Uma noite longa
1 Capítulo 1
Capítulo 1
Um encontro incomum dentro do banheiro em uma festa onde não conhecia quase ninguém, uma boa conversa que durou o tempo suficiente para fumar dois cigarros e o resto da noite passado na companhia do homem mais interessante que Salvador conheceu, foram o bastante para deixá-lo desejando outro encontro com o desconhecido. Desejo também expresso por ele ao lhe fornecer prontamente seu numero de telefone ao se despedirem no final da noite.
No entanto, sete dias depois, a sequência numérica salva em seus contatos continuava ainda sem ser usada. Pretendia ligar logo no início da semana, mas tomado pelo excesso de trabalho, exausto no final de cada dia acabava sempre por adiar a ligação. Quando se deu conta na noite passada, uma sexta feira, já haviam passado vários dias. Ao constatar tal fato, Salvador decidiu-se por fazer a ligação tanto protelada até o final do dia seguinte.
Com o pensamento na chamada que faria até a noite, ele sai de casa e começa um dia que será diferente de todos os outros. Seu café foi rápido e corrido, pois dormiu tarde na noite passada por conta do trabalho extra que teve que levar para casa e, consequentemente, acordou atrasado.
Por causa do cansaço acumulado durante a semana, mal se deu conta do tempo passado entre a saída do apartamento, a chegada ao trabalho e o horário de almoço.
A manhã no trabalho não foi produtiva, teve dificuldades para se concentrar e terminar a leitura de qualquer documento que começava. Para alguém como Salvador, focado na carreira que tanto desejou, planejou e construiu com sacrifícios próprios e dos pais, um dia improdutivo era inaceitável.
Frustrado, ele deixa os documentos de lado e se levanta para ir ao encontra de sua amiga Miriam, no setor de RH. Desde que começou a trabalhar no departamento pessoal da empresa a um ano atrás, ela foi a colega de quem mais se aproximou. Apesar da diferença de mais de vinte anos entre os dois, se entendiam muito bem, pensavam de forma parecida e tinham a mesma entrega em relação ao trabalho.
Apesar da seriedade que os dois sempre aparentavam no ambiente de trabalho, as conversas que mantiveram durante o horário de almoço, nos primeiros dias, foram prazerosas e divertidas. Almoçarem juntos todos os dias acabou se tornando um hábito.
Naquele dia teriam um refeição rápida, pois o marido da amiga faria aniversário na semana seguinte e Salvador se comprometeu a ajudá-la a escolher um presente. Só não esperava estar em frente à única loja em toda aquela imensa cidade onde não pensaria estar antes de fazer aquela ligação à noite.
Ainda sem acreditar na coincidência cruel, ele se detém em frente à loja e analisa a fachada em vidro e letreiro em relevo que não deixava dúvidas sobre onde se encontrava. Queria ver o homem que o interessou à uma semana atrás, mas primeiro gostaria de ligar, começar uma conversa casual para no final da chamada convidá-lo para sair.
Do ponto onde se encontrava, conseguia enxergar um dos atendentes atrás do balcão e o outro na vitrine, ocupado em arrumar algumas peças de roupa nos manequins. Nenhum dos dois prestava atenção ao que podia estar acontecendo na rua.
— Acabei de lembrar que tenho que fazer uma ligação importante agora. — ele improvisa uma desculpa enquanto dá alguns passos para trás, para completar tira o celular do bolso do terno e o mostra para dar veracidade a afirmação.
— Agora, Salvador? — Miriam pergunta desconfiada da atitude repentina do colega. — Nós temos poucos minutos e não podemos perde tempo — diz inconformada. — Isso é uma desculpa para não me ajudar. — Acusa e sonda em sua expressão algo que o denuncie.
— Eu juro que não. — Salvador garante e disfarçadamente olha o interior da loja. — Me desculpe. Não me espere, entre e faça sua compra — pede já se afastando e simulando estar iniciando uma chamada.
Ela entra no estabelecimento sem discutir, mas intrigada com tal atitude resolve procurar lá dentro o motivo. O mais moço não sabia que era um péssimo mentiroso. A princípio ele se mostrou até mais animado que ela mesma para ajudar a escolher o presente e de repente, assim, de um minuto para o outro, uma suposta ligação se torna mais importante que algo planejado há vários dias.
Salvador solta um suspiro de alívio e resolve permanecer próximo a entrada da loja, longe o bastante para não se notado por quem estivesse lá dentro, mas perto o suficiente para ver a amiga saindo.
Encostado ao lado da porta ele aproveita o tempo livre para fumar. Era realmente uma chateação não poder ajudar Miriam a escolher o presente, da mesma forma que se tornou amigo da mulher mais velha, o mesmo aconteceu com o marido dela ao serem apresentados.
Distraído em tragar e soltar a fumaça no ar, Salvador é surpreendido pelo ruído da porta se abrindo e Miriam saindo por ela. A compra do presente levou menos de meia hora, algo surpreendente se tratando dela.
Assim que abre a porta, Miriam sente o cheiro de cigarro e olha para a lateral da loja, onde o mais novo se encontra em pé ocupado em soltar a fumaça para o alto. O terno grafite ajustado perfeitamente para a altura acima da media e ombros exageradamente largos combinava com a pele escura e o fazia parecer um modelo de anúncio de roupas masculinas, deslocado do lado de fora da loja.
— Eu só queria saber de qual dos dois rapazes lá dentro foi? — Ela resmunga alto o suficiente para ser ouvida por Salvador.
— Qual dos dois rapazes foi o quê? — ele pergunta e descartando o toco de cigarro, se move em direção a Miriam.
— Ligação demorada essa que você fez, não? De qual dos dois lá dentro você está fugindo? — Direta, ela refaz a pergunta e o olha nos olhos a procura de uma resposta.
— Eu não estou fugindo de ninguém. Liguei para minha mãe — responde com um pouco de culpa. Para cursa a faculdade teve que se mudar da casa dos pais e de cidade há alguns anos, desde então pouco os via. As ligações eram a única forma de se manter em contato e Miriam sabia disso. — Nós vamos nos atrasar. Desta vez você foi rápida. — comenta antes de seguir na direção onde estacionou o carro.
— O proprietário da loja, um homem muito simpático e charmoso, me ajudou — responde e com contentamento mostra ao mais moço a sacola que carrega.
Dessa vez sem disfarçar, Salvador se volta para trás, olha para dentro da loja e vê Paulo se movendo perto do balcão. Ele estava justamente da forma como se lembrava.
Cabelos negros com boa parte dos fios já se tingindo de grisalhos, o corpo em forma, favorecido pelas roupas que valorizavam pontos atraentes, postura e caminhar seguro de alguém confortável com o próprio corpo e idade. Toda essa segurança demonstrada por ele foi o que atraiu Salvador logo que se conheceram.
Enquanto se afastam em direção ao carro, a reação do mais moço à referência a presença do homem mais velho e o olhar pouco discreto para dentro do estabelecimento não passam despercebido a Miriam.
Salvador podia ser um jovem sério e focado, os traços fortes do rosto o faziam parecer uma pessoa fria, mas era o contrário. Ele, em certas situações, não sabia disfarçar em sua expressão o que se passava.
De volta a sua mesa de trabalho, a mesma situação da manha se repete, se antes começava as leituras e não as terminava, à tarde simplesmente não conseguia iniciar nenhuma. Os olhos pesavam, a concentração faltava. Por várias horas tenta focar nas letras nos papéis em cima da mesa.
Sem obter êxito, finalmente desiste e faz uma pausa. Amava a área do direito que escolheu para trabalhar, mas naquele momento, depois de uma semana cansativa, o excesso de burocracia envolvendo o trabalho era desanimador.
Durante o descanso imposto para si, ele pega o celular e procurar nos contatos o número que deseja visualizar. Por alguns segundos, se ocupa somente em tentar memorizar o telefone.
Depois de alguns minutos de distração, ele guarda o aparelho dentro da gaveta e recomeça as leituras com determinação redobrada. Concentrado na analise dos papéis não percebe a aproximação de Miriam.
— Hora da pausa para o café. — Se aproximando ela o avisa. — Distraído hoje? — pergunta ao ver Salvador ainda em sua mesa.
— Ainda soterrado de trabalho — Salvador responde e olha em volta, percebendo que era o único que ainda permanecia trabalhando.
— Toda essa distração pode ter algo a ver com a pessoa de quem você estava fugindo lá naquela loja? — Aproveitando o momento sem testemunhas por perto, Miriam sonda.
— Eu não estava fugindo de ninguém. Precisei fazer um telefonema para minha mãe — Ele afirma e coloca de lado os relatórios que lia.
— Eu vi sua reação quando eu falei de uma certa pessoa de lá. — Miriam pressiona.
— Você esta imaginando coisas — ele diz enquanto se levanta.
— É uma pena, pois nós, os mais “velhos”, temos muito a ensinar a jovens como você. — ela lamenta e antes que possa voltar a tocar no assunto, Salvador deixa sua mesa.
Depois do café, o resto da tarde passou rápido, sem que se desse conta já estava na hora de encerrar o expediente. Do trabalho ao apartamento a distância era pouca, esse era um dos motivos para ter se mudado para aquele condomínio. Ele ser pequeno e a taxa ser relativamente baixa em vista da boa localização também contribuíram.
No início, enfrentou algumas situações constrangedoras com dois ou três moradores e visitantes sem noção que o tomaram algumas vezes por porteiro e não morador. Situação essa que se repetia algumas vezes em outros ambientes e para a qual ele já se encontrava treinado em resolver com firmeza e elegância.
— Boa noite, Salvador. — Ele é saudado pelo porteiro assim que chega, depois de educadamente retribuir o cumprimento, entra no elevador. Antes de a porta fechar sua vizinha do apartamento de cima, Flávia, que também acabava de chegar, entra.
Ele e a vizinha tinham horários de trabalho semelhantes, quase todos os dias de manhã ou à noite se encontravam no elevador. Ela foi a responsável por Salvador conhecer Paulo.
Ali no elevador, há alguns dias, ao se encontrarem pela manhã, ela o convidou:
— Salvador, nós somos vizinhos há quase um ano, não? — ela perguntou e após receber confirmação, continuou. — Nesse quase um ano você nunca foi convidado para uma das reuniões em nosso apartamento. — Ela chegou à conclusão depois de um tempo.
Era do conhecimento do prédio inteiro que Flávia e o marido tinham um círculo extenso de amizades e costumavam reunir com frequência os amigos para comemorações.
— Isso é algo que nós deveríamos ter feito logo que você se mudou para o prédio. — Ela acrescentou com um pouco de constrangimento. — Uma falha minha que devo remediar o quanto antes — disse e por alguns segundos permaneceu em silêncio.
Algo na expressão da vizinha chamou sua atenção, ela parecia estar pensando em alguma coisa que a fez sorrir com satisfação.
— Eu tenho um amigo que depois da separação se afastou de todos e passou a evitar festas e comemorações. — Flávia começou, explicando. — Sábado terá uma reunião estilo happy hour em nosso apartamento, uma desculpa para fazê-lo socializar um pouco, eu posso contar com você? — perguntou e já antecipando a recusa de Salvador, o intimou quando a porta do elevador se abriu ao chegar ao andar do vizinho. — Eu não aceito recusa, estou contando com você. Compareça.
Já dentro de seu apartamento, Salvador retira o blazer e afrouxa a gravata. Descuidado, joga a peça de roupa em cima do sofá enquanto se move em direção a cozinha, ainda com os pensamentos na forma em que foi levado a conhecer o homem mais velho.
Naquele dia, ao deixar o elevador, passaram pela cabeça de Salvador inúmeras desculpas para não comparecer a reunião, nos dias que se seguiram, arquitetou motivos variados para se justificar. Ele e a vizinha mal haviam trocado mais do que algumas palavra educadas durante seus encontros no elevador, isso para ele não era incentivo suficiente para conhecer os amigos dela.
No fim, sem uma desculpa boa o bastante para não comparecer, acabou tendo que se arrumar e procurar dentro de si simpatia e educação o suficiente para socializar por algumas horas com pessoas totalmente desconhecidas. Só não podia imaginar que aquela seria a noite mais interessante que viveria, que conheceria uma pessoa tão atraente como o proprietário da loja de roupas masculinas.
Já no andar de cima, em frente à porta do apartamento de Flávia, esperou pouco para ser atendido. Por algum motivo que não compreendia, pareceu que estava sendo aguardado com impaciência pela vizinha.
Conduzido por ela para dentro, a musica suave tocando baixo agradou sua audição, em uma olhada rápida em volta ao todo contou quatorze pessoas espalhadas pela sala.
Os móveis maiores tinham sido removidos, ampliando o espaço e garantindo a livre circulação das pessoas, bancos e cadeiras foram colocados nas laterais, havia grupos ou pares nos cantos, sentados ou em pé perto do bar improvisado, conversando ou tomando uma bebida.
Foi apresentado a cada um dos convidados, todos ali pareciam já se conhecer a algum tempo. Ele seria o único novo elemento a ser introduzido no círculo, isso reforçou sua ideia de que necessitaria de muita simpatia e educação para socializar com aquelas pessoas desconhecidas.
— Esses são: Renata, Thales e Paulo. — Tirando Salvador de seus pensamentos ela o apresentou ao trio sentado em um dos bancos. — Esse é o meu vizinho do apartamento de baixo. — Habilmente ela começou uma conversa com os demais, em minutos Salvador ficou sabendo que Renata era uma modelo, a beleza e o corpo enxuto de qualquer gordura o diziam, Thales era seu irmão e Paulo, o que lhe causou a melhor impressão, dono da melhor loja de roupas masculinas da cidade, segundo Flávia.
— O que quer dizer de modo refinado que ela, por ser minha amiga, recebe sempre bons descontos em minha loja — ele disse com bom humor. O som de sua voz rouca e pausada agradou imediatamente o mais moço.
Havia algo na postura elegante, nos olhos negros e redondos, no sorriso que parecia não abandonar seu rosto que chamou sua atenção muito antes de Flávia se aproximar para apresentá-los. Sua postura ereta sentado no banco passava confiança, os fios de cabelos começando a ficar grisalhos falavam de experiência.
— O serviço que você oferece é realmente o melhor — Renata diz e volta o foco da conversa para Salvador. Nos minutos seguintes ela deixou bem claro seu interesse pelo vizinho de Flávia.
Minutos depois, se desculpando, Paulo levantou e foi para perto do bar, Thales o acompanhou. Seu corpo bonito, se movendo de forma ágil atraiu olhares do mais moço enquanto se afastava.
Havia mais duas pessoas que não tinham ainda sido apresentadas a Salvador, sem perder tempo Flavia o levou até eles.
A reunião depois das apresentações entrou num clima gostoso para Salvador, o espaço preparado para os convidados se servirem dos petiscos na mesa de apoio na lateral facilitava a formação de grupos ou pares no centro para uma conversa agradável ou uma dança. Não foi necessário grandes esforços para socializar com pessoas tão agradáveis.
Em pouco tempo ele transitava entre um convidado e outro à vontade, durante todo o tempo não perdeu de vista Paulo, que igualmente circulava. Varias vezes o ouviu ser convidado para dançar e todas as vezes recusar. Conversaram por alguns minutos assim que se encontravam em uma mesma roda até o homem se afastar novamente para ir falar com alguém que o chamava. Ele parecia alguém muito estimado por todos.
A música em estilo variado e descontraído, escolhida para agradar todos os gostos, a uma altura que se podia conversar sem ter que gritar ou forçar uma conversa ao pé do ouvido com uma pessoa desconhecida até aquela noite, estava ao agrado. Dos convidados se podia dizer o mesmo, mas como toda regra tem uma exceção, havia entre os presentes uma em particular que Salvador não estava achando prazeroso o contato.
A aproximação feita de forma decidida por Renata no momento que conversava com um casal perto do bar, desde o inicio deixou o em alerta. A conversa que iniciara não deixava dúvidas quanto o interesse da moça, acabava sempre convergindo para um elogio discreto, uma suave insinuação em sua direção. O casal, percebendo o clima, discretamente os deixou só. Aos poucos o bate papo insinuante evoluiu para cantadas sutis e quando essas não funcionaram, ela partiu para a abordagem direta.
— Você é lindo, sabia? — ela disse e mediu a figura de Salvador de cima abaixo. — Você nunca pensou em seguir a carreira de modelo? — continuou, ainda medindo o físico do rapaz por sob as roupas sem se preocupar em esconder que estava gostando do que via. — Eu nunca conheci um homem como você, mas sempre...
— Você viu algum cinzeiro por aí? — Salvador a cortou antes de a sentença terminar, já havia escutado frases iguais àquela antes e sabia para onde sempre caminhavam e como terminavam: com ela se sentindo rejeitada e ele irritado com sua falta de jeito em dispensar a atenção de uma mulher sem causar uma má impressão.
— Cinzeiro?
— Eu quero fumar — ele respondeu. — E um cinzeiro serve para aparar as cinzas. — Continuou. — Foi bom conversar com você, mas agora eu preciso ir atrás de um cinzeiro — disse e a deixou com uma expressão desconcertada.
Tratando de se afastar o mais rápido possível, circulou alguns minutos pelo cômodo e não encontrou nenhum cinzeiro. Antes de abandonar a sala, avistou a moça se aproximando de Paulo.
Preocupado com a possibilidade da fumaça incomodar os presentes, se não havia cinzeiros provavelmente nenhum deles era fumante, ele se refugiou no banheiro.
Soltando um suspiro de satisfação, retirou o maço e isqueiro do bolso e se aproximou mais do pequeno vitrô alguns centímetros próximos de sua cabeça. Estava pronto para acendê-lo, quando foi interrompido pela porta se abrindo de repente.
— Desculpe — Paulo pediu antes de tentar voltar para fora ao constatar o banheiro já ocupado.
— Não, fique! — Salvador o detém. —Eu não estou usando-o — disse e se moveu com a intenção de deixar o cômodo para o outro usar.
— Fique você, eu não pretendia usá-lo mesmo — Paulo disse e já se preparava para sair.
— Fugindo da festa? — Salvador pergunta com a intenção de acabar com o impasse.
— Não da festa, mas propriamente de algumas pessoas curiosas — ele responde e fez uma careta para enfatizar seu desagrado.
— Eu sei como é. — Por simpatia Salvador concordou. — Fique. Se você não se importar — disse mostrando o maço de cigarros e isqueiro na mão, talvez aquela fosse uma boa oportunidade para saber mais sobre o homem mais velho.
— Eu não me importo. Eu até gosto — ele disse e viu a surpresa de Salvador, para confirmar suas palavras acrescentou. — A pessoa com quem fui casado por oito anos também fumava. Pode acreditar, o cheiro não me incomoda. — Garantiu.
— Então feche a porta à chave. — Salvador instruiu antes de acender seu cigarro. Depois de uma longa tragada soltou a fumaça em direção ao vitrô da janela com um suspiro de satisfação.
— Há quanto tempo você esta se segurando para não fumar? — Paulo perguntou, se afastando da porta e caminhando em direção ao armarinho em baixo da pia. Depois de revirar o pequeno móvel por alguns segundos estendeu à Salvador um cinzeiro.
— Há um tempo longo demais — resmungou sem disfarçar o desagrado. —Desde a hora que cheguei. — Resolveu especificar. Curioso para saber como o outro sabia que ali teria um cinzeiro, pegou o objeto oferecido.
— Aborrecido por ter sido cantado por uma bela mulher? — Paulo perguntou a Salvador, demostrando ter escutado boa parte da conversa com Renata. O espaço restrito da sala não permitia uma maior distância entre as pessoas. Calmo, ele caminhou até o vaso sanitário, fechando a tampa e se sentou nele cruzando as pernas.
— Ela não é o meu tipo — Salvador respondeu e disfarçadamente admirou as coxas grossas do outro, delineadas pelo jeans escuro. — E você? Antes de vir para cá eu vi vocês conversando.
— Ela é muito jovem pra mim — Paulo respondeu. — Eu sei que esse tipo de mulher linda e jovem é o sonho de qualquer homem de quarenta e oito anos, mas não deste aqui. — afirmou categórico e ainda acrescentou. — Eu já passei da fase de ter que provar algo às pessoas.
— Há quanto tempo você é amigo de Flávia e seu esposo? — Salvador perguntou minutos depois, tentando quebrar o silêncio que se instalou no banheiro depois da última frase dita. Por um momento chegou a invejar o homem sentado a sua frente, pois ao contrario de Paulo ele sempre teria que provar algo às pessoas: sua competência.
— Quase dez anos — Paulo respondeu. — A pessoa com quem eu fui casado por oito anos foi o irmão da Flavia. Por isso eu sei do cinzeiro. Em reuniões assim, ele costuma se esconder no banheiro para fumar — disse e pela expressão de desagrado no rosto de Salvador, percebeu que ele conhecia seu ex-marido. — Eu sei, ele é um cretino — admitiu, para a surpresa do outro. — Eu o amava, mas tinha plena consciência de seus defeitos e falhas.
— Há quanto tempo vocês se separaram? — o mais moco perguntou curioso, pelo tempo que morava no prédio nunca encontrou com Paulo. Já o irmão de Flávia teve o desprazer de encontrar algumas vezes, ele fazia parte dos visitantes que no começo sempre o confundia com o porteiro.
— Um ano — respondeu e aguardou alguns segundos, quando o outro não falou nada continuou. — Vamos, pode perguntar sobre o motivo da separação. Quase todos nesta festa já perguntam e eu respondi sem me importar com a curiosidade descabida. — Eu não irei perguntar — Salvador disse após uma longa tragada. — O motivo você já disse, ele é um cretino.
— E você? — Paulo perguntou ao mais moço, mudando a direção da conversa. — Solteiro, casado ou separado?
— Solteiro — ele respondeu e fez uma pausa para soltar a fumaça tragada. — Há um bom tempo.
— Como pode ser?— o mais velho perguntou. Salvador era um homem atraente, companhia com certeza não lhe faltava. — Quanto tempo desde o último relacionamento sério?
— Bom, eu não tive muito tempo para relacionamentos sérios. — Revelou sem emoção nenhuma. — Desde os quinze anos eu sempre soube o que queria fazer na vida e todo meu tempo foi ocupado com isso — Salvador disse e fez outra pausa para tragar. — Eu estava sempre estudando, agora estou sempre trabalhando, os caras com quem eu saia não ficavam muito contentes com o pouco tempo que eu tinha para eles, os relacionamentos terminavam antes de começar. — Eles que saíram perdendo. Eu tenho certeza que o tempo com você, mesmo pouco, deve valer a pena — Paulo retrucou com sinceridade.
Depois dessa frase, um silêncio cheio de significados se abateu sobre o banheiro.
Salvador desviou a atenção do homem sentado e a colocou no segundo cigarro que acabara de acender.
Paulo secretamente analisava a figura do mais jovem, tudo nele o agradava. Desde a pele retinta e lisa, que o fazia parecer bem mais jovem do que realmente era, aos longos dedos de unhas bem aparadas, ocupados em levar o cigarro aos lábios grossos.
Se deixando envolver pela presença calma e serena de Paulo, o rapaz sem pressa fumou seu cigarro, a voz rouca e pausada do homem lhe fazendo companhia era agradável aos ouvidos, mas a presença silenciosa de alguma forma inexplicável também era agradável.
— Pronto para voltar à festa? — Salvador perguntou, longos minutos depois, apagando o toco de cigarro.
— Sim — Paulo respondeu calmamente enquanto se levantou sem pressa, ultrapassou Salvador ocupado em deixar o cinzeiro sobre a pia e foi destrancar a porta.
— Você percebeu que o tempo que nos estivemos nesse banheiro ninguém mais veio bater na porta?
— Sim, percebi — Salvador respondeu antes de sair primeiro. — Estranho, não?
Juntos retornam à sala e a companhia dos outros. A musica calma e lenta saindo da aparelhagem de som, ecoando suavemente pelo ambiente convidava para uma dança mais próxima. No espaço diminuto, três casais dançavam juntinhos.
— Dança comigo. —Paulo convidou com animação para desespero do outro.
— Eu não danço. Sou desajeitado demais para isso — Salvador disse, tentando se esquivar do convite. Dizer que ele era desajeitado ao dançar era exagero, mas pela quantidade de vezes que o viu ser convidado para dançar por todas as mulheres presentes, presumiu que ele dançasse muito bem.
— Nada que um bom condutor não resolva. — Paulo afirmou com confiança. — Só relaxe que eu o conduzo. — Propôs, estendendo a mão. Após alguns minutos de indecisão, Salvador se deixou levar pelo mais velho para perto dos dançarinos.
— Eu adoro essa musica! — Paulo disse quando a musica tocando foi substituída pelo som da voz de Proper Gentlemen cantando Stronger.
Frente a frente no pequeno espaço entre dois casais, Paulo guiou a mão esquerda do rapaz para seu ombro enquanto a sua repousou no alto das costas dele, entrelaçando as mãos livres, com lentidão começou a sequencia de dois pequenos passos para cada lado.
— Você esta dançando e não me parece nem um pouco desajeitado — disse e ergueu a cabeça para olhar Salvador nos olhos, depois de um tempo acelerou a velocidade dos passos.
— Você é um bom condutor. — Salvador afirmou, a postura tensa e dura do início esquecida pelo prazer proporcionado pela dança lenta. — Algo me diz que você tem muita experiência nisso. —Aproveitando esse momento para matar sua curiosidade, especulou.
— Vinte e cinco anos de pratica na dança de salão contam como experiência para você? — Paulo se exibiu sem arrogância.
— Como você começou na dança de salão? — Salvador perguntou. Aquela parecia outra boa oportunidade para saber mais sobre o homem que o abraçava.
— Eu precisava praticar uma atividade física, mas odeio exercícios, a dança foi a opção apresentada a mim — relatou e introduziu uma variação no passo básico, novamente com lentidão iniciou passos para frente e para atrás. — No fim, eu acabei gostando muito. E você, do que gosta?
— Nesse momento, dançar com você. — A resposta tirou uma risada discreta de Paulo, as suaves e atraentes marcas de expressão em volta dos seus olhos se destacaram com o sorriso.
— Bom saber — Paulo disse enquanto subiu as mãos entrelaçadas sobre a cabeça e realizou um giro lento.
— você é um bom condutor. — Salvador novamente elogiou surpreso com o movimento.
— Eu acho que encontrei um parceiro para dançar a noite toda — Paulo disse, aproximando mais os corpos ao estreitar o abraço.
— Pode ser que sim. — Se ajustando ao aperto em torno dos ombros o mais moço concordou.
— Se prepare para dançar muito. Você vai ter uma noite longa— ele avisou.
A partir dali dançaram juntos inúmeras vezes. O pouco espaço não permitia muitos movimentos, mas eles conseguiam executar alguns passos. Passaram o resto da noite dançando, socializando ou apenas encostados num dos cantos bebendo ou em uma conversa baixa e íntima. Como Paulo previu, aquela foi uma noite longa e prazerosa.
Metade dos convidados já haviam deixado a festa quando Paulo e Salvador decidiram pelo mesmo. Tentando prolongar mais o contato, gentilmente se ofereceu para acompanhar o outro ate a saída do prédio.
— Foi uma noite agradável, afinal — o mais velho disse ao entrarem no elevador. — Bem diferente do que eu esperava. — Apertando o botão do térreo, acrescentou.
— Para mim também foi melhor do que imaginei. — Se encostando na parede Salvador concordou, finalmente o cansaço o vencendo. Lá dentro, em boa companhia, não sentia cansaço algum.
— Foi tudo graças à sua companhia — Paulo afirmou. — Você é um ótimo parceiro de dança, boa companhia, bom papo. — Despejou os elogios e se juntou a Salvador encostado na parede do elevador.
— Você também é uma boa companhia, conduz bem, boa conversa. — Os elogios foram feitos com sinceridade por parte do mais moço.
— Para essa noite terminar perfeita, falta apenas uma coisa — Paulo disse com a voz baixa se pôs em frente ao outro, os corpos muito próximos, por mínimos centímetros não se tocando. Com lentidão suas mãos subiram aos ombros largos, e sem pressa, uma delas viajou para a parte traseira da nuca de Salvador.
Dando a oportunidade para o mais jovem recusar o avanço, Paulo se deteve por alguns segundos antes de iniciar o encontro dos lábios. As mãos de Salvador, caídas ao longo do corpo, fizeram o caminho para as costas de Paulo, estreitando o abraço.
No princípio, as bocas apenas compartilhavam leves selinhos, porém a medida que o beijo prosseguia, apenas o roçar dos lábios se fez insuficiente, as línguas tornam-se ativas deixando-os sem ar em pouco tempo.
O beijo foi interrompido para que o fôlego retornasse. No momento que as bocas se separaram a porta do elevador se abriu, quebrando o clima de intimidade. Preocupados em não serem vistos pelo porteiro, rapidamente se separaram, com as sensações provocadas pelo beijo ainda presentes. Salvador acompanhou Paulo até a entrada. — Eu gostei muito de te conhecer — Paulo disse ao chegar à porta.
— Eu também gostei de você — Salvador disse direto, gostou do homem e não via nenhum motivo para não dizer isso.
— Poderíamos marcar um dia para sair, conversar, dançar mais. — Paulo propôs.
— Aqui, me passa seu numero de telefone — pediu, entregando a Paulo seu celular já desbloqueado, desde antes de entrar no elevador já pensava em uma maneira de pedir o numero do mais velho.
— Me ligue a hora que você desejar — Paulo disse ao entregar de volta o aparelho depois de gravar seu número nos contatos.
— Eu vou ligar mais cedo que você espera —Salvador prometeu antes de ele partir.
Sentado confortavelmente no sofá da sala, relaxado dentro de suas roupas velhas e folgadas, com os pés descalços sobre a mesinha de centro, Salvador finalmente se encontra pronto para iniciar a ligação para Paulo.
Depois de alguns poucos toques foi atendido.
— Alô, Paulo? — Após todos esses dias de silêncio ele inicia a conversa com cautela — Sou eu Salvador. — Se identifica.
— Salvador? — Paulo pergunta do outro lado da linha e em sua voz percebe-se a surpresa. — Que bom que ligou, estava pensando em você nesse momento — acrescenta demostrando contentamento.
— Eu disse que ligaria. — Salvador o lembra.
— Você esta em seu apartamento nesse momento? — pergunta e sugere em seguida. — Talvez fosse uma boa ideia nos encontrarmos para uma conversa, uma bebida ou algo do tipo.
— Sim, estou. — Salvador responde a primeira pergunta. — Essa foi exatamente minha intenção ao te ligar — acrescenta satisfeito com o caminhar das coisas.
— Posso ir aí te buscar agora? — Paulo pergunta e ao ouvir a afirmativa, avisa. — Me espere, estou chegando.
— Vou esperar — Salvador responde desconsertado pela primeira vez com a rapidez com que as coisas chegaram ao ponto onde ele queria ao ligar.
— Até daqui a pouco. — Ele se despede e desliga em seguida.
Presumindo que Paulo devesse morar longe e que por isso demoraria a chegar, Salvador perde vários minutos ainda sentado no sofá. A campainha tocando finalmente o faz se levantar. Pensando se tratar de algum dos vizinhos ele não se preocupa em se apresentar da forma desleixada que estava.
Quando abre a porta, se surpreende e se envergonha pelas roupas velhas, não se passou muito tempo e Paulo estava na soleira diante dele.
— Você veio rápido! — Salvador surpreso com a rapidez, exclama.
— Eu estava por perto. No apartamento de cima, com Flávia e Alex. — Paulo começa explicando. — Quando você ligou, nós estávamos pensando em convidá-lo para o jantar. Já que você mora sozinho deve ser chato ficar sem companhia todas as noites. — Continua. — Aceita? — pergunta.
— Quantas pessoas vão estar lá? — Salvador pergunta, pois era um hábito dos vizinhos sempre estar cercados de amigos.
— Somente nos quatro — diz tentando tranquilizá-lo. — Depois do jantar nos podemos inventar uma desculpa qualquer e partir rápido. — Sugere.
— Um jantar não deve durar muito? —Salvador questiona com incerteza, pois se tratando do casal vizinho um jantar poderia se transformar em uma comemoração que duraria várias horas. — Entre. Eu vou me trocar e não demoro. — Convida só agora, percebendo que eles ainda se encontravam na porta do apartamento.
Flávia antecipadamente começava a acrescentar mais um prato e talheres à mesa.
— Você ainda não sabe se ele virá — seu marido a adverte ao ver sua empolgação com a arrumação.
— Ele virá — afirma e continua a tarefa de ajeitar mais um lugar à mesa. — Eu acertei quando disse que eles combinavam, ele ligou e tenho certeza que era para marcar um encontro. — Termina com um sorriso confiante.
—Sim, você disse — Alex, seu marido, concorda. — Mas eu acho que nós teríamos poupado muito trabalho se ao invés de inventar uma reunião para apresentá-los, só tivéssemos os convidado para um jantar como esse e deixássemos as coisas acontecerem. — Ele simplifica. — Somente os dois, aquela noite não havia necessidade de interditar o banheiro por tanto tempo. — Relembra.
— Não teria dado certo — Flávia discorda. — Os colocar em meio a muitas pessoas, os apresentar e deixar as coisas acontecerem foi a melhor estratégia — conclui e no momento seguinte a campainha toca.
— Ele veio — confiante, afirma com um gesto indica a Alex que vá abrir a porta.
— Você conseguiu trazê-lo! — Flávia, contente, diz à Paulo quando os três chegam à cozinha. — Em pouco tempo tudo ficara pronto — avisa. — Vocês podem se sentar na sala para conversar um pouco enquanto esperam, Alex vai me ajudar, não demora muito.
— Você parece muito cansado. — Paulo nota quando os dois já estão acomodados no sofá.
— Semana difícil — Salvador diz depois de um longo suspiro.
— Se você estava tão cansado assim, não deveria ter aceitado o convite para jantar — diz ao ver, após uma breve análise, o quanto o outro parecia abatido.
— Tudo bem. — Salvador o tranquiliza. — Uma boa companhia afasta qualquer cansaço.
— Gostei de receber sua ligação. —sorrindo com o elogio ele fala. — Cheguei a pensar que você não ligaria, mas...
— Foi uma semana difícil. — Salvador o interrompe tentando se justificar. — Eu disse que ligaria.
—Que bom que me ligou — Paulo diz. — Na próxima vez, quando sua amiga for novamente à minha loja, você poderá acompanhá-la para dentro sem medo de me encontrar.
— Você me viu? — A pergunta é feita com um certo constrangimento.
— Vi na hora que ela saiu — revela. — Dentro da loja ela fez questão de falar para meus dois vendedores sobre seu jovem amigo, Salvador, que a deixou na mão por causa de um telefonema — conclui. — E em como esse jovem estava tendo uma semana atribulada, por isso ele poderia estar agindo de forma anormal.
— Eu não sei o que dizer — envergonhado com seu comportamento covarde e com as tentativas de justificativa de Miriam, Salvador diz.
— Não diga nada — Paulo aconselha. — Almoce comigo amanhã — propõe.
A resposta de Salvador é interrompida por Flávia avisando sobre o jantar pronto. Apesar do cansaço que ficou cada vez mais evidente em Salvador à medida que o jantar avançava, ele se divertiu muito. Como prometido pelo mais velho, depois de inúmeros protestos de Flavia, assim que o jantar terminou com uma desculpa qualquer, eles partiram rapidamente.
— Entre e vá descansar. — Paulo recomenda. — Tenha uma boa noite. — Se despede, pronto a retornar ao elevador assim que Salvador entrasse em seu apartamento.
— Você não quer entrar para conversamos um pouco mais? — Parado em frente à porta, Salvador faz o convite.
— Acho melhor não. — Paulo recusa. — Você parece que vai cair no sono a qualquer momento. — Acrescenta. — Vá dormir. — Ele torna a recomendar. — Eu te vejo amanhã?
— Nos vemos amanhã — Salvador confirma, antes de abrir a porta e entrar.
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