Narrado por Renesmee


O dia seguinte chegou rápido demais. Eu ainda estava cansada quando entrei na sala do 5º ano naquela manhã, tentando manter o foco na aula enquanto os alunos falavam ao mesmo tempo, pediam ajuda, levantavam da cadeira sem avisar e riam de coisas que eu nem tinha entendido direito. Eu gostava daquela faixa etária, eram curiosos, cheios de energia, sempre prontos para contar uma história ou fazer uma pergunta inesperada, mas mesmo assim, enquanto explicava uma atividade de leitura no quadro, percebi que estava sentindo falta das vozes menores do 3º ano, da forma como aquelas crianças ainda se agarravam à professora para tudo, como se a sala fosse um pequeno mundo seguro.

Ayla fazia parte disso.

Tentei afastar o pensamento e continuei a aula, circulando entre as mesas, ajudando um aluno aqui, corrigindo um caderno ali, respondendo perguntas que surgiam o tempo todo. Quando o sinal finalmente tocou, senti aquele cansaço leve de quem passou horas falando sem parar. Os alunos começaram a guardar os materiais, alguns vieram me mostrar os exercícios antes de sair, outros simplesmente correram porta afora, como se a liberdade do recreio fosse a coisa mais importante do universo.

Sorri para eles enquanto se despediam.

– Até amanhã, professora.

– Até amanhã, pessoal.

A sala foi ficando vazia aos poucos até restar apenas o silêncio e algumas cadeiras fora do lugar. Arrumei a mesa, peguei meus livros e segui para o corredor, caminhando devagar até a sala dos professores. O prédio já estava mais tranquilo naquela hora, apenas alguns passos ecoando pelo corredor e vozes distantes vindas de outras salas.

Na sala dos professores eu abri meu armário, guardei os materiais da aula, organizei alguns papéis que tinha levado comigo e respirei fundo por um instante. O dia tinha sido longo, mas pelo menos a minha cabeça parecia um pouco mais leve depois da conversa da noite anterior.

Fechei o armário e segui para o estacionamento da escola.

O céu estava claro e o sol da tarde refletia nos carros estacionados. Caminhei até o meu veículo procurando as chaves na bolsa, mas parei no meio do caminho quando percebi uma pequena figura parada perto do carro.

Era uma menina.

Baixinha, com um lenço amarrado na cabeça e a mochila nas costas.

Meu coração apertou imediatamente.

– Ayla?

Ela estava me esperando.

A menina levantou o rosto quando ouviu minha voz, os olhos grandes me observando com atenção.

Aproximei mais alguns passos, ainda surpresa.

– O que você está fazendo aqui?

Ayla apertou a alça da mochila com as duas mãos.

– Por que você não é mais minha professora?

A pergunta veio direta, sem rodeios.

Por um segundo eu não soube o que responder.

Ajoelhei um pouco para ficar mais perto da altura dela.

– Ayla…

Tentei falar com calma.

– Às vezes a escola precisa mudar os professores de turma.

Ela franziu a testa.

– Mas por quê?

Respirei fundo, tentando encontrar uma forma simples de explicar.

– Não foi uma decisão minha.

A menina ficou em silêncio por um instante, olhando para o chão.

Depois levantou os olhos novamente.

– Eu fiz alguma coisa errada?

Meu peito apertou de verdade agora.

– Não.

Ela continuou me olhando.

– Foi por causa das brincadeiras?

Minha garganta ficou seca.

– Não, Ayla.

Ela deu um passo mais perto.

– Eu prometo que não faço mais.

Aquilo me atingiu como um soco silencioso.

Balancei a cabeça devagar.

– Não tem nada a ver com você.

Falei com toda a firmeza que consegui.

– Você não fez nada de errado.

Ayla parecia confusa, como se estivesse tentando entender uma lógica que simplesmente não fazia sentido para ela.

Foi quando um ônibus escolar começou a se aproximar da rua em frente à escola.

Ela olhou para trás rapidamente.

– É o meu ônibus.

A menina ajustou a mochila nas costas.

– Eu preciso ir.

Antes que eu dissesse qualquer coisa ela saiu correndo em direção ao portão, os passos pequenos batendo rápido no chão enquanto atravessava o estacionamento.

Fiquei parada ali, observando até ela desaparecer na direção do ônibus.

Por um momento o estacionamento parecia grande demais e silencioso demais.

Levei a mão ao peito sem perceber.

Meu coração estava apertado.


Narrado por Jacob


Eu estava na sala quando ouvi o carro parar em frente à casa. Já estava esperando por Rachel, ela tinha me avisado ontem que passaria aqui antes de ir resolver algumas coisas na cidade. Mesmo assim, quando ouvi a porta do carro bater senti aquele pequeno alívio que sempre vinha quando minha irmã aparecia. Rachel sempre teve esse efeito, ela chegava e a casa parecia menos silenciosa.

Abri a porta antes mesmo que ela batesse.

Ela estava subindo os poucos degraus da varanda com uma bolsa grande no ombro e aquele sorriso tranquilo de quem parecia ter viajado metade do mundo, mas ainda assim estava completamente à vontade ali.

– Demorou – eu disse cruzando os braços.

Rachel riu.

– Nem comecei a falar e você já está reclamando.

Eu a puxei para um abraço.

– Eu reclamei com carinho.

– Claro que reclamou.

Ela entrou na casa olhando em volta.

– Nada mudou aqui.

– Eu gosto das coisas do jeito que estão.

Ela deixou a bolsa no sofá.

– Então… o que te trouxe até aqui afinal? – perguntei.

Rachel suspirou.

– Preciso resolver umas coisas na cidade. Documentos, banco, essas burocracias chatas.

Assenti.

– Entendi.

Ela pegou a caneca de café que eu tinha deixado na mesa e soprou devagar antes de beber.

– Vou ficar alguns dias por aqui.

– Ótimo – respondi. – O sofá é confortável.

Rachel levantou os olhos da caneca.

– Engraçadinho… eu vou ficar no apartamento do Paul.

Levei a mão ao peito fingindo estar ofendido.

– Nossa, Rachel. Que forma cruel de dizer isso.

Ela começou a rir.

– Jacob…

– Então agora a casa do seu próprio irmão não serve?

Rachel balançou a cabeça divertida– Não é isso- Ela apontou em volta da sala- Sua casa é ótima- Depois cruzou os braços.

– Mas pequena.

– Ei.

– E eu sou uma visita espaçosa.

– Nisso eu concordo-

– Eu chego com mala grande, espalho minhas coisas pela casa, tomo conta da cozinha…Ela deu de ombros.– Você não ia aguentar três dias.

Acabei rindo.

– Talvez você tenha razão.

Rachel se jogou no sofá como se estivesse ali fazia semanas – Então… – ela disse me observando. – Como anda a vida?

Peguei a caneca de café e sentei na cadeira em frente – Tranquila.

Ela tomou um gole e completou: – E solitária.

Soltei um suspiro.

– Eu sabia que você ia chegar nesse assunto.

Rachel levantou uma sobrancelha.

– Claro que sabia.

Ela se inclinou um pouco para frente.

– Jake… já se passaram sete anos.

Passei a mão pela nuca.

– Rachel…

– Está na hora de você voltar a viver.

Balancei a cabeça devagar.

– Eu vivo.

Ela ficou me olhando.

– Eu vivo pra minha filha.

Rachel suspirou, mas havia carinho no olhar.

– Eu sei.

Depois sorriu de lado.

– Mas você também é uma pessoa, não só um pai.

Eu ri sem humor.

– Eu sei exatamente onde você quer chegar.

– Ótimo.

Ela cruzou os braços.

– Então me diz.

– Dizer o quê?

– Se tem alguém.

Fiz uma careta.

– Rachel…

– O quê? É uma pergunta simples.

Por um segundo uma imagem apareceu na minha cabeça sem pedir licença.

Renesmee rindo no café.

Renesmee sentada no banco da praça tentando esconder as lágrimas.

Pisquei algumas vezes, afastando o pensamento.

– Não – respondi por fim. – Não tem ninguém.

Rachel me observou em silêncio, claramente desconfiada.

– Tem certeza?

Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, a porta da frente se abriu com força.

Ayla entrou na casa como um pequeno furacão, ignorando completamente a presença da tia.

A mochila quase caiu do ombro e o rosto estava vermelho de tanto chorar.

Levantei imediatamente.

– Ayla?

Ela parou no meio da sala, respirando rápido enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto.

Rachel também se levantou.

– O que aconteceu? – perguntei, já preocupado.

Ayla tentou falar no meio do choro.

– Eu… eu nunca mais quero voltar pra aquela escola.


Narrado por Renesmee


Quando cheguei ao meu pequeno apartamento em Seattle senti aquele silêncio familiar me envolver outra vez. O lugar não era grande, mas era confortável, uma sala simples ligada à cozinha, um sofá perto da janela e uma mesa pequena onde eu quase sempre corrigia provas ou organizava planos de aula.

Fechei a porta atrás de mim e deixei a bolsa e os livros sobre o sofá, meus ombros estavam pesados depois de um dia inteiro na escola e de tudo que tinha acontecido com Ayla no estacionamento. Por alguns segundos fiquei parada no meio da sala tentando organizar os pensamentos, então caminhei até a geladeira enquanto pegava o pequeno monte de correspondências que estava preso na porta.

Abri a geladeira, peguei uma jarra de suco de laranja e levei tudo até a mesa. O barulho da cadeira arrastando no chão ecoou no apartamento vazio quando me sentei. Servi um pouco de suco em um copo e comecei a separar os envelopes com a ponta dos dedos, contas, propaganda, mais uma conta, até que um envelope um pouco mais rígido chamou minha atenção.

Meu coração acelerou sem aviso.

Eu reconhecia aquele envelope.

Respirei fundo antes de abri-lo.

Durante alguns segundos fiquei apenas olhando o papel dentro dele, meus olhos passando pelas linhas com cuidado até que a frase que eu esperava apareceu diante de mim.

Aprovada.

Soltei o ar devagar e um sorriso escapou antes que eu percebesse.

Eu tinha passado.

Passei a mão pelos cabelos ainda olhando o papel, tentando acreditar no que estava lendo. Era o resultado da prova que eu tinha feito meses atrás para o mestrado em educação na Universidade de Lisboa, em Portugal. Na época eu tinha feito a inscrição quase por impulso, como quem abre uma porta sem saber se realmente vai atravessá-la.

E agora… eu podia.

Peguei o copo e tomei um gole de suco enquanto ainda segurava o papel, meu cérebro tentando acompanhar aquela notícia.

Mestrado.

Outro país.

Outra vida, talvez.

Eu ainda estava olhando para a carta quando o som da campainha ecoou pelo apartamento.

Franzi a testa.

Não estava esperando ninguém.

Deixei o copo e o envelope sobre a mesa e caminhei até a porta, passando a mão rapidamente pelo cabelo no caminho. Quando abri, levei um segundo inteiro para entender quem estava diante de mim.

Alec.

Ele estava parado no corredor do prédio, as mãos nos bolsos do casaco, o rosto um pouco mais sério do que eu lembrava.

Meu corpo ficou imóvel.

– Alec?

Ele respirou fundo antes de falar.

– Oi, Nessie.

Fiquei em silêncio, ainda tentando entender por que ele estava ali.

– Como você encontrou meu endereço?

Ele desviou o olhar por um instante.

– Eu perguntei para seu pai.

Aquilo não me surpreendeu tanto quanto deveria.Voltei a olhar para ele. – O que você quer?

Alec passou a mão pela nuca, claramente nervoso– Eu… precisava falar com você.

Meu coração começou a bater mais rápido, mas não era saudade.

Era tensão.

Ele deu um pequeno passo na direção da porta.

– Eu posso entrar?

Hesitei por um segundo.

Então ouvi a frase que ele disse logo depois.

– A gente precisa conversar.