Uma segunda chance
26 Capítulo 26 - DR
Notas iniciais
O clima na casa Hale era tenso. Após o breve contato com Pi, Peter voltara para casa como se nada tivesse acontecido. Ele não conversava a respeito, não estava desesperado, nem sequer se mostrava abalado de ter descoberto os abusos do irmão. Ele simplesmente sorria e passava os dias cozinhando, não saindo de casa um minuto.
A campainha tocou e como Peter estava com as mãos na massa (ele estava experimentando uma receita de pizza enrolada), pediu para um dos adolescentes atenderem a porta. Isaac correu para a porta.
–Hummm... oi? – falou Adam, surpreso pelo jeito esbaforido do garoto, que assim que o viu suspirou aliviado – O Peter está?
–Estou na cozinha, Adam. Pode entrar – respondeu Peter.
Adam entrou e viu todos os adolescentes o acompanhando com os olhos. Ele pigarreou sem graça.
–Não fomos apresentados outro dia. Meu nome é Adam Smith – ele se apresentou.
–Oi, Adam – responderam os adolescentes, observando-o.
Adam achou extremamente estranho que todos tenham respondido ao mesmo tempo. Pareciam treinados. Era bizarro.
–O que você tanto carrega aí? Assaltou alguém na rua? – Peter o salvou de seus pensamentos.
–Sou um homem da lei, Sr. Hale – ele respondeu, com a mão no peito, parecendo ofendido. Peter riu e os adolescentes relaxaram.
O policial sorriu e colocou sua enorme sacola no balcão. Tirou um embrulho e entregou para Peter, que limpou as mãos no avental que estava usando antes de pegá-lo.
–Minha mãe mandou eu te entregar isso. Só não espere grande coisa, porque, como falei antes, ela é meio cega – ele disse, fazendo uma careta.
O lobisomem abriu o pacote e viu uma mantinha rosa feita em tricô, que com certeza era meio torta e tinha alguns buracos, que deixavam claro que quem fez com certeza não tinha muita técnica e perdeu alguns pontos durante a tarefa. O rosto dele se iluminou com o presente. Apesar de ser sua segunda gestação, era o primeiro presente desse tipo que alguém lhe dava.
–Adorei – ele disse, sinceramente. Realmente tinha adorado. Aquilo devia ter dado um trabalho e tanto para fazer.
–Ela não está aqui. Não precisa fingir – falou Adam, olhando a manta horrorosa.
–Estou falando sério. Adorei. Ela teve todo esse trabalho – ele esclareceu, sorrindo — Diga que eu amei — pediu.
–Você mesmo diz. Ela disse que se você não for lá almoçar essa semana, ela vai te arrastar pelas orelhas quando vier te buscar – avisou o policial com uma expressão preocupada. Peter deu um sorriso triste.
–E ela mandou isso também — ele entregou um monte de potes com comida.
Peter abriu interessado, e os adolescentes levantaram quando sentiram o cheiro.
Tinha um monte de sobremesas. Todas as suas preferidas.
–Isso deve ter dado um trabalho danado – comentou Stiles, ao ver o que tinha em todos os potes. E tinham mais de dez!
Peter olhou feio para Adam.
–Eu contei o que aconteceu e que você não sai de casa há dias, tá bom? Ela ficou preocupada e quis te animar – falou, explicando o porquê da comida. Era para conforto — Era isso ou ela vir aqui te encher a paciência – ele se justificou. Era claro que não queria a mãe ali perturbando o amigo.
–Estou ótimo, ela não devia se preocupar. E nem você – Peter foi categórico.
–É, porque você está ótimo. Olhos inchados, vermelhos e olheiras é a última moda em Paris – ele retrucou sarcástico.
Peter largou os potes no balcão e voltou para o que estava preparando no balcão do armário.
O telefone tocou e Derek foi atender.
–Fala – ele disse ao atender – Pai, é para você – ele o chamou assim, na esperança de que o outro ficasse menos arredio.
–Estou ocupado – Peter respondeu e não fez nenhuma menção de ir atender o telefonema.
–Mas é o senhor Xerife de novo – ele tentou.
Isso fez com que Peter se mexesse. Ele foi até o telefone, pegou, colocou no gancho e voltou para o armário. Todos se entreolharam.
–Ainda não se acertaram? – Adam perguntou surpreso.
Peter não respondeu, mas começou a socar a massa com um pouco mais de força.
–Não acha melhor resolver as coisas com ele? – ele tentou. Os adolescentes o olharam e todos se perguntavam se o humano não tinha noção do perigo.
Peter respirou fundo e fez uma bola com a massa.
–Digo, ele o pai do bebê. Não deveria poder participar? – ele insistiu.
Peter bufou e começou a picar um tomate num pirex, e não percebeu que a porta abrira e John entrara.
–Pela primeira vez eu concordo com ele. Eu não devia poder participar? – ele perguntou, com o rosto sério.
Peter apertou tão forte a faca que segurava que quebrou seu cabo e acabou cortando a mão no metal debaixo.
Isaac puxou a mão de Peter e o fez soltar a faca, afastando-o dali.
–Pode deixar. Eu termino isso aqui- Stiles disse, olhando-o preocupado e pegando outra faca.
–Eu acho que é melhor eu ir – falou Adam, notando o clima chato.
–Vai tarde – rosnou John.
–Será que dá para parar com isso? Essa é a minha casa! – Peter ralhou com John – Desculpa por isso – ele falou para o amigo.
–Nem esquenta. A gente se fala depois – ele disse, dando um sorriso sem graça e saindo.
–Que diabos foi isso?! – Peter perguntou, olhando feio para John.
–Isso sou eu quem pergunta. Você está há dias me evitando, e quando eu chego aqui, ele está enfiado aqui dentro brincando de casinha com você! – John falou se alterando, apontando para o avental do outro e a comida que estava sendo preparada.
Peter rosnou, e pegou o pirex no qual Stiles estava cortando o restante dos tomates e tacou na parede da cozinha, quebrando-o em mil pedacinhos.
Isaac se encolheu quando o viu tão transtornado ele aparentava estar e parecia indeciso se apartava a briga homérica que começava ou se fugia do ambiente e se escondia debaixo da cama.
–Pronto. Feliz agora? — ele perguntou respirando fundo, que o olhava surpreso diante de tanta hostilidade.
–Todo mundo, fora! Deixem os dois conversarem – falou Derek, sério enquanto segurava o braço de Isaac que tremia e o levava em direção à porta – Fora! – repetiu, com os olhos vermelhos. Os adolescentes foram pouco a pouco saindo, e indo para a casa de Stiles.
–Eu sei que você está chateado, mas quebrar coisas não vai melhorar em nada a situação – ralhou John.
–Ah, desculpe-me. Talvez eu devesse socar a parede bem ao lado da sua cabeça! – o mais novo retrucou, estreitando os olhos.
John teve a decência de ficar envergonhado.
–Eu já pedi desculpas por isso. Mas você viu o estado que o seu filho saiu daqui? Ele estava tremendo.
Peter pareceu arrependido ao olhar na direção da casa de John. Não queria ter assustado o garoto.
–Não acha que está exagerando? – John perguntou assustado com a recepção que Peter lhe deu.
Aquilo lhe tirou de seus devaneios.
–Exagerando? Exagerando?! Você me atacou assim que eu entrei na sua casa! – Peter disse indignado.
–Não foi bem assim – John tentou explicar.
–Você me acusou de um monte de besteiras e não quis ouvir nada do que eu dizia.
–Eu admito, falei um monte de coisas que não devia, mas você também não me deu muita escolha.
–Eu não fiz nada! Você que me deu um bolo, de novo, e não atendeu essa porcaria de celular.
–Você estava se encontrando com aquele fedelho há meses, Peter. Não se faça de inocente.
–Ah, claro que não. Eu não passo de uma vadia, não é? Você já viu alguma vadia inocente? – ele disse rancoroso.
John suspirou e passou a mão no rosto.
–Já pedi desculpas! – ele disse exasperado. Aquela conversa não estava melhorando em nada a situação.
–Não, não pediu. Você disse que não deveria ter dito isso, e não que não achasse isso.
–E é por isso que você está me evitando? Não achou meu pedido de desculpas aceitável? — John falou num tom irônico.
–Você é um babaca — falou Peter, dando as costas para o outro, apoiando-se na borda da pedra do armário.
–Muito maduro da sua parte. Vamos evitar o assunto e esperar que ele suma – falou John, jogando as mãos para o alto.
Isso fez com que Peter apertasse as mãos no armário, e John pôde ouvir a pedra trincando.
–Você está certo — ele concedeu e John ficou surpreso — Eu não quero mais fazer isso – Peter virou e falou calmamente olhando nos olhos no outro.
–Isso o quê? – John perguntou temeroso. Ele não podia estar se referindo a eles, é claro.
–Nós.
–Você está brincando – John falou, não acreditando.
–Ausências eu posso relevar, mas não quero que você se torne mais um trauma na minha vida. Eu já tenho pesadelos suficientes, não preciso de mais um – o lobisomem explicou. Sua voz era calma. Calma como o mar antes da tempestade.
–Eu nunca faria algo assim. Fiquei nervoso, mas nunca te machucaria – John falou.
Seu coração estava apertado. Ele tinha colocado tudo a perder.
–O que eles estão falando? — perguntou Stiles, tentando espiar pela janela. Lydia fazia a mesma coisa.
–Escutar a conversa dos outros é falta de educação, Stilinski – comentou Jackson, jogado na cama do outro.
–Como se vocês não tivessem escutando – retrucou o humano, revirando os olhos para o lobisomem.
–Acho que estão terminando – comentou Scott.
Stiles olhou para Derek, com uma expressão triste. Não queria que eles terminassem. Apesar do choque de quando tomou conhecimento do relacionamento dos dois, Stiles sabia que Peter fazia bem para o seu pai, apesar de toda bagagem que trazia.
Notando sua tristeza, Derek o abraçou.
–Você quer terminar só por causa de uma briga? Eu não acredito nisso.
–Não é só por isso, John. E você sabe disso – Peter falou rispidamente.
–Não, eu não sei. Eu não leio mentes, caramba — John gritou, num tom irônico.
Aquilo foi o que faltava para que o outro perdesse o controle novamente.
–Eu odeio quando você faz isso — Peter gritou, apontando para John — Esse seu deboche – ele gesticulava — Você mudou! — ele terminou, com uma expressão triste.
–Eu mudei? – John perguntou sem entender.
–Mudou. Antes você gostava de ficar perto, mesmo que fosse fazendo nada. Você se preocupava. Você se importava. Você me via e não só um monte de problemas — ele falou meio histérico e com os olhos cheios de lágrimas.
–Você não está fazendo sentido. Que tal se gente for dar uma volta, tomar alguma coisa e você se acalmar? – John tentou acalmá-lo, mas teve o efeito contrário.
–É exatamente disso que estou falando — ele disse se alterando novamente — Eu não quero sair, eu não quero me acalmar — gritou, chorando.
John começou a ficar alarmado com a situação.
–Olha, você precisa se acalmar. Isso não é bom para o bebê — ele tentou falar, com a voz suave, tentando mais uma vez acalmar o outro.
–E desde quando você se importa com o bebê, John? Até agora a única coisa que você fez foi fingir que ele não existia – Peter falou sentido.
–Isso não é verdade. A ficha pode ter demorado a cair, mas mesmo antes de saber que era meu, eu já me importava. Foi só... – ele fez uma pausa — foi muita coisa ao mesmo tempo, Peter – falou triste — Tudo junto. A gente, o ataque, um bebê logo depois. Começamos algo bom, e do nada a coisa toda tomou uma proporção assustadora.
–Você estava assustado? — Peter perguntou triste.
–Sim – John admitiu.
–E por que você achou que só você poderia estar assustado? -ele perguntou com a voz baixa. E isso pegou John de surpresa — Caramba, John. Eu estava apavorado e você me deixou sozinho.
–Mas eu estou aqui agora – John tentou se aproximar e Peter se esquivou.
–Não, não está. Você nunca foi comigo em nenhum consulta. Você nem se sequer se deu ao trabalho de ir me buscar ou perguntou alguma coisa – o lobisomem falava rapidamente. Parecia estar exorcizando seus demônios.
–Eu fiz o teste que você pediu – John o lembrou. Ele fez porque Peter pedira. Ele não fazia questão. Já tinha aceitado o bebê.
–Eu pedi porque queria me poupar de você me dar um pé na bunda depois que descobrisse que não era seu! — ele gritou, e John ficou irritado.
–Eu não vou te deixar! Quantas vezes eu tenho que falar isso? — John gritou, batendo a mão na mesa.
–Vai sim! — Peter gritou descontrolado -Todo mundo deixa — ele falou num fio de voz.
Foi aí que John percebeu o medo de rejeição que o outro tinha.
–Eu não sou todo mundo – John falou, com a voz firme, mas suave.
E abraçou o mais novo, apoiando sua cabeça no topo da do outro. E Peter começou a chorar e soluçar.
–Eu não vou a lugar nenhum – ele falou, fazendo movimentos circulares nas costas do outro — E eu sinto muito por não ter sido mais participativo. Eu prometo que vou mudar.
Eles ficaram alguns minutos abraçados, até que Peter se afastou e olhou nos olhos de John.
–Eu o beijei – ele confessou, fazendo John parar o carinho que estava fazendo em seu rosto.
–O quê? – ele achou que tinha entendido errado.
–Adam e eu nos beijamos – esclareceu Peter e fechou os olhos quando viu a expressão de raiva de John.
John se afastou, e passou as mãos no rosto.
–Então vocês realmente estavam juntos? — ele perguntou com um ódio contido.
–Não! Eu juro que não – Peter falou desesperado – Foi uma vez e foi um mal entendido.
–Um mal entendido, Peter? Você beijou outro por engano?
–Pi o beijou. E sumiu depois – ele explicou.
–E por que ela faria algo assim?
–Eles tiveram algo no ginásio, e ela queria me irritar porque eu não a deixava sair como os outros. E, foi horrível. Depois disso eu tive que explicar tudo para ele.
John sorriu, imaginando a cena.
–E ele acreditou? – ele não pôde evitar ficar admirado.
–Sim, disse que fazia sentido já que eu não lembrava em nada o Peter que ele conheceu.
–E você gostou? – ele tinha que checar.
–Não! Claro que não – negou o mais novo – Não era você – ele falou, e John se sentiu um pouco mais aliviado.
–E por que ainda continua se encontrando com ele? Por que não me contou? – ele perguntou amargurado.
–Porque eu tinha medo que você reagisse do jeito que reagiu no outro dia! E continuei a ter contato porque ele está me ajudando e eu me sinto diferente perto dele.
–Diferente? – ele perguntou temeroso.
–É. Normal – explicou Peter.
–E você não se sente assim comigo? – John falou triste.
–Não é isso. Apesar de ele estar me ajudando, nem sempre falamos dos meus problemas. Na maior parte das vezes, ele me conta dos dele – Peter explicou — Da garota com a qual está saindo agora, do cara que deu um pé nele no ano passado e vira e mexe liga de volta, da irmã que está separando e dos sobrinhos que adoram aprontar – ele deu exemplos.
–E no que ele está te ajudando? – John tinha até medo de perguntar.
–A registrar tudo – Peter falou, abaixando a cabeça.
–Registrar? – ele estranhou.
–Sim. Vocês disseram que eu não conseguia dividir nada com vocês – Peter começou a explicar – E já que é difícil falar...
–É mais fácil escrever – completou John.
–Exato. E ele está me ajudando porque eu sou péssimo nisso – o lobisomem deu um sorriso triste.
–E vocês fazem isso na casa dele — John se sentia um verdadeiro idiota.
–Sim.
–Por quê? Você podia fazer aqui, eu adoraria ajudar.
Peter deu um sorriso tímido.
–Mas aqui não tem a mãe dele. Eu realmente gosto dela.
John viu como os olhos dele brilharam quando falou dela. É óbvio que alguém que nunca teve muita atenção se encantaria quando alguém o tratasse bem. Ainda mais uma figura materna.
Quando John não falou mais nada, Peter suspirou e foi catar os cascos de vidro espalhados pela cozinha.
Ele se sobressaltou quando John passou a mão na sua bochecha, secando uma lágrima. Ele nem sequer tinha notado que começara a chorar de novo. John secou seu rosto, sorriu e lhe deu um breve beijo.
–Vamos limpar essa zona – falou John, ajudando-o a catar os cacos.
Levou um tempo até que terminassem de limpar tudo.
Ambos estavam sentados no balcão, tomando um copo de Coca-Cola gelada, tentando acalmar os nervos depois da enorme discussão.
Peter percebeu que John estava encarando-o, e ficou triste. Era claro que o outro ainda tinha algo para falar.
–Se quer falar algo, John. Então, fale.
Peter falou e continuou a beber seu refrigerante.
–Quer casar comigo? — John falou, fazendo Peter engasgar. Certamente, não era isso que ele estava esperando.
O mais velho não tardou a dar a volta no balcão e dar uns tapinhas nas costas do lobisomem. E quando Peter finalmente parou de tossir, John segurou suas mãos e disse:
–Eu te amo. Casa comigo.
Peter o olhou com os olhos arregalados.
–Eu não acho que eles romperam. Estão muito próximos um do outro — Lydia comentou, olhando a casa de Peter por um binóculo.
–Eles se acertaram — comentou Scott sorrindo.
–Sério? Que bom — Allison abraçou o namorado e deu-lhe um beijo no rosto.
–Agora vocês vão ser irmãozinhos – disse Jackson rindo ao dar um tapa no ombro de Derek e Stiles.
Todos olharam para ele com uma expressão de nojo, ao lembrar que há poucos dias tinham descoberto sobre o irmão doentio de Peter.
–Quê? – ele perguntou, sem entender.
Fim do cap. 26
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