Uma vez Sonserina

8 Capítulo 8: As verdades que permanecem


A estação de Hogsmeade fervilhava de estudantes e malas encantadas se arrastando sozinhas pelos trilhos. Rose desceu os degraus do trem sem pressa, o vento frio bagunçando os cabelos e os pensamentos. Seu coração batia rápido, não por medo do desconhecido — mas pelo conhecido que, talvez, não fosse mais como lembrava.


A casa dos pais em Londres parecia exatamente igual ao que sua memória guardava: tijolos vermelhos, uma porta azul com a tinta um pouco lascada e vasos de plantas mágicas que cresciam mais rápido do que sua mãe conseguia podar. Quando Hermione abriu a porta com um sorriso aberto e os braços estendidos, Rose sentiu uma pontada no peito.


— Rosie! — disse Hermione, apertando-a com força. — Você está com olheiras. Está dormindo pouco?


— Estou... bem — respondeu, abraçando-a de volta. Você ainda me chama de Rosie. Ainda me aperta como se eu fosse mais importante que o mundo inteiro.


Rony apareceu logo em seguida, com avental amarrado torto na cintura e um cheiro inconfundível de molho de tomate.


— Espero que esteja com fome, porque eu fiz o almoço.


— O que significa que provavelmente teremos incêndios — comentou Hermione, tirando-lhe a colher da mão.


Rose riu. Era tudo tão familiar que doía. Ela atravessou o hall olhando os retratos encantados na parede. A mesma moldura com a foto do casamento dos pais, seu retrato de bebê rindo coberta de purê de cenoura, Hugo com um balde na cabeça…


Ela subiu para o quarto. Era igual — talvez um pouco mais arrumado. As estantes estavam cheias de livros e troféus de honra acadêmica, inclusive alguns que ela não lembrava de ter recebido. Mas o cheiro de casa estava lá. De lavanda, tinta de pena e biscoitos esquecidos no fundo da gaveta.


Sentou-se na cama e respirou fundo. Ali, sozinha por um instante, o vazio que sentia em Hogwarts parecia ainda mais gritante. A mudança de casa, de uniforme, de reputação... nada resolvera o que a fizera conjurar aquele feitiço em primeiro lugar.


Durante o almoço, Rony servia porções generosas de macarronada e Hugo fazia piadas infames sobre o novo monitor da Corvinal. Hermione, entre garfadas, contava indignada sobre um projeto de reforma do Ministério que envolvia usar magia para economizar tinta de pergaminho.


— Eles chamam isso de inovação. Eu chamo de burrice organizada — resmungou, o que arrancou gargalhadas de Rony e um comentário de Hugo sobre como “a tinta é claramente o maior problema do mundo bruxo”.


— Ainda não sei como você sobrevive com essa família, Rosie — disse Hugo, fazendo uma careta teatral.


— Comendo bem — respondeu ela, mordendo mais uma garfada.


Hugo sorriu, satisfeito com a cumplicidade. Eles continuam sendo meus. Eu continuo sendo deles, pensou Rose.


Naquela noite, antes de dormir, quase foi até o quarto dos pais para contar tudo. Subiu metade da escada com a intenção de bater à porta e dizer: mãe, eu fiz algo estúpido. Eu mudei tudo e agora não sei como voltar.


Mas parou. Porque, no fundo, ela sabia que parte daquilo tinha sido movido por vergonha. Por se sentir insuficiente. Por acreditar que, na sombra de Rony e Hermione, não havia lugar para sua luz. E agora, vendo-os ali, rindo e discutindo como sempre, ela começava a se dar conta de que talvez o problema nunca tenha sido a sombra — e sim a forma como ela a enxergava.


No segundo dia do feriado, toda a família se reuniu na Toca. Era como voltar no tempo — ou entrar em uma pintura mágica cheia de vozes, cheiro de torta e confusão organizada.


Molly Weasley apertou suas bochechas, Arthur mostrou um novo utensílio trouxa que fazia barulho ao apertar um botão, e Tio George insistia em testar novos feitiços de suas Gemialidades Weasley em qualquer um que passasse perto demais.


— Isso ainda é ilegal, tio George — comentou Rose, desviando de uma escova de dente que cantava ópera.


— Só se for detectado! — respondeu ele, piscando.


Foi no meio dessa algazarra que Albus surgiu pela porta da frente, tirando o cachecol e balançando a neve dos ombros.


— Ei! — exclamou, abrindo os braços para Rose. — Achei que você ia me evitar essas férias.


— Eu tentei, mas a Toca tem mais gente do que escapatórias.


Eles riram juntos, e Albus apontou com a cabeça para trás.


— Adivinha quem veio comigo?


Scorpius entrou logo depois, carregando uma vassoura e uma caixa de chocolate.


— Tia Molly me disse que só poderia entrar se trouxesse suborno.


— E chocolate sempre funciona — respondeu ela, sorrindo.


A entrada dele não foi surpresa. Desde o segundo ano, Scorpius passava parte das férias com Albus, dividindo tempo entre a casa dos Malfoy e a confusão aconchegante dos Weasley.


Mas, dessa vez, algo na forma como ele a olhou... ficou no ar. Como se tivesse algo que não era dito. Como se houvesse um segundo plano atrás da piada.

**


Mais tarde, enquanto todos jogavam snap explosivo na sala, Rose escapou para o jardim atrás da Toca. O céu estava limpo e gélido, e o campo coberto por uma camada fina de neve. Sentou-se no pequeno banco sob a macieira, sentindo o frio morder os dedos.


— Fugindo da gritaria? — disse uma voz atrás dela.


Scorpius se aproximou, sentando-se ao seu lado sem pedir.


— Você tem um talento especial pra me encontrar em fugas — comentou ela.


— Ou você que tem talento pra desaparecer e me obrigar a vir atrás.


Silêncio.


— Você vai mesmo ao baile com o Lucas? — perguntou ele, repentinamente.


— Sim.


— Você quer ir com ele?


Ela o olhou de lado.


— Você quer que eu vá com ele?


Scorpius deu um meio sorriso.


— Eu quero que você faça o que quiser. Só não gosto da ideia de você com alguém que sorri demais.


— Isso é um problema pra você?


— Um pouco.


Ela riu, e por um instante, o frio pareceu mais distante.


— Zoe vai com você, né?


Ele assentiu, olhando para os próprios pés.


— Ela está muito animada.


— E você?


Scorpius demorou a responder.


— Estou tentando. Mas às vezes eu olho pra ela... e percebo que queria estar olhando pra outra pessoa.


Rose prendeu o ar sem perceber.


Scorpius pareceu perceber o peso do que dissera. Então sorriu, quebrando a tensão.


— Mas pelo menos a comida na Toca ainda é boa.


— Isso é indiscutível.


— E o chocolate funcionou?


— O suborno? Com certeza.


Ficaram ali mais um pouco, em silêncio confortável. Um momento quieto em meio ao caos que era crescer. Rose encostou a cabeça no ombro dele sem pensar. E ele não se mexeu.

**


Na volta pra casa, no final do dia, Rose subiu para o quarto com um cansaço leve e um coração agitado. Ficou um tempo sentada na cama olhando o teto.


Havia mudado tudo — a casa, os colegas, a casa em Hogwarts, até o lugar que ocupava no mundo. Mas ali, naquele fim de semana, percebeu que nem o mundo mais ajustado resolveria o vazio que sentira.


A resposta não era ser outra pessoa.


Era entender que, mesmo com dúvidas, medos e imperfeições, ela ainda era Rose. Filha de Hermione e Rony. Neta de Molly. Prima de uma legião. E talvez — só talvez — alguém por quem Scorpius olhava diferente.

Notas finais
Gente, eu tô com essa história finalizada. Me controlando muito pra não soltar tudo de uma vez...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.