Uma lição de amor
32 La Push
Narrado por Jacob
A manhã em La Push tinha aquele ritmo tranquilo que eu conhecia desde sempre. O som do mar batendo nas pedras, o vento leve vindo da água, e a areia fria sob os pés criavam um cenário que, normalmente, acalmava qualquer coisa dentro de mim. Eu estava sentado na praia com Paul, Embry, Quil e Seth, todos espalhados pela areia, rindo e conversando como se o tempo não tivesse passado.
Era fácil voltar a ser aquele garoto quando estava com eles.
As histórias começaram a surgir naturalmente, uma puxando a outra. Embry lembrando de alguma confusão antiga, Quil exagerando nos detalhes como sempre, Paul provocando todo mundo… e Seth rindo de tudo, com aquela energia que parecia nunca acabar.
– Você lembra quando o Jacob achou que podia enfrentar dois caras sozinho?
Paul comentou, rindo.
Balancei a cabeça, soltando um riso curto.
– Eu tinha confiança.
– Você tinha era falta de juízo.
Embry completou, arrancando mais risadas.
Por alguns minutos, tudo ficou leve. Simples. Como se nada tivesse mudado.
Seth, como sempre, foi o primeiro a quebrar o momento com uma ideia impulsiva.
– Vamos pular do penhasco.
Disse, levantando de um salto, já animado.
– Agora?
Quil perguntou, rindo.
– Claro.
Seth abriu os braços.
– Qual é o problema?
Olhei para ele, já sabendo a resposta que eu ia dar.
– Eu passo.
Falei, tranquilo.
Eles olharam para mim quase ao mesmo tempo.
– Sério?
Paul arqueou a sobrancelha.
Dei de ombros, com um meio sorriso.
– Eu tenho uma filha para criar.
Houve um segundo de silêncio… e então todos começaram a rir.
– Olha só, o responsável.
Embry provocou.
– Finalmente cresceu.
Quil completou.
– Cresci o suficiente.
Respondi, sem me incomodar.
Seth balançou a cabeça, ainda rindo.
– Vocês são todos uns velhos.
Disse, já começando a se afastar.
– Vamos logo.
Paul, Embry e Quil acabaram indo junto, ainda discutindo entre si, empurrando um ao outro como se ainda tivessem quinze anos.
Fiquei ali, observando enquanto eles se afastavam em direção ao penhasco, as vozes diminuindo aos poucos com a distância.
Então voltei o olhar.
Ayla estava mais à frente, perto da água, brincando com Claire enquanto Rachel observava as duas. O riso dela chegou até mim com o vento, leve, despreocupado.
E, naquele instante, tudo desacelerou de novo.
Um sorriso surgiu sem esforço.
Porque, apesar de tudo… aquilo ainda era o que mais importava.
Eu ainda estava olhando para o mar quando senti um pequeno impacto contra minha perna. Baixei o olhar e vi Ayla ali, os braços encolhidos junto ao corpo, tremendo levemente, os cabelos molhados grudando no rosto.
– Ei, ei… vem cá.
Falei, já me abaixando para pegá-la. Ela veio sem resistência, se aconchegando no meu colo enquanto eu pegava o roupão que estava na sua mochila e envolvi o corpo dela com cuidado e, em seguida, puxei a toalha, esfregando de leve os braços dela para aquecer.
– Já vai ficar quentinho aí dentro- Disse, ajustando o tecido ao redor dela.
Ayla deu uma risadinha, ainda meio trêmula, mas já mais confortável.
– Tá gelado…
– Eu avisei.
Respondi, com um meio sorriso.
Claire se aproximou com Rachel logo depois, ainda com energia de sobra, como sempre.
– Tio Jay!
Ela me chamou sorrindo, apesar de agora ter 18 anos, Clairr não havia mudado a forma que me chamava quando tinha 5, ela olhou para Ayla e piscou para ela.
– A Ayla pode passar o resto do dia comigo e com o Quil? Nós vamos pra casa da Emily e do Sam.
Ayla se mexeu no meu colo na mesma hora, os olhos brilhando.
– Posso, papai? Por favor?
Juntou as mãozinhas, fazendo aquele gesto que ela sabia que me desmontava fácil.
Olhei para ela, tentando manter uma expressão séria – Hum… não sei…
Fingi pensar, olhando para o lado por um segundo – Acho que preciso analisar melhor essa situação.
Ayla fez um biquinho imediato, me olhando quase indignada.
– Papai…
Soltei uma risada baixa, sem conseguir sustentar muito tempo.
– Pode ir.
Ela praticamente pulou do meu colo.
– Eba!
A alegria dela era contagiante, ela desceu indo até Claire, mas parou quando ouviu os gritos ao longe. Virou o rosto na direção do penhasco, vendo Paul, Embry, Quil e Seth se preparando para pular.
Os olhos dela se arregalaram.
– Uau! Disse, empolgada – Quando eu crescer, eu vou pular do penhasco também!
Cruzei os braços, olhando para ela com uma sobrancelha arqueada.
– Quando você tiver uns setenta anos, nós conversamos sobre isso.
Ayla fez uma careta, claramente não satisfeita com a resposta.
Rachel, que estava ao nosso lado, riu enquanto usava a toalha para enxugar os cabelos da sobrinha.
– Seu pai está sendo generoso- Comentou de forma divertida.
Ayla apenas revirou os olhos, mas logo voltou a sorrir, puxando Claire pela mão, já animada com o resto do dia que ainda tinha pela frente.
E eu fiquei ali, observando, com um sentimento de tranquilidade.
Aproveitei o momento em que Ayla se afastou com Claire e Quil para caminhar sozinho. Me despedi de Rachel com um aceno breve e segui pela trilha que levava ao cemitério, sentindo o peso de uma decisão que eu vinha adiando há anos. O som do mar ficou mais distante a cada passo, dando lugar a um silêncio diferente, mais denso.
O caminho era conhecido, mas parecia outro, eu nunca tinha vindo. Em sete anos… nunca tive coragem.
Meus passos diminuíram conforme as lápides começaram a surgir entre as árvores. Havia algo naquele lugar que exigia respeito, presença. Não dava para passar por ali distraído. Eu caminhava olhando os nomes, as datas, histórias interrompidas que não eram as minhas… até que encontrei.
Leah.
Parei diante do túmulo, sentindo o ar pesar no peito. Por um instante, não consegui me mover. Apenas fiquei ali, olhando para o nome dela, como se ainda estivesse tentando aceitar que aquilo era real, mesmo depois de tanto tempo.
Respirei fundo e me abaixei devagar, apoiando os braços sobre as pernas.
– Oi, Leah…
Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
Passei a mão pelo rosto antes de continuar, tentando organizar o que dizer depois de tantos anos de silêncio.
– Demorei para vir- Confessei, com um pequeno aceno de cabeça. – Mais do que devia.
O vento passou leve entre as árvores, e eu fiquei alguns segundos em silêncio, apenas encarando o nome dela.
– A Ayla está bem- Falei sentindo um leve aperto no peito ao mencionar nossa filha– Está grande… inteligente… teimosa- Um sorriso pequeno surgiu, involuntário – Tem muito de você.
Olhei para o chão por um instante antes de voltar a encarar a lápide.
– Não foi fácil, criar ela sozinho… aprender tudo na marra… errar, tentar de novo -Soltei um suspiro mais pesado.
– Você faz falta.
As palavras saíram simples, mas carregadas.
– Em muitos momentos, eu só queria… saber o que você faria, mas ela está bem.
Repeti, como se aquilo também fosse um jeito de me convencer.
Houve um silêncio mais longo dessa vez. Eu sabia que não tinha vindo ali só para falar da Ayla.
Respirei fundo outra vez.
– Eu… segui em frente.
Disse, com mais dificuldade.
– Ou pelo menos… estou tentando.
Passei a mão pela nuca, olhando para o lado por um segundo antes de voltar – Levei sete anos para me permitir isso, sempre achei que não tinha esse direito, porque me sentia como se estivesse te deixando para trás.
Fiquei em silêncio depois disso, deixando o peso daquilo existir sem tentar esconder.
– Mas eu não estou, eu só… estou tentando viver de novo.
O nome da Renesmee passou pela minha mente, mas eu não disse em voz alta. Ainda assim, estava ali, presente em tudo o que eu sentia.
Abaixei o olhar, pegando uma rosa que tinha pego no caminho e a coloquei com cuidado sobre o túmulo.
– Eu vou cuidar dela.
Completei, referindo-me à Ayla.
– Como sempre fiz.
Me levantei devagar, sentindo um tipo de cansaço diferente, mas também uma leveza que eu não esperava encontrar ali.
Fiquei mais um segundo olhando para o nome de Leah, em silêncio.
E então virei as costas, naquele momento eu estava pronto para seguir sem sombras do passado.
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