Uma lição de amor
2 As coisas nunca são calmas
Narrado por Jacob
Ser pai solteiro não era algo que eu tinha planejado.
Na verdade, poucas coisas na minha vida seguiram exatamente como eu tinha imaginado. Mas havia uma verdade simples que eu aprendi bem cedo depois que Ayla nasceu.
Quando você se torna pai, o resto do mundo deixa de ser o centro das coisas.
Ayla virou o centro.
Minha rotina girava em torno dela. Horário da escola, café da manhã, tarefas, histórias antes de dormir e discussões sérias sobre por que sorvete não pode ser considerado jantar.
E no meio de tudo isso existia a oficina.
Minha oficina ficava em uma rua movimentada de Seattle. Nada muito elegante, nada sofisticado. Um galpão grande com cheiro de óleo, ferramentas espalhadas e carros entrando e saindo o dia inteiro.
Era meu lugar.
Eu estava inclinado sobre o capô de um carro prateado quando ouvi a voz da dona do veículo atrás de mim.
– Então… quanto tempo ainda vai levar?
Levantei a cabeça por um instante e enxuguei as mãos em um pano.
– Mais uns dez minutos.
Ela estava encostada no balcão da recepção improvisada da oficina. Salto alto, óculos escuros presos no cabelo e um sorriso que parecia treinado.
Voltei minha atenção para o motor.
– Você trabalha aqui sozinho? – ela perguntou.
– Não. Tenho ajuda.
– Que pena.
Olhei para ela rapidamente.
– Por quê?
Ela deu de ombros.
– Porque isso significa que você não passa o dia inteiro aqui.
Ignorei o comentário e continuei ajustando uma peça.
Eu já tinha visto esse tipo de situação antes.
Muitas vezes.
A cliente se aproximou um pouco mais.
– Você entende muito de carros.
– Faz parte do trabalho.
– Também entende de pessoas?
Agora eu realmente olhei para ela.
– Depende.
Ela cruzou os braços, claramente se divertindo.
– Você percebe quando uma mulher está interessada em você?
Soltei um pequeno suspiro.
– Senhora, seu carro estava com problema na correia do alternador. Agora não está mais.
Fechei o capô com um movimento firme.
– Já pode usar normalmente.
Ela riu baixo.
– Você é sempre tão direto assim?
– Normalmente.
Ela caminhou até o carro enquanto eu limpava as mãos novamente.
Antes de entrar, se virou para mim.
– Tem um cartão da oficina?
Peguei um cartão no balcão e entreguei.
Ela segurou o cartão por um segundo a mais do que o necessário.
– Obrigada, Jacob.
Então entrou no carro e saiu da oficina.
Assim que o carro desapareceu na esquina, ouvi uma gargalhada atrás de mim.
– Cara… você faz isso de propósito?
Virei a cabeça.
Seth estava parado perto da porta lateral da oficina, segurando uma caixa de peças.
– Faz o quê?
Ele ainda estava rindo.
– Ignorar mulheres bonitas como se elas estivessem perguntando sobre o clima.
Dei de ombros.
– Eu estava trabalhando.
Seth colocou a caixa sobre uma bancada.
– Aquela mulher estava praticamente pedindo seu número.
– Ela pediu o cartão da oficina.
– Que tem seu número.
– É o número da oficina.
Seth cruzou os braços, sorrindo.
– Vai bloquear essa também?
Peguei uma chave inglesa da mesa.
– Eu não bloqueio pessoas.
– Ah não?
Ele levantou uma sobrancelha.
– E aquela da semana passada?
– Aquela estava ligando seis vezes por dia.
– Porque você é bonito, Jake.
Revirei os olhos.
– Você conseguiu as peças?
Seth apontou para a caixa.
– Todas aqui.
Abri a caixa e conferi rapidamente.
– Ótimo.
Ele encostou na bancada.
– Sabe… está tudo muito calmo por aqui hoje.
Olhei para ele.
– Não diga isso.
– Por quê?
– Porque quando alguém diz isso, alguma coisa dá errado.
Seth riu.
– Relaxa. Talvez hoje seja um dia tranquilo.
Ele olhou ao redor da oficina.
– Aliás… onde está o furacão Ayla?
Fechei a caixa de peças.
– O ônibus da escola deve chegar em alguns minutos.
Mal terminei de falar quando ouvimos o som familiar de freios do lado de fora.
Seth virou a cabeça.
Um ônibus escolar amarelo tinha acabado de parar bem em frente à oficina.
Ele abriu um sorriso.
– Falando nela.
Cruzei os braços.
– Lá vem probl...
Eu mal tive tempo de terminar a frase e as portas do ônibus se abriram com aquele rangido metálico que eu já conhecia bem. Algumas crianças desceram primeiro, andando em pequenos grupos, mochilas balançando nas costas e conversas que pareciam não ter fim. Mas eu sabia exatamente quem eu estava esperando.
E então ela apareceu.
Ayla desceu os degraus do ônibus quase pulando, como se o chão fosse um detalhe sem importância. Assim que colocou os pés na calçada, olhou para os lados e me encontrou parado na entrada da oficina. O rosto dela se iluminou na mesma hora.
– Pai!
E saiu correndo.
Não era uma corrida organizada. Era aquela corrida desajeitada de criança que mistura pressa com alegria, mochila batendo nas costas e cabelo balançando para todo lado. Eu nem tentei esconder o sorriso enquanto me abaixava um pouco, abrindo os braços para recebê-la.
Ela praticamente se jogou contra mim.
– Ei, calma aí, furacão.
Abracei minha filha com força e levantei ela um pouco do chão. O cheiro de shampoo infantil e lápis de cor veio junto quando enterrei o rosto nos cabelos dela e dei um beijo demorado no topo da cabeça.
Por alguns segundos o barulho da oficina pareceu desaparecer.
Era só eu e ela.
– Como foi a escola hoje? – perguntei.
– Boa! – respondeu rápido demais para alguém que claramente ainda tinha mil coisas para contar.
Antes que ela pudesse continuar, ouvi Seth limpar a garganta de forma exagerada atrás de mim.
– Que cena bonita.
Olhei para ele por cima do ombro.
Ele estava encostado na bancada com os braços cruzados e uma expressão dramática no rosto.
– Sabe o que é triste nessa situação? – ele continuou.
– O quê? – perguntei.
– Ninguém pensa nos tios.
Ayla levantou a cabeça do meu ombro.
– Oi, Seth!
Ele abriu os braços imediatamente.
– Finalmente alguém que lembra de mim.
– Você quer abraço também? – ela perguntou.
– Claro que quero abraço também.
Baixei ela no chão e no segundo seguinte Seth já tinha pegado minha filha no colo com facilidade. Ele levantou Ayla no ar como se ela pesasse quase nada, o que tecnicamente era verdade, mas ainda assim arrancou uma gargalhada dela.
– Espera aí – ele disse, fingindo esforço enquanto a segurava – você está comendo chumbo no café da manhã?
Ayla riu alto.
– Não!
– Então por que você está cada dia mais pesada?
– Porque eu estou crescendo.
– Ah, então é isso.
Seth fez uma cara pensativa.
– Achei que você estivesse escondendo pesos dentro da mochila.
Ela riu de novo, segurando nos ombros dele para não cair para trás. Foi então que Seth percebeu o lenço amarrado na cabeça dela.
Era um lenço pequeno, azul claro, com flores discretas estampadas.
Ele inclinou a cabeça para observar melhor.
– Ei… gostei disso aqui.
Ayla tocou o lenço imediatamente.
– É bonito, né?
– Muito bonito – Seth respondeu. – Combina com você.
Ela abriu um sorriso orgulhoso.
– Era da mamãe.
Por um segundo o ar pareceu ficar um pouco mais silencioso.
Seth não perdeu o sorriso, mas respondeu com um tom mais suave.
– Então é especial mesmo.
Eu estava parado alguns passos atrás observando a cena, com os braços cruzados e aquele tipo de sorriso que aparece sem a gente perceber. A forma como Ayla falava da mãe nunca vinha com tristeza. Era mais como se Leah ainda estivesse presente nas pequenas coisas.
E naquele momento, vendo minha filha com o lenço amarrado na cabeça, eu tive uma sensação estranha de déjà vu.
Ayla estava cada dia mais parecida com Leah.
O mesmo jeito de sorrir quando estava orgulhosa de alguma coisa. A mesma forma de levantar o queixo quando alguém elogiava algo que ela gostava. Até o brilho nos olhos parecia familiar demais.
Seth colocou Ayla no chão novamente.
– Então, pequena furacão – ele disse – o que você aprendeu hoje na escola?
Ayla ajeitou a mochila nas costas e fez uma expressão misteriosa.
– Hoje teve uma coisa muito engraçada.
Cruzei os braços.
– Engraçada como?
Ela abriu um sorriso travesso.
– A professora nova tomou um banho de água.
Seth piscou algumas vezes.
– Espera… o quê?
Ayla começou a rir.
– Um balde caiu na cabeça dela.
Olhei para Seth, depois para minha filha.
Alguma coisa me dizia que aquela história ainda ia render problema.
E conhecendo Ayla… talvez ela tivesse participado disso de alguma forma.
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