Uma lição de amor

1 Prólogo: Meu primeiro dia


Narrado por Renesmee


Segurei o celular entre o ombro e a orelha enquanto caminhava pela calçada em frente à escola primária de Seattle. O prédio era maior do que eu imaginava. Tijolos claros, janelas enormes e um jardim cheio de flores perto da entrada. Crianças passavam correndo com mochilas coloridas nas costas, algumas rindo, outras reclamando porque o sinal ainda nem tinha tocado. O som das vozes, passos apressados e conversas animadas misturava tudo num barulho vivo que fazia meu coração bater mais rápido. Então, respirei fundo.

Era meu primeiro dia como professora.

Do outro lado da linha, minha mãe ainda falava.

Nessie, você ainda está aí?

Sorri sem perceber.

– Estou sim, mãe. Acabei de chegar.

Olhei para o portão grande da escola. Alguns pais se despediam dos filhos, outros pareciam ter pressa para ir trabalhar. Tudo parecia tão normal. Tão cotidiano. E ainda assim eu sentia um frio enorme na barriga.

E então? Como é a escola? – Bella perguntou.

Girei devagar, observando o lugar com mais atenção.

– Bonita. Tem um jardim na entrada, um parquinho lá no fundo e um prédio grande de dois andares. Parece... acolhedora.

Isso é bom.

– Também parece cheia de crianças muito barulhentas.

Minha mãe riu do outro lado da linha.

Acho que isso faz parte da descrição do trabalho.

Passei a mão pelo cabelo tentando parecer calma, mesmo que ninguém estivesse realmente me olhando.

– Mãe... e se eu não for boa nisso?

Renesmee.

A forma como ela disse meu nome me fez parar no meio da calçada.

Você estudou para isso. Se dedicou anos para esse momento. Você sempre teve paciência com crianças. Eu já vi isso muitas vezes.

Suspirei.

– Mesmo assim estou nervosa.

Ficar nervosa significa que você se importa.

Olhei novamente para o prédio da escola.

– Eu realmente quero que dê certo.

Vai dar.

O tom dela era tão firme que me fez sorrir.

Boa sorte, meu amor. Tenho certeza que seus alunos vão adorar você.

Balancei a cabeça, mesmo sabendo que ela não podia ver.

– Obrigada, mãe.

Depois me liga e conta como foi.

– Pode deixar.

Desliguei a chamada e fiquei alguns segundos olhando para o celular na minha mão. Depois o guardei na bolsa e caminhei até a entrada da escola.

Assim que atravessei o portão senti o cheiro leve de grama molhada misturado com tinta de quadro e papel novo. Algumas crianças brincavam perto do parquinho enquanto outras entravam correndo no prédio. Professores conversavam no corredor da entrada, segurando pilhas de cadernos e folhas.

Tudo parecia tão vivo.

Tão cheio de pequenas histórias acontecendo ao mesmo tempo.

Passei pela recepção e uma secretária simpática me indicou o caminho da sala da diretora. Meus passos ecoavam levemente pelo corredor comprido, decorado com desenhos coloridos colados nas paredes. Casas tortas, árvores gigantes, famílias de palitinhos sorridentes. Cada papel parecia carregar o orgulho de alguma criança.

Parei diante da porta de madeira clara.

"Diretoria"

Bati duas vezes.

– Pode entrar – disse uma voz feminina lá dentro.

Abri a porta devagar.

A sala era organizada e iluminada por uma janela grande atrás da mesa. A diretora parecia ter por volta de cinquenta anos, cabelos curtos e um olhar atento por trás dos óculos.

– Você deve ser Renesmee Cullen.

– Sou eu mesma.

Ela se levantou e estendeu a mão.

– Sou Margaret Lewis, diretora da escola. Seja bem vinda.

Apertei sua mão, tentando esconder o nervosismo.

– Obrigada. Estou muito feliz de estar aqui.

Ela sorriu de forma gentil e apontou para a cadeira em frente à mesa.

– Pode se sentar.

Obedeci, ajeitando a bolsa no colo.

A diretora abriu uma pasta com alguns papéis e me observou por alguns segundos.

– Li seu currículo com atenção. Você teve ótimas recomendações na universidade.

– Espero conseguir corresponder às expectativas.

Ela deu um pequeno sorriso.

– Tenho certeza que vai.

Fechou a pasta devagar.

– Você ficará responsável pela turma do terceiro ano.

Assenti.

– Sim, eu vi na escala.

A diretora inclinou levemente a cabeça, como se estivesse pensando na melhor forma de dizer o que viria a seguir.

– Preciso ser honesta com você, Renesmee.

Senti meu estômago apertar um pouco.

– Claro.

Ela cruzou as mãos sobre a mesa.

– A turma do terceiro ano é… um pouco difícil.

Pisquei, surpresa.

– Difícil?

– São crianças inteligentes, curiosas e cheias de energia. Mas também são muito questionadoras. Algumas já fizeram professores bem experientes perderem a paciência.

Tentei não parecer preocupada.

– Entendo.

Ela me observou com atenção.

– Não estou dizendo isso para assustar você. Apenas para que esteja preparada.

Respirei fundo.

– Eu gosto de desafios.

A diretora sorriu novamente.

– Fico feliz em ouvir isso.

Ela se levantou da cadeira.

– Venha. Vou mostrar sua sala.

Levantei também.


Seguimos pelo corredor lado a lado. A diretora caminhava com passos firmes enquanto eu tentava acompanhar sem parecer tão nervosa quanto realmente estava. As paredes continuavam cheias de desenhos coloridos, trabalhos escolares e cartazes com regras de convivência. Em alguns deles estava escrito “Respeite os colegas” e “Seja gentil”.

Aquilo me fez sorrir por um segundo.

Era estranho pensar que em poucos minutos eu estaria responsável por uma sala cheia de crianças. Trinta pequenos mundos diferentes, cada um com suas histórias, medos, curiosidades e sonhos.

A diretora parou diante de uma porta branca com uma placa simples.

3º Ano

Ela colocou a mão na maçaneta e me lançou um olhar rápido.

– Está pronta?

Respirei fundo e sorri.

– Acho que sim.

Ela abriu a porta.

No segundo seguinte tudo aconteceu tão rápido que meu cérebro demorou alguns instantes para entender.

Um balde de plástico que estava equilibrado acima da porta virou.

E despejou um banho completo de água fria sobre nós duas.

A água caiu direto na minha cabeça, escorrendo pelo meu cabelo, rosto, blusa e sapatos. Eu fiquei completamente encharcada em menos de dois segundos.

Por um momento o silêncio tomou conta da sala.

Então veio a explosão.

As crianças começaram a rir.

Risos altos, alguns quase sem conseguir respirar. Um menino chegou a bater na mesa enquanto ria. Outro apontava para nós como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.

Eu ainda estava parada na porta tentando entender o que tinha acontecido. A água escorria pela ponta do meu cabelo e pingava no chão.

Lentamente virei o rosto para a diretora.

Ela também estava completamente molhada.

Os óculos estavam cobertos de gotinhas e o cabelo agora parecia mais escuro por causa da água. Por alguns segundos ela ficou imóvel, como se estivesse tentando processar a situação.

Então tirou os óculos devagar.

A sala ficou um pouco mais silenciosa.

A diretora respirou fundo.

– Quem… – ela começou, com uma calma que parecia perigosa – foi o responsável por isso?

Algumas crianças ainda riam baixinho. Outras tentavam fingir que estavam muito concentradas nos próprios cadernos.

Cruzei os braços sem saber muito bem o que fazer. Parte de mim queria rir da situação absurda. A outra parte estava em completo choque.

A diretora deu um passo para dentro da sala.

– Eu perguntei quem foi.

A diretora não estava exagerando.

Essa turma realmente parecia… difícil.

E meu primeiro dia de trabalho tinha acabado de começar com um balde de água na cabeça. 💧📚