Uma troca de olhares
1 Capítulo único
Ele era o mais popular do campus, embora não parecesse querer ser. Era o melhor do time de vôlei da faculdade, mas não agia como se fosse uma estrela. Era reservado, “low profile”, quase não postava nada, também aparentava não ter muitos amigos. O talento era inegável e ele parece ter conquistado, com o sucesso, uma fama que não tinha muita certeza se queria. Era inegavelmente bonito, e seu jeito meio tímido o deixava ainda mais interessante. Mas parecia não notar ninguém. Nem as fãs emocionadas, que iam assisti-lo nas partidas, nem as garotas lindas do campus que olhavam e flertavam com ele pelos corredores da faculdade.
Mas, numa tarde de setembro, ele me olhou. Na verdade, me pegou no flagra observando-o. Eu sempre fui discreta e evitava olhar tempo o suficiente para que ele percebesse. Mas, dessa vez, foi inevitável. Ele me olhou de volta, e vi refletida nos seus olhos a mesma intensidade com que eu o encarava. Um calafrio imediatamente sobe pela minha espinha, meu sistema nervoso interpreta seu olhar como se fosse uma ameaça. E ficamos nos encarando, à distância, por um tempo que não consigo precisar. Ele sustenta o olhar e eu também, o que me surpreende. Em outras ocasiões, eu teria desviado, fingido que não estava olhando. Mas agora eu queria que ele soubesse. Queria que se desse conta de que eu o admirava e de que eu o queria, se ele quisesse também.
Nunca fui muito boa de interpretar os sinais, mas aquele olhar não parecia ser de alguém que cruzou o meu por acaso. Parecia que estava esperando por esse momento e agora estava satisfeito que aconteceu. E quando eu menos espero, ele levanta do banco onde estava e vem caminhando até mim. E de todos os lugares naquele refeitório, ele para na minha frente e se senta. Deixa sua bandeja de comida próximo a minha, dá um sorriso e fala:
- Oi, tudo bem?
E, sem saber como reagir, respondo automaticamente, como se fosse uma criança de 5 anos que acabou de ser ensinada sobre as regras sociais e como ser educada:
- Tudo e você?
Ao que ele responde, com um sorrisinho de canto que sempre foi minha morte e, agora, era direcionado a mim:
- Melhor agora.
Clichê e piegas. Mas não resisto. Dou uma risadinha que demonstra o quão caidinha por ele eu sou, como se ele com certeza já não tivesse percebido.
- Legal.
É o que sou capaz de responder. Meu cérebro parece trabalhar numa velocidade imparável, mas minha boca e meu corpo não acompanham o ritmo frenético. Embora minha cabeça faça 50 milhões de sinapses por milésimo de segundo, consigo apenas externar palavras aleatórias e desconexas.
Mas, após a dessensibilização inicial, o papo parece fluir, ainda superficial, dado o local e o fato de que é a primeira vez que realmente nos falamos. Mas, mesmo na superfície, consigo notar o quão profundo ele é. Parecido comigo de uma forma peculiar. O tempo passa e noto uma notificação no celular. Minha aula de Teoria da contabilidade começa daqui 15 minutos e ele compartilha que tem prática de semiologia no mesmo horário. Faz medicina, já está no 6° período. O sonho é ser médico da família.
Então nos despedimos, um meio abraço, uma troca de telefones e a promessa de que ele me liga quando chegar em casa. Meu cérebro desdenha da ideia, mas meu coração acredita. Mesmo que ele esteja tomado pelo viés da emoção, ignoro a opinião racional e me apego a essa sensação deliciosa de me sentir escolhida pela primeira vez.
E no fim, ele liga mesmo. No meio da noite, enquanto estou com os livros abertos e espalhados pela cama do meu dormitório na faculdade. E, quando atendo, esqueço do mundo ao redor. Nossa troca acontece tão natural que parece que nos conhecemos há dias e não que tivemos nossa primeira conversa há poucas horas. E de ligações que vão madrugada a dentro, passamos para encontros cada vez mais frequentes. Sejam no intervalo da faculdade, após a aula, nos fins de semana, no seu quarto do dormitório ou no meu. Um sentimento tão genuíno começa a crescer, e que não me apavora. Pelo contrário, me acalma. A certeza da reciprocidade me acalenta e me conforta. Um amor tranquilo, assim como nós dois.
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