sua vocação.
- E você acha que eu deveria me tornar o quê? Um mosqueteiro?
- Seria um dos mais talentosos, não duvido.
- E você iria comigo para Paris? Seria minha esposa?
O coração de Isabelle pulava forte.
- Não sei se conseguiria ser esposa de um guarda. Há muitos perigos do qual não suportaria imaginar você vivendo.
- E eu não suporto aceitar que esse nunca poderá ser nosso futuro. – Aramis suspirou derrotado. – Você nunca poderá ser minha esposa.
Ela o beijou para calar sua boca, e o beijo não foi calmo. Foi selvagem e apressado, como se ela odiasse e ignorasse o fato que não demoraria muito para se separarem. Ele colocou a mão nas costas dela, e ela auxiliou ele com a retirado do corselet. Ele olhou para ele em dúvida, e ela dizia “Continua”
“Confia em mim”
Ele era um menino. Ele tinha tantos medos e dúvidas. E ela fazia ele esquecer de tudo isso quando estavam juntos. Ela tirou a camisa dele, e quando viram estavam deitados na grama, os galhos das árvores tampando a visão do céu da madrugada, seus corpos entrelaçados sem nada entre eles, seus corações apaixonados...
Aquela era a primeira vez de Aramis. A primeira vez que ele sentia uma paixão verdadeira, a primeira vez que o amor era tão grande para seu corpo que precisava ser dividido em dois. A primeira vez que nada importava a não ser estar com aquela pessoa, a primeira vez que a adrenalina penetrava todos seus ossos e músculos.
***
Aramis estava sentado com seu pai, sua mãe e seus dois irmãos mais novos e uma das irmãs mais velha jantando. Ele estava preocupado com Isabelle. Ela estava doente e passando mal pela semana toda, e naquele dia seu estado havia piorado. Ela estava de cama. Ele não podia demonstrar tristeza ou algo do tipo já que ninguém sabia do relacionamento que ambos viviam.
a porta da frente da casa foi batida fortemente, e seu pai foi atender quem quer que fosse que batia na hora da janta. Aramis revirava a comida do prato quando ouviu passos furiosos invadirem a cozinha e uma mão fechar em punho na sua camisa.
Era o irmão mais velho de Isabelle.
- Como ousa...?
- Ei, qual o problema aqui? – o pai de Aramis gritou, os olhos esbugalhados.
- O problema? O problema é que seu filho se aproveitou de minha irmã Isabelle e agora ela espera um filho em seu ventre.
- Um filho? Como seria possível se Aramis está se guardando para ser padre?
- Eu ouvi! Isabelle estava delirando de febre na cama quando descobrimos sua gravidez. Enquanto ela dormia pudemos ouvi-la murmurar “Aramis” e não tive dúvidas que ele fez algo com ela.
- Filho? – Aramis sussurrou, o coração acelerado e a mente distante de pensar coisas sãs.
- Aramis, você confirma o que acaba de dizer?
- Sim. – Fazia boas semanas que aquilo havia acontecido, como ele havia sido tão estúpido? – O filho é meu e amo Isabelle.
- Aramis! – ele ouviu sua mãe exclamar.
- Eu vou te cortar em pedaços! – o irmão de Isabelle pulou em Aramis, e eles rolaram pelo chão, parando na rua em uma briga inconsequente.
Aramis sustentava bem a briga, os gritos de sua mãe suplicantes para ele parar. Mas como ele poderia?
Com um golpe, Aramis conseguiu derrubar o pesado irmão de Isabelle no chão, e ele colocou seus cotovelos em volta dele para prendê-lo. Ele disse entre os dentes.
- Isabelle não sofrerá desonra. Eu assumo.
Ele não conseguia se imaginar casado, é verdade. Aliás, quem consegue aos dezesseis anos? Mas não havia escolha.
Seu pai puxou ele até seu quarto e trancou a porta com força. Os olhos do patriarca da casa ardiam em chamas.
- Como ousou fazer isso comigo?
- Com você? – Aramis era um turbilhão de sentimentos.
- Comigo! Todos da vila sabem que você iria se tornar padre, e agora todos saberão que você terá um filho!
- Então é orgulho?
- Você não poderia ter sido menos idiota, não é mesmo? Pois saiba que casará com ela, e rápido, antes que apareça barriga!
- Caso! Eu a amo e seremos uma família feliz!
- Você nem ao menos tem uma profissão, meu Deus... – Aramis nunca vira seu pai tão desesperado.
Naquela noite mesmo Aramis foi visitar Isabelle. O pai da garota fervia Aramis com os olhos, mas pelo menos eles não achavam mais que Aramis havia seduzido ela. Provavelmente a ideia desse absurdo vinha porque quando ele era menino ele vivia rodeando as meninas da vila. Isso foi até saber que seria padre, claro. Sempre teve lábia, jeito e charme mesmo quando ainda era menino.
Ele entrou no quarto de Isabelle, ela estava deitada na cama com uma camisola bem solta. Ela soltou um sorriso fraco quando viu ele na porta.
Ele se aproximou e segurou forte as mãos dela, os olhos brilhantes e esperançosos. Ela estava abatida e com olheiras gigantes, mesmo assim linda como o pôr do sol.
- Nós vamos nos casar, Isabelle. Não precisa ter vergonha.
- Não tenho. Nosso filho é fruto de amor não de vergonha. – a mão dela tremia.
- De amor, sim. Eu te amo tanto, Isabelle. Tanto.
Isabelle levou a mão dele até o ponto onde ficava o bebê. Ele soltou um sorriso amarelo.
Não que um filho não fosse motivo de alegria, mas era tudo tão novo. Como ele podia imediatamente amar ou sentir-se preparado para toda sua vida mudar por um bebê que nem ao menos havia nascido? Ele era um monstro por sentir esse medo?
Lágrimas caiam dos olhos dela. Se analisasse bem perceberia que aquelas lágrimas não eram de alegria. Por que se agora eles poderiam ficar juntos, se Aramis não iria mais para o seminário? Por que ela estaria triste?
Eram tantas perguntas sem respostas.
***
Naquela mesma semana as duas famílias começaram a preparar o casamento. A previsão era de que no fim do próximo mês o casamento acontecesse. Para a vila eles ocultaram que a razão do casamento era uma criança que estaria por vim já que seria escandaloso demais e os vizinhos eram fofoqueiros e exagerados.
Por algum motivo desconhecido Aramis sentia que Isabelle estava distante dele. Os beijos não eram mais tão cheios de desejo, os olhares deles não despertavam tantos sentimentos quanto antes. Não era como se ele tivesse parado de ama-la. Mas ela sempre estava com um olhar abatido, distante, ela não deixava ser tocada como antes. Ele presumiu que talvez fosse o bebê.
A razão ele só iria descobrir anos depois. Engraçado.
Mas uma notícia chocante veio duas semanas antes do casamento.
Isabelle havia perdido um bebê.
Tragicamente enquanto caminhava sozinha pelas ruelas da vila dizem que ela sentiu uma grande dor e tombou no chão. Quando a socorreram ela sofrera um grande sangramento.
O bebê era tão pequenino, que nem criança formada ainda era. Aramis estava trabalhando com seu pai na fazenda quando chamaram ele com urgência para a casa da família de Isabelle. Ele chegou todo suado, o coração na mão.
Os olhos de Isabelle estavam inchados, sua aparência cansada e abatida. Ele se sentia em parte culpado por ter feito ela passar por todo esse estresse por um bebê que nem viria a nascer mais.
Seu filho, uma criatura de seu sangue, feita por ele do qual ele acreditou que cuidaria não nasceria mais.
O silêncio entre os dois disse mais do que qualquer palavra. Ele segurava a mão dela enquanto ela chorava silenciosamente.
No dia seguinte ao acordar ele viu uma estranha movimentação pela vila. Aramis decidiu visitar Isabelle, perguntar se ela estava bem.
Mas ela não estava lá.
Seu irmão explicou que seu pai havia levado ela para um convento longe dali. Aramis nunca sentiu tanta raiva em sua vida. Com uma espada e um mosquete velho de seu pai ele saiu para a floresta descontar a raiva em tiros e golpes. Engraçado como lutar o fazia pensar melhor. Ele deveria ir atrás dela? Deveria voltar com a ideia de ser padre? O que ele deveria fazer?
Tudo que ele acreditava em tão pouco tempo tinha mudado e então mudado novamente e novamente.
Agora ele estava livre de escolher seu próprio caminho.
Naquela semana mesmo ele pegou seus poucos pertences, um cavalo, uma arma, uma faca e uma espada, deixando para trás sua família. Seu pai simplesmente odiara a ideia dele sair assim, mas nada o seguraria ali. A dor tinha a capacidade de nos mudar, assim como o amor.
Por meses ele rodou em procura do tal convento. Ele dormia em igrejas quando se sentia exausto e se alimentava em custas dos outros. Muitas vezes ele entrava em duelos ridículos com bêbados apenas por um prato de comida. Se antes ele sentia raiva de Deus, ou dúvidas, neste momento sua fé havia redobrado. A fé mantinha-o vivo.
- Posso ser um filho horrível, meu pai. Nunca tive vocação para ser padre, nunca me senti tão próximo do Senhor. E justamente agora no momento que estou tão desesperado te procuro. Me desculpe e me dê um caminho. Por favor.
Procurar Isabelle havia se tornado uma missão em vão. Quando ele viu ele já havia chegado em Paris, o grande prédio dos mosqueteiros na sua frente. Nesses meses sozinho ele aprendeu a lutar, não era mentira. Sobreviver uma viagem sozinho requer muita coragem, e Aramis nunca se sentiu tão corajoso.
Uma vida nova surgia na sua frente. Ele sentia isso. Era hora de aceitar a perda de Isabelle, de sua antiga vida, e que agora tudo mudaria. Ele teria que aceitar esse seu futuro e abraçou a realidade.
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PRESENTE
Ao acordar de manhã, Aramis coçou os olhos e se espreguiçou, e então tomou colocou seu casaco e preparou suas armas. O trabalho continuava.
Em seu bolso do casaco sentiu algo. Uma folha? Ele pegou e abriu com um susto.
A letra. Ele reconheceria aquela letra até no inferno.
“Aramis,
A última vez que te vi era um garoto que nem barba tinha no rosto e era bem magro. Esse garoto se tornaria padre. E depois se tornaria marido e pai. Quem diria que esse garoto no fim se tornaria mosqueteiro?
Mas fico feliz. Era claro que o que sentíamos um pelo outro era amor juvenil. Eu te amei, Aramis, e você foi o único homem que amei em toda minha vida. Mas nunca faríamos um outro feliz. Nunca. Desde sempre foi claro que sua alma é guerreira, não pacífica. Que você só é feliz se seu sangue ferver em uma batalha, não vivendo no campo com várias crianças aos seus pés.
Não me ache um monstro, porque eu já me acho. Mas parte de mim não queria ter aquela criança. Eu te amava, e um filho seu era pedir demais. Era um sonho. Mas não daquele jeito. Quando eu caí no buraco da rua e perdi o bebê senti que assim era melhor, e senti que não poderia continuar daquele jeito. Seria um erro para nós ter um casamento. Você não faz do tipo de casar, e eu viveria infeliz te privando de seus sonhos.
Viver no convento eu encontrei consolo. Irmãs e confidentes. Não houve um dia em que não pensei em você ou no futuro que poderíamos ter tido juntos. Eu pedi ao meu pai para ir ao convento, e ele concordou. Afinal, quem iria casar com uma garota não virgem?
Fico feliz que tenha encontrado uma vida entre os mosqueteiros. E que tenha amigos. Espero que um dia tenha filhos, se desejar.
A mulher que você escolher amar será a mais sortuda das mulheres. Você se tornou um grande homem.
Para sempre,
Isabelle.”
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