Uma viagem ao paraiso
1 Capítulo I
Blair acordou de repente com o ruído de cachorros e vozes se aproximando. Por um instante ela gelou, ainda deitada, tentando descobrir o que estava acontecendo. Com o coração disparado e a respiração ofegante, teve medo de se mover. Estaria correndo perigo?
O calor do sol esquentava suas costas; sentiu a fina areia branca entre os dedos. Levantou a cabeça devagar e deu uma olhada em volta. Ninguém à vista. Estava em uma praia deserta, numa pequena ilha do Havaí. Mas tinha certeza de que ouvira vozes, e que fora aquilo que tirara sua tranqüilidade.
Escutou então o motor de um carro, e pulou em pânico para colocar a parte de cima do biquíni, que havia retirado para bronzear-se por completo, sem marcas. Os dedos tremiam enquanto tentava amarrar os cordões ao pescoço.
O minúsculo biquíni rosa-choque não era o tipo de peça que se vendesse em Ames, Iowa, sua cidade, mas era o modelo que se usava no Havaí. Encantara-se com ele em Honolulu, quando o iate em que viajava parara para uma curta escala. Era a segunda vez que o usava, pois sentia-se modesta demais para exibir seu corpo como as belas mulheres bronzeadas de Honolulu. Mas a praia parecia deserta, e afinal ela queria ganhar um pouco de cor.
Sorriu, lembrando-se do impulso que tivera ao passar diante da loja e ver os biquínis na vitrine, em Honolulu. Se seus alunos pudessem vê-la agora, ficariam chocados. Era sem dúvida o traje mais ousado de toda a sua vida. Ficou satisfeita ao lembrar-se que naquela ilha não encontraria nenhum conhecido.
Podia ainda ouvir os cachorros latindo ao longe, e o barulho do motor diminuindo. O que estaria acontecendo? Blair agarrou a toalha de praia e a miniblusa branca, de algodão. Depois calçou rapidamente as sandálias. Seus companheiros do iate encontravam-se na outra ponta da praia. Precisava descobrir o que estava acontecendo.
Mas não conseguia ir mais depressa. Correr era impossível. Os pés afundavam na areia a cada passo. O ar quente e úmido dificultava a respiração. Blair foi até a beira da água, onde a areia era mais firme. Para chegar logo até a outra ponta da praia precisou fazer um esforço enorme, e a distância parecia maior do que pensava.
Ouviu então outro motor, que logo foi desligado. E, depois, só restou o silencio e o estrondo das ondas quebrando na praia. Caminhou uns dez minutos e enfim enxergou o fim da praia. As pequenas dunas de areia branquíssima pareciam não ter fim, e a água era ainda mais clara naquele ponto.
Blair parou, atônita. Olhou para todos os lados. Para onde teriam ido Dan, Nate e Serena? Onde estava o pequeno bote com o qual chegaram à praia? Sentiu os sinais do pânico. Onde estavam os outros?
Virou-se para o mar e localizou o iate branco que os trouxera. Ao lado deste, avistou o pequeno bote se aproximando, com quatro pessoas dentro. Quando o bote encostou no iate, as pessoas subiram a bordo. Blair não queria acreditar no que via. Estavam indo embora! O iate começava a se mover e ganhar velocidade, cortando as ondas do mar aberto. Estavam indo embora, e sem ela!
— Dan! — ela gritou, furiosa por vê-los partir, deixando-a ali na praia.
Como podiam fazer uma coisa dessas? Inútil gritar, pensou, pois ninguém iria ouvi-la. A distância já era grande. Tirou então a toalha, para que seu biquíni rosa-choque, em contraste com a areia branca, pudesse ser avistado de longe. Será que nem olhariam para trás? Claro que sabiam que ela os acompanhara naquele passeio. Tinham de voltar para pegá-la!
Mas o iate se afastava rapidamente da praia. Aos poucos, foi sumindo no horizonte.
— Droga! E agora?
Blair bateu o pé na areia fofa e fitou o horizonte. Nunca imaginou que algo assim pudesse lhe acontecer. O que faria agora?
Suas maravilhosas férias de verão! Queria sentir-se livre e tranqüila, para que depois, quando voltasse a sua rotina no outono, tivesse deliciosas lembranças de praias tropicais. Mas ser abandonada em uma dessas praias não fazia parte do sonho.
Sacudiu a toalha e olhou outra vez para o mar. Correu a vista pela praia, para ver se sabia onde estava. Tinham chegado ali pelo mar, mas quem sabe não haveria uma estrada levando até a cidade mais próxima? No entanto, as palmeiras que rodeavam a praia eram próximas demais umas das outras, e dali onde ela estava não deixavam ver nenhuma passagem.
Frustrada, Blair deu uma última olhada para o mar e caminhou na direção das palmeiras. Quanto mais rápido entrasse em contato com o iate, mais cedo viriam buscá-la, pensou.
Ajeitou a toalha sobre as costas. A miniblusa branca que usava fora comprada junto com o biquíni. O tecido era fino e igualmente revelava as curvas de seu corpo. Também não a protegia muito do sol forte.
Já havia caminhado um bom tempo na pequena estrada empoeirada que descobrira saindo da praia deserta quando parou para enxugar o suor do rosto. O calor era infernal. Plantações de cana-de-açúcar acompanhavam a estrada, e em alguns pontos faziam um belo efeito de túnel no trajeto. Assim, a alta temperatura era um pouco amenizada, e por ali até soprava uma leve brisa.
Esperando fervorosamente que aquela estrada desse em algum lugar, ela continuou a caminhar. Não tinha a menor idéia das horas, pois o relógio ficara no iate.
— O relógio, e todos meus pertences — resmungou.
Estava suada, exausta e desanimada. E com muita sede. O cabelo curto e castanho estava despenteado. Sabia que o rosto deveria estar vermelho como um pimentão.
Enquanto andava, sua raiva contra a família Humphrey, em especial contra seu filho Dan, aumentava. O verão não fora o mar de rosas que ela imaginara. Dan e seus amigos eram rudes, egoístas e não respeitavam muito as outras pessoas. Naquele momento, desejava ser uma professora de línguas, e não de matemática. Assim poderia pensar em uma dúzia de adjetivos para descrever aqueles estudantes.
Os pais do rapaz não eram muito melhores. Ficavam o tempo todo preocupados com o próprio bem-estar, e pensando em como não havia nada de realmente bom para seu precioso filhinho. Fora deles a idéia de Blair dar aulas de matemática a Dan durante o cruzeiro.
A Sra. Humphrey não tinha nenhum senso de disciplina, e só queria que seu filho único se divertisse. Com as aulas particulares durante as férias pretendia reforçar os conhecimentos do rapaz, para que ele assim passasse de ano. Mas Dan não estava nem um pouco interessado em estudos, e mesmo assim a mãe esperava que tudo funcionasse bem, embora não fizesse o menor esforço para incentivá-lo.
O Sr. Humphrey, por sua vez, passava o dia inteiro trancado na sala de comunicação do iate, sem dar a mínima para o filho, a mulher ou os convidados.
Enquanto Blair continuava a caminhar, viu destacar-se na paisagem uma enorme casa branca térrea, cercada de belas árvores e com lindas flores nas janelas. Era grande o suficiente para ser um pequeno hotel. Ela apressou o passo. Tinha de entrar em contato com o iate antes que este fosse muito longe... antes que voltar para pegá-la se tornasse um problema.
Alguns metros à esquerda da casa avistou dois homens trabalhando junto a um caminhão. Por um instante, hesitou, mas seguiu caminhando na direção da casa. Além de ter de entrar em contato com o iate, estava com sede e precisava beber alguma coisa.
Ainda não se convencera de que a haviam esquecido na praia deserta. Imaginou quando se dariam conta de que ela não estava no iate. Dan, com certeza, não se importaria com sua ausência, nem chamaria a atenção dos pais para o fato. Quando descobrissem, provavelmente o Sr. Humphrey presumiria que ela estaria bem e que acharia um jeito de voltar para casa. Talvez só o Sr. Humphrey sentisse falta dela, uma vez que ela parecia ser a única com paciência para ouvir suas histórias, repetidas vezes sem conta. Mas, dependendo do humor, ele simplesmente continuaria seu cruzeiro sem se preocupar.
A varanda da casa parecia fresca e agradável. Treliças de madeira amainavam o calor do sol, e uma suave brisa vinda do mar refrescava o ambiente. Blair tocou a campainha e virou-se para admirar a vista. Era espetacular!
O oceano Pacífico se espalhava pelo horizonte, e havia plantações de cana em todo o lado esquerdo das terras que avistava dali. O lado direto era coberto de plantações de abacaxi. O panorama parecia um cartão postal!
— Quem diabos é você? — exclamou uma voz masculina, atrás dela.
Blair virou-se para se deparar com um homem alto e queimado de sol. Sua camisa aberta voava com a brisa, expondo o peito musculoso e bronzeado. Erguendo os olhos, observou-lhe o vigoroso pescoço, até chegar a um par de hipnóticos olhos verdes. O cabelo escuro emoldurava um rosto másculo, que a encarava.
A expressão dele era arrogante. Mãos na cintura, pernas entreabertas. Os ombros eram largos e musculosos, as pernas compridas e firmes, com os pés bem plantados no chão da varanda.
Blair examinou a fileira de pelos do peito, que desaparecia no jeans justo. Teve vontade de acariciá-los e sentir o calor daquela pele. Respirou fundo. Nunca pensara em fazer algo desse tipo, muito menos com um desconhecido. De onde viria esse estranho desejo?
— Eu... fiquei... fui abandonada na praia... — disse, finalmente, não conseguindo tirar os olhos do homem.
Os olhar faiscante parecia querer atravessá-la.
— Faz parte daquele grupo que estava na baía Hanioli?
Blair viu-o examinar seu corpo ponto por ponto.
— Não sei o nome do lugar. Viemos pelo mar até uma pequena praia aqui perto. — Ela ergueu a mão, apontando para a direção de onde viera.
O homem assentiu.
— Disse ao grupo esta manhã que era propriedade particular, e que deveriam sair dali o mais rápido possível. Onde você estava? Escondida?
Blair mal acreditou no que ouviu. Fora abandonado sozinha por seus companheiros de viagem, e agora lhe aparecia esse homem!
— Não estava escondida; estava só um pouco afastada do grupo. Eu.... queria um pouco de sossego, tirar uma soneca na areia...
A voz lhe faltava. Tentava ser razoável, mas era difícil, diante daquele monumento de músculos.
Era bem coisa de Dan Humphrey ter desobedecido o aviso para não chegar à baía. Era um rapaz mimado e só fazia o que tinha vontade, acreditando que o dinheiro comprasse tudo.
O homem a olhava com um ar de reprovação.
— Está invadindo propriedade particular — declarou.
— Bem, se pudesse chamar um táxi... — A voz de Blair falhou, quando lembrou-se de que não tinha um centavo na mão. Não achou que precisaria de dinheiro em uma praia deserta.
— Não há táxis por aqui. Para onde pretende ir?
Ele a examinava da cabeça aos pés, apreciando as formas que a miniblusa deixava entrever.
Apesar da arrogância do exame dele, Blair resolveu manter a cabeça erguida, como se estivesse vestida decentemente. Não queria mostrar que se sentia intimidada.
— Se puder chegar até a cidade mais próxima, darei um jeito de reencontrar meu grupo. Deve haver algum modo de...
Na verdade, começava a ter dúvidas se conseguiria retornar ao iate, mas não queria demonstrá-lo.
Os olhos faiscantes do homem a encararam por longos segundos, os lábios finos entreabertos. Blair sentiu a força daquele olhar. E não gostou nenhum pouco daquela sensação. Tentou outra vez.
— Se me disser ao menos como posso chegar até a cidade, não o incomodarei mais.
— Não há cidade por aqui. Você está em uma ilha particular... minha ilha. Disse a seus amigos esta manhã que não deveriam chegar perto. Apesar disso, eles invadiram minha propriedade, e você estava com eles. Acho difícil acreditar que eles a deixaram aqui por acidente... — completou com sarcasmo.
— São meus alunos — ela lembrou, ignorando o tom do homem e concentrando-se em seu pDanlema. — Como vou juntar-me a eles, então?
— Alunos? — indagou ele, com uma ponta de curiosidade.
— Sou professora particular de um dos rapazes que você expulsou. Pelo menos, deveria ser. Mas ele anda tão ocupado em se divertir que não há tempo para aulas.
— Deixe-me adivinhar, deve ser o loirinho — o estranho disse, com ironia.
— Como desconfiou?
Blair esperou durante alguns segundos pela resposta mas, como essa não viesse, resolveu continuar a falar.
— Seu pudesse usar seu telefone para entrar em contato com o rádio do iate...
— Não tenho telefone na ilha...
— Então como vou voltar ao iate?
— Devia ter pensado nisso antes de se esconder!
— Mas não estava escondida! — ela ergueu a voz, como se o homem não escutasse bem. — Eles me deixaram!
— E por que fariam isso? Por que a deixariam na praia?
— Devem ter esquecido que eu tinha vindo junto. Nós não conversamos muito, e essa foi a primeira vez que desci para um passeio com eles.
— Ou estavam bêbados demais para lembrar que você existia... — observou ele, mordaz.
Blair não disse nada. Provavelmente era verdade. Era o que aqueles rapazes queriam fazer: beber e se divertir. E os pais de Dan não tinham sucesso em fazer o filho estudar. Gastava apenas uma hora por dia com os estudos de matemática, e sem muita concentração.
No entanto, quando ela chamara a atenção dos pais para o pDanlema, eles acharam que a falha era da professora, e não do aluno.
— De qualquer modo, não posso ajudar — concluiu o estranho.
— E quem pode?
— Ninguém por aqui. Temos uma plantação de abacaxi. Não oferecemos condução para Oahu.
Oahu, a mais desenvolvida ilha do Havaí, era onde se localizava a capital do Estado, Honolulu, a base naval de Pearl Harbor e mais de oitenta por cento da população.
— Mas como posso chegar lá? Não quero ficar aqui para sempre.
— Há um barco que traz suprimentos para cá de vez em quando... você pode sair daqui nele.
O estranho estava descalço, mas sua postura era arrogante. Usava uma calça jeans justa, que lhe realçava a masculinidade. Blair não conseguia tirar os olhos daquele corpo bronzeado, sentindo um inexplicável desejo de tocá-lo, mas forçou-se a desviar o olhar.
— Quando será a próxima vinda do barco? — indagou, imaginando que a resposta não seria animadora.
— Talvez no fim do mês — o homem confirmou suas suspeitas.
A ponto de entrar em pânico, Blair fazia o possível para controlar as emoções.
— Mas... não tenho roupas, nem lugar para dormir, nem dinheiro. Que farei até lá? Faltam quase três semanas!
O estranho hesitou, tornando a observá-la de alto a baixo.
— Pois se veio aqui usando esses trajes sumários pensando em atrair minha atenção, foi perda de tempo. Fique sabendo que estou cansado de ver mulheres de biquíni... ainda que você leve uma certa vantagem...
Blair enrubesceu ante aquelas palavras. A última coisa que passara por sua cabeça naquela manhã seria encontrar alguém naquela praia deserta. Mas, antes que organizasse seus pensamentos, o estranho continuou a falar.
— Vou verificar se a esposa de Roy tem algo que possa lhe emprestar — E hesitou outra vez. — Quanto a um lugar para ficar, não há muita escolha. Há espaço de sobra aqui em minha casa. Quanto ao dinheiro, se precisar de algum pode trabalhar. Há sempre serviço a fazer em uma plantação. Quer dizer, se quiser mesmo trabalhar...
O tom da última frase fora carregado de tanto sarcasmo que Blair virou-se para não encarar o homem.
— Se não posso voltar ao iate, acho que não tenho saída. Sua esposa...
— Não tenho esposa — ele a interrompeu bruscamente. — Nem estou procurando. Portanto, foi perda de tempo ter sido “esquecida” aqui na ilha!
Blair estava atônita. Será que ele achava que toda mulher que vinha até a ilha estava atrás dele? Que arrogância, que convencimento!
— Asseguro-lhe que a única coisa que quero é voltar ao iate de onde vim — falou pacientemente, apesar de as emoções estarem em turbilhão. — Talvez, quando descobrirem que não estou a bordo, voltem para me pegar.
— Você pretende acampar na praia até que eles apareçam? — o estranho perguntou, secamente.
Blair balançou a cabeça, desanimada. Poderiam regressar só de manhã, quando aquele bando de rapazes descobrisse que haviam esquecido a professora. Além disso, nada garantiria que voltariam para pegá-la. Dan ficaria maravilhado com a idéia de não ter mais aulas particulares, e a Sra. Humphrey asseguraria ao marido que a professora estaria bem, e até a acusaria de ter se afastado de propósito. Então o que deveria fazer?
Estava com raiva e frustrada ao mesmo tempo. Que se danassem Dan e seus pais! Mas o que faria agora? Para começar, dali por diante, ficaria alerta ante qualquer proposta boa demais para ser verdade, como a de um cruzeiro a trabalho durante as férias.
Encarou novamente o sujeito pouco amável, relutando em perguntar qualquer outra coisa a ele.
— Não posso dormir na praia — declarou por fim. — Pode me recomendar outro local para ficar até o barco de suprimentos chegar?
— As casas dos trabalhadores são muito pequenas e simples, e não acredito que haja algum quarto sobrando. Aqui nesta casa há muito espaço. Decida-se já. Tenho mais o que fazer.
Não havia escolha. Como convite, era pouco animador. Mas Blair estava exausta demais para refletir. E aceitou. Ficaria e veria como resolver aquela situação o mais rápido possível. Quem sabe o iate não voltaria em breve...
— Obrigada, eu fico — disse timidamente. E, enquanto o estranho ficava de lado para deixá-la entrar na casa, acrescentou: — Ainda não sei seu nome...
— Chuck Bass.
— O meu é Blair Waldorf, Sr. Bass — estendeu-lhe a mão. — Muito prazer.
Ele retribuiu o cumprimento secamente.
— Prefiro não ser perturbado por mulheres que acham maravilhoso ter um relacionamento com o proprietário de uma ilha. Não estou a fim de romances de verão. Pode me chamar de Chuck. — Afastando-se, ele acrescentou: — Por aqui, Blair.
Ela não conseguia tirar os olhos das costas largas do homem, ao acompanhá-lo, e continuou a se defender.
— Mas eu não pedi para ser deixada na ilha.
Tampouco procurava um romance de verão. Depois, se ele era dono da plantação, provavelmente era rico. E ela não queria saber de relacionamentos com esse tipo de homem. Tudo o que queria era voltar para casa.
Chuck caminhou por um grande hall. No outro extremo, indicou uma porta aberta, onde parou até que ela entrasse.
— Aqui temos — informou secamente. — Quarto e banheiro.
Em seguida, Blair observou o homem ir embora. Teria ele escutado suas últimas palavras? Se não acreditara nelas, porque oferecera para que ficasse? E, se acreditara, por que parecia tão bravo? Se não queria que ela ficasse, certamente poderia resolver de outras maneiras aquela situação.
Virou-se para examinar o grande e arejado aposento. O quarto era simples, mas acolhedor. A mobília era em estilo francês: uma enorme cama de casal no centro, armário duplo e uma poltrona. Portas duplas abriam-se para um balcão que dava para o pátio. Olhando para a direita, Blair foi até a porta do banheiro da suíte, que tinha uma parede toda espelhada.
Estava horrível! O cabelo curto e encaracolado estava despenteado. O rosto vermelho, sem nenhum vestígio de maquiagem. Mas um pouco de água fria logo melhoraram as coisas. Abriu uma das gavetas e encontrou toalhas limpas.
— Lençóis.
Blair sobressaltou-se. Chuck estava de pé ao lado da cama. Deixou as peças de roupa caírem sobre o colchão e encarou-a.
Será que ele era sempre brusco daquele jeito? Ele a examinava de alto a baixo; outra vez Blair sentiu aquele impulso de tocá-lo.
— Jantar às sete em ponto — ele informou.
— O que farei até lá?
Estavam apenas no meio da tarde e ainda havia tempo até as sete. Deveria haver algo para fazer. Não seria melhor ficar na praia, à espera do iate?
— Faça o que quiser. Só não fique no meu caminho. Vou chamar a esposa de Roy.
E, sem dizer mais uma palavra, foi embora.
Bem, o homem não pretendia distrair nenhum invasor de sua propriedade, pensou Blair. Mas ela não tinha do que reclamar. Afinal, ele a recebera, apesar de relutante. Se não fosse isso, estaria ainda naquela praia à espera do iate.
E agora estava presa àquela ilha, até que o barco de suprimentos aparecesse. Ou até os Humphrey lembrarem-se de que ela existia. Enquanto pensava, a raiva era mais intensa, e resolveu investir a energia e fazer algo, como por exemplo arrumar a cama. O suave vento tropical movia gentilmente as cortinas finas, e dava uma sensação de frescor ao quarto. Estava calor, e ela já transpirava quando acabou de arrumar a cama.
Foi até a porta do balcão e abriu ambas as folhas. O pátio amplo surgiu a sua frente. Flores de todas as tonalidades enfeitavam a paisagem. Um par de espreguiçadeiras e mesas brancas de metal com guarda-sol completavam o cenário.
Blair fechou a porta, deixando o calor do lado de fora. Abriria mais tarde, quando não estivesse tão quente. Deitou-se na cama, imaginando o que faria até a volta do iate. E quando seria isso. Pensou em inúmeras maneiras de entrar em contato com os Humphrey, mas estava exausta demais para tirar conclusões razoáveis.
De repente, seus pensamentos voltaram-se para o anfitrião. Estava furioso por terem invadido sua propriedade, e Blair não o culpava, sabendo como os rapazes eram intrometidos. Certamente não era o tipo amável e simpático, mas fora cordial o suficiente para acolhê-la em sua própria casa até que essa situação fosse resolvida.
Mas parecia estranho não haver nenhuma forma de contato com alguém fora da ilha. Nunca pensou que pudesse existir alguém que vivesse de forma tão isolada do resto do mundo.
Quem era esse tal de Chuck Bass? Sempre teria morado naquela ilha? Por que insistira para que Dan e seus amigos fossem embora tão rápido? Um piquenique em uma ilha deserta parecia algo inofensivo, que não afetaria ninguém. Será que ele odiava todos os visitantes, ou só os jovens intrometidos? Não o culpava por tratar mal os rapazes, ela mesma já estava meio saturada deles.
Blair sorriu, imaginando a cena dos rapazes sendo expulsos por Chuck Bass. Já era hora de alguém dar um basta à farra deles. E Chuck devia ter feito isso sem muito esforço. Era forte e rude o suficiente.
Lembrou-se da silhueta dele parado na porta da casa, os olhos iluminando o rosto queimado, os ombros largos, o cabelo fino ao vento. Como um pirata, pensou: forte, rude e auto-suficiente.
Nunca sorria, aquele pirata. E virou-se para o lado com um sorriso nos lábios, deixando-se levar pelo sono naquela tarde quente e quieta.
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