Uma louca Festa do Chá

1 Único: Sieghart no País das Maravilhas


— Atrasado, atrasado. Você está atrasado, Sieghart.

Sieghart abriu os olhos sentindo seus instintos de combate em alerta ao escutar seu nome ser dito por alguém. Não conseguia captar exatamente quem o dizia, mas não teve muito tempo para pensar sobre isso ao conseguir focar sua visão e não identificar o lugar onde estava.

Se tivesse que descrever o lugar onde estava, certamente diria ter saído dos sonhos de uma criança para uma festa de aniversário. Era uma floresta – se é que podia chamar assim – extremamente colorida, cheia de flores e frutas e cogumelos coloridos demais para sua sanidade. Havia sido sequestrado? Não faria sentido, havia dormido junto com os outros da caçada, era impossível que alguém tivesse conseguido captura-lo sem que ninguém percebesse.

Piscou os olhos devagar, observando a área ao redor e franzindo o cenho ao ver uma pessoa de cabelos verde-limão com roupas exageradas andando/pulando parecendo com pressa. Ouviu a voz reclamar mais uma vez sobre ele estar atrasado, e tombou a cabeça para o lado ao reconhecer a voz.

Lime Serinity, ou Holy, como gostava de ser chamada (embora ele e alguns outros da caçada costumassem chama-la de “limão da serenidade”, apenas para vê-la com as bochechas infladas e vermelhinhas de raiva e a voz fofa os chamando de idiotas), usando uma saia bufante e orelhas de coelho, um relógio de bolso pra lá de antiquado, o encarando com as bochechas infladas e os olhos brilhantes o julgando.

— Você está atrasado. – ela acusou.

Atrasado para quê?!

Sieghart se levantou, prestes a questionar a Holy o que estava acontecendo, porém se interrompeu ao ver as roupas que estava usando. Não se lembrava de ter trocado de roupa. A camisa social que tanto gostava de usar ainda estava ali, assim como as calças pretas também sociais – já estava cansado de ouvir questionamentos sobre como tinha coragem de lutar com roupas cotidianas como aquelas –, porém o colete, as botas e a capa brancas de detalhes azuis, muito parecido com roupas reais, não faziam sentido.

Viu uma Lâmina caída na grama e se abaixou para pegá-la. Estreitou os olhos para a aparência dourada da arma, com cristais vermelhos. Aquilo parecia muito uma arma da realeza, algo que não usava nem se lhe oferecessem.

— Estou com pressa, Sieghart. Não pode se atrasar mais.

A voz de Holy o chamou de volta a situação. Voltou a encarar a garota, franzindo as sobrancelhas ao ver as orelhas de coelho no topo da cabeça da menina se mexerem como se estivessem atentas a qualquer som. Estranho.

— Holy? Como assim atrasado? O que está acontecendo?

— Sem tempo para falar, temos que ir logo.

O imortal revirou os olhos e encarou Holy com a sobrancelha arqueada. Não entendia o que estava acontecendo, e pelo o que parecia, teria que seguir a garota para onde quer que fosse, talvez conseguisse respostas quando chegasse seja lá onde fosse que precisasse ir.

Não teve tempo para perguntar mais nada, porque quando abriu a boca para questionar onde tinha que ir, as orelhas de coelho de Holy pararam, atentas, e a garota virou o corpo bruscamente, ficando de costas e começando a correr, parecendo ainda mais apressada e impaciente do que estava quando o esperava acordar. Sieghart correu atrás dela sem sequer pensar, os instintos de caça alertas, enquanto gritava para que ela o esperasse (desde quando Holy era tão rápida?) e xingando audivelmente quando ela sumiu por entre as árvores e não foi mais capaz de distinguir por onde ela havia corrido.

Pôs as mãos nos joelhos, recuperando o fôlego que parecia ter fugido de si. Outra coisa que não fazia sentido, fazia parte de seu treinamento como guerreiro ter uma resistência excelente, então, porque parecia que seu corpo não treinava a meses? Estava cansado demais, não era possível que tivesse corrido tanto ao ponto de se cansar daquela maneira.

Olhou ao redor, arqueando as sobrancelhas ao se ver perdido em uma encruzilhada. À sua frente, o caminho se dividia em três, um que seguia em frente, pelo norte, um à esquerda, pelo leste, e outro à direita, seguindo à oeste. Aquilo não estava ali antes, só havia floresta...

— Ele parece perdido, não acha?

— Hmm... Ele vai se atrasar mais se não escolher o caminho certo.

Sieghart se virou na direção das vozes, e tinha certeza de que a confusão ficou explícita em seu rosto quando viu Lass e Lupus na sua frente, ambos apoiados em uma árvore grande – que Sieg novamente não lembrava de estar ali antes – o encarando curiosos, e não querendo matar um ao outro. As roupas dos dois combinavam, as camisetas brancas com listras azuis e rubras, assim como as calças de couro, as cores respectivas de cada um.

Okay, aquilo conseguia ser ainda mais estranho do que a Holy com orelhas de coelho que se mexem sozinhas.

— Lass? Lupus? O que está acontecendo aqui? Onde nós estamos?

Lupus sorriu e inclinou a cabeça, ainda o observando como se fosse algum tesouro raro que o caçador estivesse à espreita para capturar. Sentiu um calafrio correr por sua espinha ao ver um sorriso de lado vindo de Lass.

Deusas! Ainda bem que aqueles dois não agiam daquele jeito.

— Ele quer saber onde é aqui.

— Será que ele tem tempo pra isso? Ela não gosta de atrasos...

O imortal suspirou exasperado, não conseguindo entender o porquê de aqueles dois agirem daquele modo. Nada ali fazia sentido. Que droga! Por que ninguém dizia coisa com coisa?!

Fechou os olhos e respirou fundo, decidido a parar de agir como um desesperado e a começar a pensar de verdade. Certo, estava em um lugar onde não sabia onde era, seus amigos não pareciam em si e agiam de forma completamente não-natural para eles. Era melhor que seguisse as instruções, e talvez conseguiria chegar até a raiz do problema.

Voltou a olhar para os garotos e segurou melhor o punho da espada, percebendo somente naquele momento a bainha acoplada na roupa. Aquilo estava ali antes? De qualquer forma, guardou a arma ali sob os olhares curiosos dos outros dois.

— Para onde eu tenho que ir, exatamente?

Lass deu de ombros, quieto como sempre, e Sieghart quis estapeá-lo por ser daquele jeito. Já Lupus sorriu de canto e passou uma mão no cabelo, tirando as mechas castanhas da frente dos olhos.

— Oh... Ele nem sabe pra onde ir.

— Ele deveria saber que não tem tempo pra isso.

Sieghart controlou a vontade de gritar com os dois e manda-los parar de falar daquele jeito. Que porcaria de situação.

— Vocês não vão me ajudar mesmo, né? Qual desses caminhos eu tenho que pegar pra não me atrasar mais?

—O da esquerda.

—O da direita.

Os dois disseram juntos, fazendo com que o imortal grunhisse de frustração. Viu os irmãos se encararem com as sobrancelhas franzidas e o olhar confuso.

— Não, Lass. Ele tem que ir pela esquerda para chegar até lá.

— Não, o caminho é o da direita. Ele vai se perder se for pela esquerda.

— O da direita vai fazê-lo se estressar mais, ele precisa ir pela esquerda.

— O da esquerda, Lupus, vai leva-lo até a lagarta, ninguém quer ver a lagarta, muito menos ele.

— O da direita vai direto até ela, acha que isso seria bom pra ele?!

— Garotos! – Sieghart gritou, chamando a atenção dos dois ao ver que em pouco tempo eles estariam lutando se continuassem naquele ritmo, e se começassem a lutar, ele perderia qualquer chance de conseguir informação. – E o caminho do norte?

Os dois o olharam, parecendo se esquecer da discussão anterior. Lupus negou com a cabeça, e foi Lass quem decidiu falar.

— O caminho ao norte vai leva-lo ao cúmulo da loucura, você quer isso?

Não me parece muito diferente de onde eu estou, pensou enquanto dava de ombros.

— O que você quer dizer com “loucura”? Que tipo de loucura?

Sinceramente, tudo passava pela cabeça do imortal. Poderia dar de cara com alguns dos problemáticos da Grand Chase – não gostaria mesmo de se encontrar com os que eram instáveis, principalmente quando ninguém ali parecia são –, mas parecia ser uma opção melhor do que continuar com Lupus e Lass e perder a cabeça de vez.

— Loucura na hora do chá, Sieghart – Lupus lhe respondeu, e Sieg estava prestes a perguntar o que aquilo significava quando viu os irmãos se entreolharem como se tivessem percebido algo, e quando piscou, os dois não estavam mais lá.

Gritou de frustração, xingando aqueles dois e o lugar esquisito onde estava. Encarou os caminhos mais uma vez antes de seguir pelo norte, pisando forte enquanto pensava onde diabos ele estava e por que logo ele tinha ido parar ali.

— Os irmãos nunca chegam em um consenso, estão sempre brigando por tudo, até mesmo por qual árvore eles irão se apoiar. Eles são estranhos, não acha, Sieghart?

Sieghart parou de andar, um arrepio gelando sua espinha e o fazendo tremer na base ao reconhecer a voz. Respirou fundo para tomar coragem para olhar para sua nova companhia. Virou o corpo devagar, encontrando as íris douradas brilhantes em diversão o encarando com curiosidade.

Veigas estava sentado sobre um galho de árvore, as pernas cruzadas e a cabeça inclinada, curioso, apesar de o sorriso medonho e psicopata de sempre ainda marcar presença. Ele parecia o mesmo de sempre, porém um detalhe fez com que todo o medo que sentia fosse embora.

As orelhinhas se movendo atentas e curiosas e a cauda balançando calmamente o fez ter vontade de rir. Um gato. Seja lá o que causava a mudança nos membros da caçada, havia transformado Veigas em um furry felino. Estava fofo, e Sieghart realmente quis rir e zoar o asmodiano por estar tão adorável.

Infelizmente, a lembrança da situação de onde estava o fez se conter. Meio gato ou não, Veigas ainda tinha força o bastante para acabar consigo sem muita dificuldade, e precisava saber se ele diria alguma coisa relevante para si. Os personagens daquele lugar pareciam saber bem o que estava acontecendo. Talvez Veigas pudesse ser útil em alguma coisa.

— Me responda, Sieggy – Sieghart fez uma careta com o apelido, mas continuou atento ao outro – Os irmãos te disseram para não vir por aqui, então, por quê?

— Porque eles não entraram em um consenso sobre pra onde eu tenho que ir.

— Eu não disse? Eles brigam por tuuuuudo. – Veigas se deitou no galho, uma perna apoiada e a outra pendurada, balançando e acompanhando o ritmo da cauda, que também se mexia com serenidade.

— Veigas... – Chamou, vendo o gato sorrir largo e sumir, apenas para aparecer agachado ao pé da árvore. – Onde eu estou?

— No país das Maravilhas, ora.

Okay, era de fato muito estranho ver o asmodiano agindo como um gato, um gato bem estranho e aparentemente sádico, mas um gato ainda assim. A visão de Veigas agachado no chão, passando o punho pelo cabelo e orelhas como se estivesse tomando um banho com certeza ficaria em sua cabeça por mais tempo que o necessário.

— E como eu saio daqui? – Grunhiu quando viu o outro dar de ombros, como se não soubesse a resposta. Tudo bem, teria que seguir o plano original. – Lass disse que esse caminho me levaria até a loucura. O que isso quer dizer?

— Você gosta de chá, Sieggy? – Franziu o cenho com a pergunta e deu de ombros. – A Chapeleira gosta, muuuuuito. Ela sempre toma chá, todas as tardes, junto com a Ratinha e a Lebre.

— Quem são elas? – Se todas as personagens daquele mundo eram os membros da Grand Chase, então de quem Veigas falava?

— Elas seeeeeempre bebem chá, mesmo quando a Rainha nos chama para seus jogos, igual a hoje. Falando nisso, você está atrasado, não é?

— Atrasado para quê? Quem são elas? Quem é a Rainha?

— Muitas perguntas, Sieggy~ Você é tãããããão curioso... A Lagarta não gosta disso, você sabe, não é?

— Veigas, dá pra me responder? – O asmodiano ficou sério e se levantou, estreitando os olhos dourados enquanto o analisava.

— Recomendo que continue pelo caminho, Sieggy. – Foi o que disse antes de desaparecer pelas sombras.

Sieghart olhou para a copa das árvores, suspirando enquanto voltava a andar e pensava no que Veigas tinha lhe dito.

Estava em algum lugar chamado País das Maravilhas, onde seus amigos eram as personagens e aparentemente não se recordavam de quem realmente eram, mas pareciam saber perfeitamente quem ele era. O problema era que as personagens não faziam sentido. Lime era um coelho apressado, Lass e Lupus eram irmãos encrenqueiros – nada de novidade até aí – que conseguiam ficar próximos um do outro e eram misteriosos e curiosos, e Veigas era um gato que ria demais e parecia saber de tudo.

O que aquilo tudo significava? E quem eram as outras que Veigas haviam dito? Lagarta, Rata, Rainha, Lebre, Chapeleira, e sabe-se lá mais que personagem maluco podia aparecer. Quem podiam ser? Veigas disse que a Chapeleira, a Rata e a Lebre bebiam chá todos os dias. Então, quem? Lass e Lupus haviam dito algo sobre loucura... Não fazia ideia de quem pudesse ser.

— E porque todo mundo nesse lugar desaparece do nada?!? – Sieghart gritou na floresta, pouco se importando se seria ouvido por alguém.

Continuou andando enquanto xingava toda a situação. Felizmente, não demorou até que chegasse em uma clareira, avistando, no centro dela, uma longa mesa equipada com diversos bules e xícaras de chá, além de uma grande variedade de doces e sobremesas. Três pessoas conversavam e riam alto, e foi com surpresa que constatou quem eram aquelas pessoas.

Lire estava sentada na ponta da mesa, no lugar em que geralmente o anfitrião ocupa, as roupas semelhantes as que usava, porém ao invés do colete, usava um paletó, ele e as calças em tons de verde que combinavam bem com ela. Não usava uma capa, e não conseguia ver se tinha alguma arco por perto, mas o chapéu que repousava em sua cabeça deixava claro que era ela a quem Veigas se referira quando dissera “Chapeleira”. Uma cartola verde musgo, com um pedaço de pano xadrez branco e preto envolvendo uma parte singela, quase como uma decoração, e uma carta de baralho presa ao chapéu pelo pano, e os longos fios loiros caindo por sobre as costas e ombros.

Ah, sim, ela era a Chapeleira. E só de constatar isso, não era difícil saber quem eram as outras duas.

Elesis era a Rata, suas vestimentas parecendo muito com as que costumava usar normalmente como Justiceira, porém com o sobretudo branco ao invés de preto. O cabelo preso em uma trança como na primeira vez em que a viu, nos arredores dos muros de Serdim. Desejou imensamente ter uma câmera ao ver as orelhas redondas e adoráveis despontando dos fios ruivos, assim como a cauda fina levemente enrolada em uma das pernas.

Elesis quase se levantou da cadeira, parecendo brigar por um doce com a Lebre. Arme.

Sieghart franziu o cenho ao ver a roupa. Já havia visto Amy usando exatamente aquele figurino, há alguns anos, alegando ter sido inspirado em uma personagem de um conto infantil do lugar onde crescera. Lebre Maluca, a personagem do livro que todos da Grand Chase pareciam gostar, mas que nunca lhe chamou atenção – Livros sem figuras e imagens lhe pareciam muito chatos para que se desse ao trabalho de ler. Olhando para a maga com toda aquela roupa bufante, acessórios exagerados no cabelo e orelhas de coelho felpudas saindo de sua cabeça, não soube o que pensar. Talvez Amy soubesse lhe dizer exatamente o que estava acontecendo... Só precisava encontrá-la.

— Sieghart!

O imortal olhou para Lire, que levantava da cadeira e corria até si. Arqueou uma sobrancelha quando ela o segurou pelo antebraço e o arrastou até a mesa, colocando-o sentado mesmo que essa não fosse a intenção dele.

— Sieghart, é tão bom ver que você veio! Elesis, vamos, sirva o chá à ele. – Sieg conteve o riso ao ver a cavaleira cruzar os braços e franzir o cenho, como se a questionasse desde quando Lire mandava ali, apenas para em seguida bufar e levar uma xícara com o líquido quente até ele. – O chá está uma delícia, vamos, Sieg, experimente!

Ele a encarou por um segundo antes de decidir sentir o aroma do chá, para só então assopra-lo e experimentar um gole, concordando com a cabeça quando a elfa o questionou sobre a qualidade da bebida.

— Eu falei que ele viria, não falei, Elesis? – Lire recomeçou a falar, chamando a atenção dos outros três. – Você precisa confiar mais no que eu digo. Veja se Arme duvida de alguma coisa, não é mesmo, Arme?

— Duvidar? O quê? – A maga a olhou, assustada, derrubando a xícara que tinha na mão na mesa e fazendo o líquido quente voar e a xícara se quebrar.

Elesis se levantou reclamando e começou a ajudar Arme a limpar a sujeira, enquanto a Lebre grunhia de dó pelo chá desperdiçado e Lire ria da trapalhada da amiga.

— E você acha que Arme presta atenção em alguma coisa? Lire, ela só quer saber desse chá doce dela.

— Ela tem bom gosto, Elesis. Devia colocar um pouco de açúcar no seu chá também, adoçar um pouco esse seu coraçãozinho azedo. – Lire respondeu, os cotovelos apoiados na mesa, as mãos entrelaçadas e o queixo apoiado nas mãos, um sorriso doce nos lábios.

Sieghart quis muito rir por ver a elfa respondendo Elesis daquele jeito. Ah, aquilo era incrível. Queria poder aproveitar seu tempo naquele lugar estranho, mas realmente tinha que voltar logo para a realidade. Por isso, brincou um pouco com o chá em mãos, não muito disposto a bebê-lo por não saber ao certo do que era feito, ou o que ele poderia fazer consigo.

— Lire... – Chamou, recebendo a total atenção da elfa, os olhos jade brilhantes assim como os de todos naquele mundo. – O chá está muito bom, obrigado, mas... Me contaram que a Rainha nos chamou para uma dia de jogos, é isso? Quem é essa Rainha? Onde eu tenho que ir para encontrá-la?

Sieghart assistiu as orelhas da elfa murcharem, como se ela não aprovasse o assunto. Lire levantou de supetão, jogando a xícara que segurava no chão com força, o que assustou Arme, que choramingou mais uma vez sobre estarem desperdiçando chá naquilo tudo.

— Mas é claro que ele viria por ela, é claro. Sieghart só apareceria por aqui para encontrar ela, claro. – Ela olhou para ele, que se assustou ao ver os olhos verdes escuros, cena que não durou muito, pois logo Lire estava sorrindo docemente mais uma vez, envolvendo seus ombros em um abraço e rindo com gosto – Para achar a Rainha é só ir até o castelo dela, dãh. Eu e as meninas iremos em breve, na verdade. Estou apenas esperando uma encomenda especial da Rainha. Se chegar antes de nós, por favor, diga à ela que chegaremos em breve.

— Tá, mas... Como eu chego até ela?

— Zero! – A voz de Arme interrompeu a conversa, e Sieghart se virou para onde a maga apontava, encontrando o rapaz escondido por entre as árvores, virado em sua direção. Não soube exatamente se ele estava ali por si ou por outro motivo, por isso deixou que Lire fosse até ele e falasse algo em tom baixo.

Viu a elfa bufar de frustração e se virar para si.

— Sieghart! A Lagarta quer falar com você! – Ele franziu o cenho.

— Quem?

— A Lagarta, bobinho! Não se lembra dela?

Sieghart queria dizer que não se lembrava porque não fazia ideia de quem seria, mas achou melhor apenas dar de ombros e se levantar, tendo de repetir mais de cinco vezes para Arme e Elesis que não queria mais chá.

— Siga Zero e ele te levará até a Lagarta. – Elesis disse, brincando com a xícara e os doces que estavam espalhados pela mesa.

— Espera, mas e a Rainha? Quem–

— Depois a Lagarta o levará até a Rainha, tenho certeza. – Lire respondeu, dando de ombros. – Ela provavelmente vai mandar alguém te levar até lá. Não se preocupe, a Lagarta é muito bem organizada.

— A Lagarta não gosta de esperar, Sieghart – Elesis o lembrou enquanto se servia de mais uma xícara de chá.

Sieg assentiu, suspirando e caminhando até Zero, que nem ao menos o esperou antes de lhe dar as costas e começar a andar. Mesmo sendo um mundo estranho, o andarilho continuava com seu jeito fechado. Que saco.

— Zero? – Tentou chamar enquanto corria para alcança-lo. De novo, desde quando ele corria tanto? – Zero?! Dá pra você falar comigo? Olha, que sei que você é quietão e tals, mas achei que já tínhamos passado dessa fase. Qual é, você até conversa com a gente sem entrar em pânico e congelar! Zero? Que p-

Foi interrompido por uma galho batendo em seu rosto, obviamente um jeito de Zero fazê-lo calar a boca. Sieghart resmungou baixo, mas seguiu em silêncio. Aquele Zero conseguia ser mais impaciente que o da realidade (e não era uma boa ideia ter um Grandark contra você, não mesmo).

— Espera! Zero, cadê a Grandark? Você tá sempre com ela, o que aconteceu?

...

Tratamento de silêncio parecia ser um hobby de Zero, para Sieghart. Decidiu apenas ficar quieto e seguir o andarilho, na esperança de chegar logo no tal covil da Lagarta. E felizmente, o lugar parecia não ser tão longe, já que não demorou para que Zero parasse de andar e lhe indicasse para entrar no lugar.

A casa para onde Zero apontava tinha um estilo bem.. exótico. Algo parecido com o que Lin chamava de Oriental, com desenhos e traços bem desenhados, leves e bonitos. Assentiu quando Zero lhe apressou para entrar, e ficou aliviado ao constatar que o outro não o seguiria.

Só espero que alguém nesse lugar fale comigo.

Seja lá o que estivesse comandando aquele lugar, definitivamente parecia estar zoando consigo, porque era impossível que desse de cara justamente com Uno ao entrar na casa de pintura estranha.

Nem tentaria falar com ele.

O samurai fez um gesto para que Sieghart o seguisse, o que fez o Imortal revirar os olhos e voltar a andar. Os corredores daquela casa eram confusos e estranhos, e se não fosse por Uno, provavelmente teria se perdido em dois tempos ali dentro.

Felizmente, a tal da Lagarta não estava tão adentro da casa como pensou que estaria, então Uno o guiou por poucos corredores repletos de portas até parar frente a uma em específico, mais colorida que as outras, e o desenho de uma lagarta azul fumando narguilé o fez ficar preocupado. O que era aquilo?

Abriu a porta, e teve que se segurar para não tossir com a fumaça que veio em seu rosto. O cheiro forte do narguilé fez seu rosto se contorcer em uma careta. Apertou os olhos e endireitou a postura antes de entrar de fato no recinto e se deparar com qual de seus amigos era a tal Lagarta.

Sentada em um trono, as pernas cruzadas, um braço apoiado no braço do assento servindo como apoio para a cabeça, e o outro segurando displicentemente o narguilé, por vezes o levando até os lábios, que deixavam a fumaça sair de forma preguiçosa, relaxada. Os olhos claros o observavam com atenção, o olhar felino e esperto parecendo ler sua alma, como lhe era comum. A vestimenta composta por uma camiseta em estilo oriental azul, uma calça preta justa e botas sociais no mesmo tom de azul e branco que a camisa. Um sorriso beirando o malicioso completava o quadro esquisito e tão... elegante da garota, além do cabelo preso em uma trança lateral harmoniosa.

Edel nunca esteve tão diferente, tão imponente. Naquele momento, sentia medo dela.

— Alice! – Ela exclamou quando Sieghart se aproximou, e o nome chamado o fez franzir o cenho. Alice? Que palhaçada era aquela?

Valia a pena tentar entender o que estava acontecendo? Desisto.

— Que mané “Alice”, Edel? – o imortal cruzou os braços, já completamente impaciente diante da situação.

A mulher deu de ombros, continuando a tragar a fumaça do narguilé. Que nojo.

— Alice, não temos tempo para essas suas bobagens. Estamos todos atrasados para os jogos da Rainha, principalmente você. O que a Rainha pensará se a convidada de honra dela não aparecer, quando ela fez questão de te trazer até aqui justamente para jogarmos todos juntos?

Sieghart quis gritar que não fazia ideia do que aquilo tudo significava, ou quem era a Rainha, mas conviver com Edel lhe fazia saber que a paciência dela não era das mais exemplares, então apenas deu de ombros e continuou esperando que ela falasse.

— Certo, como já estamos atrasados, Alice, eu serei breve aqui: A Rainha não está nada feliz com você, então os jogos de hoje não serão agradáveis, pelo menos não para você.

— E por que ela não “está nada feliz” comigo? Eu não fiz nada!

— Alice! – A voz veio tempestuosa, em tom de repreensão, e Sieghart se perguntou pela enésima vez desde que acordara naquele mundo, o que diabos estava acontecendo. – A Rainha nunca nos conta suas razões, mas com certeza você fez alguma coisa. Você sempre faz alguma coisa que nos deixa irritados, garota.

Okay, aquele “garota” já era passar dos limites.

— Espera aí, Edel! Voc-

— Você fala muito, Alice! – Edel se levantou, largando o narguilé apoiado no assento, e caminhou pelo lugar até Sieghart, o encarando com os olhos irritados. – Olhe, eu fui gentil em te chamar aqui para tentar te avisar. Se você não consegue calar a boca e perceber que a sua situação aqui não está boa, vou mandar que te levem pro castelo da Rainha. – Ela abriu a porta e indicou que ele saísse.

Ótimo, estava sendo expulso.

— Um dos meus servos e o gato irão te acompanhar. Se você tiver sorte, a Rainha estará de bom humor. Até lá, Alice~

Edel lhe sorriu, fria, e fechou a porta após empurra-lo para fora. Sieg resmungou mais alguma coisa antes de olhar ao redor de quase ter um infarte ao ver Veigas apoiado na parede enquanto sorria.

Por quê, deusas?

Mari estava do lado do asmodiano, as mãos juntas à frente do corpo, em uma posição submissa que não fazia jus a nenhuma das garotas da caçada. Ela fez uma referência e pediu em voz baixa que ele a seguisse. Sieg olhou para Veigas, que lhe piscou um olho antes de seguir a tecnomaga.

— A Lagarta é meio rude, não é, Sieggy?? – Veigas lhe perguntou enquanto seguiam a garota, que parecia focada em não conversar com eles.

Aquele afastamento doía um pouco no imortal.

— Veigas – chamou, já cansado daquele mundo que não fazia sentido algum – Quando isso acaba? Por que essa Rainha está brava comigo?

Veigas inclinou a cabeça enquanto lhe encarava, o cenho franzido, antes de dar de ombros.

— Tudo bem, vocês não respondem coisas que podem me ajudar, já entendi – reclamou, cruzando os braços e olhando para o céu quando enfim saíram da casa estranha. – Mari – chamou, fazendo-a olhá-lo de lado para mostrar que estava escutando – Quanto tempo daqui até a Rainha?

— Quinze minutos, senhor.

— Você vai me chamar de senhor mesmo que eu peça para não fazer, né?

— Isso mesmo, senhor.

— Tudo bem – suspirou, verdadeiramente exausto de andar para qualquer lugar que fosse. – Veigas, a rainha está brava comigo?

— Tãããão curioso, Sieggy... – Veigas comentou, desaparecendo no ar para aparecer novamente do seu outro lado, flutuando de costas para Mari. – Mas a Rainha não precisa de muito para ficar irada... O que você fez deve ter sido sério hehehe~

— Eu não fiz nada!

Veigas sorriu quase como se estivesse com dó.

— Não importa agora, não é mesmo? A Rainha deve começar com os jogos assim que chegarmos e- Oh!

Os três pararam de andar assim que chegaram no jardim do castelo. Sieghart piscou com o tamanho do lugar. Ali certamente caberia dois ou três campos do esporte que Lin amava jogar – futebol. E, uau, o lugar era magnífico.

Tinha um palco montado em uma área onde estava acontecendo um mini-show, e o Imortal reconheceu Amy cantando ali, e Jin e Azin como organizadores do “evento”, parados próximos ao palco como se conferissem que estava tudo certo. Podia ver Dio, Ryan e Ronan de roupas formais, carregando bandejas recheadas de petiscos e bebidas para lá e para cá.

Arqueou uma sobrancelha quando Mari lhe fez uma reverência e caminhou até onde Ronan estava conversando com uma figura de cabelos rosa que não conhecia. Veigas sorriu largo e Sieghart se assustou quando Rey se materializou ao seu lado, lhe informando que a Rainha estava lhe chamando, e que deveria seguí-la.

Veigas riu escandaloso e lhe empurrou na direção da asmodiana, que forçou um sorriso simpático antes de revirar os olhos e segurar seu braço para que se transportassem juntos. Mas era óbvio que Rey não gastaria tempo guiando alguém quando podia simplesmente sumir e reaparecer em outro lugar.

Sieghart se viu em frente à Rainha, e quis se bater por não ter pensado em quem seria. Dãh. A única pessoa da caçada que não tinha visto ainda, e constatar isso foi fácil saber o que estava acontecendo.

A Rainha- Não. Lin olhou para si e sorriu largo, o leque vermelho e preto que combinava com perfeição com sua vestimenta exuberante – exagerada, na opinião do Imortal, mas não queria mesmo ficar preso ali por mais tempo, então decidiu não irritar a sacerdotisa – balançando como um mero acessório. Somente os dois portavam suas armas, e aquilo soou como um alerta na mente do Imortal.

— Sieghart! – Ela exclamou, como se tudo aquilo não fosse uma farsa.

— Lin – saudou com ironia, o que fez com que ela erguesse uma sobrancelha pela afronta. – Que lugar lindo! Muitos parabéns pela sua criatividade em sonhar com algo tão grandioso. Quanto vinho você bebeu antes de dormir? Só curiosidade.

Ela estreitou os olhos diante da provocação, mas apenas devolveu com um sorriso sarcástico.

—Do que está falando, Alice? Além de estar atrasada, ainda me afronta? Não tem noção do perigo?

—Olha, ter eu até tenho, mas eu vou acordar quebrado e cansado de qualquer jeito, não faz diferença. O que me lembra: por que Vossa Majestade— implicou com deboche – está brava comigo? Edel e Veigas deixaram isso bem claro.

Lin sorriu de canto e se levantou do trono onde estava sentada, dando de ombros e fazendo um gesto para um garoto de cabelo laranja que Sieghart não reconhecia. O garoto tocou um trombone que chamou a atenção de todos, fazendo até mesmo o show da Amy parar e todos se reunirem ao redor de onde estavam.

—Meus queridos convidados! – Lin começou com um sorriso sarcástico, os gestos amplos dignos de uma rainha que fala para um povo. Pena que ela não o era de fato. – Agora que estamos todos aqui, até mesmo nossa amada Lagarta – ela acenou para Edel, que devolveu o comprimento de forma discreto – e nosso tão querido e atrasado Sieghart, podemos começar com os jogos. É com prazer que convido todos aqui presentes a participar de uma emocionante e bem-intencionada partida de Futebol!

Sieghart franziu o cenho com o jogo proposto. Não deveria ser criquet? A animação das pessoas também não fazia sentido. Mas o que menos fez sentido foi quando alguém – a bagunça estava tanta que não conseguiu identificar quem – lhe estendeu um capacete e desejou boa sorte.

Olhou confuso para Lin, que somente sorria com a cena.

—Como nossa querida Alice tão bondosamente se ofereceu, como meio de compensar por seu atraso, ela será a nossa bola de hoje. Por favor, Sieg, se dirija ao meio dos times.

Um pequeno riso de desespero escapou de Sieghart quando ele olhou para onde Lin apontava e encontrou os capitães de cada time – Dio e Veigas. Encarou a Rainha com os olhos arregalados.

—Lin, que por- – engoliu o palavrão por saber que Lin odiava escutar palavras “feias”. – porcaria é essa? Como assim eu vou ser a bola? Que merda você tem na cabeça?!

— Ué? – Ela perguntou, o olhar refletindo uma falsa inocência ao mesmo tempo que em que a voz pingava sarcasmo. – Não foi você quem disse que irá acordar cansado e quebrado de qualquer jeito e que por isso não fazia diferença me afrontar ou não? Ah, e respondendo a sua pergunta de antes: Eu não bebi nada do meu vinho de ameixa, Sieghart, e sabe por que? Por que alguém tomou, não é mesmo?

Sieg quis morder a própria língua e foi com dor no coração e muitos xingamentos sendo proferidos que o Imortal foi até onde Lin havia indicado anteriormente.

Desviou o olhar assim que viu a Rainha com um apito na mão, pronta para dar início ao jogo. Seus olhos foram para os dois asmodianos que lhe cercavam. Os olhos dourados e roxos com brilhos sádicos, prontos para darem o bote.

O barulho do apito soou.

Dio e Veigas avançaram.

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Sieghart acordou em um salto. A mão direita foi imediatamente para debaixo do travesseiro onde mantinha uma adaga, e suspirou aliviado ao sentir o frio do aço contra seus dedos.

Estava cansado, exausto, parecia que tinha passado o dia inteiro em treinamento rigoroso com os Highlanders e os deuses de Xênia, e ainda ajudado na mudança de uma vila inteira. Parecia que não descansava fazia uma década.

Olhou ao redor, vendo seus companheiros da Grand Chase acordando aos poucos, todos parecendo tão cansados como ele. Um estalo aconteceu em sua mente, e ele olhou para Lin, que se espreguiçava como se nada tivesse acontecido, e fingia inocência diante do olhar irritado de Lupus e Edel, que com certeza já tinham percebido o que tinha acontecido.

— Lin! – A voz estridente de Amy ecoou no quarto, e aquilo foi o suficiente para que os que ainda estavam confusos com o que acontecera finalmente entendessem e fuzilassem a sacerdotisa.

Lin sorriu amarelo ao ver todos seus companheiros com expressões irritadas, até mesmo Zero – ou o quão puto alguém podia parecer com uma máscara cobrindo dois terços do rosto. Ela se levantou, cautelosa, e soltou um pequeno riso de desespero quando percebeu que não poderia sair pela porta, já que Veigas e Holy bloqueavam a passagem. As janela também estavam fora de questão, com Arme e Mari de guarda.

— Sabe, Vossa Majestade— Sieghart comentou, rindo de como o feitiço tinha ido contra o feiticeiro. – Desculpe te decepcionar, mas eu acho que vamos mudar seus planos. Eu não curto muito futebol, mas beisebol é muito legal. Ah, e acho que a bola poderia ser você, o que acha?

Lin engoliu em seco.

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