Acordei antes mesmo do despertador tocar, como se meu corpo soubesse que eu não podia me atrasar. Por alguns segundos fiquei olhando para o teto, tentando lembrar onde eu estava, até que tudo da noite anterior voltou de uma vez só. A chuva, o desespero, Ayla… Jacob.

Virei o rosto e observei o quarto com mais atenção. Era simples, organizado, com aquele ar masculino sem exagero, nada fora do lugar. Me levantei devagar e meus olhos encontraram minha roupa dobrada sobre uma cadeira. Toquei o tecido por reflexo e vi que estava seca.

Um sorriso pequeno escapou, quase automático. Ele tinha cuidado disso, vesti a roupa com calma, ainda meio sonolenta, mas já pensando no dia que me esperava. Eu precisava passar em casa, pegar meus materiais, me organizar antes de ir para a escola. Prendi o cabelo de qualquer jeito e respirei fundo antes de sair do quarto.

Assim que abri a porta e dei o primeiro passo no corredor dei de cara com Jacob saindo do banheiro com uma toalha enrolada na cintura.

Meu cérebro simplesmente travou por um segundo.

A água ainda escorria pelo peito dele, descendo pelos músculos do abdômen de um jeito completamente desnecessário para alguém que estava tentando manter a sanidade numa manhã comum. Eu deveria ter desviado o olhar imediatamente.

Mas não desviei.

Meu olhar percorreu sem permissão, como se tivesse vontade própria e só depois percebi que Jacob também me olhava.

– Eu… – ele começou, claramente sem saber muito bem o que fazer com as mãos. – Desculpa, eu achei que você ia demorar mais pra acordar.

A voz dele chegava até mim, mas parecia distante, como se meu foco estivesse completamente em outro lugar. Nossos músculos e imaginando o que havia debaixo da toalha. Meu rosto começou a esquentar. Muito. Forcei meus olhos a subirem até o rosto dele, tentando parecer minimamente normal.

– Não…quer dizer... tudo bem…

Mas a quem eu queria enganar? Não estava bem, definitivamente não estava.

Dei um passo para o lado, quase tropeçando nos próprios pés – Eu preciso ir… eu… pedi um táxi.

Nem sabia se aquilo fazia sentido, mas foi o que saiu.

Passei por ele rápido demais, sem coragem de olhar de novo, sentindo o coração batendo forte no peito.

– Tchau! Falei já me afastando, praticamente fugindo pela sala pois se eu ficasse mais um segundo ali...eu ia acabar pensando coisas que definitivamente não devia.


Depois que saí da casa do Jacob praticamente correndo, o ar frio da manhã ajudou um pouco a colocar minha cabeça no lugar, mas não o suficiente. Passei em casa rápido, tomei um banho demorado tentando afastar qualquer imagem inconveniente da minha mente, escolhi uma roupa mais discreta do que o normal, como se isso fosse resolver alguma coisa, e peguei meus materiais antes de sair de novo.

O caminho até a escola foi automático. Eu dirigia, mas minha cabeça parecia em outro lugar, voltando em pequenos flashes para a noite anterior, para Ayla, para o abraço, para… ele.

Respirei fundo antes de entrar no prédio, tentando assumir aquela postura de professora que eu ainda estava me acostumando a vestir todos os dias. Os corredores estavam cheios, crianças conversando, correndo, aquele barulho típico que, de alguma forma, sempre me acalmava.

– Bom dia, professora!

– Bom dia, crianças.

Respondi com um sorriso, seguindo até a sala do 5º ano. Assim que entrei, alguns alunos já estavam sentados, outros ainda organizando as coisas.

– Bom dia, turma.

– Bom dia, professora! – responderam em coro, alguns mais animados que outros.

Coloquei meus materiais sobre a mesa, respirei fundo e comecei a aula, explicando o conteúdo do dia, fazendo perguntas, tentando manter o ritmo. No início, funcionou. Eu estava ali, presente, focada.

Mas não demorou muito.

Enquanto explicava um exercício no quadro, minha mente simplesmente… desviou.

A imagem veio sem aviso.

Jacob. No corredor. Só de toalha.

Fechei os olhos por um segundo, como se pudesse apagar aquilo.

– Professora?

A voz de um aluno me trouxe de volta.

– Oi, pode falar.

– A senhora pode explicar de novo?

Assenti rapidamente.

– Claro.

Voltei a explicar, com mais calma dessa vez, tentando me prender às palavras, aos exemplos, a qualquer coisa que me mantivesse ali, na sala.

Mas era difícil.

Porque, no meio de uma frase, eu me pegava lembrando do jeito como ele tinha ficado sem reação, da água escorrendo pelo corpo dele, do constrangimento… e, pior, da forma como aquilo tinha me afetado.

Passei a mão de leve pelo rosto, tentando disfarçar.

– Então, como eu estava dizendo…

Continuei a aula, mas agora com uma consciência incômoda crescendo dentro de mim.

Não era só atração ou só um momento estranho pela manhã. Era algo que já vinha acontecendo… e eu tinha ignorado até agora.

Encostei levemente na mesa, observando os alunos copiando, meu olhar ficou perdido por um segundo.

Então eu peecebi que estava começando a sentir algo por ele.

E isso… definitivamente não fazia parte dos meus planos.


Eu ainda tentava me manter focada na aula, caminhando entre as carteiras enquanto os alunos resolviam a atividade, quando a porta foi batida de leve.

Virei o rosto.

A secretária estava parada ali, com aquele sorriso educado de sempre, mas havia algo na expressão dela que me deixou em alerta.

– Professora Renesmee, a diretora pediu para você ir até a secretaria.

Franzi a testa, surpresa.

– Agora?

– Sim, por favor.

Assenti, tentando não demonstrar estranheza diante dos alunos.

– Continuem a atividade, eu já volto.

Peguei meu caderno por reflexo e saí da sala, fechando a porta atrás de mim. Comecei a caminhar ao lado da secretária pelos corredores, sentindo um leve aperto no estômago sem saber exatamente o motivo.

– Aconteceu alguma coisa?

Perguntei, tentando parecer casual.

– A diretora vai explicar.

A resposta veio neutra demais.

Aquilo não ajudou em nada.

Seguimos em silêncio por alguns segundos, o som dos passos ecoando no corredor, misturado às vozes das outras turmas. Quanto mais nos aproximávamos da sala da diretora, mais eu sentia que aquilo não era uma simples conversa.

E então eu vi.

Antes mesmo de chegar à porta.

Um grupo de pais reunidos do lado de fora da sala.

Meu coração apertou.

Reconheci alguns rostos… eram pais de alunos do 3º ano.

E no meio deles…

Ele.

Jacob.

Meu passo diminuiu sem que eu percebesse.

Ele estava ali, de pé, com a postura firme, mas havia algo diferente no olhar, uma tensão clara, como se estivesse esperando por aquilo. Quando nossos olhos se encontraram, foi imediato, senti um impacto silencioso.

Por um segundo, todo o resto ao redor pareceu desaparecer, engoli seco, sentindo o coração acelerar de novo, mas dessa vez não tinha nada a ver com a lembrança da manhã, aquilo era outra coisa.

Desviei o olhar por um instante, tentando entender o que estava acontecendo.

Por que aqueles pais estavam ali e principalmente por que Jacob estava ali.



Narrado por Jacob


Saí do quarto já vestido, mas ainda com a cabeça presa no que tinha acontecido minutos antes no corredor. A imagem da Renesmee ali, parada na minha frente, completamente sem reação… e o jeito que ela tinha me olhado antes de fugir, ainda martelavam na minha mente mais do que eu gostaria de admitir.

Passei a mão no rosto, tentando afastar aquilo.

Eu precisava focar.

Fui para a cozinha e comecei a preparar o café da manhã no automático, colocando água para ferver, separando algumas coisas simples. O silêncio da casa naquela hora era diferente, mais leve do que na noite anterior, mas minha cabeça ainda estava longe de estar calma.

A porta abriu sem aviso.

– Bom dia, vim cedo como prometi.

A voz da Rachel veio acompanhada de um sorriso tranquilo enquanto ela entrava.

– A porta estava aberta.

Assenti, pegando duas xícaras.

– A Renesmee deve ter deixado quando saiu.

Rachel arqueou uma sobrancelha, claramente guardando algum comentário, mas decidiu mudar de assunto.

– E a Ayla? Como está?

– Melhor- Respondi ao servir o café, entregando uma xícara pra ela – Sem febre, ela ainda está dormindo- Completei.

Ela assentiu, soprando o café.

– Ainda bem.

Me apoiei na bancada por um segundo, olhando pra xícara na minha mão antes de falar.– Você pode ficar com ela por algumas horas?

Rachel levantou o olhar na mesma hora.

– Claro que posso.

Respondeu sem hesitar.

– Ela não vai pra escola, né?

– Melhor não- Balancei a cabeça – Quero que ela descanse.

Rachel me observou por um instante, como se estivesse tentando entender alguma coisa.

– E você vai pra onde tão cedo?

Soltei um suspiro curto, apoiando a xícara na bancada.

– Resolver uma coisa.

Ela estreitou os olhos, curiosa.

– E eu posso saber que coisa é essa?

Cruzei os braços, encostando no balcão.

– Digamos que eu tenho uma moeda de troca… e vou usa-la.

Rachel inclinou levemente a cabeça, interessada.

– Isso tem a ver com a escola?

Olhei pra ela.

– Tem a ver com uma injustiça.

Ela sorriu de canto, como se já tivesse entendido mais do que eu disse.

– Hm… gostei.

Peguei a carteira, dando um gole no café.

– Vai lá então, justiceiro.

Revirei os olhos, mas um meio sorriso escapou – Cuida da Ayla pra mim.

– Você sabe que nem precisa pedir- Rachel respondeu com leveza.

Peguei as chaves e saí de casa sem perder mais tempo. Enquanto dirigia pelas ruas de Seattle, uma coisa estava clara na minha cabeça.

Aquilo não estava certo,e … eu não ia ficar parado assistindo.