Narrado por Renesmee


Eu estava na sala dos professores, senti que o nervosismo do dia anterior havia voltado. Não era mais aquele frio na barriga do primeiro dia. Era outra coisa. Uma mistura de expectativa com curiosidade.

A diretora havia ido resolver algumas coisas na secretaria, então eu caminhava sozinha até a sala do terceiro ano.

Enquanto andava pelo corredor, podia ouvir o barulho vindo de dentro da sala. Risadas, cadeiras arrastando, alguma coisa caindo no chão. Parecia mais o recreio do que o início de uma aula.

Respirei fundo.

Então abri a porta.

O cenário era exatamente o que eu imaginava.

Algumas crianças estavam em pé nas cadeiras. Dois meninos jogavam bolinhas de papel um no outro como se fosse um campeonato. Uma menina batia lápis na mesa criando um ritmo estranho enquanto outros riam.

E ninguém parecia notar que eu tinha entrado.

Fechei a porta atrás de mim e caminhei até a frente da sala.

– Bom dia, turma.

Nada mudou.

Um aviãozinho de papel passou voando bem na minha frente.

Cruzei os braços.

– Eu disse bom dia.

Algumas crianças começaram a perceber minha presença. Uma ou duas sentaram nas cadeiras. Outras ainda estavam ocupadas demais rindo.

Peguei um livro que estava sobre a mesa do professor e bati levemente na superfície.

O som seco ecoou pela sala.

– Muito bem – falei com calma – vamos começar de novo.

Agora quase todos estavam olhando.

– Bom dia, turma.

Algumas vozes responderam, meio desorganizadas.

– Bom dia…

Era um começo.

Caminhei até a mesa do professor, mas quando puxei a cadeira para sentar, uma voz pequena veio da primeira fileira.

– Espera!

Parei.

Uma menina de cabelos castanhos claros se levantou rapidamente da cadeira. Ela parecia decidida, mas não estava rindo como os outros.

– Não senta aí.

Levantei uma sobrancelha.

– E por quê?

Ela apontou discretamente para a cadeira.

– Porque colocaram alguma coisa aí.

A sala inteira ficou em silêncio.

Observei a menina por um segundo.

– Qual é o seu nome?

– Caroline.

– Obrigada, Caroline.

Inclinei um pouco a cadeira e olhei a superfície do assento. Alguém tinha colocado uma mistura estranha de cola e papel picado bem no centro.

Uma armadilha simples, mas eficaz.

Endireitei a cadeira novamente e voltei a olhar para a turma.

– Então… – falei com calma – vocês gostam de pregar peças nas pessoas?

O silêncio ficou ainda mais pesado.

Algumas crianças abaixaram o olhar. Outras pareciam tensas. Um menino no fundo da sala tentou esconder um sorriso, mas parou quando percebeu que eu estava olhando.

Apoiei as mãos na mesa.

– Eu imagino que a maioria de vocês ainda esteja rindo da cena do balde de água de ontem.

Nenhuma resposta.

– A diretora já está cuidando disso.

Algumas cabeças se levantaram e eu continuei com a voz tranquila.

– Ela está notificando todos os pais para conversar sobre a armadilha.

Ouvi alguns murmúrios.

– E se o responsável ou responsávels não aparecerem… – fiz uma pequena pausa – todos da turma serão suspensos.

Dessa vez a reação foi imediata.

– O quê?

– Mas eu não fiz nada!

– Meu pai vai brigar comigo!

Alguns começaram a falar ao mesmo tempo. Uma menina colocou a mão na boca, claramente preocupada. Um menino parecia quase entrar em pânico.

Levantei a mão.

– Silêncio.

Demorou alguns segundos, mas a sala voltou a ficar quieta.

Foi então que Caroline levantou a mão devagar.

Olhei para ela.

– Sim, Caroline. Você quer falar alguma coisa?

Ela olhou rapidamente para os colegas ao redor, depois voltou o olhar para mim.

– Eu sei quem fez a armadilha.

A sala inteira prendeu a respiração.

Cruzei os braços.

– Tudo bem.


O silêncio que tomou conta da sala depois que Caroline disse que sabia quem tinha armado a armadilha foi pesado, daqueles que fazem até o ar parecer mais denso. Eu podia sentir a tensão entre as crianças. Alguns olhavam para ela, outros para mim, e alguns simplesmente evitavam olhar para qualquer lugar que denunciasse o que estavam pensando. Era curioso como, mesmo sendo tão jovens, já entendiam perfeitamente o peso de certas situações.

Caroline respirou fundo, claramente reunindo coragem para continuar.

Mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, uma voz irritada surgiu do outro lado da sala.

– Dedo duro.

A palavra saiu seca, virei o rosto imediatamente na direção da voz. Uma menina estava sentada duas fileiras atrás de Caroline, com os braços cruzados e uma expressão de desafio no rosto. Não parecia nervosa como os outros. Na verdade, parecia incomodada por Caroline ter falado.

Observei ela por alguns segundos antes de responder.

– Qual é o seu nome?

A menina ergueu o queixo levemente, como se não tivesse problema nenhum em responder.

– Ayla- Respondeu fazendo uma pequena pausa e continuou – Ayla Black.

Algo na forma como ela disse o próprio nome chamou minha atenção. Não era arrogância exatamente. Era mais… confiança. Aquela confiança típica de criança que sabe que tem algum tipo de liderança entre os colegas.

Olhei ao redor da sala discretamente e percebi outra coisa. Muitos alunos estavam olhando para ela. Alguns com expectativa. Outros com uma espécie de cautela.

Aquilo me disse muito mais do que qualquer palavra.

Voltei minha atenção para Ayla e caminhei alguns passos na direção da mesa dela, mantendo a voz calma.

– Ayla, aqui na sala de aula nós não usamos palavras como essa para falar dos colegas.

Ela me encarou.

– Ela estava contando.

– Talvez – respondi – mas levantar a mão para falar também exige coragem.

Ayla deu de ombros.

– Ou vontade de se meter.

Algumas crianças riram baixinho e eu apoiei uma mão na mesa próxima dela e me inclinei um pouco, diminuindo a distância entre nós duas sem parecer que estava brigando. – Você parece uma menina muito esperta, Ayla.

Ela não respondeu, mas o olhar atento continuava em mim– Então me diz uma coisa – continuei com calma – você acha que foi justo o que aconteceu ontem de manhã?

Por um segundo ela pareceu refletir.

– Foi engraçado- Respondeu sorrindo.

Alguns alunos soltaram pequenas risadas. Balancei a cabeça devagar.

– Talvez tenha sido para vocês. Mas para quem estava do outro lado da porta… foi diferente.

Ayla olhou para o chão por um segundo, mas logo voltou a me encarar.

Cruzei os braços, mantendo o tom calmo.

– Você sabe quem colocou o balde?

Ela hesitou. Foi um gesto pequeno, mas eu perceptível – Não – respondeu Ayla.

Fiquei em silêncio por alguns segundos muitas vezes o silêncio faz as pessoas falarem mais do que perguntas.

A sala inteira parecia observar nossa conversa.

– Engraçado – eu disse a confrontando novamente.

Ayla franziu a testa.

– O quê?

– Porque quando Caroline disse que sabia quem tinha feito a armadilha… você foi a primeira pessoa a interromper.

Algumas cabeças se viraram discretamente para ela e Ayla mudou de posição na cadeira.

– Eu só estava falando...

– Claro- Dei um pequeno sorriso. – Mas sabe o que eu percebi quando entrei nessa sala?

Ela me olhou com desconfiança.

– O quê?

– Todo mundo presta atenção em você.

Notei que várias crianças olhavam para a mesa dela sem disfarçar.

Ayla pareceu perceber isso também.

– E daí?

– Daí que quando alguém tem tanta atenção assim… geralmente é porque essa pessoa costuma liderar as ideias.

Ela abriu a boca para responder, mas ficou em silêncio. Apoiei as mãos na mesa e novamente a confrontei.

– Então vou perguntar de novo, Ayla- Minha voz continuava calma, quase suave.

– Você sabe quem colocou o balde?

Ela respirou fundo.

Por um instante pensei que ela iria negar outra vez. Mas algo mudou na expressão dela.

Os ombros relaxaram um pouco e os olhos perderam aquela postura desafiadora.

– Fui eu.

A resposta saiu baixa, mas clara o suficiente para que todos ouvissem.

Algumas crianças soltaram pequenos suspiros. Outras apenas se olharam.

Eu continuei olhando para ela, sem levantar a voz.

– Você fez isso sozinha?

Ayla mexeu na ponta do lenço amarrado na cabeça antes de responder.

– Não.

Ela olhou rapidamente para os colegas ao redor.

– Mas a ideia foi minha.

A sala ficou em silêncio novamente e Ayla não parecia a líder segura que tinha enfrentado Caroline alguns minutos antes. Agora ela parecia apenas uma menina esperando para descobrir qual seria a próxima consequência.


Narrado por Jacob


A manhã na oficina tinha começado como quase todas as outras. Cheiro de óleo, ferramentas espalhadas pela bancada e o som constante de metal sendo ajustado, apertado ou solto em algum lugar do galpão. Era um tipo de barulho que muita gente achava caótico, mas para mim sempre pareceu organizado. Cada ruído tinha um motivo.

Eu estava inclinado sobre o motor de uma caminhonete antiga quando Seth apareceu do outro lado do capô segurando duas peças nas mãos.

– Eu trouxe as duas opções – ele disse, levantando as peças para eu ver. – A original e a paralela.

Limpei as mãos em um pano e peguei uma delas para examinar.

– Essa aqui não presta.

– Nem olhou direito.

– Não preciso.

Virei a peça entre os dedos antes de colocar de volta na mão dele.

– O metal é mais leve. Vai durar metade do tempo.

Seth suspirou.

– Você sempre tem que escolher a mais cara.

– Eu sempre escolho a que não vai fazer o cliente voltar reclamando.

Ele fez uma careta.

– Você tira toda a diversão de ser mecânico.

– Desde quando mecânico se diverte refazendo serviço mal feito?

Seth encostou na bancada ao meu lado enquanto eu pegava uma chave e voltava a mexer no motor.

– Sabe o que eu acho?

– Não.

– Acho que você nasceu velho.

Soltei um pequeno riso pelo nariz.

– Muito engraçado.

Ele continuou falando enquanto girava uma chave de fenda entre os dedos.

– Cara, você podia relaxar um pouco. Nem tudo precisa ser tão sério.

– Isso vindo do cara que quase montou um motor ao contrário semana passada.

– Foi uma vez.

– Foi duas.

Seth abriu a boca para retrucar, mas nesse momento meu celular começou a tocar em cima da mesa próxima.

O som cortou a conversa no meio.

Estiquei o braço e peguei o aparelho ainda meio distraído, mas assim que vi o nome no visor senti algo apertar no meu estômago.

Escola Primária de Seattle.

Por um segundo fiquei apenas olhando para a tela. Seth percebeu minha expressão.

– O que foi?

Não respondi. Apenas atendi a ligação. A voz de uma mulher respondeu do outro lado da linha.

– Senhor Jacob Black?

– Sim, sou eu.

– Aqui é Margaret Lewis, diretora da Escola Primária de Seattle.

Endireitei a postura imediatamente. – Aconteceu alguma coisa?

Houve uma pequena pausa.

– Eu preciso que o senhor venha até a escola.

Meu estômago apertou mais.– Ayla está bem?

A pergunta saiu mais rápido do que eu pretendia.

– Sim, ela está bem – respondeu a diretora, com um tom calmo. – Não houve nenhum acidente ou nada do tipo.

Soltei o ar que nem percebi que estava segurando.– Então o que aconteceu?

– Prefiro conversar pessoalmente com o senhor sobre isso.

Passei a mão pela nuca enquanto olhava para o chão da oficina.

Isso nunca era um bom sinal.

– Eu chego em trinta minutos.

– Estaremos aguardando.

Desliguei a chamada e fiquei alguns segundos parado olhando para o celular antes de colocá-lo de volta na mesa.

Seth já estava me encarando com a testa franzida.

– Está tudo bem?

Peguei as chaves do carro que estavam penduradas em um gancho na parede.

– Não sei ainda. — Abri o armário pequeno perto da porta e puxei minha jaqueta.

– A diretora da escola ligou.

Seth levantou as sobrancelhas.

– Ayla aprontou alguma coisa?

– Parece que sim- Vesti a jaqueta enquanto caminhava em direção à saída. – Ela disse que Ayla está bem, mas quer falar comigo pessoalmente.

Seth soltou um pequeno assobio.

– Isso nunca significa coisa boa.

– Esse é o problema.- Respondi abrindo a porta da oficina e parei por um segundo antes de sair.– Segura as pontas aqui até eu voltar.

Ele levantou as mãos.

– Pode deixar.

Já estava descendo os degraus quando ouvi ele falar atrás de mim.

– Ei, Jake.

Olhei por cima do ombro.

Seth estava sorrindo de lado.

– Aposto cinco dólares que ela colocou fogo em alguma coisa.

Revirei os olhos.

– Muito engraçado.

Entrei no carro, liguei o motor e saí da frente da oficina.

No fundo da minha cabeça, uma sensação familiar já estava começando a crescer. Quando a escola liga no meio do dia… quase nunca é por um bom motivo.