O caminho da escola até em casa foi mais silencioso do que de costume. Ayla ainda falou bastante nos primeiros minutos, contando pedaços desconexos do que tinha acontecido na sala, de como algumas crianças riram, de como Caroline quase contou tudo antes dela mesma confessar. Eu apenas escutava enquanto dirigia, respondendo com pequenos comentários aqui e ali, tentando organizar na cabeça a conversa que ainda precisava ter com minha filha.

Quando estacionamos na frente de casa, o sol já começava a descer devagar atrás das árvores. Era uma daquelas tardes tranquilas, com o ar fresco vindo da floresta e o som distante das ondas batendo lá longe na costa de Seattle. Um dia comum demais para terminar com aquela sensação pesada no peito.

Desliguei o carro e nós dois saímos.

Ayla caminhou até a porta da casa e entrou primeiro, largando os tênis no canto da entrada como sempre fazia. Eu entrei logo atrás, tirando a jaqueta enquanto observava a menina atravessar a sala com a mochila ainda nas costas.

– Pai, eu vou pro meu quarto.

Ela já estava quase no corredor quando falei.

– Ayla.

Ela parou no mesmo instante.

– Vem aqui.

A menina virou devagar e me olhou, já imaginando que a conversa ainda não tinha acabado.

– Senta no sofá.

Ela suspirou pequeno, tirou a mochila dos ombros e a deixou cair no chão perto da mesa. Depois caminhou até o sofá e se sentou, com as mãos juntas no colo e os pés balançando levemente sem tocar o chão.

Fiquei de pé por alguns segundos observando aquela cena antes de me aproximar.

Sentei na mesa de centro, bem na frente dela, ficando na altura do olhar da minha filha. Apoiei os antebraços nas pernas e respirei fundo antes de começar a falar.

– Ayla… você sabe que o que fez foi grave.

Ela assentiu imediatamente.

– Eu sei.

A resposta veio rápida, mas sem desafio.

– Sei mesmo.

– Então me explica uma coisa.

Inclinei um pouco o corpo para frente.

– Você acha que o que aconteceu hoje foi suficiente?

Ela franziu um pouco a testa.

– Como assim?

– A suspensão.

Ela deu de ombros.

– Eu já fui punida.

Fiquei alguns segundos olhando para ela.

– Você acha que isso resolve tudo?

A menina pensou por um momento antes de perguntar algo que fez meu peito apertar um pouco.

– Você está chateado comigo?

Passei a mão pelo queixo antes de responder.

– Estou.

A palavra saiu calma, mas firme.

Ayla abaixou os olhos.

Respirei fundo outra vez.

– E por isso… nós não vamos para o aniversário em La Push.

Ela levantou o rosto na mesma hora.

– O quê?

A surpresa foi tão grande que ela até se levantou do sofá.

– Pai, não! Os olhos dela já estavam brilhando. – Eu quero ver o vô Billy… e a vovó Sue… e o vô Harry também!

Ela falava rápido agora, como se cada nome pudesse fazer minha decisão mudar.

Mas balancei a cabeça devagar – Não dessa vez.

– Pai, por favor…

– Esse vai ser o castigo.

As palavras pesaram no ar da sala e a reação dela veio alguns segundos depois.

O rosto da minha filha se contorceu e os olhos encheram de lágrimas antes mesmo que ela conseguisse dizer qualquer coisa.

Então ela começou a chorar.

Não era um choro escandaloso. Era aquele choro de criança que tenta segurar, mas não consegue.

Meu coração apertou na mesma hora, levantei da mesa e me ajoelhei diante dela, colocando as mãos nos ombros pequenos da minha filha.

– Ei…

Ela não conseguia parar de chorar.

– Eu sei que você queria ir.

– Eu queria ver o vô…

A voz dela saiu quebrada.

– Eu sei.

Passei a mão no cabelo dela, tentando acalmar.

– Mas você precisa entender uma coisa, Ayla.

Esperei até ela levantar um pouco o olhar para mim.

– Dessa vez precisa ter uma punição de verdade- Engoli seco antes de completar – Mesmo que eu odeie fazer isso.

Ela fungou, limpando o rosto com a manga da blusa – Eu entendo.

A frase saiu pequena, mas sincera. Ficamos em silêncio por um momento e então ela perguntou baixinho:

– Posso ir pro meu quarto?

Assenti.

– Pode.

Ayla pegou a mochila no chão e caminhou lentamente pelo corredor até desaparecer atrás da porta do quarto. Alguns segundos depois ouvi o barulho suave da porta fechando.

Fiquei sozinho na sala.

Passei a mão pelo rosto devagar e soltei um suspiro longo, sentindo o peso daquela decisão ainda apertando o peito.

Ser pai às vezes significava exatamente isso.

Fazer algo que doía em mim tanto quanto nela.


Narrado por Renesmee


O trânsito no centro de Seattle estava como sempre no fim da tarde. Carros parados em cada semáforo, buzinas ocasionais e gente caminhando apressada pelas calçadas como se cada minuto fosse importante demais para ser desperdiçado. Eu já estava acostumada com aquele ritmo desde que tinha me mudado para lá, mas em alguns dias ainda sentia falta do silêncio das cidades menores.

Estacionei o carro no pequeno estacionamento do prédio onde eu morava e peguei minha bolsa no banco do passageiro. O prédio não era grande, mas era confortável o suficiente para alguém que passava a maior parte do dia fora trabalhando.

Assim que entrei no hall encontrei o senhor Martinez, meu vizinho do apartamento ao lado, parado perto das caixas de correio com um saco de compras na mão.

– Boa tarde, senhorita Cullen.

Sorri.

– Boa tarde, senhor Martinez. Como vai?

Ele levantou levemente o saco de compras.

– Sobrevivendo ao mercado de sexta-feira.

Ri baixo.

– Isso já é uma vitória.

Ele assentiu, satisfeito com a própria piada, e seguiu pelo corredor enquanto eu subia as escadas até o segundo andar.

Abri a porta do meu apartamento e entrei, fechando atrás de mim com um suspiro leve. O lugar era pequeno, mas tinha exatamente o que eu precisava. Uma sala simples com um sofá claro, uma pequena estante cheia de livros e uma janela grande que deixava a luz do fim da tarde entrar.

Deixei a bolsa na mesa, tirei os sapatos e me joguei no sofá como se meu corpo tivesse esperado o dia inteiro por aquele momento.

Peguei o celular por reflexo.

Havia uma mensagem.

Da minha mãe.

"Me liga. Tô com saudade."

Um sorriso apareceu no meu rosto sem que eu percebesse.

Balancei a cabeça.

Peguei o celular e apertei o botão de ligação enquanto me ajeitava melhor no sofá, jogando uma almofada atrás da cabeça.

Ela atendeu rápido demais.

– Alô?

– O que está acontecendo?

Minha voz saiu divertida.

– Você manda mensagem dizendo que está com saudade como se fosse uma emergência.

Do outro lado da linha ouvi a risada dela.

– Eu não posso sentir saudade da minha filha mais linda?

Revirei os olhos, ainda sorrindo.

– Cuidado com esse tipo de comentário. A Elizabeth vai ficar com ciúmes.

Bella riu mais uma vez.

– Falando na sua irmã…

Suspirei mentalmente.

Aquilo nunca vinha sozinho.

– Seu pai e eu queríamos saber uma coisa.

– Hum.

– Você vem para a festa no fim de semana?

Por um segundo fiquei em silêncio.

O sorriso que ainda estava no meu rosto simplesmente desapareceu.

A festa.

O aniversário do meu pai e eu tinha prometido ir mesmo sabendo exatamente quem estaria lá.

Mesmo sabendo que provavelmente teria que passar a noite inteira fingindo que estava tudo bem em ver Alec e minha irmã mais velha falando sobre seu futuro casamento.

Respirei fundo antes de responder – Eu… não sei.

Do outro lado da linha, minha mãe ficou em silêncio por um momento.

Quando falou novamente, a voz dela estava mais suave.

– Eu entendo.

Passei a mão pela testa enquanto olhava para o teto do meu apartamento.

– Só que o seu pai queria a família reunida.

Aquilo apertou algo dentro de mim.

Edward sempre foi assim. Ele nunca dizia diretamente que queria algo, mas todo mundo sabia quando era importante para ele.

Suspirei – Eu vou pensar.

Do outro lado da linha, Bella respondeu com um tom calmo.

– Está bem.

E mesmo sem vê-la, eu sabia que naquele momento ela estava torcendo silenciosamente para que eu dissesse sim.