Uma lição de amor
33 Palavrinhas mágicas
Notas iniciais
Narrado por Renesmee
O sinal do fim da aula ecoou pela sala, trazendo aquele movimento habitual de cadeiras sendo arrastadas, mochilas sendo fechadas às pressas e vozes infantis se despedindo com energia. Eu sorri, respondendo aos “até amanhã” e aos abraços rápidos que algumas crianças ainda insistiam em me dar antes de sair correndo pelo corredor.
A sala foi esvaziando aos poucos.
Até restar apenas Ayla.
Ela permanecia sentada em sua cadeira, com as mãos apoiadas sobre a mesa, o olhar baixo, completamente diferente da menina animada de sempre. Aquilo foi suficiente para que eu percebesse que algo não estava bem.
Caminhei até ela com calma e me sentei na cadeira à sua frente, apoiando os braços sobre a mesa.
– Se não se apressar, irá perder o ônibus- Falei em um tom carinhoso.
Ayla levantou o olhar devagar.
– Eu sei… Respondeu, em um tom mais baixo. – Só que eu estou triste.
Senti um aperto no peito.– Por quê?
Perguntei, já imaginando a resposta.
Ela fez um pequeno bico.
– Porque você vai embora.
Respirei fundo, me aproximando um pouco mais.
– Ayla…
Falei com carinho.
– Não é um “ir embora” como você está pensando. É uma viagem para estudar.
Expliquei com calma, escolhendo bem as palavras – Eu ainda voltarei para Seattle sempre que puder. E, mesmo quando eu estiver longe, nós podemos conversar todos os dias, por chamada de vídeo.
Toquei de leve a mão dela.– Eu não vou desaparecer da sua vida.
Ayla pareceu refletir por um instante. O semblante dela suavizou um pouco, e um sorriso pequeno surgiu.
– Mesmo?
– Mesmo.
Confirmei, com firmeza.
Ela então ergueu um dedo, como se fosse fazer uma exigência importante.
– Promete que não vai esquecer de mim?
Aquilo me desmontou de um jeito silencioso.
Sorri, levando a mão até o rosto dela.
– Eu nunca esqueceria você.- Respondi sorrindo.
Ayla levantou-se da cadeira e me abraçou com força, envolvendo meu pescoço. Eu retribuí o gesto, fechando os olhos por um instante, sentindo aquele abraço pequeno e ao mesmo tempo tão cheio de significado.
Mas, então, ela se afastou só o suficiente para me olhar.
– Eu queria que você casasse com o meu pai.
Disse Ayla, com a naturalidade de quem vê o mundo de uma forma simples.
Fiquei surpresa, sem reação imediata, e um sorriso acabou escapando, mais pela forma espontânea dela do que pela frase em si.
– O mundo dos adultos é um pouco mais complicado do que isso.
Respondi, tentando manter o tom brincalhão.
Ayla inclinou a cabeça, me observando com curiosidade.
– Você não gosta do meu pai?
Senti o rosto esquentar levemente, e por um segundo eu não soube como responder.
– Por que está me perguntando isso?
Respondi tentando ganhar tempo.
Ela deu de ombros.
– Porque ele gosta de você.
Meu coração deu um salto ao ouvir a confissão dela.
– Como você sabe disso?
Perguntei, tentando me recuperar.
Ayla me olhou como se fosse óbvio.
– Ontem ele estava olhando uma foto sua no celular eficou assim…
Ela fez uma expressão pensativa, tentando imitar o pai – Meio sorrindo sozinho.
Nao segurei o riso, apesar de por dentro estar totalmente mexida com aquela conversa.
Percebi que, de repente, tudo o que eu tinha tentado organizar dentro de mim… voltou a se embaralhar outra vez.
Eu me levantei com Ayla e a acompanhei até o corredor, caminhando ao lado dela em silêncio. A conversa ainda ecoava na minha mente, cada palavra dela se repetindo com um peso que eu não consegui ignorar. Ainda assim, mantive a expressão tranquila, porque ela não precisava carregar aquilo comigo.
Saímos da escola juntas e seguimos até o ponto onde o ônibus já aguardava. As outras crianças subiam apressadas, mas Ayla ficou ao meu lado por mais alguns segundos, como se quisesse prolongar aquele momento.
Ajoelhei levemente diante dela, ajeitando a mochila em seus ombros e afastando uma mecha de cabelo de seu rosto.
– Comporte-se.
Falei com um pequeno sorriso.
Ela sorriu de volta, mas havia algo mais suave no olhar dela agora.
– Eu vou me comportar.
Inclinei-me um pouco mais e beijei os cabelos dela com carinho, demorando um segundo a mais do que o necessário.
– Nos vemos amanhã.
Completei.
Ayla me abraçou rápido, como sempre fazia antes de entrar.
– Eu te amo.
Meu coração apertou de um jeito silencioso ao ouvir aquelas palavras.
– Eu também te amo.
Respondi, com a voz mais baixa.
Ela então se afastou e subiu os degraus do ônibus, ainda olhando para trás antes de se sentar. Escolheu um lugar perto da janela e, assim que me encontrou do lado de fora, abriu um sorriso e começou a acenar com entusiasmo.
Eu acenei de volta.
O motorista fechou a porta, e o ônibus começou a se mover lentamente. Fiquei ali, parada, observando enquanto ele se afastava, levando com ele uma parte de algo que eu ainda não sabia nomear.
Só quando o ônibus dobrou a esquina e desapareceu completamente é que soltei o ar que nem percebia que estava prendendo.
A declaração dela ainda ecoava.
Simples.
Sincera.
Difícil de ignorar.
Levei a mão até a bolsa e peguei o celular quase no automático. A tela acendeu, revelando uma mensagem da minha mãe.
“Estou à sua espera para o almoço.”
Fiquei olhando para as palavras por alguns segundos, como se precisasse me reconectar com a realidade.
Guardei o celular novamente e me virei, dando alguns passos de volta, tentando organizar os pensamentos… mesmo sabendo que, naquele momento, nada dentro de mim estava realmente em ordem.
Dirigir por Seattle naquele horário exigia atenção, mas minha mente insistia em ir para outro lugar. Os carros avançavam devagar, o sinal fechava, abria, pessoas atravessavam as ruas… e eu só conseguia pensar em tudo o que tinha acontecido nos últimos dias. Em cada escolha. Em cada palavra dita.
Em cada silêncio.
Segurei o volante com mais força do que o necessário e, sem perceber, senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto. Pisquei algumas vezes, tentando afastar aquilo, mas outra veio logo em seguida.
– Por que tudo parece errado?
Murmurei para mim mesma, quase sem voz.
Era como se, não importasse o caminho que eu escolhesse, algo sempre ficasse fora do lugar. Como se eu estivesse tentando acertar… e ainda assim falhando.
Respirei fundo, limpando o rosto com rapidez quando o carro parou em frente à casa dos meus pais. Fiquei alguns segundos ali, parada, apenas juntando forças para sair.
Não queria entrar daquele jeito.
Mas, ao mesmo tempo, era exatamente ali que eu precisava estar.
Desci do carro e caminhei até a porta, enxugando as últimas lágrimas com a ponta dos dedos antes de tocar a campainha. O som ecoou dentro da casa, e em poucos segundos a porta se abriu.
Assim que vi minha mãe, algo dentro de mim cedeu completamente.
Por um instante, eu não era mais a mulher que estava tentando tomar decisões difíceis… eu era só a menina de seis anos que corria para o colo dela quando o mundo parecia grande demais.
– Mãe… Minha voz falhou.
Ela não disse nada, apenas abriu mais a porta e me puxou para um abraço imediato, firme, acolhedor. Eu me agarrei a ela sem pensar, escondendo o rosto em seu ombro enquanto o choro que eu vinha segurando finalmente escapava.
– Está tudo bem…Ela disse, passando a mão pelos meus cabelos com carinho.– Eu estou aqui.
Balancei a cabeça, negando, mesmo sem me afastar.
– Não está…Sussurrei, com a voz embargada.– Por que está sendo tão difícil?
A pergunta saiu sem filtro, carregada de tudo o que eu não conseguia organizar sozinha.
Minha mãe não respondeu de imediato, apenas me abraçou mais forte, como se soubesse que, naquele momento, eu não precisava de respostas.
Só precisava de colo.
Narrado por Jacob
O barulho das ferramentas preenchia a oficina enquanto eu e Seth trabalhávamos lado a lado no carro. Ele estava mais falante do que o normal, provavelmente tentando me distrair, e eu até deixava, porque o silêncio ultimamente não era um bom lugar para ficar.
– Se continuar assim, você vai acabar desmontando o carro inteiro só para não pensar.
Seth comentou, sem tirar os olhos do motor.
Soltei um riso curto.
– Talvez seja essa a ideia.
Respondi, limpando as mãos em um pano antes de me inclinar outra vez sobre o capô.
– Você sabe que não adianta, não sabe?
Ele insistiu, agora me olhando de lado.
– Algumas coisas não se resolvem com chave de boca.
– Nem todas têm solução.
Retruquei, em tom mais baixo.
Seth ficou em silêncio por um segundo, como se estivesse avaliando se devia continuar ou não.
– Você gosta mesmo dela.
Parei por um instante, encarando o motor sem realmente ver.
– Isso não muda o que ela quer.- Respondi, voltando ao trabalho.
Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, ouvimos passos leves entrando na oficina. Virei o rosto e vi Ayla parada perto da porta.
Ela não estava como de costume. Não correu, não sorriu, não falou nada.Só ficou ali.
O semblante dela foi o suficiente para que eu largasse tudo na mesma hora.
– Ayla?
Chamei, já caminhando até ela e me abaixei diante dela, tentando encontrar seu olhar.
– O que aconteceu?
Ela não respondeu com palavras, só se jogou nos meus braços.
Segurei ela firme, trazendo para perto, sentindo o abraço apertado demais para ser apenas saudade.
– Ei… calma filha...
Falei baixo, passando a mão pelos cabelos dela.
– Pode me contar.
Ayla se afastou um pouco, mas manteve as mãos na minha camisa, como se tivesse medo de soltar.
– Não deixa a Nessie ir.
Disse, com a voz chorosa.
Aquilo me atingiu de um jeito que eu não esperava. Respirei fundo, mantendo o tom calmo. – Filha…
Comecei, com cuidado.
– Eu queria poder mudar isso.
Passei a mão pelo rosto dela, limpando uma lágrima que escorria.
– Mas, às vezes, existem coisas que não dependem de mim.
Ela balançou a cabeça, negando com insistência.
– Depende sim.
Respondeu com firmeza
– Você pode fazer ela ficar.
Franzi levemente a testa. – E como eu faria isso?
Perguntei, tentando entender o que passava na cabeça dela.
Ayla me olhou como se a resposta fosse óbvia.
– É só falar para ela as três palavrinhas mágicas.
Fiquei em silêncio por um segundo.
– Que palavrinhas?
Ela suspirou, como se eu estivesse demorando demais para entender.
– As que saem do coração.
Naquele momento eu percebi que, às vezes… as crianças enxergam exatamente aquilo que os adultos tentam evitar.
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