Uma segunda chance
24 Capítulo 24 - Mentes perigosas
Notas iniciais
Todos estão chorando. A dor é muito grande.
Primeiro foi nosso pai, pego pelos caçadores. E agora nossa mãe. Nossa alfa.
Nossa alfa que decidiu jogar tudo para o alto por causa de um filhote fraco demais para sobreviver por si só.
Ela o curou, o deixou mais forte.
Antes de morrer, ela disse que faria o mesmo por qualquer um de nós.
Mentira. Ela não pensou em como isso deixaria a alcateia vulnerável, se o pior acontecesse.
Mas ninguém pensa nisso quando está com aquela peste nos braços.
Thalia parece enamorada por ele e passa todo seu tempo babando em cima do filhote.
“Crianças precisam de cuidados constantes”, ela dizia quando perguntávamos se ela não iria mais à escola.
Mas e o resto da alcateia? Era eu quem tinha que tomar conta de tudo, enquanto ela brincava de boneca com o pivete.
E eu não era o único que pensava assim. Helena e Phillip que não eram tão novos concordavam comigo.
Eles viam os mesmos perigos que eu. Viam os corpos pendurados e cortados ao meio e nas árvores bem perto do nosso território. Território que não era defendido porque a Alfa estava muito ocupada bancando a ama seca para um pivetinho que mal sabia andar.
Só olhar para ele me irritava. Ele, com os cabelos claros e os traços da nossa mãe. Era o único de nós que se parecia com ela. E eu o odiava por isso.
Um dia, pouco depois de ele começar a andar, nós estávamos sentados à mesa jantando, numa das poucas tradições que mantivemos depois que tudo foi ladeira abaixo, quando ele começou a falar.
“Mamãe”, ele disse para Thalia sorrindo. Ela sorriu de volta.
Aquilo era demais. Antes que ela pudesse se intrometer e impedir, eu dei um tapa no rosto dele. Devo ter usado força demais, porque o cadeirão onde ele estava caiu no chão e ele começou a chorar histericamente.
Thalia correu para ajuda-lo e ralhou comigo. Disse que ele era só um bebê, era pequeno demais para entender.
“A mamãe morreu por ele, Thalia. Você pode fingir, mas nunca será ela”, eu disse.
Sei que não deveria ter batido no moleque na frente de todo mundo, mas não consegui me conter. E para o minha surpresa, meus irmãos mais novos me apoiaram.
E a partir desse dia, eles sempre olhavam para o garoto com um ar de reprovação.
Ele cresceu e Thalia passou a deixa-lo conosco, já que finalmente decidiu ser a Alfa que precisávamos.
Ele era irritante. Sempre pulando e rindo. Não parava nunca e a única coisa que eu queria era tirar aquele sorriso dele, dar um motivo para ele nunca mais sorrir.
Um dia, Thomas achou que seria engraçado trancar o garoto na dispensa. Da floresta dava para ouvir o choro do pivete pedindo para que o tirássemos de lá, prometendo que iria se comportar. Eu ignorei e continuei o que estava fazendo. O dia estava lindo e aquele choro agoniado o tornava ainda melhor.
Não posso dizer que Thalia aprovou o nosso castigo. Ela odiou e ralhou com todos dizendo que éramos malvados e que ele era só uma criança. Os outros pareciam envergonhados e arrependidos, mas não eu. E acho que ela percebeu.
Felizmente, a vergonha e a culpa dos meus irmãos iam embora assim que o menino começava a aprontar ou ficava atrás de um deles implorando para que brincassem com ele. Não acho que o odiassem como eu, mas certamente não gostavam muito dele. E por isso, ele voltava para a dispensa assim que a paciência de um deles acabava. Até que um dia, ele aprendeu a fugir.
Helena entrou em desespero quando abriu a porta da despensa e não o viu lá. De todos, ela era a que tinha mais pena dele. Acredito que ele despertava nela algum instinto materno ou algo do gênero.
Todos começaram a se alterar e ficavam correndo como baratas tontas. Estavam apavorados com a reação de Thalia. Sabiam que ela amava o garoto como se fosse seu, e quando soubesse que e o garotinho de três anos tinha simplesmente fugido deles sabe-se lá para onde, com certeza ia surtar.
Eu organizei uma busca pelo garoto. Cada um de nós cinco cobriria uma parte do nosso território. Tomei cuidado para mandá-los para bem longe de onde sabia que o garoto provavelmente estaria.
Sozinho eu fui até a antiga trilha que levava a lagoa. Era afastada e de difícil acesso. Nosso pai costumava nos trazer aqui quando éramos pequenos e eu tinha certeza que Thalia teria feito questão de mostrar o local para o pivete.
Dito e feito. Ele estava lá, olhando interessado para uma corda onde algum ômega fora morto pouco tempo atrás. Mesmo longe eu conseguia sentir o cheiro do sangue naquele lugar.
Era um lugar perigoso. E talvez os caçadores ainda estivessem ali por perto. Eu poderia simplesmente deixa-lo ali para que eles acabassem o trabalho e nos livrassem finalmente do moleque. Mas qual seria a graça disso?
Eu queria ver o sorriso sumindo de seu rosto, o choque, a decepção.
Na minha hesitação, ele deve ter ouvido algum barulho, porque olhou bem na minha direção.
Até que o moleque não era tão inútil assim.
Esperei até que distraísse de novo com a corda e pulei em cima dele, prendendo a cabeça dele contra o chão.
A minha intenção era quebrar o seu pescoço e deixa-lo lá. Os caçadores seriam os culpados. Ninguém pensaria em mim.
Mas ele gemeu e começou a chorar, e isso mexeu comigo. Queria ouvir mais daquilo.
Comecei a bater nele. Ele chorava, mas não o quanto eu queria ouvir. Ele não respondia às minhas provocações.
Aquilo estava me cansando. Não era o que eu queria. Queria os gritos de desespero.
Quando parei para respirar, ele tentou fugir. Puxei-o de volta pelos pés. Ele estava de quatro e tentava fugir.
Aquilo me deixou excitado. Isso era o que eu queria.
Arranquei sua roupa sem a menor cerimônia. Acho que ele mesmo saber o que iria acontecer, conseguia sentir que boa coisa não era, e ficou desesperado.
E o desespero dele só aumentou quando eu o montei sem a menor cerimônia. Ele gritava e chorava, mas isso era música para os meus ouvidos.
Pena que foi tudo muito rápido.
Mas tinha sido maravilhoso, e com certeza eu faria de novo.
Quando saí dele, ele estava no chão chorando ainda e se encolhia. Era uma visão patética. Ele dizia que eu era mal e que contaria para Thalia e ela iria brigar comigo.
E aí eu vi que não poderia fazer isso de novo. Ele não poderia falar disso com ninguém.
Eu peguei uma pedra e me aproximei dele. Ele deve ter percebido o meu intento, pois começou a dizer que não falaria para ninguém, que iria esquecer e que me amava. E essa última parte me fez perder qualquer controle que eu poderia ter até aquele momento.
Bati com a pedra até formar uma poça de sangue em volta de sua cabeça. Quando terminei com ele, vi a bagunça que tinha feito. Até o lobisomem mais lerdo do mundo conseguiria sentir o cheiro dele em mim. Era hora de dar um mergulho na lagoa.
Eu me lavei e joguei seu corpo na beira da lagoa, queria o achassem. Metade do seu corpo estava para fora da água, e a parte que me incriminava estava sendo lavada pelas águas.
Virei e voltei para casa.
Quando cheguei, meus irmãos estavam lá com expressões tristes. Helena chorava e Thalia a abraçava com os olhos cheios de lágrimas.
Finalmente estávamos livres dele.
Três dias depois, durante o jantar, ouvimos um choramingo vindo da porta de entrada. Thalia foi correndo abrir e para surpresa geral, era o moleque. Estava ferido, sujo e faminto, mas estava vivo.
Naquele instante, fiquei receoso de que cumprisse o que falou. Mas ele não parecia lembrar-se de nada. Era como se nada tivesse acontecido. E ele ainda tomou uma bronca por ter saído de perto da gente.
Tentei terminar o que tinha começado, mas Thalia o levava para cima e para baixo. E quando não podia ficar com ele, ela o deixava com um amigo.
Mas tudo mudou com o nascimento de Laura.
Thalia não tinha todo o tempo livre só para ele, e ele passou a ficar mais tempo conosco. E era fácil demais leva-lo para a floresta cada vez que me dava na telha. Aquilo virou meio que uma tradição, como montar a árvore de Natal na primeira semana de dezembro ou cantar ‘Parabéns para você’ nos aniversários.
E eu não tinha a mínima vontade de parar. Ele não parecia nem um pouco afetado pelo que eu o fazia passar. Continuava o mesmo, só um pouco mais retraído.
Thalia me olhava cada vez mais com mais desconfiança. Então arranjei uma namorada para passar o meu tempo e me distrair da minha obsessão com o pivete.
Patrícia era linda e inteligente. Seria a mãe dos meus filhos um dia. Dávamo-nos muito bem, principalmente no que se referia ao sexo. Mas ela não era ele. Quando estava com ela, tudo o que conseguia pensar era em seus gemidos e suas lágrimas.
Quando o pivete começou a ter problemas na escola, toda a atenção foi voltada para ele. Thalia teve que tirá-lo de lá, pois ele era violento.
Deram um filhote de cachorro, achando que isso o animaria. E não passou uma semana antes que ele matasse o cachorro a pauladas. Quando perguntaram o porquê, ele disse que o filhote não tinha mãe.
Foi aí que percebi que por mais que parecesse bem, eu tinha conseguido deixar uma marca. Ele estava sofrendo e aquele era o jeito que ele arranjara para mostrar que não estava bem. Mas tudo que viam nele agora era uma criança perturbada.
E até mesmo Thalia passou a se preocupar em como ele poderia influenciar Laura, já que os dois estavam sempre juntos.
Tentou mandá-los estudar com Deaton, mas tudo que conseguiram foi com que o veterinário tivesse a casa incendiada depois de que descobriu os dois pestinhas brincando com magia negra.
Laura era tão irritante quanto, e se bobear um pouco mais. Mas infelizmente o acesso a ela não era tão fácil quanto a ele. Ela tinha uma mãe zelosa.
Com o passar do tempo, aquilo não era mais tão prazeroso. Ele não tentava mais fugir, não gritava mais; estava resignado.
Tinha crescido bastante e não mais parecia aquele moleque raquítico que eu conheci.
Talvez fosse hora de mudar o jogo.
Parei de implicar com ele e tudo o que precisou foram alguns sorrisos para que eu virasse o irmão preferido.
Ele sempre estava perto pedindo para que eu o levasse ao cinema ou ao shopping. Então foi fácil arranjar uma desculpa para ficarmos sozinhos.
Ele estava dócil agora e começava a crescer. Era muito magro e seus traços eram bem leves, femininos até. E aquilo me deu uma ideia.
Comprei um vestido e fiz com que vestisse. Ele parecia meio incerto e com medo. Dei-lhe um tapa que o fez cair no chão e bater a cabeça.
Rasguei suas roupas enquanto o chamava de vadia. Ele era minha vadia e precisava saber disso.
Em pouco tempo, ele parecia outra pessoa.
Quando estávamos a sós era como se um interruptor fosse acionado e ele simplesmente mudava.
Não era mais o menino frágil de antes. Agora a inocência tinha ido embora, e eu não mais precisava começar nada. Ele tinha aprendido tudo muito bem.
Ele gostava de usar as roupas que eu lhe comprava. E ficava muito bem nelas. Melhor do que Patrícia jamais ficaria.
E minha obsessão com ele só aumento daí em diante.
Ele gostava de sexo. Todo lugar era lugar, e inúmeras vezes usamos salas de aula vazias da escola. Ninguém nunca suspeitou de nada, mesmo eu sendo mais de dez anos mais velho e não mais um aluno da escola. Eu era só o irmão zeloso que pajeava o irmão problemático onde quer que fosse.
E isso funcionou bem, até que a escola começou a ligar para casa relatando o comportamento impróprio dele.
No começo, eu achei que poderiam ter visto a gente e achei que aquele seria o fim. Mas não. O filho da mãe estava andando com a escola inteira e fazia questão que eu soubesse.
Claro que ele chorou e negou tudo, mas eu vi o brilho nos seus olhos quando ele me olhou. Ele queria me irritar e conseguiu.
Thalia pediu que eu conversasse com ele, porque talvez assim ele ouvisse. Era a desculpa que eu precisava.
Saí arrastando ele dali e fomos até a floresta. Ele ria enquanto eu o batia descontrolado. Ele sorriu e me beijou dizendo que sentia falta de uma foda de verdade.
Ele tinha feito de propósito. E eu achei aquilo excitante demais. E a partir desse dia, eu vi que eu já não controlava mais nada.
Eu estava nas mãos dele. Precisava dele. E o amava.
E continuamos assim por um tempo.
Eu me casei para manter as aparências e Patrícia estava grávida do nosso primeiro filhote. Mas eu não ligava para isso. Meus pensamentos estavam sempre com ele.
Então ele começou a agir estranho. Os outros reparam também. Thalia brincava dizendo que ele estava apaixonado.
Eu adorava ver o seu rosto vermelho quando eu perguntava por quem. Ele não respondia. Mas eu já sabia a resposta. Ele me amava também.
Não demorou muito para que ele entrasse no cio. Aquele cheiro delicioso me torturando. Os outros nem perceberam.
Eu me ofereci para conversar mais uma vez com ele. Thalia adorou a ideia. Estava preocupada com ele e temia que ele pudesse fazer algo estúpido, como ela achava ser de costume.
Nós fomos para outra cidade, uma cidade vizinha. Era o seu primeiro cio e eu queria algo especial.
Era uma situação completamente nova. Eu queria ver seu rosto quando eu rompesse aquela pequena resistência.
Foi quente, mas sem o desespero habitual. Íamos num ritmo lento e forte. Os gemidos dele por si só quase me faziam gozar. E não demorou muito para que eu gozasse dentro dele.
Ele era meu e eu queria que o mundo soubesse disso. Por isso, eu o marquei. Não onde eu queria, é claro.
Por mais que quisesse gritar para o mundo, teríamos que ter muito cuidado. Quem sabe fugir, recomeçar em outro lugar. Mas até lá, minha marca seria discreta, onde só eu e ele veríamos.
Naquele fim de semana, nós passamos todo o tempo transando. Ele não se cansava e sempre pedia por mais. E não pude deixar de rir quando ele entrou no carro com sérias dificuldades para andar.
Fomos para casa e tudo o que eu pensava era largar tudo e fugir com ele. Poderíamos ser felizes num lugar onde ninguém nos conhecesse.
Mas essa ideia foi por água abaixo quando ele desapareceu por quase dois dias. E quando voltou, voltou com o cheiro de outro.
Eu vi vermelho, e antes que algum dos meus irmãos, esposa, cunhados ou sobrinhos pudesse me parar, eu voei em cima dele. E provavelmente o teria matado se não tivessem nos separado.
Ele tentou explicar, disse que não pôde evitar, que tinha se apaixonado. E aquilo partiu meu coração. Será que ele realmente não sabia o quanto eu o amava? Como podia fazer isso comigo?
Discutimos e feio. E eu o expulsei da alcateia. Thalia estava viajando e eu estava no comando e não queria mais ver a cara daquele traidor.
Ele foi embora e levou meu coração com ele.
Thalia ficou arrasada quando soube o que tinha acontecido, mas mais uma vez meus irmãos me apoiaram dizendo que ele tinha colocado toda a alcateia em risco com isso. Que deveria ter conversado, e não ido simplesmente começar um caso com alguém bem mais velho, humano e que ainda por cima era professor dele. Seria um escândalo e aquilo com certeza colocaria nossa família na mira dos caçadores.
Ela disse que cuidaria disso e cuidou. Deu algum dinheiro para ele e disse que era melhor ele ficar longe da alcateia.
Se isso tivesse acontecidoanos antes, eu teria sido a pessoa mais feliz do mundo. Mas não foi, e agora essa distância me matava por dentro.
Pouco tempo depois, eu encontrei com Mark Riddle, seu professor e quem ele chamava de ‘o amor de sua vida’. E para minha surpresa Peter não estava mais com ele. E aquilo me deixou puto. Sem pensar, eu o soquei. Mas mesmo quando a alcateia tomou conhecimento disso, ninguém estranhou. Eu era só um irmão defendendo a honra do outro.
Meses passaram até que Peter entrasse em contato. Ele ligou várias vezes, mas sempre dava o azar de eu atender. Pedia desculpas, chorava copiosamente e dizia que tinha um motivo muito importante para voltar, que não podia ficar mais sozinho, que não aguentava mais. No começo eu ainda ouvia, discutia. Mas depois de um tempo eu parei de dar atenção. E ele parou de ligar.
Até um dia o telefone tocou. Era um velho mal educado dizendo que tínhamos que ir lá pegar o corpo antes que começasse a feder e que aproveitássemos para levar o guri antes que ele chamasse os jornais e botasse a boca no trombone. Ele passou o endereço e todos nós fomos.
Laura mostrou o caminho. Ela já tinha ido lá várias vezes e tinha sido a única que se preocupou com ele. Ela estava aflita e disse que devia ter dado algo errado, porque ainda faltavam duas semanas para o bebê nascer e o Dr. Deaton prometera que ajudaria.
O meu sangue gelou quando ouvi isso e corri o mais depressa que pude até lá. E devo ter batido o recorde de multas naquele dia.
Quando chegamos, eu arrombei a porta e via a cena grotesca. Tinha sangue para todo lado e ele estava no chão, em meio a uma poça de sangue. Sua barriga estava aberta e sua mão cheia de sangue. Ele tinha feito isso.
Eu me aproximei para verificar se ele ainda respirava e vi o pequeno embrulho que se mexia em seus braços.
Eu o peguei e vi a criança mais linda do mundo. E eu sabia que era minha.
O que se passou depois é meio incerto para mim. Acho que fiquei em choque ou algo assim.
Peter só acordou três dias depois e a primeira coisa que perguntou foi se Charlie estava bem. Charlie era um belo nome. Eu gostei.
Mas alguma coisa não estava certa. Ele ignorava nossa presença.
Quando Thalia se aproximou, ele rosnou e se encolheu. Seus olhos brilhavam azuis.
Demorou alguns dias para que ele se aproximasse da reserva de novo. Mas eu sabia que ele viria.
Ele queria ver Laura e os outros, mas toda vez que eu ou um dos outros adultos se aproximava, ele ia embora.
Levou alguns meses para que eu conseguisse me aproximar, e ele só permitiu que eu ficasse por perto quando viu o quanto eu adorava o garoto.
Quando viram que estávamos tendo contato de novo, os outros também se aproximaram.
Tudo parecia melhor com ele ali, e eu ansiava para que tudo voltasse ao normal.
Até que ele apareceu.
Aquele professor teve a pachorra de aparecer no meio da reserva procurando por ele.
Não impedi porque achei que ele receberia a mesma resistência que todos nós, mas qual não foi minha surpresa quando ele não só o deixou se aproximar como permitiu que ele fizesse parte da vida de Charlie. Meu Charlie.
Mas eu não tive o que falar, todos pareciam aliviados de ver que ele realmente se importava com Peter e com o menino. E faziam vistas grossas com relação aos problemas. O fato de ele ser um professor não era mais importante, tampouco o fato de ele ser mais velho.
Ele passou a ser uma visita constante no apartamento de Peter. E toda vez que eu ia lá o encontrava. Eu sabia que ele não me suportava e tudo o que eu mais queria era vê-lo pelas costas.
Bater de frente não era uma boa ideia. Não queria afastar o Peter. Por isso, eu me fazia de confidente e ele me contava tudo. Seus medos, frustrações, como ele ainda amava o professor e estava pensando em dar uma chance aos dois por causa do Charlie. Era de embrulhar o estômago.
Num belo dia, decidi que era hora de interpretar o bom irmão mais velho e coloquei Mark na parede.
Achei que isso o assustaria, mas no dia seguinte ele o pediu em casamento. E é claro que Peter aceitou.
Thalia fez uma festa enorme no quintal e Peter parecia nas nuvens. E eu queria ser quem estava ao seu lado.
Depois disso o contato com ele ficou mais restrito. Mark estava o tempo todo com ele e com Charlie. Eu só conseguia vê-los enquanto o outro trabalhava. Por isso eu fazia questão de aproveitar bem o meu tempo com ele.
E isso durou uns dois anos.
Até que um dia, Mark apareceu no meu trabalho e estava extremamente alterado. Ele cheirava a bebida e eu achei engraçado que ele precisasse disso para me enfrentar.
Ele gritava dizendo que sabia de tudo e que não ia permitir que eu me aproximasse mais de Peter, que eu era um monstro e que não prestava. Que eu era o ser mais doente que ele já tinha tido o desprazer de conhecer. E eu ri e o chamei de hipócrita, pois ele também era um. Tínhamos a mesma idade. Ele tinha se aproveitado de um garoto com metade da idade dele e achava isso a coisa mais normal do mundo. Ele negou e disse que o amava mais que tudo. Ele foi embora quando respondi que eu também.
A partir daí meus contatos com Peter foram esporádicos, mas em nenhum deles ele deu a entender que tivesse contado algo para o marido. Pelo contrário, era como se nada tivesse mudado.
Mas era questão de tempo do outro abrir a boca. Uma hora o medo dele seria menor que a coragem e ele contaria sobre nós dois para todos.
Se ao menos Peter fugisse comigo. Nós dois e Charlie poderíamos recomeçar em outro lugar. Mas eu sabia que ele não iria a nenhum lugar comigo enquanto Mark respirasse. Então, ele teria que ir embora.
Esperei uma das festas para colocar o plano em prática. Era aniversário da minha filha mais velha e Peter a adorava. Liguei e insisti que ele viesse, pois Louise ficaria devastada se não visse seu tio preferido. E ele era mesmo.
Na festa, eu fiz questão de provocar o máximo possível. Abraçava Peter sempre que podia enquanto olhava Mark. E logo, os dois estavam brigando. Mark queria ir embora, mas Peter queria pelo menos cortar o bolo e pedia para ele parar de implicar com todo mundo. Mark, por sua vez, saiu bufando e reclamando. Não se despediu de ninguém e foi embora. Eu sorri quando escutei seus pneus cantando. Meu plano tinha dado certo.
Poucos minutos passaram e vi Peter agitado. Parecia nervoso. Ele não via Charlie há alguns minutos e ninguém sabia do garoto. Charlie tinha acabado de fazer dois anos, era muito pequeno para ficar sozinho pela floresta. Peter sabia disso e saiu correndo para procurá-lo.
A festa terminou, alguns saíram à procura de Charlie também e de Peter que não voltara.
Eu tinha um mau pressentimento.
O telefone tocou e pela expressão da Thalia eu sabia que algo muito ruim tinha acontecido.
Peter chegou e quando Thalia explicou que os policiais tinham encontrado os restos de um carro capotado no meio da floresta, ele saiu correndo em direção à estrada.
Eu corri logo atrás, porque eu sabia que meu plano não tinha sido perfeito, eu tinha pego um inocente no meio do fogo cruzado. Quando cheguei, Peter estava incontrolável e tentava desvirar o carro.
Quando vi o desespero dele tentando tirar Charlie dos escombros antes que o carro pegasse fogo, eu gelei. Eu tinha conseguido destruir a única pessoa que realmente fez o meu Peter feliz. A vida dele era o Charlie. E eu o matei.
Phillip, Thomas e Arthur chegaram logo depois de mim e foram segurá-lo e afastá-lo do carro. Ele esperneava, gritava, mordia e chorava. E eu entendia o seu desespero. Mas tinha muitos humanos em volta. Não podíamos fazer nada sem nos denunciar.
E enquanto eles o seguravam, o carro explodiu. Senti meu coração falhar e o dele também. Ele parou de se debater e olhava fixamente para o carro. Estava em choque.
Ele passou dias sem falar, quase sem se mexer. Parecia perdido num mundo só seu.
A polícia descobriu sobre os freios cortados e ele virou o principal suspeito. Nada foi provado, é claro. Mas a dúvida permaneceu.
E então ele voltou a interagir com os outros. Sorria, mas seu sorriso não chegava aos olhos. Era forçado. E tinha um brilho sinistro no olhar. Eu sabia que algo não estava certo.
Mas todos estavam felizes de vê-lo sair da inércia. Só Laura não acreditava naquilo. E foi graças a ela que ele sobreviveu à primeira tentativa de suicídio.
E depois daquela vieram várias tentativas. E sem saber o que fazer Thalia o trancou no porão. Quando ele tentou se enforcar com as correntes, Laura desobedeceu a uma ordem direta da Alfa e se trancou junto com ele.
Tenho que admitir que Laura tinha mais colhões que a mãe. E não hesitou em tomar uma atitude quando viu algo que não concordava. Era uma Alfa que eu seguiria.
Eles passaram quase três meses sem contato com ninguém e achei que o perderia para sempre.
Até que as crianças, que não aguentavam mais de saudades dele começaram a jogar doces e coisas que eles sabiam que ele gostava. Às vezes iam contar o que tinham aprontado com os pais e tios. Elas queriam o tio de volta. E aos poucos ele começou a responder. Ele parecia se animar perto deles e todos perceberam isso.
Ele era bom com crianças. Talvez um dia pudéssemos tentar de novo. Aposto que ele gostaria disso.
Levou um bom tempo até que o libertassem de lá, mas quando saiu ele parecia um pouco mais como o Peter que eu conhecia. Triste ainda, logicamente. Mas aquele brilho estranho tinha sumido do olhar.
Laura e ele decidiram ir estudar Psicologia num universidade em outro estado. E ele estava meio receoso de ficar muito longe da alcateia, e me fez prometer que o visitaria sempre que pudesse. E é claro que eu iria.
Os seis anos seguintes nossos encontros foram tranquilos. Laura sumia sempre que tinha uma festa e ele ficava livre para mim. Eu ficava deliciado com o sorriso que ele me dava cada vez que me via no Campus. E quando ficávamos sozinhos, ele ainda era a minha vadia.
Numa das vezes ele estava no cio. Mas não me deixava chegar perto. Aquilo me irritou. Fazia anos que ele não me negava nada. Será que ele tinha achado outra pessoa? Alguém tinha tomado o lugar de Mark e não era eu? Quem ele achava que era?
Quando dei por mim estava gritando com ele sobre o quão feliz fiquei ao me livrar do traste do marido dele.
Mas ao invés de ficar ofendido por eu ter falado mal do falecido, a única coisa que ele escutou foi que eu matara o garoto também.
Ele não mais parecia a minha adorável vadia que não valia nada. O brilho sinistro tinha voltado. E fiquei surpreso quando ele pulou em cima de mim me atacando.
Ele não era mais um garoto fraco, era um homem. Um homem forte, bem mais novo que eu e possesso.
Brigamos de rolar no chão e eu sabia que minhas roupas estavam em péssimo estado. As dele conseguiam estar piores que as minhas. Eu sentia os cortes de suas garras e o sangue em minha boca. E isso me excitava. Mas sabia que não conseguiria nada com ele até eu me explicar.
Então eu contei tudo. De como tinha cogitado fugir com ele, como me senti traído quando ele correu para Mark, como fiquei feliz quando vi que ele não estava morto e que tínhamos o bebê mais lindo do mundo e quanto eu queria ter tirado Charlie daquele carro, mas não o fiz porque não poderia nos denunciar. Os humanos não podiam saber do segredo da nossa família e a nossa família nunca nos aceitaria. Seríamos caçados de imediato.
Aquilo pareceu acalmá-lo e ele parou de me agredir. Parecia analisar algo. Fechou os olhos com força quando toquei seu rosto num carinho singelo. Podia jurar que estava tendo um debate interno.
Quando abriu os olhos de novo, o brilho tinha ido embora e ele atacou meus lábios com sofreguidão. Tudo tinha voltado ao normal e pela primeira vez em anos eu me sentia leve.
Quando a faculdade e todos os cursos de especialização que eles fizeram terminaram, Peter voltou a morar na Mansão.
Eu não poderia ter ficado mais feliz. O jeito dele com as crianças me encantava.
Não conseguia manter minhas mãos longe dele por muito tempo, e logo começamos a transar dentro da Mansão com só alguns cômodos entre a gente e os outros lobisomens. A ideia de poder ser pego era excitante demais.
No dia do eclipse lunar, estávamos em um dos banheiros de cima quando sentimos o cheiro de madeira queimada e ouvimos os primeiros gritos. Saí de dentro dele sem muito cuidado e corri para colocar minhas roupas.
E então eu senti um forte impacto atrás da cabeça e eu caí. A última coisa que vi foi Peter me olhando com aquele brilho no olhar e um sorrisinho de canto.
“Touché”, ele disse antes de me golpear várias vezes na cabeça.
E a última visão que tive o seu sorriso através da água turva com o meu sangue.
Fim do cap. 24
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