Uma segunda chance
10 Capítulo 10 - Deixe recado após o bip
Notas iniciais
Já passava da hora do almoço e eles ainda estavam debaixo daquele sol esturricante instalando aros de basquete no quintal de trás da casa.
John na verdade estava só ajudando já que Peter era o único que ficava pendurado, fazendo malabarismos nas alturas para instalar os aros numa altura que achava adequada.
Enquanto ajudava alcançando as ferramentas necessárias e as peças para o lobisomem, se distraiu ao lembrar-se de sua visita ao veterinário dias antes. Deaton tinha sido claro sobre sua opinião sobre Peter. Falara coisas horríveis e John não conseguia acreditar que estava sendo tão ingênuo a ponto de ser totalmente enganado.
*Início do Flashback*
Deaton pegou a fita e examinou. Parecia ser a fita original com as gravações de Thalia.
John falou das coisas estranhas que notou não só naquele dia, mas nos outros também, a respeito de Peter. Dos olhos que mudavam de cor, e ficavam vermelhos sem nenhum motivo aparente. Das frases que dizia e que não faziam sentido até ele ver a fita, onde Laura dizia a mesma coisa.
Deaton largou a fita na mesa de inox e se afastou.
–Eu suspeitava que tivessem feito algo assim, mas não tinha provas até agora – comentou.
–Então você os conhecia bem? – perguntou o xerife para testar o veterinário, já que o tinha visto nas gravações.
Deaton riu.
–Sim, eles foram meus alunos quando eram pequenos — Thalia tinha mandado os dois estudarem com ele, numa tentativa de que eles ficassem entretidos e fizessem outra coisa senão aprontar com o resto da família.
John deu uma risadinha e disse que achava que não foi bem isso que aconteceu.
Deaton virou e o encarou.
–Você parece o conhecer bem – disse o veterinário, e pareceu avaliar John.
–Sou observador – respondeu o xerife, com a voz despreocupada.
O veterinário sorriu e ofereceu café, que John prontamente aceitou.
–Eles se interessavam pelos assuntos mais estranhos como magia negra. E eu podia jurar que alguns livros sumiam, e depois de um tempo reapareciam fora do lugar – pareceu pensativo -As aulas pararam quando percebi que eles estavam usando os animais da clínica como cobaias em suas brincadeiras mórbidas – disse, fazendo John arregalar os olhos — Desde pequeno, Peter já demonstrava vários transtornos de conduta, que poderiam já ser sinais de psicopatia. Achei melhor deixá-lo afastado do que poderia lhe dar mais ideias erradas.
–E quanto a Laura? – perguntou John.
–Ela se negou a estudar sem Peter. Ela era muito ligada nele – respondeu, depois de bebericar o café.
–Você disse que ele demonstrava vários transtornos de conduta, ao que realmente se referia?
Deaton ficou sem graça e estava claramente incomodado com o rumo da conversa.
–Peter sempre teve problemas para se relacionar com outras pessoas. Tinha desvios de conduta.
John ficou na dúvida a que ele se referia.
–Ele sofria ou praticava bullying ou algo assim? – tentou entender.
Deaton negou com a cabeça.
–Ele se envolvia romanticamente com pessoas bem mais velhas.
Isso fez com que John se lembrasse da aproximação de Peter e Melissa, e como ele se esqueceu de comentar o quão mais jovem era.
–Quantos anos ele tinha quando começou com esse comportamento? — John perguntou.
–Tinha acabado de completar dezesseis quando se envolveu com Mark, um professor da escola. Boa parte da alcateia achou que seria um perigo mantê-lo ali, e no fim Thalia como Alfa acatou a decisão da maioria, pelo bem e segurança do grupo. Ele não tinha dezessete quando Charlie nasceu.
–Quem é Charlie?
–Charlie foi o resultado da aventura dele com o tal professor.
John cuspiu o café que estava tomando.
–Como um relacionamento homossexual pode resultar numa criança? – O xerife achou que tinha entendido errado — E por que diabos a família abandonaria um adolescente grávido sozinho?
–Lobisomens de nascença podem gerar filhos, mesmo sendo do sexo masculino – o veterinário explicou — E Thalia não o jogou na rua. Ela o colocou em segurança num apartamento, onde ele ficaria longe dos olhos de todos e a salvo de caçadores.
John ainda parecia insatisfeito com a resposta.
–E que fim teve o tal professor? – perguntou, por fim.
–Depois que Charlie nasceu eles acabaram se reaproximando, e a família aceitou a união dos dois. E para todos os efeitos, eles pareciam uma família feliz.
John se lembrou da foto de Peter com o bebê, e como ele sorria. Suspirou, pois sabia que a história não terminava ali.
–Tanto o professor quanto o bebê morreram num acidente de carro dois anos depois. Na época suspeitaram de sabotagem já que o carro estava totalmente sem freio – falou o veterinário, com o semblante sério.
John pareceu alarmado.
–E você suspeita que foi Peter – ele constatou. Deaton consentiu com a cabeça.
–Ele ficou extremamente perturbado na época e Thalia teve que mantê-lo preso por mais de três meses no porão da Mansão, até ter certeza de que ele não era mais um perigo.
John achou horrível trancar alguém assim durante tanto tempo. Era pior do que o pai do garoto Lahey fez.
–Apesar de ficar preso, Peter nunca ficou sozinho. Laura sempre ficou ao seu lado, mesmo com ordens expressas da alfa para manter-se afastada.
–Achei que alfa era o mais alto nível hierárquico – ele comentou, em dúvida.
–Laura era um caso à parte. Desde pequena ela mostrava que seria uma alfa. E por isso, nada nem ninguém conseguiria afastar os dois.
–Por isso os olhos dela brilhavam um vermelho intenso mesmo quando era pequena — como ele vira na fita e com Peter.
Deaton consentiu.
–Não consigo entender como ele teve coragem de matar Laura e como sequer conseguiu se ela era tão forte assim, e ele tinha acabado de sair de um coma.
O veterinário dá um sorriso triste.
–Sempre achei que os dois tramaram isso junto, que tinham feito alguma espécie de pacto. Mas minha teoria foi por água abaixo quando o corpo de Laura foi achado cortado ao meio.
John pareceu pensativo por alguns instantes. Ele levantou-se e andou pela sala.
–Seria plausível eles terem feito isso, mas algo imprevisto pelos dois aconteceu e ela ficou sem um corpo? O que aconteceria com ela nesse caso? – inquiriu curioso.
–É plausível. Nesse caso, ela permaneceu com ele, pelo menos até esse ponto. Mas o caso é: ele morreu logo depois, e duvido que isso estava nos planos deles.
–Mas ele voltou usando magia negra – retrucou o xerife.
–Não – negou o veterinário – Alguém voltou. Se a sua teoria está correta, poderia ser o Peter, poderia ser a Laura, os dois ou até mesmo alguém totalmente diferente. Eles certamente tinham algum conhecimento sobre o que era necessário fazer, mas estavam longe de ser especialistas no assunto.
John se assustou com a possibilidade de ter alguém ou algo desconhecido se passando por Peter.
–Nunca saberemos ao certo então – concluiu irritado ao ver que não conseguiria todas as respostas que queria afinal.
– Na verdade há um jeito – disse Deaton, ao virar e procurar algo em um de seus armários. Ele voltou e depositou um pequeno saco com um pó fino na mão de John.
*Fim do flashback*
–John! John! Está me ouvindo? – perguntou Peter, com uma expressão preocupada para o amigo – Acho que ficou muito tempo no sol – comentou, ao colocar a mão na testa do outro – Talvez seja melhor entrar e beber alguma coisa.
John pareceu acordar com a sugestão.
–Algo estupidamente gelado seria ótimo – ele concordou com um sorriso bobo no rosto. Peter riu.
Eles seguiram para a cozinha. Peter não demorou a pegar os copos, a travessa de gelo e latas do seu refrigerante preferido.
–Eu tinha pensado algo mais na linha de suco de cevada – comentou John, desolado ao olhar o refrigerante no balcão – Se você pegar pra mim, eu sirvo seu copo – ofereceu, com cara de pidão.
Peter balançou a cabeça e levantou para pegar a cerveja na geladeira. John aproveitou-se de que Peter estava de costas para despejar o conteúdo do saquinho que o veterinário lhe dera. Em seguida ele despejou uma quantidade absurda de cubos de gelo, como Peter gostava e serviu a Coca-Cola quando Peter já estava voltando para o balcão. Peter não notou nada estranho quando ao entregar a cerveja para o xerife.
–Você está bem? Seu coração está acelerado – perguntou olhando-o estranho.
–Só nervoso – respondeu John, com sinceridade.
Peter sorriu e começou a beber seu refrigerante. Ele bebeu quase o copo todo e John não percebeu diferença alguma.
–Provavelmente o tal pó não teve efeito algum — pensou John, voltando sua atenção para sua cerveja gelada.
Ele levantou a cabeça quando viu Peter levantando e despejando o resto de sua Coca-Cola na pia.
–Você está bem? – perguntou, estranhando a atitude do lobisomem que era viciado em Coca-Cola.
–Peter não pode responder no momento. Gostaria de deixar recado? – perguntou ao se afastar da geladeira e virar para John, com a jarra de limonada na mão.
John parecia surpreso demais para responder.
Ela encarou com seus olhos vermelhos por alguns segundos, em seguida voltou sua atenção para o seu copo e se serviu.
–O que quer que você tenha colocado no refrigerante deixou ele dopado e com uma dor de cabeça absurda – a pessoa a sua frente comentou depois de olhar para o canto direito. Parecia conseguir ver Peter.
–Laura? – perguntou John impressionado que tivesse realmente funcionado.
–Yeap – ela concordou – Você é realmente um bom detetive. Exatamente como Peter falou.
–Vocês conversam entre si, então? – John pareceu assustado. Ela fez que sim com a cabeça.
–Pescou tudo muito rápido e até conseguiu me chamar aqui – disse impressionada, levantando o copo saudando-o.
–Você deu todas as dicas – justificou o xerife – Eu só as segui.
–Não, eu só dei a chave para que você pudesse entender a mensagem – negou calmamente.
Ele franziu o rosto.
–Como sabia que eu veria a fita ou que procuraria Deaton? – estranhou John.
–Não sabia – ela respondeu, deixando-o perplexo – Mas esperava, no entanto.
John parecia ainda não acreditar e ficava encarando.
–Sua mãe nunca disse que é rude encarar os outros? – comentou Laura ao levantar as sobrancelhas. Em seguida bebeu um pouco da limonada.
–Não foi minha intenção ofender – desculpou-se John – É só que é muito estranho. Por mais que seja o mesmo corpo, está tão diferente – afirmou, reparando na postura que era diferente, na delicadeza dos movimentos e no olhar forte que ela tinha.
–O que esperava? Somo pessoas diferentes – resmungou entediada.
–Mas como isso sequer é possível? – ele perguntou abismado.
–Você deve ter uma ideia se falou com Alan – ela comentou com um pequeno sorriso.
Ele concordou, mas sua expressão se fechou. Parecia irritado.
–Algo errado? – ela perguntou, preocupada.
–Deaton respondeu minhas perguntas, só não sei se as informações são confiáveis.
–Por quê?
–Uma coisa que aprendi no meu trabalho é confiar no meu instinto. E algo me diz que tem algo mais – ele passou a mãos no cabelo – Eu tenho acompanhado Peter desde que Derek e Isaac estão com ele, e nada do que Deaton disse bate com o que vejo diariamente.
–Ele contou o que sabia, o que era quase nada – comentou Laura, despreocupada.
–O que quer dizer? – ele perguntou, não entendo.
–Você prestou atenção à fita? – ela perguntou. Ele respondeu que sim – E o que achou?
Ele parece pensar um pouco antes de responder.
–A impressão que tive era que Peter parecia ser muito sozinho. E parecia sensível demais para fazer todas as atrocidades que Deaton falou – ele por fim responde.
–Não é irônico que alguém de fora conseguisse ver isso de cara, enquanto todos que estavam perto ignoravam? Eu estava certa em mostrar isso para você. Você é perfeito – disse, com um sorriso — Peter precisa de um amigo mais do que nunca, alguém que consiga ver como ele é realmente, alguém que o entenda. Alguém que o ame – ela explica, fazendo-o arregalar os olhos.
Ele parecia um pouco sem graça.
–Então, há quanto tempo está interessado em Peter? – perguntou, depois de bebericar sua limonada.
Ele abriu a boca, mas não conseguiu emitir nenhum som. Parecia um peixe fora d'água. Ela riu de sua expressão.
–Não adianta mentir, seu coração dispara sempre que fica muito próximo dele ultimamente – ela comentou, deixando-o sem graça. Ela sorriu quando percebeu seu desconforto – Não se preocupe. Peter não notou nada. E dificilmente notará, já que o dele também dispara quando você se aproxima demais – contou em tom de fofoca, surpreendendo John. Ela riu — Ele provavelmente não tem o mesmo nível de interesse, mas o pensamento já lhe passou pela cabeça. E como ele é um bicho do mato com praticamente zero experiência em relacionamentos não consegue evitar pensar no assunto quando te vê e fica todo encabulado – ela falou como se achasse a timidez dele a coisa mais fofa do mundo – É um milagre que ele não fique parecendo um tomate ou gagueje toda vez que fica perto de você – ela riu – Vai ver que finalmente ele está aprendendo.
–Deaton disse que ele teve um filho e um relacionamento com alguém mais velho. Como ele poderia ser praticamente inexperiente em tudo? – perguntou John, não entendendo.
–O que ele te disse exatamente, xerife? – ela estranhou sua reação.
John contou como Deaton pintou Peter como uma criança problemática, um adolescente promíscuo e um adulto homicida. Laura ficou lívida de raiva.
–Mentiras. Peter não era nenhuma dessas coisas – ela afirmou – Ele foi o melhor amigo que já tive. Ele sempre foi extremamente carinhoso com todos, e poucos eram com ele. Quando éramos pequenos nós aprontávamos, e daí? Morávamos numa casa gigante no meio do mato, sem vizinhos para brincar e não tínhamos com o que nos ocupar. Éramos um pouco levados, mas isso era sinal de saúde, não de problemas.
–Ele disse que Peter maltratava animais – contou para ver a reação dela.
Laura parecia horrorizada e enojada com a ideia.
–Não era bem assim. Só estávamos tentando aplicar o que estávamos aprendendo por conta própria – explicou.
–Com magia negra?! – ele perguntou espantado.
–Negra, branca, rosa. Qual a diferença? Magia é magia e ponto. O que é importante é o uso que você faz dela. E nós estávamos tentando salvar os animais que estavam condenados e em fase terminal – ela reparou que ele parecia surpreso com a informação – Ah, acho que ele se esqueceu de contar os detalhes. Que conveniente – comentou com um sorriso debochado.
–Ele também disse que ele era promíscuo e que se envolveu com um professor da escola quando era menor de idade e teve um filho com ele – decide provocá-la para ver sua reação.
–Como alguém pode ser promíscuo quando só se envolveu com uma única pessoa na vida toda? – ela retrucou, fazendo-o se calar — Ele estava perdidamente apaixonado por Mark quando aconteceu. E provavelmente só tomou a iniciativa porque era seu primeiro cio – John parecia chocado com a expressão que ela usou — Todo lobisomem tem um cio por ano, que é basicamente a época em que eles acasalam e procriam. Os hormônios ficam descontrolados e tudo mais – ela explicou.
–E todo lobisomem tem que passar por isso todo cio? Não tem escolha? — John perguntou horrorizado.
Ela riu.
–Pelo cio todos passam, é biológico. Mas isso não quer dizer que você tem que repovoar o mundo com novos filhotes a cada ano. Existem métodos dependendo do tipo de parceiro que você tem. E você pode sempre evitar contato com outros durante o período. Normalmente é o que os pais fazem quando os lobisomens são quase filhotes — ela respondeu.
–O que deu errado então?
–Simples. Ele não tinha ninguém pais que se preocupassem o suficiente com ele. Ninguém prestou atenção, ninguém notou as mudanças. Eu estava sempre com ele, mas era muito nova para perceber, e ninguém nunca se deu ao trabalho de conversar com eles sobre esse tipo de coisa – ela admitiu.
–Então ele não tinha ideia do que poderia acontecer? – falou pasmo.
–O que ele sabia foi o que viu na escola nas aulas de reprodução humana. Pena que não somos humanos, não é?– ela comentou — Ele procurou o Mark e confessou seu amor. Foi correspondido – ela continuou a história.
–Ele sentia o mesmo pelo Peter? — John ficou confuso. Laura negou com a cabeça.
–Mark só reagiu como qualquer homem diante de uma oferta tentadora, ele aceitou de bom grado. Peter era novo, intocado, lindo e estava disposto a fazer qualquer coisa para agradá-lo. Ele seria louco se o dispensasse – ela explicou friamente.
John pareceu enojado com a atitude do professor.
–Meus exatos sentimentos sobre o assunto – disse, levantando o copo e concordando com John.
Ele pareceu se recuperar um pouco e decidiu voltar à sua linha de raciocínio.
–Foi daí então que decidiram que era melhor Peter ficar afastado do resto da alcateia? – quis confirmar a informação de Deaton.
Ela o olhou estranho. Parecia não entender o que ele quis dizer. Então ela contou que quando Peter voltou no dia seguinte, era claro o que ele tinha feito. Todos na casa perceberam pelo cheiro antes mesmo dele entrar pela porta. Martin, o irmão mais velho dele não perdeu tempo em exigir que Peter contasse onde e com quem passou a noite. E quando Peter contou sobre Mark, ele ficou possesso! Conhecia Mark da época da escola, e achava que ele não valia nada e que era um galinha. Falou que Peter era um trouxa por ter caído na lábia dele. Peter o defendeu dizendo que ele não era mais assim, que era responsável, era um professor. Martin perdeu o controle e deu uma surra descomunal em Peter.
John lembrou-se da cena da fita em que ele batia em Peter, quando ele era pequeno, e ficou penalizado.
–Ninguém se meteu. Acharam que ele merecia, que tinha sido irresponsável e iria chamar atenção dos caçadores para eles com esse escândalo. Que ele colocou toda a alcateia em risco com essa atitude impensada. Eu tentei defendê-lo, mas eles eram muitos e mais fortes. Eles o colocaram pra fora de casa.
John fez sinal para ela parar. Não estava entendendo mais nada. Peter fora expulso da alcateia?
–Deaton disse que ele ficou num apartamento a salvo – John repetiu a informação anterior.
–Minha mãe, Thalia, que era alfa, estava viajando quando isso aconteceu e que Martin, que era o primeiro beta e o segundo em comando, aproveitou-se disso para botar Peter para correr. Os outros poderiam ter contestado, mas ninguém o fez.
–E onde ele ficou então? – estranhou o xerife – Um adolescente sem dinheiro e sem emprego ou qualquer qualificação não teria muitas opções.
–Ele procurou Mark, que deixou Peter ficar quando viu o estado em que estava. Quando minha mãe voltou da viagem, ela concordou que era melhor Peter ficar longe da alcateia. Eu fui com ela quando ela deu um dinheiro pra ele se manter – ela fez uma pausa — Nunca tinha o visto chorar tanto – ela parecia extremamente triste.
O xerife achou um absurdo a irmã que sempre cuidara dele simplesmente virar as costas para ele.
–E quanto a Charlie? – ele perguntou.
–Peter só descobriu um mês depois e contou para Mark juntamente com toda a verdade sobre lobisomens e tudo mais. Mark riu, chamou-o de maluco e o mandou ir embora.
John ficou abismado de ele ter colocado Peter para fora também.
–Depois disso Peter pegou metade do dinheiro que minha mãe tinha dado e comprou um apartamento pequeno e guardou o resto. Arranjou um emprego e trabalhou até onde deu e depois ficou em casa até o bebê nascer – ela concluiu.
–E como ele voltou para casa depois? Não consigo imaginar ele esquecendo e perdoando tudo isso – comentou.
–Aí é que você se engana. Logo depois que Charlie nasceu ele ligou pedindo que alguém fosse buscá-lo – ela disse, debruçando-se na bancada.
–Ele simplesmente deu a criança de mão beijada? — John estranhou.
–Não foi nada disso — negou ela, balançando a cabeça — Ele teve algumas complicações no parto e queria ter certeza de que alguém acharia a criança antes dele morrer – explicou com um sorrisinho sinistro.
John ficou horrorizado.
–Quando todos nós chegamos lá, ele estava parecendo uma cera e tinha sangue para todos os lados. Por um minuto duvidei que ele fosse sobreviver – contou triste.
John estava com os olhos marejados.
–Phillip, um dos meus tios, era médico e cuidou de Peter. Enquanto minha mãe, minha tia Helena e eu cuidávamos de Charlie. Peter só acordou alguns dias depois – falou — Charlie era o bebê mais fofo que eu já tinha visto – contou com enorme sorriso — E todos se sentiram péssimos por terem tratado Peter mal depois que viram aquele anjinho.
–E como Peter reagiu a todos depois que se recuperou? – ele estava curioso.
Laura abaixou os olhos e parecia desolada.
–Os olhos dele brilharam azuis – ela disse, por fim.
John não entendeu o que ela quis dizer, já que para ele os olhos de Peter sempre foram azuis.
–Não a cor dos olhos, mas a cor que eles brilham quando estamos em contato com nosso lado lobo, o que reflete o que realmente somos. Alfas têm olhos vermelhos que indicam o poder, betas têm olhos amarelos que indicam sua fragilidade e inocência, ômegas têm olhos laranja que é um misto dos dois, já que estão por conta própria. Mas só os lobisomens que viram algo puro morrer têm os olhos azuis.
–E quem ele viu morrer?
–Ele mesmo – ela respondeu sem hesitar — Ele tinha passado meses sozinho, abandonado quando mais precisou de todos. Eles o mataram quando quebraram seu coração.
John consentiu com a cabeça, entendia o que ela queria dizer.
–E como vocês todos voltaram a se falar? E quanto a Mark? – estava ansioso, queria saber como tudo acabava.
–Peter voltou a frequentar nossa casa para passar tempo comigo, com Derek e com Cora. Os outros acabaram se chegando. Um dia Mark apareceu por lá. Queria ver o menino. Depois passou a ir todos os dias na casa do Peter ver o filho, e em pouco tempo mudou para lá.
John ficou bobo de Peter ter aceitado o cara de volta assim tão fácil. Laura disse que ele realmente era apaixonado pelo Mark. O porquê ela nunca iria entender, já que ela achava que ele merecia coisa muito melhor.
John perguntou como eles morreram.
–Num acidente de carro. Eles estavam numa reunião lá em casa, e brigaram. Mark foi embora com o carro e sem falar nada levou Charlie. Peter quando se deu conta de que ninguém via o menino há um tempo entrou em pânico já que o nosso quintal era gigante – comentou, se referindo obviamente à floresta — Quando Peter voltou para casa, a polícia já tinha ligado avisando do acidente. Ele ficou louco. Saiu correndo, antes que alguém pudesse pará-lo e foi até o local ver com os próprios olhos.
John fez uma careta de dor.
–O problema é que não tinha muito para ver, nem muito para enterrar – comentou morbidamente.
John respirou um pouco e perguntou se ele ficou trancado no porão por três meses mesmo. Laura faz que sim.
–Eu fiquei com ele todos os dias até ele melhorar – ela disse.
–Deaton acha que ele sabotou o carro – comentou o xerife.
–Isso é absurdo! Peter amava Charlie mais do que tudo, e mesmo que todos preferissem que não, ele era apaixonado por Mark. Não duvido que alguém realmente tenha sabotado o carro. Minha família tinha vários inimigos que poderiam tê-lo feito – disse, referindo-se aos caçadores — E mesmo dentro da nossa família ninguém morria de amores por Mark. Mas tenho certeza que não foi ele – ela foi categórica.
–Ele também disse que foi nessa época que ele ficou psicótico – falou John, já cansado de tantas informações desencontradas.
–Alan mente compulsivamente – ela riu – Até o nosso trato para vingarmos nossa família, Peter nunca tinha tentado matar ninguém exceto a si mesmo. Por isso ficou preso.
John parecia chocado. Não esperava por essa. Mas queria saber do resto.
Laura disse que depois disso, eles decidiram fazer faculdade juntos. Ele voltou a morar na Mansão e os dois foram praticamente inseparáveis até o incêndio, quando ela teve que fugir com Derek para não serem mortos pelos caçadores, enquanto Peter ficou em coma no hospital.
John disse que agora finalmente chegaram à parte que ele não conseguiu entender direito. Como ela estava ali conversando com ele e com os olhos vermelhos de alfa. Ela não deveria ter perdido o posto quando Peter a "venceu" em combate.
–Eu sempre mostrei sinais de que seria uma alfa. O que é raro. Alguns chamam pessoas como eu de alfa verdadeiro. Alguém que conseguiria ser um alfa sem necessariamente herdar de outro, como era o normal.
Ela então explicou como mantinham contato, mesmo que mínimo, quando ele começou a mostrar sinais de melhora e tramaram tudo. Planejaram como ele mataria seu corpo enquanto mantinha segura a sua alma em si próprio, para assim adquirir o poder de um alfa. Como descobriram a lista dos nomes com os responsáveis pelo incêndio. Como ele faria novos betas, mantendo Derek longe e a salvo, para ajudá-lo na vingança. Até que as coisas começaram a desandar.
–Peter cortou seu corpo ao meio. Isso não estava nos planos, não é? — John comentou.
–Ele não fez isso. Foram os caçadores para atrair Derek – ela defendeu-o.
Ela então contou como o novo beta de Peter se rebelou com a ajuda de Derek. E o quão difícil foi fazer o próprio Derek confiar em Peter depois que os caçadores disseram que ele a tinha matado com requintes de crueldade. Como ela sempre tentou ajudar, às vezes interferindo. Como Peter tinha um plano B, no caso de algo dar mais errado do que já estava. E como no final, nem mesmo ela conseguiu fazê-lo se mexer quando viu o fogo.
–Não entendi – admitiu John.
–Um pouco antes de morrer, Stiles e Jackson atiraram cocktails Molotov em Peter, e quando ele viu o fogo, ele simplesmente travou. Isso deu a chance de Derek atacar e matá-lo.
–E daí, entrou o plano B? – perguntou, com um sorriso. A história era chocante, mas estava impressionado com o raciocínio dos dois.
–Sim – concordou, com um sorriso — Graças ao plano B conseguimos sobreviver graças à Lydia. Peter tentou fazer com que Lydia cooperasse, com muita delicadeza. Mas a garota se negava a ver o que estava acontecendo. Então tomei a frente quando nosso tempo estava acabando, e ela temia que não tivesse sido tão delicada e cuidadosa quanto Peter – ela deu um sorriso divertido – E então voltamos. E o resto da história você já conhece.
–Acho difícil acreditar que Peter tivesse um plano B, e você não – falou John, olhando em seus olhos.
–Você é perspicaz, xerife – comentou com um sorriso. Seus olhos tinham um brilho maroto – Esse era o meu plano B. Eu sabia que algo podia dar errado. Mas eu sempre estaria com Peter, como prometi depois que Charlie nasceu.
–E não há nada que se possa fazer? Para que você consiga sua vida de volta?
Ela sorriu.
–Não. Não há como recuperar meu corpo. Mesmo que eu conseguisse revivê-lo, eu morreria em seguida de hemorragia porque nem mesmo um alfa poderia remendar duas partes de um corpo. Mas mesmo que meu corpo ainda estivesse intacto não seria viável. Tudo na magia negra tem um preço. Nesse caso, o preço foi boa parte da força de Peter. Não há garantias de que se tentássemos de novo, ele sobreviveria. E se ele morresse, então seria tudo em vão.
–Não entendo o porquê você fez esse trato para começo de conversa. Você poderia ter feito tudo isso sozinha, sem correr nenhum risco de ficar sem um corpo ou de algo dar errado. Você tinha a lista com os nomes. Já era a alfa – concluiu John depois de averiguar tudo que já tinha sido dito.
–Eu certamente poderia – concordou Laura, terminando seu copo de limonada – Mas se eu tivesse feito assim, Peter ainda estaria se recuperando no hospital, coberto de queimaduras e atormentado todo o tempo pelos pesadelos com incêndio. Já com o trato, ele teria poder suficiente como alfa para se recuperar, fora o prazer em acabar com todos os responsáveis pela morte da família. Certamente isso não acabaria com os pesadelos que ele ainda tinha, mas certamente traria um alívio e uma sensação de dever cumprido – finalizou sua lógica.
John concordou com a cabeça. Entendia o ponto dela.
–Mas como vocês convivem aí? Você fica sempre presa, ou esquecida num canto? – perguntou perturbado.
Ela riu.
–Não, não fico presa. Eu vejo o que ele vê. Posso fazer o que ele faz, como agora. Mas não gosto muito de fazer isso. A não ser em casos extremos quando uma amostra de força é necessária para impor respeito, ou quando ele pede minha ajuda. Fico feliz em vê-lo feliz com os novos filhotes da alcateia e ele é tão melhor do que eu para cuidar do Derek. Em pouco tempo ele fez bem mais por ele do que eu fiz em seis anos. Então eu me contento em ajudar e proteger sempre que necessário até que Derek cresça e retome seu lugar como alfa.
–Você fala como quem espera que algo dê errado – estranhou John.
–Meu pai não vai desistir tão fácil, aquele caçador tem um gênio péssimo e não gosta de ser contrariado. Peter acha que finalmente se livrou dele, mas está errado. Ele está tramando alguma coisa e não tem só a ver com Derek. Ele não quer só meu irmão caçula. Ele quer a todos nós. E quando ele chegar, só trará desgraça, e nada do que ele ofereça a Peter vai ser bom para ele. Ele vai tentar destruir seu passado, mas só vai trazer dor e nada mais. Eu tentei alertar o Peter, mas ele é teimoso e se nega sequer a cogitar o assunto. E é aí você entra. Você tem que ficar de olhos abertos por ele, John – ela levantou e segurou seu rosto entre as mãos — Algumas coisas nunca deveriam ser ditas, entende? – ela parecia aflita.
John ia perguntar o que ela queria dizer com isso quando ela olhou para o canto direito, largou seu rosto e se afastou.
–O efeito está passando. O tempo está acabando – ela murmurou.
Ela levantou e colocou o copo na pia, pegou um novo, outra coca, mais gelo, serviu e sentou novamente na frente de John.
E ele dessa vez pôde ver os olhos de Peter perdendo o brilho vermelho, ficando fora de foco e lentamente retornando a cor azul habitual.
Peter fez uma careta e se encolheu um pouco. Parecia estar com dor.
–Você está bem, Peter? – perguntou John, preocupado.
–Sim – Peter responde – Só com uma d...
–Dor de cabeça? – John o interrompeu. Peter fez que sim – Por que não descansamos um pouco então? – sugeriu.
Peter achou uma excelente ideia e os dois se jogaram no sofá para ver televisão.
Peter ficava se remexendo a toda hora no sofá, não conseguindo encontrar uma posição confortável já que sua cabeça latejava de dor.
–Toma um remédio – sugeriu o xerife, olhando-o estranho.
–Dificilmente faria efeito e eu nem tenho remédio em casa – resmungou o lobisomem, fechando os olhos. A luz estava incomodando.
John então o puxou, fazendo-o deitar com a cabeça em seu colo.
–O que está fazendo? – perguntou Peter, sem graça.
–Molestando você, é claro – respondeu John, com uma cara debochada, fazendo-o corar.
Ele então começou a massagear as têmporas de Peter, que não conseguiu conter um suspiro de alívio quando a dor começou a ceder. Não demorou muito para que Peter pegasse no sono.
John o observou dormindo e pela primeira vez admitiu para si mesmo que se importava com Peter mais do que como um amigo.
–Você não está mais sozinho – ele disse baixinho, ao ver a expressão tranquila e serena do lobisomem.
Quando os adolescentes e Derek chegaram da escola, encontram os dois dormindo no sofá com a televisão ligada. John estava dormindo sentado, com a cabeça pendendo para trás e roncando enquanto Peter estava deitado com a cabeça em seu colo, de lado, abraçando o braço de John contra seu peito.
Fim do cap. 10
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