Uma nova aventura
1 Capítulo 1 - Os Anéis de Poder
Era uma bela manhã de outono. As grandes árvores com seus galhos retorcidos cobertos de musgo verde-esmeralda erguiam-se contra o céu, imponentes. Enquanto o vermelho-ouro cintilava feito diamante com o orvalho refletido na superfície das folhas. As colinas e os campos permaneciam incólumes com aqui e ali um lago se formando ou um broto de sebe crescendo desajeitadamente. Os raios de sol trespassavam as nuvens como lanças e abriam caminho até o topo das tocas onde uma fumaça cinzenta era expelida pelas chaminés.
Elanor acordou de um sonho devasso, estava montada em um cavalo com uma maça de guerra na mão direita e com a esquerda agarrava fortemente a crina do animal. Galopava por grandes abismos rochosos e também por campos e vales, subia montanhas e abatia inimigos e tudo isso apenas sozinha, apenas ela e seu musculoso alazão. Ouviu-se um estrondo e um berro agudo, algo que ela sabia bem o que poderia ser; os irmãos haviam acordado e estavam de novo brincando dentro da toca. Levantou-se de um pulo, coçando o olho e dirigindo-se até a sala em passos largos, tão quais os pés de Hobbit permitem.
— Merry, Pippin, é a última vez que... — começou ela. — Mas a sala estava vazia e intacta, o que significava que os irmãos provavelmente estavam pregando uma peça nela. — Onde vocês estão seus pestinhas? — Ela lançou um último olhar intrigada ao redor da sala e foi até o corredor, andando silenciosamente. Mais um estouro e dessa vez surgiu abafado, como se viesse de baixo. Ela disparou em direção a curta escada em caracol que dava para as dispensas. As dispensas eram localizadas nos subsolos, por isso eram os locais mais escuros e pesados das tocas Hobbits.
— Tem certeza que ela não ouviu? — uma voz aguda e doce surgiu mais à frente, onde ficava a adega maior.
— É claro que sim, aliás, ela está dormindo e não pode nos ouvir daqui debaixo. — concluiu outra, surgindo mais forte que a primeira. — Tome, cansei de cavar é a sua vez!
— Ah, mas Merry, eu já cavei! — retorquiu a primeira voz, soando mais aguda que antes.
— Silêncio vocês dois! — uma terceira voz se juntou as outras, ainda mais fundo da adega. — Acho que encontrei algo...
Elanor se aproximou entre as sombras com uma lamparina que encontrou lá em cima, em frente, dois Hobbits estavam cavando um buraco no assoalho amadeirado e um terceiro abrindo um furo na parede com um saca-rolha.
— Enfim encontrei vocês — berrou Elanor sob a luz bruxuleante que emanava da lamparina —, mas o que estão fazendo, colocando Bolsão a baixo?
Merry estacou onde estava com a pá a centímetros do solo, Pippin franziu os lábios em um sorriso inocente e Frodo, em uma tentativa frustrada escondeu o saca-rolha atrás das costas.
— Andem logo, quero saber o que está acontecendo aqui. —disse Elanor, pousando a mão esquerda na cintura em posição de autoridade. — Então, o gato comeu suas línguas?
Pippin foi o primeiro a falar, ele sempre era. Era o mais bonito dos três, com seus cachos encaracolados e castanhos caindo um pouco acima de suas sobrancelhas. Tinha um nariz empinado e bochechas rosadas que contrastavam com seus olhos esmeralda.
— Elanor, é realmente esplêndido encontrá-la. Cá estava eu, consertando este buraco horrendo, sabe...
— Inventa outra, Pippin — cortou a irmã —, de quem foi essa ideia, hein?
Frodo apareceu sobre a luz da lamparina, estava com os cabelos e as mãos cobertas de serragem e um sorriso maroto nos lábios. Era o mais velho do trio, quase entrando na vintolescência e apesar disso era tão criança quantos os irmãos menores e era sempre o protagonista nas aventuras dos pequenos.
— Bem... Para falar a verdade — disse ele, chacoalhando os cabelos para que as serragens caíssem —, eu escutei boatos no Ramo de Hera. O velho Olo Pé-Soberbo conta histórias estranhas sobre Bolsão. Imagine túneis de ouro aqui, no Bolsão!
— Frodo, isso não é motivo para sair por aí escavando o chão ou furando a parede, — questionou Elanor —, além do mais, você sabe que papai dizia que isso era só mais uma história antiga sobre as aventuras de Bilbo Bolseiro. Terão que tapar esse buraco, e assim que terminarem subam para o café, pestinhas. — E dizendo isso, deu meia volta e partiu em direção a escada.
— Eu sabia que isso não iria dar certo. — exclamou Merry depois dos passos da irmã terem se distanciado.
— Sabia e mesmo assim veio, então não fique se lamentando — respondeu Frodo —, e fui eu quem fiquei com a culpa dessa vez, vocês não tem nada com que reclamar.
Bastou pouco tempo para voltar a tapar o buraco, com os três revezando entre si. Por fim, acabaram todos sujos como leitões no chiqueiro e com Frodo amaldiçoando quem tinha inventado essa história de tesouro. Subiram em fila indiana para cima, onde o ar estava carregado com cheiro de especiarias e uma chaleira apitava sonoramente. Infelizmente, a irmã os viu no momento em que tentavam atravessar a cozinha para o quarto, lançando a eles um olhar aterrorizante por cima da bandeja de chá que levava para a mesa. Não demorou muito para eles decifrarem aquele olhar, Frodo foi o primeiro a saltar em direção ao corredor à direita e seguir até uma minúscula até o banheiro. Naquele havia cinco banheira e um fonte fumegante onde os pequenos poderiam pegar água se banhar. Minutos depois trechos de canções flutuavam para fora do banheiro e se misturavam a atmosfera da toca. Havia um dueto que disparava vozes dissonantes para o ar e um terceiro preocupava-se com a cadência e os batuques improvisados na borda da banheira.
Água Quente e vaporizante.
Água, fria podemos mandar
Goela abaixo e nos alegrar,
Melhor é Cerveja no copo da gente e lombo abaixo
Água bem Quente.
Bela é a Água do alto a saltar
Em fonte limpa suspensa no ar,
Mas nunca, fonte, tão doce és como
Água Quente debaixo dos pés.
Ouve um coro trêmulo solando o último refrão e então uma arrasadora nota final cessou o término da canção. Elanor surgiu na porta no instante em que os três acabavam se de trocar e começavam uma imaginária guerra mortífera onde as espadas eram as toalhas molhadas e o sabão era o tesouro mágico.
— Andem logo com isso, senão o café esfria. — disse ela com ar inquiridor.
As últimas gargalhadas extinguiram-se logo depois, e os três apareceram na cozinha com roupas limpas e cabelos escovados. Comeram ovos cozidos, torradas com geleia de framboesa, queijo e pudim acompanhados de um chá forte e saboroso. De barriga cheia, o silêncio pairou na cozinha e tudo o que se ouvia era o zumbido de uma mosca que bebericava um pouco de vinho em um copo.
— Por que ele nos abandonou? — perguntou subitamente Frodo, entre um gole ou outro de chá.
— Ele quem? — Elanor sabia de quem falavam, o pai havia partido há três meses pouco tempo depois da morte da mãe, mas os pequenos ainda não haviam se habituado a sua ausência.
— Você sabe primeiro foi a mamãe e depois o papai, por que ele nos deixou? Não consigo entender.
Elanor deu um olhar de relance a Merry e Pippin, os dois também estavam concentrados nela com olhos que sugeriam uma resposta concreta dessa vez. Ela suspirou lentamente ponderando sobre como deveria começar.
— Esperem aqui. — disse Elanor com uma voz solene. Ela se levantou da cadeira e foi até o corredor. Ruídos de metal e papel vieram da sala e ela voltou com um livro de baixo do braço. Era encadernado em couro vermelho e com arabescos laterais em linhas douradas.
— Vou contar uma história, uma história antiga e repleta de magia. — começou Elanor. — Espero que depois dela vocês possam entendem com mais clareza o que aconteceu conosco. Bem, é mais ou menos assim:
"Três Anéis para os Reis-Elfos sob este céu,
Sete para os Senhores-Anões em seus rochosos corredores,
Nove para os Homens Mortais fadados ao eterno sono,
Um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.
Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los,
Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam."
No corredor, outro Hobbit se esgueirou para a cozinha e acompanhava a história com ouvidos aguçados e um olhar compenetrante. Bilbo-Gamgi era o mais velho dos três e o mais misterioso.
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