Uma segunda chance
33 Capítulo 33 - Tormenta
Notas iniciais
O dia amanheceu e tudo estava calmo. Calmo demais.
Sua casa agora abrigava dois lobisomens e mais alguns que só não pernoitavam por lá, mas nunca iam realmente embora. Então silêncio era algo muito, muito raro.
Estranhando, ela levantou sem fazer barulho e pegou sua pequena besta automática da gaveta da sua cômoda e desceu o mais silenciosamente possível.
–Que diabos estão fazendo? – ela perguntou, ao abaixar a arma quando viu que eram os adolescentes atacando sua cozinha.
–Nossa, ela sempre acorda de mau humor? – perguntou Stiles para os lobisomens, voltando sua atenção para a panela com panquecas.
–Onde está o papai? – ela perguntou ao meio-irmão, quando estranhou a ausência dele.
–Não sei – respondeu Derek – E eu não me importo – ele completou, com um sorrisinho malvado, fazendo-a revirar os olhos.
Sabendo que não conseguiria qualquer informação deles, ela decidiu ligar para seu pai.
Chris finalmente tinha terminado de ler as anotações. Ele sequer conseguia descrever como se sentia no momento diante de tais revelações. Já tinha se sentido frustrado, com raiva, horrorizado, enojado, inútil, com remorso.
Não podia ser verdade. Os abusos absurdos descritos com detalhes repugnantes não poderiam ser verdade. Tudo parecia tão exagerado. Tão fantasioso. Dignos de uma mente realmente doente.
Ele conheceu o irmão de Thalia. Não era perfeito, mas não seria capaz de ter feito um terço que continha ali. Thalia teria notado. Outro irmão, alguém, qualquer um que morava ali teria notado.
Mas conhecia o seu “filho”. Sempre tramando, nunca assumindo as asneiras que fazia, sempre se metendo em confusões com seu comportamento promíscuo e agressivo.
Por que inventou tudo aquilo? Para chamar atenção? Isso era demais até mesmo para ele. Mas seria tudo aquilo uma simples invenção, ou ele acreditava naquilo mesmo? E será que tinha algum fundo de verdade?
Estava tão compenetrado, que não pôde evitar dar um pulo quando ouviu o seu celular tocando.
Viu no visor que era sua filha e praguejou. Olhou o relógio do carro e só aí se deu conta de que sequer tinha voltado pra casa.
–Oi, filha – finalmente falou quando atendeu – É, eu tive que dar uma saída – falou ao massagear sua têmpora – Provavelmente eu ainda demorarei um pouco mais – ele falou, ligando o carro, decidido aonde iria – Tenho que desligar agora, Allison. Até mais tarde – disse ao desligar o celular.
Respirou fundo e saiu com o carro. Era hora de colocar os pingos nos is.
John estava se arrumando para o serviço, quando começou a ouvir uma música baixa.
“Humidity's rising
Barometter's get low
According to all soulces
The street's the place to go
'Cos tonight for the first time
At just about half past ten
For the first time in history
It's gonna start raining men”
Ele procurou e não sabia de onde vinha. Parecia um toque de celular.
“It's raining men
Hallelujah it's raining men, Amen
I'm gonna go out
I'm gonna let myself get
Absolutely soaking wet”
–Alô? – respondeu Peter, ainda meio grogue, ao pegar o telefone de dentro da gaveta do criado-mudo.
John o viu fazendo uma careta e afastando o telefone do ouvido.
–Dá para se acalmar?! Meus ouvidos são sensíveis – reclamou Peter ao se aproximar do telefone de novo. Ele virou e se sentou com certa dificuldade na cama – Não entendi. Quem foi aí? – ele se sentou e parecia mais atento ao que o outro dizia.
–O que foi? – John perguntou e Peter fez sinal para que ele se calasse.
–Ele o quê?! – Peter gritou no telefone, assustando o marido – E você simplesmente deu pra ele?! – falou indignado e depois tirou o telefone do ouvido, respirando fundo e com a mão na barriga.
–Oi, é o John – ele falou, depois de pegar o celular da mão do marido que não parecia nada bem.
A campainha começou a tocar sem parar, claramente indicando que quem tocava parecia um tanto desesperado. John arregalou os olhos quando viu o marido rosnar na cama e levantar rapidamente. Tinha uma boa ideia de quem poderia ser.
Ele se despediu de Adam, ao telefone, e desligou enquanto Peter vestiu um roupão que estava pendurado no banheiro e saiu correndo do quarto.
Antes mesmo que ele pudesse chegar ao andar de baixo, já conseguiu ouvir as vozes exaltadas dos dois. Suspirou desanimado quando percebeu que seria praticamente impossível os dois se darem bem algum dia.
–Você não tinha esse direito! – gritou seu marido.
–Eu tenho todo o direito de querer saber o que você diz que aconteceu com você – gritou o outro em retaliação.
–Não pode sair invadindo a casa dos outros – Peter falava com raiva.
–Eu não invadi! Eu pedi e ele me deu! – o outro respondeu.
–Você apontou uma arma na testa dele! – o lobisomem falou indignado.
Quando chegou ao final das escadas, John correu e se colocou entre os dois que pareciam estar a um passo de se agredirem fisicamente.
–Vamos acalmar os ânimos, ok? – falou ele, num tom autoritário – O que diabos está acontecendo aqui? – ele perguntou olhando feio para o caçador.
Chris fechou os olhos e respirou fundo. Quando os abriu de novo, parecia mais calmo. Peter, por outro lado, ainda parecia agitado e olhava com raiva para o caçador.
–Eu peguei isso com aquele pivete do Smith – o caçador disse, mostrando as anotações que segurava – E quero tirar a limpo algumas coisas – ele completou, fuzilando o lobisomem com os olhos.
–Que coisas? – John perguntou e Peter bufou de raiva por ele dar atenção às palhaçadas do caçador.
–Você disse que se eu quisesse fazer isso, teria que fazer direito. É o que estou tentando fazer. Quero esclarecer tudo – o caçador respondeu voltando as palavras de John contra ele mesmo.
Vendo que não teria muita escapatória, ele respondeu:
–Ok. Vamos ver o que você tem a dizer – ele falou e Peter o olhou indignado – Por que não vai colocar uma roupa enquanto eu preparo algo para comermos? – John sugeriu para o lobisomem que tremia de raiva ao seu lado – Por favor – pediu ao acariciar o rosto de Peter que suspirou e concordou.
Ele viu o marido subindo as escadas, parecendo bastante decepcionado com sua posição e não pôde evitar olhar feio para o caçador.
–É melhor ser extremamente importante – ele avisou, fuzilando o caçador com os olhos.
–Não viria aqui se não fosse – Chris respondeu, parecendo cansado.
John percebeu isso e começou a preparar o café.
–Você já leu isso? – perguntou o caçador ao puxar uma cadeira e se sentar.
–Não. E pelo visto você não gostou nada do que está escrito – respondeu o xerife.
–As coisas descritas aqui são simplesmente – ele falou, parecendo bem perturbado – nojentas – ele completou ao não achar uma palavra melhor, fazendo uma careta.
–Imagino – comentou o xerife, servindo uma xícara de café para o caçador.
–E você fala isso com essa calma?
–Eu não acho que possa ser muito pior do que eu vi e ouvi no consultório do Deaton.
–Então você está convencido realmente de que é verdade toda essa história do Martin?
Antes que John pudesse responder, Peter interrompeu a conversa dos dois. Nenhum dos dois tinha percebido sua chegada.
–Está dizendo que inventei tudo isso?!
–Claro que ele não está – disse John, tentando acalmá-lo – Eu sei que você não inventou nada – ele falou olhando nos olhos do marido.
–Não estou dizendo que alguém não tenha feito algo a você. Eu vi as mudanças no seu comportamento melhor do que ninguém. Mas daí a essa pessoa ser o Martin – o caçador falou descrente – Não faz sentido. Aliás, muito do que li aqui não faz sentido, Peter – ele tentou falar de um jeito que não irritasse ainda mais o mais novo, o que foi inútil – Não acho que seja invenção. Não tudo pelo menos. Mas foi o jeito que você achou de pedir ajuda – Chris falou o realmente pensava.
–E por que acha isso? – John estranhou. Nunca tinha cogitado outra opção a não ser essa. Gostaria de ouvir.
–O jeito que descreve a Thalia como o ser mais ausente do mundo, por exemplo. Ela não era assim. Ela o amava – Chris exemplificou e Peter fechou os olhos com força – E como diabos, uma dos seus álteres teria um caso com o Martin debaixo do nariz de uma alcateia de lobisomens sem que ninguém percebesse? – e John se perguntava a mesma coisa.
–Talvez soubessem e fingiam que não viam nada de errado – retrucou o lobisomem com raiva.
–Até a Laura? Acha que ela saberia que alguém lhe fez mal e não faria nada a respeito?
–Claro que não! – negou o lobisomem veemente. Sabia que Laura nunca faria isso. Laura sempre foi confiável. Ela era a força que lhe faltava.
–Não faz sentido, Peter. Até você tem que admitir isso – falou o caçador, passando as mãos nos cabelos – E essa história toda da Laura e desse pacto. Isso não é saudável – ele completou.
–Não era para ter acontecido do que jeito que foi. Esse não era o plano, mas ela ainda está aqui.
–Não, não está. Ela está morta, Peter. O que você acha que é ela é só mais um álter-ego seu – Chris falou cansado, fazendo John e Peter arregalarem os olhos – Você fez o que fez. Não conseguiu arcar com a culpa e criou uma Laura para se sentir melhor – e Peter negava freneticamente com a cabeça.
–Não é verdade! Eu a vejo. Eu falo com ela. Ela não é como os outros – Peter explicou.
–E ela não é como você a vê também – Chris foi categórico, balançando as anotações na frente do lobisomem – Aqui – ele bateu com a mão nos papéis – ela é só uma mera sombra do que realmente foi e você sabe disso – ele largou os papéis na mesa e passou as mãos nos olhos.
–E como você poderia saber disso? – perguntou John e Peter o olhou agradecido – Pelo que me consta, vocês sequer moravam juntos. Até ontem você sequer sabia sobre os álteres e agora chega aqui se achando o senhor da verdade. Você não acha que é muita arrogância achar que virou especialista na vida dele só porque leu meia dúzia de páginas? – ele comentou numa voz calma ao bebericar seu café.
O caçador bufou de raiva, mas tentou se controlar.
–Olha. Ontem você perguntou quais eram as minhas intenções ao me reaproximar. E por isso eu vim aqui. Eu estou preocupado – ele falou para o xerife – Pode não acreditar, mas me preocupo com você – falou olhando diretamente para o lobisomem, que não conseguia detectar nenhum traço de mentira no que ele falava – E se dependesse de mim, você teria feito terapia desde que começou com esses comportamentos estranhos. Mas não dependia só de mim. Talvez se tivesse, não teria chego ao estado em que está. Quem sabe? – ele falou mais para si mesmo do que para os outros – E é por isso que acho que você está cometendo o mesmo erro da Thalia – falou para John, que o observava – Ele precisa de ajuda.
–Ele está fazendo terapia – John retrucou.
–E você acha que só isso basta? Já viu o histórico de tentativas de suicídio dele? Tem aqui – ele jogou as anotações para o xerife – Todas as trinta e uma tentativas descritas com detalhes pelo Junior, o álter-ego suicida dele. Você parece surpreso – ele comentou maldosamente, quando viu John olhando para o lobisomem que se encolhia – E de acordo com as anotações do psiquiatra dele nas últimas páginas, eu creio que ele cogitou isso nos últimos dias.
–Isso é verdade? – John perguntou preocupado ao olhar para Peter.
E quando o outro abaixou a cabeça, envergonhado, ele o puxou para um abraço. Ele não tinha lido as anotações, mas tinha certeza de que tinha sido nos dias de tensão na família, quando eles brigaram e quase todos se distanciaram de Peter.
–Ele precisa de ajuda – Chris insistiu.
–E você precisa ir – falou John num tom seco – Já disse o que tinha que dizer. Agora vá.
O caçador pareceu contrariado, mas saiu. John abraçou mais ainda seu marido que ainda não encarava seus olhos. E jurou que o protegeria, nem que fosse a última coisa que fizesse e rezou para que isso fosse o suficiente.
Os dias passaram num piscar de olhos.
Peter continuou com a terapia e parecia mais calmo, aliviado até. E tudo estaria perfeito se não fossem todas as coisas que apareciam quebradas pela casa.
A princípio John e Stiles acharam que se tratava de simples acidentes. Mas a quantidade de objetos quebrados era enorme. E só aumentaram quando o caçador impediu que Peter visse os filhos, alegando que não era seguro.
Por mais que John tentasse abordar o assunto com o marido, Peter negava de pé junto que tivesse quebrado algo, ou que sequer estivesse abalado por ser impedido de ver os filhos. E isso era absurdo já que era visível o quanto a distância imposta lhe feria.
Ele respondia com monossílabos e estava claramente abatido. Quando John insistia em conversar a respeito, Peter simplesmente sumia e Laura aparecia irritada prometendo que se ele não o tratasse bem, ela o tiraria de lá.
E por essas e outras ficava cada dia mais difícil defende-lo quando o caçador ligava para verificar como o lobisomem estava.
***
Peter suspirou quando chegou em casa após a terapia. A casa estava novamente revirada.
–Tsc tsc. Você deveria se controlar melhor. Coisa feia quebrar a casa assim o tempo todo. Vão acabar achando que você é maluco – a voz o provocou.
Ele decidiu ignorar. Não valia a pena. Era só a sua imaginação que era fértil demais. Pelo menos era o que o Dr. Gregory dizia. E ele realmente queria acreditar nisso.
–Não vai dar nem um oi hoje? Desse jeito eu fico magoado – a voz falou ao se aproximar, invadindo sua bolha pessoal.
Ele fechou os olhos com força e procurou respirar fundo e lembrar-se das últimas conversas que teve com o Dr. Gregory.
Se Martin era nada mais que uma manifestação da sua própria mente, que se sentia culpada por ter se livrado dele e em negação por não aceitar que ele pudesse lhe fazer mal, como ele podia sentir o corpo atrás do seu? Ele podia até sentir a respiração quente em seu pescoço! Ele não deveria estar morto e podre, como nas primeiras vezes que o viu? Mas Martin parecia cada vez mais vivo.
Ele tremeu quando sentiu braços o enlaçando pela cintura. Podia sentir o membro rijo do outro se encostando a sua perna enquanto uma mão subia por baixo da sua blusa.
Tudo parecia tão real. Vivo.
–Não vai chorar? Eu gosto de te ver chorar – comentou o outro, sussurrando em sua orelha.
Peter semicerrou os olhos e sorriu de canto. Tudo que estava vivo podia morrer.
Ele colocou as garras para fora e rosnou. Ele podia fazer isso. Ele era um beta, Martin também. O mataria e ficaria livre. Mas antes que pudesse virar e atacar o outro, suas mãos foram presas.
–Tentando revidar? – o outro perguntou surpreso – Talvez seja hora de eu me livrar de você – falou maldosamente ao levar a mão de Peter até a altura da sua garganta.
Com um movimento rápido, ele forçou as garras de Peter e o fez rasgar sua própria garganta.
Peter sentiu o gosto de metal na boca e sentiu-se sufocar. Não era a primeira vez que tinha essa sensação. Estava entrando em pânico. Não queria morrer.
Ele estava fraco e sabia que em pouco tempo não aguentaria mais. Morrer sozinho seria horrível. Ficou aliviado quando sentiu a presença daquela que sempre lhe dava forças. Sentiu seus olhos arderem e queimarem um vermelho vivo antes de tudo ficar preto.
O alfa riu quando viu o outro lobisomem se esvaindo em sangue no chão. Ele se aproximou e acariciou o rosto do mais novo. Tudo estava indo melhor do que ele planejara.
Ele ouviu um barulho de carro se aproximando e se distraiu o suficiente para não ver os movimentos do mais novo. Xingou quando sentiu as garras do outro cravadas na sua perna. Com um chute ele se soltou do outro e fugiu. Não reparou nos olhos vermelhos que seguiam seus movimentos.
–Por mais que eu adore você aqui, eu não acho que você deveria ter vindo, Derek – Stiles falou enquanto dirigia – Seu pai vai ficar furioso – ele comentou para o lobisomem escondido no banco de trás do seu carro.
–Ele não é meu pai. O Peter é o meu pai – Derek levantou do banco e olhou feio para o namorado que revirou os olhos.
–As coisas andam meio tensas por aqui. Talvez ele tenha razão em manter vocês dois longe – comentou Stiles, fazendo o lobisomem rosnar – Desculpa, mas é verdade Derek – ele falou e se irritou quando viu o lobisomem com a cara na janela, completamente alheio ao que ele falava.
–Alguma coisa não está certa – comentou Derek – Acelera – ele mandou.
–O quê?
–Acelera, Stiles. Acelera! – gritou agoniado.
Quando finalmente os dois chegaram em frente à Mansão, ele desceu do carro correndo e entrou.
Stiles o seguiu e nada poderia tê-lo preparado para a cena que presenciou.
Derek segurava o corpo mole e débil de Peter nos braços. Sua garganta estava rasgada.
A cena lhe era familiar demais.
Lembrou-se de quando o namorado rasgou a garganta do outro, tempos atrás, sem a menor hesitação e involuntariamente deu um passo para trás.
Sentiu dificuldade de respirar e sua visão ficou turva.
Não era só o Peter. Sua irmãzinha estava ali também.
–Faz alguma coisa, Stiles! – pediu Derek alterado, tirando-o de seus devaneios.
Foi quando ele notou e viu que Derek só o segurava e estava chorando. Já Peter tinha as mãos banhadas em sangue.
Tremendo, ele tirou o celular do bolso e ligou para a emergência.
Peter tinha tentado se matar.
–Foi uma tentativa de suicídio, senhor?
Ele olhou para o lobisomem nos braços de Derek e tomou um susto quando viu os olhos vermelhos que o encaravam.
–Talvez de homicídio – respondeu quando viu que não era Peter ali, e sim Laura.
Ela tinha cumprido o que prometeu. Tentou tirar Peter de lá.
Fim do cap. 33
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