Notas iniciais
Comemorando 100 views!! Obrigada *-*

CAPÍTULO VI

— Obrigada pelo bronzeador e pelo chapéu — Blair agradeceu, enquanto subia no jipe.

— Não há de quê. Espero que ajude.

Chuck assobiou e os dois cachorros surgiram do lado da casa e subiram no jipe. Checou se o cinto de segurança de Blair estava bem firme e acelerou.

Em três segundos ela já estava apavorada. A paisagem voava ao seu lado. Não havia portas ou teto no jipe, e ela sentiu que ia voar com o vento. Resolveu apertar mais o cinto de segurança.

— Onde vocês surfam? — gritou, para que Chuck ouvisse.

— Na parte norte da ilha. As ondas lá são maiores e a praia é agradável.

— Você surfa sozinho?

— Não, não é seguro. Uma pessoa sozinha pode cair na água e bater a cabeça na prancha. É preciso ter pelo menos duas pessoas. Muitos funcionários meus adoram surfar. Durante a colheita trabalhamos muito, e tentamos arranjar uma brecha de tempo de vez em quando.

— Mas no inverno é melhor?

— Sim, o trabalho é mais ameno, não exige tanto tempo. Assim podemos surfar dias seguidos, se quisermos. Quer experimentar também?

— Primeiro, pretendo observar.

Blair não tinha certeza se queria estar entre enormes ondas no meio do oceano. Gostava da idéia de mergulhar, mas não de ficar em cima de uma prancha. Agradava também a idéia de ver as pessoas surfando, achava um esporte muito bonito. E estava curiosa para ver como Chuck se saía com uma prancha.

A estradinha ficou estreita de repente e Chuck virou à direta. Logo a plantação de abacaxis deu lugar a cana-de-açúcar. Após um tempo, entraram em outra estradinha de terra e avistaram uma bela praia de areia branca.

Cerca de vinte homens e mulheres já estavam lá, alguns tomando sol e outros já no mar, surfando. Todos cumprimentaram Chuck, e ele devolveu o aceno alegremente.

— Onde está sua prancha? — Blair perguntou, quando desciam do jipe.

— Logo ali; Mike trouxe para mim. Costumo deixá-la na fábrica, já que quase sempre estou lá quando decidimos vir surfar.

Ele parou por um momento, percebendo a expressão apreensiva de Blair.

— Vamos lá. Acho que tenho que apresentar você a algumas pessoas.

— Não precisa fazer nada, se não quiser — ela murmurou, lançando um olhar furioso.

— As pessoas podem pensar coisas que não são verdade — Chuck disse, em um tom amargo.

— Será que devo mencionar que não simpatizo nem um pouco com você? — Blair provocou. Afinal, não era sua culpa o que as pessoas pensariam ou deixariam de pensar. Por que descontar em cima dela?

— Por mim, fale o que quiser. — O olhar era igualmente furioso. — Droga, não devia ter trazido você!

— Ora, pare com isso. O que importa se falem um ou dois dias. Logo vou embora, e saberão que seu precioso patrão não esteve em perigo com a professora de Iowa.

Chuck não agüentou e sorriu.

— Não sei do que está falando.

De repente Blair ficou confusa. Olhou para a praia, de onde as pessoas dirigiam olhares curiosos aos dois.

Quando Chuck fez as apresentações, os nomes ficaram vagando na memória de Blair. Havia mais de vinte pessoas na praia, e mais uma meia dúzia surfando. Ela sorriu e cumprimentou a todos, mas não conseguiu gravar os nomes.

Ficou imaginando o que acharam dela, sabendo que, mesmo se Chuck não tivesse dito nada, Nora já devia ter falado algo sobre a invasora, sobre todo o problema que estava causando. Qual seria o assunto entre eles?

Mas não havia olhares indiscretos ou mal-encarados, e Blair relaxou. Talvez Chuck estivesse exagerando as coisas, e ela resolveu aproveitar o passeio.

Quando ele entrou na água, ela estendeu sua toalha ao lado de uma mulher chamada Lisa, que estava grávida.

— Adoro surfar — Lisa disse, sorrindo para Blair. — Mas no momento não posso. Logo estarei em forma para as ondas do inverno. Àquele ali é meu marido, Mike. — E apontou para o mar.

— Ele e Chuck são amigos? — Fora ele quem trouxera a prancha de Chuck.

— Sim. São amigos há anos. Chuck vive muito isolado, principalmente desde que Melissa foi embora. Mike é seu amigo mais íntimo. Vivemos aqui durante todo o ano. Mas acho que, quando o bebê estiver mais velho, teremos que nos mudar para uma ilha maior.

Blair escutou outra vez o nome da ex-noiva de Chuck, e ficou louca para perguntar outras coisas. Será que Lisa tinha mais informações?

— Melissa?

Lisa corou, depois balançou a cabeça devagar.

— Desculpe, você não deve saber quem é. Melissa e Chuck foram noivos quatro anos atrás. Ela desmanchou o noivado depois de ficar aqui durante alguns dias. Não gostava de Manahakaloi, era muito monótono para ela. Queria gastar o dinheiro de Chuck em outro lugar.

Blair não tirava os olhos dos surfistas, com medo que Lisa parasse de contar coisas do passado de Chuck.

— Chuck adora este lugar. Começou a plantação quando era ainda um garoto, e melhorou muito as condições dos moradores. Não é simplesmente o proprietário, ele participa de tudo. Fez tudo para aquela mulher: construiu a casa, deixou-a decorar. Mas não foi suficiente.

— Melissa não queria morar aqui na ilha? — Blair virou-se para Lisa.

Será que o quarto em que dormia era de Melissa? Será que a frieza do ambiente fora escolha de Melissa? Talvez Chuck fosse outra pessoa sem a influência da ex-noiva.

— Não, queria morar em San Francisco, viajar pelo mundo, comprar coisas caras e sofisticadas. Foi apresentada a Chuck por sua mãe, e não estava satisfeita de viver em uma ilha. Queria as luzes e agitação das grandes cidades.

— Mas aqui é tudo tão lindo.

— Eu sei, também adoro este lugar.

— E por que vocês vão se mudar para uma ilha maior? Aqui parece perfeito.

— Mas não há escolas. Alguns pais ensinam seus próprios filhos mas, quando estes ficam maiores, precisam se mudar para um lugar maior, que tenha um bom sistema escolar.

— Aqui não há crianças suficientes para pagar uma professora?

— Chuck tentou várias vezes, mas nunca funcionou. As professoras acham muito isolado, ou que não há material suficiente, ou que o salário é baixo. Enfim, um monte de desculpas, se quer saber minha opinião. Acho que queriam viver em um paraíso e brincar com nosso chefe. Quando descobrem que ele não está disponível, saem daqui e vão para ilhas maiores.

Blair procurou os surfistas no mar até encontrar Chuck, sentado em sua prancha, esperando uma onda. Não era à toa que estava atento, de olhos bem abertos. Para ele, Blair não passava de mais uma professora que queria brincar com ele.

Resolveu então que não daria nenhuma razão para que Chuck achasse que ela tentava brincar. A única exceção seria ele pensar que ficara de propósito na ilha quando Dan e os outros haviam ido embora. Mas Blair mostraria que era uma professora imune a seu charme!

— Quantas crianças há na ilha? — perguntou.

— Cerca de vinte; catorze já estão em idade de ir para a escola. Acredito que se tivéssemos uma, alguns funcionários que deixaram a ilha voltariam correndo. Todos gostam daqui. Não há crimes nem violência, todos são amigos. O trabalho é um pouco monótono, mas o modo de vida compensa. Chuck faz rodízio com todos, dando diferentes tarefas a cada seis semanas. Isso ajuda muito. Ficarei triste quando tiver que partir.

— Talvez ele deva tentar outra vez, mas com uma pessoa diferente. Quem sabe uma professora mais velha, próxima de se aposentar, que adoraria passar alguns anos nesse paraíso.

— É uma boa idéia; por que não sugere a Chuck? — Lisa disse.

Blair não achou que ele receberia uma sugestão de sua parte, mas não falou nada a Lisa sobre isso. Se surgisse uma oportunidade, tocaria no assunto, se não escreveria a Lisa e pediria que conversasse com Chuck.

— O sol me deixa sonolenta — Lisa comentou, deitando-se na toalha e ajeitando os óculos escuros. — Vou tirar uma soneca.

— Cuidado com o sol — Blair avisou, apesar de Lisa estar tão bronzeada que não deveria ter pDanlemas desse tipo.

— Eu sei, já passei um filtro solar.

Blair sentou-se bem e observou os surfistas fascinada, enquanto balançavam com o movimento do mar. As ondas eram ainda maiores no inverno, pensou. Ficaria assustada se tivesse que enfrentá-las. Apesar de Chuck dizer que as maiores eram as melhores. Ele adorava esse tipo de desafio.

Focalizou-o enquanto Chuck ficava de pé na prancha, deslizando suavemente por uma onda até descer da prancha e remar outra vez de volta à parte mais funda.

O corpo balançava, aproveitando cada segundo da onda. Quando nadou para pegar outra, Blair percebeu por que seus músculos eram tão desenvolvidos. Provavelmente surfava desde criança.

Ela sentiu que o calor estava cada vez mais intenso. O vento soprava forte, mas abafado. Lisa estava adormecida, então Blair decidiu ir se molhar um pouco no mar, para refrescar. Deu uma olhada na praia e reparou que havia uma área deserta à direita. Havia muitas ondas também por lá, mas estava fora da linha dos surfistas. Não havia nadadores, mas Blair não ficou preocupada. Não iria muito longe, e teria uma bela vista da praia inteira.

Tirou o chapéu e a camiseta e caminhou pela areia fina. A água estava fresca e agradável. Refrescaria todo o corpo quando mergulhasse. O mar era convidativo. Começou a nadar até a primeira onda. A sensação era maravilhosa. Nadou então um pouco mais na direção do fundo, de costas. O toque da água em seu corpo era simplesmente delicioso, e ela soube que jamais esqueceria aquele momento. No próximo inverno, quando se sentasse em frente à lareira, se lembraria daquela praia, das cores vivas daquele paraíso.

Parou por um instante e vislumbrou a praia. Ficou um pouco preocupada ao perceber o quanto estava longe. Começou a nadar de volta, mas a maré era forte. Era como se nadasse e não saísse do lugar. Tentou braçadas mais fortes, mas era inútil.

A preocupação transformou-se em medo. Estava sozinha, longe da praia, e não conseguia voltar. As ondas não a carregavam para perto da praia, mas ao contrário. Estava cada vez mais fundo.

Ficou em pânico quando uma onda passou por ela, afundando sua cabeça dentro da água por alguns segundos. E se não conseguisse voltar? Estava ficando cansada, os braços e pernas pesados, batendo sem efeito sobre a água revolta. Tentou relaxar e começar outra vez a nadar até a praia. Mas os braços cansados não faziam com que sequer saísse do lugar. Estava cada vez mais fraca. E a praia cada vez mais longe.

— Blair!

A voz era familiar.

Ela parou de nadar e olhou em volta. Alguns metros adiante, avistou Chuck, sentado em sua prancha, remando velozmente com os poderosos braços em sua direção. Ficou aliviada na hora!

— Nade na minha direção! — ele chamou.

Blair tentou recuperar o fôlego e começou a nadar, forçando os braços e as pernas. Em poucos minutos Chuck estava a seu lado. Ele segurou a prancha e colocou-a sentada à sua frente.

Ela estava cansada e apavorada. Encostou a cabeça no peito musculoso de Chuck, buscando respirar, o corpo exausto e trêmulo.

— O que estava tentando fazer? — ele falou ao seu ouvido, enquanto a abraçava.

O calor do corpo de Chuck em suas costas geladas deram uma sensação de segurança imediata. Blair relaxou.

— Eu... eu queria apenas nadar um pouco. — E as lágrimas rolaram pelo rosto.

Ele abraçou-a mais forte ainda.

— Bem, você não escolheu um bom lugar para isso. Essa é a pior parte da ilha, onde o mar é mais agitado. Você não reparou na placa?

Ela enxugou as lágrimas e balançou a cabeça. Sentia-se a mais tola das mulheres.

— Andei pela praia, e achei que essa era a única parte que estava deserta: sem surfistas, sem nadadores. Então pensei que seria um local agradável.

Tentou então afastar-se do corpo perturbador de Chuck, mas os braços dele a seguravam firme enquanto a prancha deslizava pela água. Percebeu toda a sedução daquele homem, o calor de sua pele. Afinal, estavam colados um ao outro, e quase nus!

As pernas de Chuck eram musculosas e bronzeadas, e roçavam nas de Blair. Ela observou a imensidão do oceano e sentiu-se aconchegada e protegida. Queria virar-se para abraçá-lo, encostar todo seu corpo, sentir a pele junto à sua.

Encostou a cabeça no ombro de Chuck, percebendo os músculos enrijecerem. A prancha deslizava pelo mar, balançando ritmadamente, em silêncio. Blair fechou os olhos, segura nos braços fortes e másculos.

— Pretende dormir agora? — O tom era de brincadeira. Os dedos gentilmente acariciaram a pele do rosto de Blair.

Ela abriu os olhos e virou a cabeça para fitá-lo. A pele parecia ainda mais bronzeada ao sol, e os olhos mais brilhantes do que nunca.

— Obrigada por me salvar. Estava apavorada. Agora me sinto segura.

— Se fosse você, não me sentiria tão seguro assim — A voz era lenta, e ele virou-a de leve, capturando seus lábios e acariciando um dos seios.

Blair não conseguiu reagir, mas logo voltou a si. Afinal, a praia estava repleta de pessoas conhecidas. Fez um esforço para se afastar, desequilibrando a prancha. Chuck tentou estabilizar-se, mas era tarde demais. Os dois caíram na água.

Blair afundou e debateu-se para conseguir chegar à superfície. Procurou desesperadamente por Chuck, e ficou aliviada ao vê-lo logo ao lado.

— Sem beijos? — ele provocou.

— Estamos na frente de um monte de pessoas que conhecem você! Pensei que não queria se expor.

Ela evitou o olhar de Chuck, imaginando como conseguiriam subir na prancha outra vez.

— Essa é a única razão?

Blair evitou encará-lo.

— Vamos conseguir subir na prancha?

Chuck percebeu a mudança de assunto e sorriu, subindo rapidamente na prancha.

— Eu já subi. Como você vai subir?

— Pode me puxar daí?

O coração de Blair estava acelerado, e seus músculos cansados não aguentariam muito tempo dentro da água.

Chuck continuou provocando.

— Posso, mas vai lhe custar um beijo — disse, brincando.

Blair deu uma olhada para a longínqua praia; era uma distância muito grande. Indecisa, mordeu o lábio e encarou-o. Por que hesitava? Afinal, gostava dos beijos de Chuck. Não que significasse algo, isso ele já tinha deixado bem claro. Mas não tinha saída.

Então ela concordou, com um aceno de cabeça, sem dizer uma palavra.

Com muita facilidade ele a puxou para cima da prancha, mas dessa vez fez com que sentasse de lado. Então, puxou-a para si e beijou-a. Blair tinha ficado gelada com a água, mas quando seus seios roçaram o peito de Chuck, ela aqueceu-se na hora. Os lábios moviam-se com experiência, experimentando-a, abrindo espaço com a língua para penetrá-la. Os movimentos eram suaves e quentes, e Blair não pode resistir.

Deixou-se abandonar em seus braços, revelando todo o desejo que sentia. O braço esquerdo de Chuck a segurava, enquanto o outro acariciava toda a pele, aquecendo-a dos efeitos negativos da água gelada. Ele aproximou-se mais ainda, tocando os seios, enfiando os dedos por baixo do minúsculo biquíni.

— Queria tanto tocá-la — murmurou, com os lábios grudados nos de Blair.

Ela gemeu baixinho, o corpo em chamas, ondas de prazer anunciando todo o desejo que sentia. Era uma loucura maravilhosa, mas tinha que parar. Blair fez um esforço para afastar-se, e ele não protestou.

Chuck virou a cabeça e focalizou a praia.

Ela moveu-se cautelosamente, mas levou um choque quando Chuck abraçou sua cintura e a colocou exatamente onde queria, em sua frente, de costas.

— Podemos voltar agora? — A distância parecia enorme.

— Claro. — A resposta parecia natural, como se nada tivesse acontecido entre os dois.

Blair fitou-o outra vez. Estava tranqüilo, totalmente controlado. Agia como se um beijo não causasse nenhuma reação, não significasse nada. E ela sentiu-se abalada até o fundo da alma. Lágrimas atrapalharam sua visão, e ela virou-se para a frente. Nunca deixaria que ele percebesse o que sentia.

Chuck conhecia a ilha, o mar. Se achava que voltariam seguros até a praia, deveria ser simples. Ele caiu na água e virou a prancha na direção da praia.

— Vamos tentar pegar impulso com uma onda.

Antes que Blair dissesse qualquer coisa, ele foi para a parte de trás da prancha, e começou a empurrá-la com a força dos pés.

— O que devo fazer? — ela perguntou, já com a prancha em movimento.

— Tire os pés da água. Eles atrapalham o impulso. Depois, segure firme e aproveite o passeio!

E foi o que ela fez. Aos poucos a praia aproximou-se. E já era possível distinguir as diferentes pessoas que conhecia. Os surfistas já estavam perto, sentados nas pranchas, alguns observando-os, outros esperando a próxima onda.

— Ok, Blair; vamos pegar a próxima onda grande. — A voz de Chuck era calma.

— Mas não sei surfar — ela lembrou-lhe, já um pouco nervosa.

— Tudo o que tem a fazer é levantar-se quando eu mandar, e apoiar-se em mim, fazendo os movimentos que eu fizer. Não se preocupe, eu seguro você. Pronta?

— Não posso fazer isso. — Os olhos procuravam outra saída, mas só havia mar por todos os lados.

— Claro que pode. Fique de joelhos. Agora, calma.

As mãos de Chuck a seguraram firme enquanto ela ficava de joelhos, equilibrando-se para não cair na água. De repente, sentiu a onda se formando bem atrás dos dois.

Chuck ajeitou a prancha com as mãos, depois subiu, fazendo Blair ficar de pé e segurando-a firme junto a seu corpo.

— Relaxe. Tente manter o equilíbrio. E mexa-se conforme meus movimentos. Calma...

Pegaram a onda e ela sentiu algo inédito. O mar correndo em baixo da prancha, enquanto aproximavam-se velozmente da praia.

Blair quase pôde tocar a parede de água construída pela onda. O vento fez com que seu cabelo voasse, e o misto de água e sol fez um belo arco-íris pelo caminho.

Era assustador e fascinante ao mesmo tempo. Deixou-se envolver por aquela sensação inédita, confiando na habilidade do homem que a mantinha segura em seus braços. Podia sentir que ele se movia, ajustando constantemente a prancha, levando seu peso de um lado para outro.

— Segure firme, já estamos no fim — Chuck falou a seu ouvido.

E os dois foram jogados na água, pouco antes da onda quebrar na praia. Mas a água já estava pela cintura e não havia o menor perigo. Chuck estava a poucos metros, puxando a prancha.

— Você está bem? — ele perguntou.

— Puxa, foi uma maravilha! Obrigada! — ela exclamou, excitada com aquele passeio na prancha, com a beleza do dia, e com Chuck Bass.

— Fique longe da correnteza. Da próxima vez pode não ter tanta sorte — ele disse, mas não parecia bravo. Os olhos estavam brilhando.

Vários surfistas aproximaram-se e em um minuto os dois estavam cercados.

— Que onda, hein? Foi uma beleza!

— Você está bem, chefe? Estava tão longe...

— Pensamos em mandar um bote salva-vidas.

Por esses comentários Blair chegou à conclusão que tinha razão em estar apavorada. Estavam realmente em perigo. Mas Chuck fez com que tudo se resolvesse de uma forma tranqüila.

Na praia, Marco e Rames correram ao encontro dos dois, abanando os rabos, ansiosos para rever o dono.

Blair observou os homens e mulheres que cercavam Chuck. Era querido por todos, como pode observar. Estavam preocupados com ela também. Cumprimentaram-na pela exibição de surf, e lembraram os perigos da correnteza forte.

Quando Chuck voltou ao mar, Blair foi ao encontro de Lisa pela areia quente. Os cachorros caminhavam pacientemente ao se lado, acompanhando-a passo a passo.

— Você está bem? — Lisa perguntou.

— Agora, sim, mas fiquei um pouco assustada.

— Sinto muito ter adormecido. Deveria ter lhe falado sobre a correnteza. É muito perigoso mesmo para nós, que conhecemos a ilha.

— Deu para perceber.

Blair sentou-se e olhou os surfistas no mar. No futuro, só nadaria na pequena prainha perto da casa, e deixaria as grandes ondas para os experientes.

No futuro? Mas ela não tinha um futuro naquela ilha. Iria embora com os Humphrey, ou no barco de suprimentos. Chuck não faria nada para impedir que fosse embora. Na verdade, ficaria até satisfeito.

E ela também ficaria aliviada. Não havia mesmo nada para fazer naquela ilha. Apesar de achar que poderia haver algum trabalho que pudesse fazer por lá. Mas Chuck não havia dito mais nada, e talvez ficasse nervoso se ela tocasse no assunto. Ele não queria que ficasse na ilha. Seria bom um encontro casual enquanto o navio de suprimentos não chegasse, mas era só isso que podia esperar. Chuck havia sido claro nesse ponto.

Ela deitou-se, e tentou aproveitar o resto da tarde pensando no que faria se ficasse mais tempo por lá.

Já era quase final de tarde quando Chuck pegou a última onda até a praia. Caminhando rápido pela areia quente, com a prancha embaixo do braço, ele foi na direção de Blair.

— Pronta para irmos? — perguntou.

— Claro, quando quiser.

Ela ergueu os olhos para admirar o belo corpo a sua frente, a pele brilhando, com os pingos da água do mar escorrendo até os pés. Virou-se para Lisa e despediu-se.

— Oh, vamos nos ver novamente, tenho certeza — Lisa disse, em um tom amável.

Blair sorriu enquanto caminhava até o jipe. Gostara bastante de Lisa e achava que poderia ser uma boa amiga, se morasse na ilha. Talvez pudesse visitá-la antes de ir embora. Chuck assobiou para chamar os cães, que vieram correndo.

Enquanto dirigiam através da ilha, Blair trouxe à tona outra vez o assunto de sua partida. Estava se divertindo, talvez até demais. Se não fosse embora logo, não ia querer partir nunca mais.

— Chuck, um dos rapazes mencionou uma lancha. Será que não poderia me levar para uma das ilhas maiores?

No começo, ele não disse nada, mas Blair notou que os músculos do rosto enrijeceram. Finalmente, Chuck respondeu:

— Não, é muito longe e a lancha não conseguiria chegar. Estamos na colheita e preciso de todos trabalhando. Assim, não posso desperdiçar um funcionário para levá-la, mesmo se a lancha tivesse combustível para chegar até lá. Sei que mal pode esperar para sair daqui, mas terá que esperar o barco de suprimentos. Será que não consegue se divertir por alguns poucos dias? — A voz era curiosamente amarga e revoltada.

— É fácil falar. Você tem seus amigos, seu trabalho. Não sou o tipo que fica deitada o dia inteiro na praia, olhando para o mar.

— Trabalho não resolve tudo. Já tive dezenas de funcionários que não agüentaram ficar na ilha. Diziam que não havia como se divertir, e essa era a razão para quererem ir embora.

Blair pensou no que Lisa disse sobre as professoras.

— Talvez devesse trazer pessoas mais velhas, que já estejam mais assentadas, que não queiram viver em multidões ou em atividade constante e agitada.

— Talvez.

— Apesar de que, pelo que vi hoje na praia, todos adoram este lugar.

— Sim, mas mesmo assim falam em deixar a ilha.

— Só por que não há escolas para as crianças.

— Certo.

— Mas tenho certeza que você é capaz de encontrar uma boa professora que resolva isso. É só questão de achar a pessoa certa — ela disse, tentando ser razoável.

— Você quer esse emprego?

Por um longo momento, Blair pensou seriamente naquela proposta. Seria completamente diferente da vida que estava acostumada a levar. Como se fosse uma professora do passado: uma classe só, várias idades. Seria um desafio ensiná-los, prender seu interesse.

O coração acelerou quando ela encarou Chuck. Estava interessando-se demais por aquele homem e seu estilo de vida. Seria mais seguro voltar à sua vidinha em Iowa, não se fazer de boba como as outras professoras que passaram por ali. E, principalmente, não se apaixonar pelo inatingível Chuck Bass.

Ela balançou a cabeça devagar, agradecida com aquele convite inesperado.

— Acho que não seria a pessoa certa.

— Também acho que não seria.

E Chuck ficou em silencio pelo resto do caminho.