Eu me sentei ao lado de Ayla enquanto ela espalhava os cadernos pela mesa como se estivesse organizando um pequeno tesouro. Lápis coloridos, borracha, o livro de ciências e um caderno já meio amassado nas pontas apareceram diante de mim. A menina se inclinou na minha direção com aquele olhar curioso que eu já tinha percebido em sala de aula, o tipo de olhar que sempre vinha acompanhado de perguntas inesperadas.

Abri o livro de ciências e virei algumas páginas até encontrar a atividade que a turma estava começando naquela semana.

– Certo, senhorita Ayla – falei com um tom brincalhão – hoje a gente vai falar sobre os animais e o lugar onde eles vivem.

Ela apoiou o queixo nas mãos.

– Tipo… onde eles moram?

– Isso mesmo. Cada animal tem um lugar que é melhor para ele viver. Alguns gostam de floresta, outros de água, outros de lugares frios.

Ayla arregalou os olhos.

– Então um peixe não pode morar numa árvore?

Eu ri.

– Acho que ele não ia gostar muito da experiência.

Ela começou a rir também.

– Imagina o peixe lá em cima… tipo… "socorro, alguém me joga de volta no lago!"

Do outro lado da cozinha, Jacob soltou um pequeno resmungo enquanto mexia alguma coisa no fogão.

– Ayla.

A voz dele veio firme.

– Respeita a professora.

A menina se encolheu um pouco, mas eu balancei a cabeça sorrindo.

– Não tem problema. A ideia dela até ajuda a entender.

Ayla olhou para mim novamente.

– Sério?

– Sério. – toquei de leve na página do livro – porque o peixe precisa de água para viver. Então a gente aprende que cada animal precisa de um ambiente que ajude ele a sobreviver.

Ela ficou pensativa por alguns segundos.

– Então o urso não ia gostar de morar no deserto.

– Provavelmente não.

– E um pinguim também não.

– Muito menos.

A menina abriu um sorriso satisfeito, como se tivesse acabado de resolver um grande mistério do universo.

Continuamos assim por alguns minutos, conversando mais do que propriamente lendo o livro. Ayla fazia perguntas curiosas, às vezes engraçadas, e eu tentava transformar cada resposta em algo que ela pudesse imaginar no dia a dia.

Foi quando ela de repente levou a mão até a barriga.

– Pai…

Jacob levantou os olhos da panela.

– O que foi?

– Eu tô com fome.

Eu olhei para o relógio pendurado na parede da cozinha e levei um pequeno susto.

Já era bem mais tarde do que eu tinha percebido.

– Nossa… – murmurei.

Jacob também olhou para o relógio e suspirou – Eu… não me programei pra gente almoçar em casa hoje.

Ele passou a mão pela nuca, claramente pensando rápido – Mas eu dou um jeito.

Eu fechei o livro devagar.

– Na verdade… acho que já está na hora de eu ir.

Ayla virou a cabeça tão rápido na minha direção que quase derrubou o lápis.

– Não!

Eu pisquei surpresa – Como assim não?

– Fica pra almoçar com a gente!

Ela falou aquilo com tanta naturalidade que por um segundo ninguém disse nada.

Olhei para Jacob quase sem querer.

A expressão dele era de pura surpresa, parecia que ele também não estava esperando aquilo da filha.

Ayla segurou meu braço com as duas mãos.

– Por favor.

– Ayla… – falei, um pouco sem jeito – eu não quero incomodar.

Jacob soltou um pequeno suspiro e então deu um meio sorriso – Não é incômodo nenhum.

Ele abriu o armário da cozinha– Na verdade… a gente faz questão.

Levantei os olhos para ele.

– Sério?

– Claro.

Ele pegou um pacote de macarrão – Você gosta de macarrão?

Eu ri.

– Amo.

Ele levantou o pacote como se estivesse confirmando uma decisão importante.

– Então pronto. Está resolvido.

Ayla levantou os braços.

– AEEE!

Jacob já estava enchendo uma panela com água enquanto a menina pulava da cadeira.

– Enquanto o macarrão fica pronto – ele disse – vocês podem continuar estudando.

Mas Ayla já tinha outros planos.

Ela segurou minha mão novamente e me puxou para levantar.

– Nessie!

– O que foi?

– Vem conhecer meu quarto!

Olhei para Jacob em busca de autorização.

Ele apenas deu de ombros, com um pequeno sorriso cansado.

– Vai lá.

Ayla já me puxava pelo corredor quando eu ouvi ele dizer atrás de nós:

– Só não baguncem muito!


Quando Ayla abriu a porta do quarto, ela entrou primeiro, quase saltando para dentro como se estivesse apresentando algo muito importante. Eu a segui com curiosidade e parei logo na entrada por alguns segundos, observando o lugar.

O quarto parecia exatamente aquilo que me veio à cabeça na mesma hora. O castelo da princesa Ayla.

As paredes eram pintadas de lilás claro e havia pequenos adesivos de estrelas espalhados perto do teto. A cama tinha uma colcha rosa cheia de almofadas e, em volta dela, havia uma pequena multidão de ursos de pelúcia sentados como se fossem guardas reais protegendo o reino. Alguns eram enormes, outros pequenos, um deles até usava uma coroa de plástico meio torta na cabeça.

Havia também desenhos presos na parede com fita colorida. Casas, flores, corações e algumas figuras que eu suspeitava serem pessoas da família.

– Esse aqui é o meu favorito – Ayla disse, pegando um urso marrom e apertando contra o peito.

– Ele tem cara de importante – respondi, entrando um pouco mais no quarto.

A menina riu.

– Ele é o capitão do castelo.

Eu ri junto, mas meu olhar acabou parando em algo diferente sobre a mesa de cabeceira.

Um porta retrato.

A fotografia mostrava uma mulher jovem de cabelos escuros e olhos intensos. O sorriso dela era aberto, bonito. Havia algo muito vivo naquele olhar.

Apontei para a foto com cuidado.

– Ayla… quem é ela?

A menina se aproximou da mesa e pegou o porta retrato com as duas mãos, como se fosse algo muito precioso.

– É a minha mamãe.

Ela falou aquilo com uma naturalidade tranquila.

– Ela mora no céu.

Por um instante senti meu peito apertar.

Olhei novamente para a foto e então para a menina.

Foi nesse momento que entendi.

Jacob não era apenas um pai solteiro.

Ele era viúvo.

Ayla levantou a foto um pouco mais alto, virando na minha direção como se estivesse realmente fazendo uma apresentação.

– Mamãe – ela disse com toda a seriedade do mundo – essa é a Nessie.

Ela olhou para mim e abriu um sorriso enorme.

– Ela é muito linda e muito legal.

Eu não consegui evitar sorrir também.

Inclinei um pouco a cabeça na direção da foto, entrando na brincadeira da menina.

– Muito prazer.

Ayla olhou novamente para o retrato, como se estivesse esperando uma resposta.

– Viu, mamãe? Eu falei.

Depois voltou a me olhar.

– O nome dela é Leah.

Ela falou aquilo com carinho, passando o dedo pelo vidro da foto.

– E ela gostou de você.

Eu ri baixinho.

– Ah é?

– É.

Inclinei a cabeça, curiosa.

– E como você sabe disso?

A menina abriu a boca para responder, mas antes que dissesse qualquer coisa ouvimos passos no corredor.

A porta do quarto abriu logo em seguida.

Jacob apareceu encostado no batente, os olhos passando rapidamente pela cena dentro do quarto. Por um segundo, o olhar dele parou na foto que Ayla ainda segurava.

Então ele falou com um tom tranquilo.

– O macarrão está pronto.


Narrado por Jacob


Enquanto a água fervia e o macarrão cozinhava na panela, eu me peguei olhando para o vapor subir devagar e pensando em algo que não me ocorria havia muito tempo. Fazia anos que eu não preparava uma refeição para alguém que não fosse Ayla. Na maior parte dos dias era algo rápido, simples, o suficiente para alimentar nós dois depois de um dia cheio na oficina ou na escola. Nada muito planejado, nada que exigisse muito esforço.

Mas naquele momento, enquanto mexia o macarrão com a colher de madeira, percebi que estava prestando mais atenção do que de costume. Conferindo o sal, olhando o molho, tentando fazer algo que não fosse apenas "aceitável".

Aquilo me fez lembrar de outra cozinha.

La Push. Muitos anos atrás.

Eu e Leah estávamos na casa pequena perto da praia, discutindo quem tinha estragado o molho. Ela insistia que a culpa era minha porque eu tinha colocado sal demais. Eu dizia que ela tinha mexido a panela antes de provar. No final nós dois rimos tanto que acabamos comendo do mesmo jeito, sentados no chão da cozinha porque a mesa ainda estava cheia de coisas.

A lembrança veio suave. Quase tranquila.

Por muito tempo lembrar de Leah era como levar um soco no peito. A dor da noite em que Ayla nasceu, e Leah… não voltou para casa conosco, parecia impossível de suportar no começo. Eu achava que aquela sensação nunca ia mudar.

Mas os anos passaram.

A saudade ficou.

A dor… aprendeu a ficar quieta em um canto.

Mexi o molho mais uma vez e desliguei o fogo.

Peguei três pratos no armário e comecei a organizar a mesa. Garfos, copos, guardanapos. Coisas simples, mas que de repente me fizeram pensar um pouco mais do que o normal.

Por um momento, fiquei olhando para a mesa posta e me perguntei algo que soou meio idiota na minha própria cabeça.

Será que ela vai gostar?

Nessie.

Como Ayla tinha começado a chamar a professora com uma facilidade impressionante.

Balancei a cabeça para mim mesmo.

Era só macarrão.

Mas mesmo assim ajeitei um pouco melhor os pratos antes de sair da cozinha.

Caminhei pelo corredor e parei diante da porta do quarto de Ayla. Bati de leve e empurrei a porta logo em seguida.

– O almoço está pronto.

As duas estavam perto da cama.

Renesmee virou o rosto para mim no mesmo instante e sorriu. Um sorriso tranquilo, quase tímido, que fez algo no meu peito apertar de um jeito inesperado.

Antes que qualquer outra coisa acontecesse, Ayla pulou da cama.

– MACARRÃO!

Ela saiu correndo pelo quarto e passou por mim como um foguete.

– Ei! – eu disse, tentando manter um tom sério. – A comida não vai fugir.

A voz dela já vinha de longe pelo corredor.

– MAS EU TÔ COM FOME!

Atrás de mim, Renesmee começou a rir.

Um riso leve, daqueles que parecem escapar antes da pessoa perceber.

Eu abri um pouco mais a porta e fiz um pequeno gesto com a mão.

– Senhorita.

Ela inclinou levemente a cabeça, entrando na brincadeira.

– Obrigada.

Renesmee passou por mim no corredor, e por um segundo senti o perfume suave que ela usava. Fiquei parado ali um instante antes de sair também.

Fechei a porta do quarto de Ayla atrás de mim e segui as duas até a cozinha.


Sentamos os três à mesa e, como eu já esperava, Ayla começou a falar antes mesmo de pegar o garfo. Era impressionante como aquela menina conseguia contar três histórias diferentes ao mesmo tempo enquanto enrolava o macarrão no prato.

– E aí o Seth deixou cair uma chave enorme no chão e fez um barulho gigante na oficina – ela dizia, gesticulando com o garfo no ar – e eu achei que tinha quebrado o carro inteiro!

Renesmee segurava o riso enquanto tentava acompanhar o ritmo da narrativa.

– E que carro era?

– Um que não tinha porta! – Ayla respondeu imediatamente.

– Ah… então era um carro especial – Nessie comentou, fingindo pensar.

– Não, era um carro quebrado mesmo.

Eu balancei a cabeça enquanto levava o garfo à boca.

– Come, Ayla. Você fala mais do que mastiga.

– Eu consigo fazer os dois – ela respondeu.

Renesmee riu, apoiando o cotovelo na mesa de forma relaxada, completamente à vontade enquanto escutava cada história absurda da minha filha. Era estranho e ao mesmo tempo… bom. A cozinha parecia mais viva do que de costume.

Depois de alguns minutos, Ayla soltou um suspiro dramático.

– Mas mesmo assim meu final de semana vai ser horrível.

Nessie levantou um pouco as sobrancelhas.

– Horrível?

– Sim! – Ayla cruzou os braços. – Porque eu não vou poder ir pra La Push.

Ela olhou para mim com uma cara de injustiça profunda.

– Eu queria ver o vô Billy… e a vovó Sue… e o vô Harry.

Renesmee ficou um pouco mais séria, mas ainda com aquele tom gentil.

– Eu sei que deve ser chato ficar de fora.

Ayla assentiu rapidamente.

– Muito chato.

Nessie inclinou a cabeça na direção dela.

– Mas às vezes a gente precisa entender o lado dos nossos pais também.

Ayla franziu o nariz.

– Por quê?

– Porque eles tentam ensinar coisas importantes, mesmo quando a gente não gosta da regra.

Eu aproveitei o momento.

– A professora está certa.

Ayla virou a cabeça lentamente para mim.

Depois ergueu uma sobrancelha de um jeito que eu reconheci imediatamente como pura implicância.

– A Nessie é minha amiga.

Ela apontou o garfo na minha direção.

– Não é sua.

– Então ela não pode concordar com você.

Renesmee levou a mão à boca para segurar o riso.

Eu cruzei os braços sobre a mesa e olhei para ela.

– Não seja por isso.

Voltei meu olhar para Renesmee com uma expressão séria, mas claramente brincando.

– Professora… quer ser minha amiga também?

Ela soltou uma risada de verdade dessa vez.

– Vocês dois são impossíveis.

Ayla olhava para nós dois como se estivesse tentando decidir se aquilo era traição.

– Então? – eu insisti.

Renesmee levantou as mãos em rendição.

– Tudo bem… eu aceito.

Eu voltei imediatamente para Ayla.

– Viu?

Apontei o garfo para ela.

– Você perdeu.

A menina abriu a boca indignada.

– Não vale!

– Vale sim.

Renesmee ria baixinho entre nós dois enquanto continuava comendo.

– Acho que eu entrei numa competição sem perceber.

– Entrou – eu disse.

Ayla bufou, mas logo voltou a comer.

Mesmo reclamando, ela ainda sorria e aquele almoço simples na cozinha da minha seria o início de algo que se tornaria rotina.