Uma seleção mágica
10 Capítulo 10 - Vigilância constante
Notas iniciais
Lily
Todas queriam saber como foi meu encontro, mas fui poupada quando Marlee chegou pra nos levar pra jantar.
Fiquei tentada a não sair do quarto. Perguntei a Lea e Mona se alguém tinha ido a meu quarto. Elas disseram que não. Isso tava ficando ridículo e, ao mesmo tempo, assustador. Depois de tantos cuidados, eu quebraria o Estatuto de Sigilo por uma besteira? Lembrei da noite passada.
Quando as criadas foram embora, eu tentei mandar uma mensagem pro Alvo sobre o dia. Pra não preocupar mamãe. Dentro do quarto não tinha um bom sinal, devido as paredes antigas. Fui pra varanda. Lá tinha um sinal oscilante, mas tentei assim mesmo. Um pássaro voou perto de mim. Tive medo e o celular escorregou. Caiu no chão. Olhei se tinha alguém a vista, o recolhi e voltei pro quarto. O estrago não foi grande. Nada que um reparo não resolvesse. Eu desembrulhei minha varinha escondida embaixo do colchão e o consertei. Tentei mandar a mensagem mas o sinal continuava ruim. Desisti e fui tentar dormir.
Eu tava dentro do quarto. Janela fechada. Ninguém viu. Mas a segunda mensagem era bem específica. Alguém sabia que eu era bruxa.
Depois do jantar, Sara anunciou a quem quisesse ouvir que Ahren havia convidado ela para um piquenique noturno. Tudo o que eu precisava pra fechar o dia.
Marlee tinha nos avisado que no dia seguinte iríamos aparecer no Jornal Oficial. Teria uma matéria sobre os selecionados e nós seríamos entrevistadas. Na semana seguinte, seria a vez deles. Lea comentou que provavelmente haveria um número menor de garotos, por isso vão adiar a entrevista deles.
Fiquei olhando o vestido novo que elas me fizeram. Parecia uma noite de lua cheia, azul escuro, com detalhes brancos.
Enquanto eu lia um pouco, ouvimos uma batida na porta. Mona me olhou para perguntar se podia abrir e eu assenti. Era Ahren.
– Ei... achei que estava ocupado hoje a noite. — eu disse depois que as meninas saíram discretamente.
– Eu estava. Praticamente dormi em cima de um bolo de chocolate.
– Hmn. Encontro difícil?
– Se fosse difícil seria interessante ainda. — rimos e ficamos um pouco em silêncio na varanda.
– Não sei porque me conta essas coisas.
– Também não sei. Você me dá uma sensação inédita. Sinto que posso ser livre. Ser eu mesmo.
– Você não tem sido você mesmo?
– Não durante a maior parte do tempo.
– Posso entender isso. Dispensou a Sara?
– Ainda não. Tenho que ir com calma. Quem sabe ela se revela interessante? — ele riu como se duvidasse disso — Ainda é cedo. Quer assistir um filme ou algo assim?
– Claro. Porque não? Vou pegar meu casaco.
E porque não? Eu estava lá. Ele era um cara legal. Lindo. Tava me dizendo que eu fazia ele se sentir bem. Poque negar um tempo a mais com ele?
Quem se importa com pessoa-anônima-que-sabe-que-sou-bruxa?
Ren
Quando ela me perguntou o porquê de partilhar certas coisas com ela, não soube o que dizer. Mas optei pela verdade. Lilian era, de longe, a garota mais interessante que conheci hoje. E sei que devo ir devagar com as eliminações. Minha irmã tem que parecer mais decidida que eu. Mas isso não me impede de aproveitar as companhias que tenho. Lilian Potter é um refrigério. Não se deslumbra com a realeza. Não é falsa e fingida só pra me agradar. O que conversamos é real e importante. Ela se importa com o mundo. Se importa com os outros. E não se importa em discordar de mim. As coisas são como são.
Assistimos um filme e subimos conversando. Era incrível como alguém do outro lado do mundo podia me entender tão bem. Mas sentia algo a preocupando. Quando ela se distraia, seu olhar preocupado percorria todo o cômodo.
– Minha querida, sinto que algo a preocupa. É algo em posso te ajudar?
– Ow... na verdade é só saudade de casa. Não se preocupe.
– Está gostando da estadia aqui?
– Claro. Illéa é ótimo. E o senhor é um getleman.
– Que bom que fui aprovado ao estilo inglês. — disse ele em meio a risos — Aqui a deixo. Tenha um ótima noite de sono.
Lily
A noite foi maravilhosa. Era estranho gostar tanto de conhecer um cara que eu achei que conhecia. Tinham blogs sobre ele. Eu li vários. Mas ele era além das palavras. Realmente gentleman era o mais perto que eu chegava de uma definição.
Dormi pensando como não tinha pista, mas enviaria uma carta ao meu pai relatando o ocorrido no dia seguinte. Antes ele que a minha mãe.
Pela manhã lembrei da recomendação dele para não comentar nosso segundo encontro. As outras podiam se chatear.
Johanna me puxou depois do café para contar que ele a havia mandado um bilhete solicitando um encontro.
Eu não ficaria chateada por ela. Era uma boa amiga aqui. E se ele gostasse dela, queria que fosse feliz.
Quando ela retornou, bem a tempo da nossa aula de história, não pude deixar de perguntar como foi. Ela me contou que foram ao cinema e que ia adorar quando fosse. Eu ri e concordei, pra não estragar meu acordo com Ahren.
A tarde, uma criada trouxe uma carta do meu pai. Ela foi escrita, como a minha, em uma tinta invisível. Fui ao banheiro e passei a varinha por cima.
"Ruivinha, que bom ter notícias suas. Peguei sua carta antes da sua mãe e é o motivo pelo qual você não recebeu um berrador. Foi um lapso que pode trazer más consequências. Vou revisar de novo todas pessoas daí e suas famílias. Talvez tenha que ir aí disfarçado em breve. Não posso falar mais.
Fique atenta, ande com sua varinha, e não faça magia.
Escreva pra sua mãe logo. Ela não vai gostar se todas as cartas forem endereçadas a mim.
Vigilância constante."
As palavras do meu pai sempre me acalmavam. Pra quem tinha lutado tanto... Passado por tantos perigos... Ele sempre sabia o que fazer.
Voltei pro quarto. Escondi a carta. Guardei a varinha e me preparei pra ser arrumada. As entrevistas eram hoje. Manter-se calma mesmo com mil preocupações é uma exigência. Eu estou na seleção. E ninguém vai me tirar daqui.
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