Uma surpresa para Marion
1 Capítulo único
Marion acordou aquela manhã com a porta de seu pequeno apartamento em Quitar sendo esmurrada com força. Ela esfregou os olhos cansados – praticamente havia acabado de se deitar para dormir depois de uma noite inteira lutando contra criaturas mágicas para manter a paz naquela cidadezinha, e se sentou na cama.
— Marion! Abre a porta! — A voz gritava, e Marion não precisou de mais nem um segundo para reconhecer a quem ela pertencia.
Conhecia a voz da irmã de cor.
A mulher se ergueu, ignorando os cachos bagunçados que caiam por sobre seu rosto, e caminhou com certa urgência até a porta de entrada. Assim que chegou do outro lado da sala, moveu os dedos — que brilhavam com círculos azuis — e fez a chave levitar de onde estava, guardada em um potinho de vidro em cima de um móvel de madeira, e se encaixar sozinha na fechadura. Moveu os dedos novamente e destrancou a porta.
Ali estava a irmã, Ellen, e Marion se surpreendeu com o quanto ela estava crescida. Claro, haviam se visto pessoalmente pela última vez há uns nove, talvez dez anos, e na época Ellen era uma criança ainda. Agora já era uma adolescente, com cabelos fartos e ondulados como o da mãe e olhos carinhosos como o do pai. Ela usava um vestido solto, e estava com os braços cruzados tentando se esquentar – afinal, era pleno inverno em Quitar, e ela não tinha nada para protege-la do frio.
— Ellen, entra! — Marion cobriu a distância até a porta com duas passadas longas e puxou a irmã para dentro. Usou seu poder para trancar a casa e, com mais um movimento, trouxe flutuando o cobertor grande que tinha em cima de sua cama. Assim que a peça chegou voando na sala, Marion a pegou e a enrolou ao redor da irmã.
— Valeu, Marie. — A jovem agradeceu, puxando o cobertor para cobrir até seu queixo. Agora que a irmã estava aquecida e não corria o risco de congelar no inverno da cidade, Marion a olhou.
— O que está fazendo aqui? Como chegou? Quando chegou? Está tudo bem em casa?
— Por Draím, eu fui presa e não sabia? Achei que os interrogatórios eram especialidade de Emma. — Ellen deu um sorriso de lado, fazendo uma covinha aparecer em sua bochecha, traço que ela herdara da mãe. Marion ergueu uma sobrancelha e jogou o cabelo para trás, afastando-o do rosto.
— Ellen, você nunca quis vir pra Terra; o que mudou agora? E sim, isso é um interrogatório.
— Nossa, Marie, você era menos mandona quando estávamos em Nnanrena. — A garota olhou em volta. — Gostei do seu apartamento. Bem mais confortável do que a base.
— Ellie... — Marion se aproximou e segurou os ombros dela, dando-lhe uma chacoalhada.
— Tá bom, tá! Então... você não vai gostar muito.
— Desembucha! Você era mais falante quando era criança — Marion olhou fundo nos olhos da irmã adotiva, que fez bico e desviou o olhar.
— Eu me meti numa briga feia. De novo. E a mãe... não gostou muito. Ela me mandou pra morar um tempo com você.
Se não fosse o fato de Ellen ter desviado o olhar ao falar aquilo, Marion teria rido da brincadeira. Mas ela conhecia os trejeitos da irmã, portanto sabia a verdade contida nas palavras.
— A mãe fez o que?
— Ela tava brigando comigo por causa do que eu fiz e simplesmente abriu um portal e me mandou pra cá, puff! — Ellen abriu as mãos e uma poeira prateada saltou de seus dedos para dar ênfase na última palavra. Depois, jogou o corpo para trás e se deixou cair no sofá. — Ela quer que eu fique um tempo aqui... acha que vai ser bom pra mim.
— A mãe sabe que eu trabalho, né? Não posso ficar cuidando de você o dia inteiro! — Marion se sentou ao lado dela, extremamente cansada. Já não bastasse seu trabalho como psicóloga e como super-heroína, sob o manto de Capitã Amanhecer, agora ela teria que cuidar da irmã?
— Eu não sou mais criança! — Ellen reclamou. Depois balançou sua própria mão, fazendo a areia prateada que saia de dentro dela própria surgir no ar; começou a moldar um travesseiro e, quando estava grande e fofo o suficiente, Ellen estalou os dedos e fez a peça de magia se transformou em um objeto real. Com um sorriso, ela pegou o travesseiro e o encaixou atrás da cabeça, suspirando.
Irritada, Marion puxou o travesseiro recém-criado e o bateu com força contra o braço da irmã.
— Ei!
— Você não é criança, mas se comporta como uma! E você nunca esteva na Terra, não sabe se virar por aqui. Não temos magia, princesa, e você não pode sair por ai criando suas coisas como se fosse algo normal.
— Primeiro, nunca mais me chame de princesa. Segundo, você e a mãe são realmente iguais, hein? — Ellen pegou seu travesseiro de volta e se ajeitou no sofá. — Olha, se você quiser, fala com a mãe e se entende com ela. Eu tô cansada, vou dormir um pouco.
Marion se ergueu do sofá e foi se trocar no quarto. Tinha perdido todo o sono que estava naquela manhã, e precisava urgentemente ter uma conversa séria com a mãe. Colocou seu casaco mais quente por cima do seu traje de super-heroína, que sempre usava quando ia sair de casa para qualquer emergência.
Marion voltou para a sala e encontrou Ellen dormindo profundamente; deu um suspiro, sem saber se estava mais irritada com a mãe ou com a irmã naquele momento, mas mesmo assim se abaixou para ajeitar o cobertor ao redor do corpo da mais nova e depositar um beijo em sua testa. Afinal, não se viam pessoalmente há quase dez anos, e Marion, por mais irritada que estivesse, estava feliz por tê-la ali.
*
— Você tinha que ter falado comigo primeiro, mã! — Marion reclamou, virando-se de frente para a projeção mágica que permitia a conversa entre dois mundos. Do outro lado da projeção, usando um vestido estonteante e uma coroa na cabeça, Eulëyn ouvia atentamente as reclamações da filha adotiva. Ao seu lado, Bruce estava sentado no chão, lendo algum livro de capa de couro; vez ou outra, ele erguia o olhar para a filha ou a esposa, mas sabia que era melhor não se intrometer naquele momento.
— Eu sei Marion! Mas eu não tava mais conseguindo lidar com isso. Ela entrou em não sei quantas brigas só no último mês, as coisas estão impossíveis! Brigando por uma mudança no treinamento ou por uma determinada espada, onde já se viu?
— E você achou que a melhor alternativa era abrir um portal, tacar ela na minha porta e foda-se? Mãe, eu trabalho! Eu não só faço parte da Resistência, mas eu sou psicóloga! Eu tenho meus pacientes e tenho que cuidar da cidade, eu quase não paro em casa. — A mulher negra ergueu as mãos de forma frustrada. — As coisas aqui já estão uma loucura.
— A Ellen sabe se cuidar, filha... ela pode ficar na sua casa enquanto você trabalha. — Eulëyn tentou argumentar, o que apenas fez Marion rir irritada:
— Claro, pra quando eu voltar ela ter remobiliado meu apartamento inteiro com móveis feitos de magia!
Do chão onde estava sentado, Bruce riu. Marion olhou pra ele com as sobrancelhas franzidas, e seu pai adotivo fechou o livro e parou de rir ao perceber o olhar que ela lhe lançava.
— Desculpa — ele sussurrou, apertando os lábios. Marion revirou os olhos.
— Esquece. Mãe, tem certeza que você não consegue ensinar ela? Você criou eu e o Tharin e, tirando as batalhas reais, nós dois nunca nos metemos em briga.
— A Ellen é mimada, Marion. Muito culpa nossa, claro. — A rainha de Mitéra confessou, olhando de soslaio para o marido. Depois, inesperadamente, sorriu. — Mas ela é esperta e vai saber se virar ai. Acho que vai ser bom pra vocês duas... você não se importa, não é?
Marion ergueu os olhos e encontrou os da mãe, olhando-a com uma súplica velada. A jovem tentou sustentar a pose de série que estava, mas a imensidão colorida que eram os olhos de sua mãe pareciam ler sua alma; por fim, Marion suspirou e sorriu.
— Eu preferia que você tivesse me avisado antes. Mas não, não me importo de ter ela aqui por um tempo... se ela souber se comportar, mã. Se não eu vou abrir aquele portal na Sala do Portal daqui da base e tacar a Ellen dentro.
Finalmente, os três puderam rir juntos de maneira descontraída. Eulëyn apoiou a mão na projeção, e Marion fez o mesmo; era o contato mais próximo que poderiam ter.
— Quem sabe eu e sua mãe não damos um pulo aí na Terra... pra ter uma conversa com a Ellen e pra rever você? — Bruce perguntou com um sorriso também, o que fez a filha abrir um outro sorriso.
— Sério? Tragam o Tharin com vocês, ‘tô morta de saudades do meu irmão! — Ela pediu.
Os pais balançaram a cabeça e se despediram dela; a projeção mágica se apagou pouco a pouco. Marion ainda ficou um tempinho a mais parada na sala escura, respirando fundo para se acalmar; amava a família, mas era cada complicação que às vezes ela desejava ter nascido em uma família normal.
Mas o sentimento passava rápido.
Ela deixou a base da Resistência, um dos únicos lugares na Terra que tinham magia suficiente para abrir uma projeção multidimensional, e voltou para a casa; geralmente, faria esse caminho voando – usando seu poder para mover a si mesma com a mente. Só que ainda estava dia, e ela não se deixaria ser pega pelos olhos humanos.
Encontrou sua irmã sentada na sala, assistindo tevê e comendo pipoca de uma vasilha vermelha. Marion balançou os dedos para trancar a porta e se surpreendeu com o quanto Ellen parecia adaptada à Terra para alguém que tinha vivido os últimos 15 anos na terra. Ela se jogou ao lado da irmã.
— Falei com a mãe. Você pode ficar aqui sem problemas.
— Tô sentindo um “mas”...
— Você tem que se comportar, é sério. Sem sair usando os poderes deliberadamente; aqui em casa tudo bem, mas fora daqui não dá.
— Nem na Base? — Ellen perguntou, se arrumando para ficar lado ao lado da irmã. Estendeu a ela o pote de pipoca.
— Nem na Base porque tem gente do FBI que a Emma chama que não são da Resistência.
— Tá bom — a garota concordou, dando de ombros. Marion mexeu no controle da tevê até colocar em um filme da Marvel que ela amava. — E tem mais uma coisa.
— O que?
— Você vai ver todos os filmes da Marvel comigo.
Ellen se encostou mais ainda em Marion, colocando a cabeça em seu ombro. Marion passou o braço por cima dos ombros dela e o apertou de leve.
— Tô feliz de você estar aqui, Ellen. Mesmo sendo por causa de brigas por espadas e posições no treino. Sério?
— Depois eu explico.
As duas se apertaram uma contra a outra e começaram a ver o filme. Marion não esperava aquela surpresa, mas estava feliz por ter recebido a irmã em sua casa.
Mal podia esperar para o que aquela visita traria.
Notas finais
Logo logo espero trazer mais contos delas duas vivendo juntas
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