Narrado por Renesmee


O beijo foi se acalmando aos poucos, como uma onda que perde força na beira da praia, até que nossos lábios se separaram devagar, quase relutantes. Minha respiração ainda estava descompassada quando abri os olhos, e só então a realidade pareceu voltar de uma vez só. O pátio da escola, o movimento ao redor, algumas pessoas passando… e nós dois ali, no meio de tudo, como se tivéssemos esquecido completamente onde estávamos.

Senti o rosto esquentar.

Jacob soltou um pequeno riso pelo nariz, como se tivesse percebido a mesma coisa.

– Acho que a gente escolheu um lugar bem… público pra isso.

Balancei a cabeça, ainda meio sem conseguir esconder o sorriso.

– Acho que sim.

Por um instante, ficamos ali, próximos, como se nenhum dos dois quisesse se afastar de verdade. Então ele respirou fundo e passou a mão pela nuca, tentando voltar ao normal, mas o olhar ainda preso no meu.

– A Ayla vai ficar muito feliz se você for almoçar com a gente.

Fez uma pequena pausa, o canto da boca levantando de leve – Eu também.

Meu coração deu aquele salto de novo, mas dessa vez eu ri baixo, mais leve – Eu adoraria… de verdade.

Inclinei um pouco a cabeça, olhando pra ele – Mas eu prometi pros meus pais que ia almoçar com eles hoje.

Ele levou a mão ao peito de forma exagerada, fingindo uma dor dramática – Assim você me magoa.

Soltei uma risada sincera, balançando a cabeça.

– Eu não conhecia esse seu lado dramático.

– Eu tenho várias qualidades escondidas – ele respondeu, entrando na brincadeira.

Sorri, ainda olhando pra ele daquele jeito que eu nem sabia explicar direito.

– Mas eu posso jantar com vocês- Falei, mais calma agora – Se você quiser.

O olhar dele mudou na hora, mais leve, mais satisfeito.

– Mas é claro que quero- Respondeu sem hesitar – Então eu passo na sua casa mais tarde.

Assenti devagar.

– Tá bom.

Ficamos em silêncio por um segundo, mas não era estranho, era confortável.

Ele se inclinou de leve, e dessa vez o beijo foi mais curto, mais suave, quase como uma promessa silenciosa. Me afastei devagar, ainda sorrindo, e fui até o meu carro. Entrei, fechei a porta e por alguns segundos só fiquei ali, parada, com as mãos no volante.

Mordi o lábio inferior, sentindo aquele sorriso bobo surgir sem pedir permissão, então eespirei fundo, tentando me recompor.

Antes de dar partida, olhei pelo vidro e Jacob ainda estava ali me olhando, sorri novamente e então ele deu uma piscada de olho para mim.

Soltei uma risada baixa, balançando a cabeça e dei partida no carro com o coração leve… e completamente fora de controle.

Depois daquele beijo inesperado com Jacob, parecia impossível pensar em qualquer outra coisa… mas a vida não parava só porque meu coração tinha resolvido acelerar sem aviso. Eu precisava voltar pra realidade, mesmo que uma parte de mim ainda estivesse parada no pátio da escola.

Dirigi até a casa dos meus pais quase no automático, repetindo cada detalhe na cabeça, o toque dele, o jeito como me puxou, a forma como me olhou depois. Soltei um suspiro quando estacionei em frente à casa, apoiando a testa por um segundo no volante.

– Foco, Renesmee…

Murmurei pra mim mesma, tentando me organizar.

Saí do carro, peguei minha bolsa e caminhei até a porta. Abri com a chave e entrei, sendo recebida quase imediatamente pelo cheiro de comida e pela familiaridade que sempre me acalmava.

Minha mãe estava na sala de jantar, arrumando a mesa.

Assim que me viu, o rosto dela se iluminou.

– Que bom que você veio!

Ela veio até mim sem pensar duas vezes, me envolvendo em um abraço apertado.

Retribuí, sentindo aquele conforto imediato.

– Eu também senti saudade.

Ela se afastou, ainda sorrindo, passando a mão no meu braço com carinho.

Antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, ouvi a voz do meu pai vindo da sala.

– Sim, depois a gente resolve isso…

Ele apareceu logo em seguida, ainda ao telefone, mas assim que me viu, abriu um sorriso leve.

– Oi, filha.

Se aproximou e beijou meus cabelos com carinho, como sempre fazia.

– Oi, pai.

Sorri de volta.

Ele fez um gesto de espera com a mão, voltando a atenção rapidamente para a ligação enquanto se afastava um pouco.

Respirei fundo, observando a casa, tentando me reconectar com aquele ambiente, com aquele momento.

Foi quando meus olhos caíram sobre a mesa, haviam somente rês lugares.

Franzi a testa levemente, olhando de novo para minha mãe.

– A Liza não vai almoçar conosco?

Perguntei, tentando manter o tom neutro.

Minha mãe voltou a ajeitar os talheres, mas respondeu com naturalidade.

– Não meu bem, sua irmã tinha um compromisso.

Ela levantou o olhar para mim, com um pequeno sorriso.

– Esse almoço é só nosso.

Senti algo apertar de leve dentro de mim sem saber se era alívio… ou tensão.

Porque, no fundo, eu sabia, aquilo não era só um almoço comum.


Narrado por Jacob


Entrei em casa ainda com um sorriso que eu nem fazia questão de esconder, cantarolando baixo, como se alguma coisa dentro de mim tivesse encontrado um ritmo próprio. O cheiro de comida veio primeiro, misturado com o som dos lápis riscando papel no chão da sala.

Rachel estava na cozinha, mexendo em alguma panela com a tranquilidade de quem já tomou conta do espaço, e Ayla estava sentada no tapete, concentrada nos desenhos, a língua levemente presa entre os dentes enquanto coloria.

Assim que me viu, tudo mudou.

– Papai!

Ela largou os lápis no mesmo segundo e veio correndo na minha direção. Eu nem pensei, só abaixei um pouco e a peguei no colo, girando com ela no meio da sala enquanto continuava a cantarolar. Ela riu alto, jogando a cabeça para trás, se segurando em mim.

– Ei, cuidado que eu fico tonta! – disse, rindo.

– É pra isso mesmo – respondi, entrando na brincadeira, dando mais uma volta antes de parar.

Rachel encostou na bancada, cruzando os braços e me observando com aquele olhar que eu conhecia bem demais.

– Nossa… alguém aqui viu um passarinho azul hoje.

Arqueei a sobrancelha, ainda com Ayla no colo.

– Azul?

– Ou quem sabe… ruivo.

Completou, com um sorrisinho de canto.

Ayla virou o rosto na direção dela, curiosa.

– Existe passarinho ruivo?

Eu e Rachel rimos ao mesmo tempo.

– Acho que sim – respondi, descendo Ayla com cuidado no chão. – Mas esse aí é raro.

Rachel soltou uma risadinha, voltando para a panela.

Balancei a cabeça, ainda sorrindo, e olhei pra Ayla, que agora me encarava com expectativa.

– Eu tenho uma boa notícia.

Ela se ajeitou na hora, os olhos brilhando.

– Ou melhor… duas.

– Quais? – perguntou, já pulando de leve no lugar.

Cruzei os braços, fazendo um pequeno suspense.

– A primeira…

Olhei direto pra ela.

– A Renesmee vai voltar a ser sua professora.

Nem terminei direito e ela já estava pulando.

– Sério? Sério mesmo?

– Sério.

Ela soltou um gritinho de felicidade e veio me abraçar de novo, apertando com força.

– Eu sabia! Eu sabia!

Rachel se aproximou, encostando de leve no meu braço.

– Eu tenho certeza que tem o seu dedo nisso.

Olhei pra ela de lado, com um meio sorriso, e me inclinei só pra dar um beijo rápido no rosto dela.

– Talvez.

Ela riu, balançando a cabeça.

– Convencido.

Ignorei a provocação e olhei para a panela.

– E aí… o que tem pro almoço?

Rachel voltou a mexer a comida, como se aquilo fosse o assunto mais importante do mundo agora.

– Se você ajudar, talvez eu te conte.

Revirei os olhos, mas o sorriso ainda estava ali.

Ayla ainda estava agarrada em mim, sorrindo daquele jeito que fazia qualquer dia ruim desaparecer, quando de repente ela se afastou um pouco, como se tivesse lembrado de algo importante.

– E a segunda notícia?

Ela cruzou os braços, me olhando com expectativa, quase exigindo a resposta.

Soltei um riso baixo, passando a mão pela nuca.

– A segunda…

Fiz uma pausa de propósito, vendo a curiosidade crescer no rosto dela.

– É que hoje à noite a Renesmee vem jantar com a gente.

Não deu nem tempo de completar direito.

Ayla soltou um gritinho e subiu no sofá num pulo só.

– ELA VAI VIR AQUI?

– Vai – respondi, rindo da reação dela.

Ela começou a pular no sofá, completamente animada.

– Eu sabia! Eu sabia! Eu sabia!

Rachel apoiou a mão no encosto do sofá, olhando a cena com diversão.

– Meu Deus… alguém aqui ganhou o dia.

Ayla nem respondeu, só continuou pulando, completamente entregue à felicidade.

Foi quando Rachel bateu levemente palmas, chamando atenção.

– Já que estamos no momento boas notícias…

Olhei pra ela, desconfiado.

– Lá vem.

– Eu tenho um pedido.

Suspirei, já imaginando.

– Qual?

Ela apoiou o quadril na bancada, cruzando os braços.

– O que você acha da gente passar o final de semana em La Push?

Antes que eu respondesse, ela completou:

– O velho Billy está morrendo de saudade da neta.

Ayla parou de pular na mesma hora e virou na nossa direção, os olhos brilhando de novo.

– A gente vai ver o vô Billy?

Olhei primeiro pra Rachel, depois pra Ayla.

Aquela empolgação… aquele brilho.

Soltei o ar pelo nariz, rendido.

– Vamos.

Foi o suficiente.

– AAAAAH!

Ayla voltou a pular no sofá, ainda mais animada.

– Eu vou ver o vô Billy! E a vovó Sue! E o vô Harry!

Rachel levantou os braços, comemorando junto.

– É disso que eu tô falando!

Balancei a cabeça, rindo sozinho enquanto observava as duas comemorando juntas.