Uma nova chance para recomeçar
2 Clara
Cheguei da escola, guardei minha mochila e casaco no armário do hall de entrada e já fui correndo para o meu quarto fazer minhas malas antes que minha tia chegasse. Ainda bem que ela ainda não chegou, se não ela ia reclamar que eu e meu irmão chegamos fora do horário que ela determinou. Fala sério, o Saulo já tem 18 anos.
Peguei a minha mala roxa e comecei a colocar tudo o que eu levaria para o Acampamento Kingsley. Mal posso esperar para voltar lá e rever meus amigos. Lá era como uma segunda casa para mim.
Peguei minhas roupas do meu armário, arrumei elas e as coloquei na mala. Separei a minha roupa que eu iria usar para viajar e os coloquei junto com a minha bolsa em cima da cama. Coloquei na mala, também, minhas coisas para higiene pessoal, uma pasta com minhas músicas e textos e alguns livros para que eu pudesse ler nas minhas horas vagas.
Depois que coloquei tudo que eu precisava dentro da mala, tentei fechá-la, mas ela estava muito cheia. Me sentei em cima dela e mesmo assim não consegui fechar.
– MANINHO! — eu gritei pelo meu irmão.
Logo Saulo apareceu na porta de meu quarto com uma cara de "Que foi, menina?". Ele era meu irmão mais velho, media 1,86 de altura, tinha cabelos loiros e os usava arrepiados em uma espécie de topete, e ele também tinha os olhos verdes de meu pai. Ele era minha única família, porque nossos pais morreram em um acidente de carro quando ainda morávamos no Brasil, isso já faz dois anos. Desde então nós moramos com nossa tia no Canadá.
Andei até meu irmão, peguei em sua mão, o puxei para dentro de meu quarto, apontei pra mala e disse:
– Senta aí!
Ele revirou os olhos e se sentou na mala, enquanto eu a fechava. Ainda bem que ele é mais pesado que eu, se não a mala não iria fechar.
– Você precisa mesmo levar tudo isso? — ele me perguntou.
– Sim, é sempre bom se prevenir. — eu disse. — E aqui eu já tenho tudo para a apresentação de final de acampamento.
– Mas já?
– Claro! Estou planejando isso desde o final do acampamento passado. Eu quero ganhar esse ano!
– Exagerada!
Eu dei língua pra ele e terminei de fechar a mala. Ele se levantou, colocou a mala no chão e então nós ouvimos o barulho da porta da sala se abrir. Nos entreolhamos e corremos para o corredor. Eu fiquei parada na frente de meu quarto e Saulo foi pra frente do dele, tentando abaixar o cabelo que estava cheio de gel para em seguida colocar o gorro. Dessa vez parecia que ele tinha colocado gel demais e ele precisava esconder o cabelo para que minha tia não visse. Ouvi os passos da minha tia vindo na direção das escadas e me desesperei. Eu devia ficar parada onde estava, mas eu precisava ajudar meu irmão.
Corri até ele, amarrei o cabelo dele com uma bandana que ele tinha no bolso, fazendo o cabelo abaixar o máximo que podia e coloquei o gorro por cima. Espero que isso segure até minha tia entrar no quarto dela.
Quando me virei para voltar para a porta de meu quarto, lá estava ela, parada na frente da escada me olhando séria. Engoli em seco e ela veio até mim, mandou que meu irmão entrasse em seu quarto e o trancou. Ela pegou meus cabelos e me puxou até a área de serviço da casa. Chegando lá eu já sabia exatamente o que ela iria fazer, ela pegou um bastão, um pouco menor que um taco de hóquei, e me mandou ficar virada para a parede. Eu sabia o que acontecia quando alguém não cumpria com as regras dela.
"Respiro fundo", pensei, "faça tudo pra não gritar."
Ela acertou o bastão pela primeira vez e eu contive o grito. Ela já havia me batido antes, mas hoje ela me bateu ainda mais forte. Ela me acertou mais duas vezes e eu mordia os lábios com força para não gritar, de tanta força que usei eu já sentia um leve gosto de sangue em minha boca. Não consegui conter as lágrimas e elas já inundavam meu rosto. Eu não queria em momento algum que Saulo me ouvisse gritar, ou ele tentaria a qualquer custo me tirar daqui.
– Pode se virar. — disse minha tia.
Eu sequei as lágrimas de meu rosto, me levantei meio cambaleante e me virei para ela. Ela me entregou um pano e uma lata de cera, e me mandou encerar todo o piso de madeira da varanda que fica na parte de trás. Me sentei no chão e senti um vento frio. Olhei para ela e ela ainda segurava o bastão, antes que ela me ameaçasse com ele de novo, comecei a encerar o chão.
Minha tia era como uma ditadora, se não seguíamos suas regras, éramos severamente punidos. Ela nos tratava como escravos, não podíamos aparecer para as visitas, não podíamos chegar depois do horário em casa, precisávamos esperá-la na frente de nossos quartos para recebê-la, o Saulo não podia entrar em meu quarto e nem eu no dele, não podíamos chamar nossos amigos pra vir pra cá e entre outras regras.
É por isso que eu gosto de ir para o Acampamento Kingsley. Lá eu me sinto livre, posso fazer as coisas que eu gosto e fugir dessa prisão que moro.
Continuei encerando o chão e a cada passada, minha mão começava a arder de tanta força que ela me fazia fazer.
**
Estamos agora no aeroporto. Eu estava usando luvas para esconder a vermelhidão e o inchaço de minhas mãos. Já tínhamos feito o check-in e agora estávamos na fila para entrar no avião. Eu evitar o contato visual com Saulo, porque ele já se preocupava comigo o suficiente e eu sei que ele está preocupado comigo desde que minha tia me arrastou pra área de serviço da casa, e isso era tudo que eu não queria.
Entregamos nossos passaportes e as passagens e logo em seguida fomos guiados por uma aeromoça até o avião. Mantive as mãos sempre perto do corpo, ele ainda não as viu e se dependesse de mim não as veria, apenas quando desinchassem.
Nos sentamos em nossos assentos. O local onde minha tia me batera ainda ardia e doía muito, mas eu consegui me sentar. Saulo se sentou no lado da janela do avião e, quando eu me sentei, ele colocou o braço por trás de mim, para que eu pudesse deitar a cabeça em seu ombro.
– O que ela fez com você? — ele sussurrou enquanto acariciava meu braço.
– Eu...não quero comentar... — eu disse somente.
– Clarinha...
– Por favor, maninho... — pedi.
Ele suspirou triste, continuou o carinho por um tempo e olho paras as minhas mãos notando as luvas.
– Por que está de luvas? — perguntou.
– É porque eu...eu...to com frio. — respondi.
Coloquei minhas mãos entre as pernas e gemi baixinho por causa da dor. Ele segurou meu pulso e antes que eu pudesse impedí-lo, ele já tinha tirado a luva de minha mão. Ele ficou surpreso ao dar de cara com minhas mãos vermelhas e bem inchadas ainda. Eu consegui soltar meu pulso, peguei a luva e a coloquei novamente. Ele suspirou ao meu lado e disse:
– Ainda bem que não vamos mais voltar pra lá.
– Como assim? — perguntei.
– Depois do acampamento, nós vamos fugir para a nossa nova casa.
– Sério?
– Eu nunca mais vou deixar ela te machucar. — ele disse com ênfase no "nunca".
– Mas... — eu comecei receosa. — e se ela pegar a gente de novo? — o olhei.
– Eu te prometo que ela não vai.
Ele beijou minha testa ternamente, voltou a fazer carinho em mim enquanto eu me encostava em seu ombro. Em pouco tempo, adormeci.
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