Clara dormia como um anjo encostada em meu ombro. Ela sofreu tanto no Canadá, isso porque ela era uma das pessoas mais animadas para ir conhecer o país. Quando nossos pais morreram no acidente de carro, eu tive que ser forte e ajudá-la, e no momento em que soubemos que íamos para o Canadá, eu fiz de tudo para que ela sorrisse, pois iríamos para o país dos sonhos dela, mas, infelizmente, não foi bem como esperávamos.

Fiquei observando a paisagem lá em baixo pela janela do avião. Em poucos minutos estaríamos aterrissando em Orlando e o motorista do acampamento nos levará até Tampa. Nós sempre chegávamos primeiro que muitos outros campistas e o acampamento sempre mandava um motorista para cada um.

Voltei a observar a Clara e passei a pensar em como nossa vida será daqui pra frente. Foi bem difícil de conseguir o Greencard para que conseguíssemos morar aqui nos Estados Unidos, mas agora já consegui todos os documentos necessários, comprei uma casa e só preciso que alguém compre os móveis. Se tudo der certo assim que o verão acabar, Clarinha e eu nos mudamos.

Quando menos percebi, o avião já ia pousar. Acordei a Clara e ela se ajeitou em seu lugar. Pude ver um brilho em seu olhar quando tentava olhar o aeroporto pela janela do avião e vi um leve sorriso aparecer em seu rosto. Assim que o avião pousou, pegamos nossa bagagem de mão, descemos do avião, pegamos nossas malas e seguimos na direção do motorista com uma plaquinha escrito "Clara e Saulo Carvalho — Acampamento Kingsley". O motorista era o mesmo que sempre nos buscava desde nosso primeiro verão no acampamento, seu nome é Chris e ele tem uns 35 anos, é um pouco menor que eu, deve medir 1,75m, é bem branquinho como a Clarinha, tem cabelos pretos e olhos azuis. Ele é bem simpático e nos ajudou muito em nosso primeiro verão nos contando sobre o acampamento e nos dando dicas. Ele se tornou nosso amigo e confiamos nele, porque ele entende o que passamos com nossa tia no Canadá, quando ele era criança morou com os tios que o tratavam da mesma forma que nossa tia nos trata. Eu devo muito a ele, porque foi ele que me ajudou com a casa e a escolher um lugar para ficarmos.

Quando ele nos viu no aeroporto, ele abriu um largo sorriso e acenou para nós. Clarinha correu até ele e o abraçou, ele retribuiu o abraço dela e ela abriu um sorriso. Eu e ele trocamos um toque de mãos e em seguida ele nos levou até o carro. Eu o ajudei a colocar nossas malas no porta-malas, depois entramos no carro e partimos em direção a Tampa, mais uma viagem cansativa para nós.

Clarinha deitou em meu colo e acabou dormindo em pouco tempo. Estava bem quente, então eu tirei as luvas dela, deixando à mostra suas mãos que agora já não estavam mais tão inchadas, apenas um pouco vermelhas. Eu nem sei como ela está conseguindo se sentar, sei que minha tia bateu nela, dava pra ouvir o eco do bastão na pele dela mesmo ela estando na área de serviço da casa. Ela tem muita vontade de chorar, eu sei disso, mas ela não quer que eu a veja chorando.

Chris olhou para nós pelo espelho retrovisor e comentou:

– Ela não parece muito animada. O que aconteceu?

– Ela, para me ajudar, desobedeceu uma das regras de nossa tia. — respondi. — Dessa vez a gente vai conseguir sair de lá.

Eu fiquei passando a mão nos cabelos dela e observei o céu pela janela. Me lembrei quase que imediatamente da primeira vez em que tentamos fugir da casa de nossa tia.

Foi no final do ano passado. Estávamos na escola e eu tentava consolar Clarinha por ter apanhado de nossa tia, já era a terceira vez naquela semana. Então, pegamos nossas mochilas e saímos da escola. Corri com ela até uma parada de ônibus e seguimos até a rodoviária interestadual. Quando estávamos para comprar uma passagem para Toronto, avistamos nossa tia acompanhada de dois policiais com a maquiagem toda borrada e choramingando dizendo que a escola ligou para ela avisando que não tínhamos comparecido à aula.

Ela nos levou para casa e me fez lavar toda a louça passando um produto químico que deixava tudo reluzente e fazia minhas mãos arderem, e novamente bateu na Clarinha umas cinco vezes, ela teria batido mais se eu não tivesse concordado em limpar a casa para ela.

Todas as imagens daquele dia vieram em minha mente como um flash. Olhei Clara e me lembrei de seus gritos de dor. Ela era tão frágil e um alvo tão fácil, que é sempre pega facilmente pela nossa tia.

Encostei minha cabeça na janela e acabei adormecendo.

**

Acordei e nós já seguíamos pela estrada de terra que dava para a entrada do Acampamento Kingsley, foi aí que eu percebi que eu estava deitado no colo da Clarinha e que ela passeava suas mãos pelo meu cabelo. Depois ela começou a fazer um cafuné tão bom que, se não fosse pelo carro parando e o Chris abrindo a porta para nós, eu teria dormido de novo.

Me sentei e desci do carro com ela logo atrás. Peguei nossas malas, nos despedimos de Chris e seguimos até a entrada do acampamento. Vimos dois campistas que reconheci serem Kara e Liam Kingsley, filhos do dono do acampamento. Nossa, a Kara estava ainda mais gata do que ano passado. Tinha ganhado corpo, seus cabelos loiros estavam bem ondulados, quase cacheados, e chamavam bem a atenção para seus olhos azuis e seu rosto.

Uma mulher baixinha e gorda, chamada Wanda, veio até nós, revistou nossas malas, para verificar se estávamos carregando alguma bebida alcoólica ou drogas, e então nos indicou nossos chalés. Eu fiquei com o chalé 1 da área masculina. Fui até lá e coloquei minha mala e minha mochila em cima da cama que estava vazia. Olhei para a cama ao lado e vi uma mala grande em cima dela. Pelo visto eu iria dividir o quarto com o Kingsley. Que ótimo!

Depois de arrumar minhas coisas, saí a procura da Clara e a avistei saindo do chalé 10 da ala feminina, ela me viu e veio saltitando até mim. Ela já parecia um pouco mais animada.

– Ooi! — ela disse.

– Já se instalou? — perguntei.

– Sim. — ela sorriu.

Notei que alguns campistas já haviam chegado, já deviam ter uns dez. Olhei para ela e comentei:

– Andei dando uma olhada e não tem nenhuma menina interessante aqui.

– É...Tá... Vai que a Letícia vem de novo esse ano. — ela disse e eu a olhei como se não soubesse do que ela falava. — Não faz essa cara, eu sei que você tava afim dela.

– Nhé, nhé, nhé, cala a boca. — disse a ela, e ela riu.

– Isso é um absurdo! — escutei uma menina gritar.

Me virei e pude ver a cena, uma menina estava aprontando um baita escândalo na entrada do acampamento. Primeiramente pensei: "Ah! Que horror! A menina tá fazendo todo esse barraco por causa de bebida?!" e depois eu parei pra reparar nela. P*P que garota gata. Ela tinha uma pele morena, cabelos curtos castanho escuros e lisos, e tinha um corpo que...UAU...era um corpo lindo, cheio de curvas...Ah...meu...Deus! Mas voltei a realidade e me deu desgosto de novo. Ela foi xingando todo mundo e veio vindo em nossa direção. Ela percebeu que eu a estava observando, gritou um "Tá olhando o quê?" e seguiu na direção do chalé 10.

– Ah, não, meu chalé não... — ouvi Clara resmungar.

A menina entrou no chalé e bateu a porta atrás de si.

Notas finais
Oi, pessoal! Desculpa a demora! Por favor, comentem é importante pra mim! Beijos :*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.