Narrado por Renesmee


Os últimos dias passaram como um borrão diante dos meus olhos. Cada momento parecia ter mais peso do que o normal, como se tudo estivesse sendo vivido com uma consciência maior de despedida. Minha última semana como professora do terceiro ano foi exatamente assim. As crianças não sabiam lidar com aquilo da mesma forma que eu também não sabia, então demonstravam do jeito delas, com abraços mais longos, bilhetes desenhados com letras tortas, promessas inocentes de que não iriam me esquecer.

E eu sabia que não esqueceriam.

Mas também sabia que não seria igual.

Houve o jantar de despedida com a minha família, todos reunidos, tentando manter um clima leve, como se fosse apenas mais um encontro. Minha mãe sorria o tempo todo, mas eu percebia o esforço por trás daquele sorriso. Meu pai falava com orgulho sobre o mestrado, como se aquilo fosse a coisa mais certa do mundo. Minhas tias enchiam a mesa de comida e comentários, tentando ocupar os espaços que o silêncio insistia em criar.

E eu… eu estava ali, presente, mas com o coração dividido.

O último dia na escola foi o mais difícil. As crianças me cercaram, algumas choraram, outras tentaram ser fortes, como se isso fosse ajudar em alguma coisa. Eu abracei cada uma, ouvi cada “vou sentir sua falta”, tentando guardar aquilo dentro de mim.

Mas nada doeu tanto quanto o olhar de Ayla.

Ela não chorou na frente dos colegas. Ficou mais quieta, mais contida, como se estivesse segurando tudo dentro de si. E aquilo… aquilo foi pior do que qualquer lágrima.

Porque eu sabia. Sabia o quanto ela sentia e o quanto eu também sentia.

Agora, em meu apartamento, a realidade parecia mais concreta. As malas estavam prontas, organizadas com cuidado sobre a cama. Separei os documentos, conferi mais de uma vez, como se o ato de revisar pudesse me dar alguma segurança.

Não deu.

Caminhei até a janela e fiquei ali por alguns segundos, observando Seattle à noite. As luzes refletindo nas ruas molhadas, o som distante dos carros, a chuva fina que caía quase como parte da rotina da cidade.

Eu sentiria falta daquilo.

Da paisagem. Do clima. Da vida que construí ali.

Soltei um suspiro e voltei para a cama, deixando o corpo cair sobre o colchão. Peguei o celular, mais por hábito do que por necessidade, deslizando a tela sem muita atenção… até que algo me fez parar.

Um status de Jacob, não segurei a curiosidade e abri.

A imagem mostrava a chuva no horizonte, o céu carregado, como se o tempo refletisse exatamente o que alguém estava sentindo. E abaixo, uma frase:

“Algumas pessoas são lar… mesmo quando escolhem partir.”

Meu coração apertou no mesmo instante, fiquei olhando para a tela por alguns segundos, relendo aquelas palavras como se, em algum momento, o sentido fosse mudar. Será que era para mim?

A ideia veio antes mesmo que eu pudesse evitar, mas, logo em seguida, balancei a cabeça, tentando me convencer do contrário.

Claro que não. Eu só… queria que fosse, e talvez, por querer tanto, estivesse começando a enxergar sinais onde não havia nenhum.


A manhã seguinte, eu já estava pronta quando desci, com as malas organizadas e o coração… nem tanto. Entramos no carro em silêncio no início, meu pai dirigindo, minha mãe ao lado, e eu no banco de trás, olhando para a cidade que eu estava prestes a deixar.

Seattle parecia a mesma.

Mas eu não.

Encostei a cabeça no vidro, observando as ruas passarem, os semáforos, as pessoas seguindo suas rotinas sem saber que, para mim, tudo estava mudando.

Minha mãe quebrou o silêncio primeiro, como sempre fazia.

– Estava pensando que poderíamos passar o Natal juntas.

Disse, virando-se um pouco para me olhar.

– Eu posso viajar até você, ou você pode vir para casa. Podemos organizar com antecedência.

Meu pai assentiu, mantendo os olhos na estrada.

– Parece uma excelente ideia.

Falou, com aquele tom tranquilo de quem já aprovava o plano.

– Assim não ficaremos tanto tempo sem nos ver.

Eu forcei um pequeno sorriso, mesmo sabendo que eles não estavam me vendo naquele momento.

– Sim… parece bom.

Respondi, quase no automático.

Minha mãe continuou falando, já começando a planejar detalhes, datas, possibilidades, enquanto meu pai concordava com tudo, acrescentando sugestões aqui e ali.

Eu ouvia.

Mas ao mesmo tempo, não ouvia.

Minhas respostas vinham mecânicas, no tempo certo, como se eu estivesse presente na conversa… quando, na verdade, minha mente estava em outro lugar.

Depois de alguns minutos, fiz a pergunta que estava martelando desde que saímos de casa.

– A Elizabeth vai para o aeroporto?

Minha mãe respondeu sem hesitar.

– Sim. Ela e o Alec combinaram de ir direto para lá.

Assenti devagar.

– Entendi.

Voltei a olhar pela janela.

A conversa deles seguiu, leve, organizada, cheia de planos e certezas. Eu apenas acompanhava com pequenos acenos, respostas curtas, como se estivesse no piloto automático.

Porque, no fundo…

eu ainda estava tentando entender se estava indo embora por escolha. Ou se estava apenas fugindo do que sentia.


O movimento no aeroporto era intenso, pessoas indo e vindo, anúncios ecoando pelos alto-falantes, malas sendo arrastadas apressadas pelo chão. Caminhei ao lado dos meus pais até o setor de embarque, tentando acompanhar o ritmo de tudo aquilo enquanto, por dentro, eu só queria que o tempo desacelerasse um pouco.

Ou talvez parasse.

Fiz o check-in quase no automático, entregando os documentos, respondendo às perguntas, pegando o cartão de embarque. Quando terminei, olhei o horário no painel e senti o estômago apertar.

– O voo sai em vinte minutos.

Falei, voltando-me para eles.

– É melhor a Elizabeth se apressar.

Meu pai franziu levemente a testa, já pegando o celular.

– Ela não atende.

Disse, após tentar uma ligação.

Minha mãe também demonstrou preocupação, olhando em volta como se pudesse encontrar a filha ali, no meio da multidão.

– Isso não é típico dela.

Comentou.

Eu peguei meu celular também, abrindo a tela mais por impulso do que por necessidade… e foi então que vi o nome dele, Jacob.

Meu dedo ficou suspenso por um segundo antes de tocar na tela. Abri a conversa, olhando para o histórico de mensagens, para o vazio recente que parecia maior do que deveria ser.

Comecei a digitar.

“Eu estou indo…”

Parei, apaguei e tentei de novo, mas as palavras não vinham do jeito certo.

Suspirei, bloqueando a tela, Jacob nem sequer tinha tentado se despedir.

A constatação veio simples, mas pesada, e , de alguma forma, doeu mais do que eu queria admitir.

Antes que eu pudesse me perder mais naquele pensamento, ouvi a voz da minha mãe.

– Eles chegaram.

Levantei o olhar e vi Elizabeth e Alec se aproximando, um pouco apressados. Dei alguns passos na direção deles.

– O que aconteceu?

Perguntei, tentando disfarçar a preocupação.

Alec respondeu primeiro.

– O pneu do carro furou no caminho.

Disse, ainda recuperando o fôlego.

Assenti, compreendendo.

– Ainda bem que chegaram a tempo.

Olhei rapidamente para o relógio outra vez, sentindo o tempo escorrer entre os dedos.

Respirei fundo e voltei-me para a minha família.

Os abraços vieram em seguida, um de cada vez. Minha mãe me segurou por mais tempo, como se não quisesse soltar. Meu pai me abraçou firme, em silêncio. Elizabeth também me envolveu, mais cuidadosa dessa vez, como se estivesse tentando fazer tudo certo.

– Cuide-se.

Minha mãe disse, olhando nos meus olhos.

– Nós a amamos.

Assenti, sentindo o peito apertar.

– Eu também amo vocês.

Respondi, com sinceridade.

Afastei-me devagar, segurando a alça da minha bolsa com mais força do que o necessário. Lancei um último olhar para eles antes de me virar.

E então comecei a caminhar sozinha em direção ao portão de embarque.


Entrei no avião com o coração pesado, segurando o cartão de embarque como se aquilo fosse a confirmação final de tudo. A comissária me indicou o assento na primeira classe, e eu segui pelo corredor com passos contidos, tentando ignorar a sensação estranha de que algo dentro de mim ainda resistia.

Sentei-me ao lado da janela, ajeitando a bolsa no colo e respirando fundo. Agora não havia mais volta, Cambridge me esperava.

E, só então percebi o peso da decisão que eu havia tomado.

Encostei a cabeça levemente no assento e olhei pela janela, observando a movimentação na pista, os funcionários correndo contra o tempo, os aviões ao longe. Tudo parecia distante, como se eu estivesse assistindo à vida de fora.

– Quase não consigo entrar… Ouvi a voz ao meu lado. Virei o rosto e encontrei uma senhora ajeitando-se na poltrona, visivelmente ofegante. – Há um homem completamente louco lá fora, discutindo com todo mundo.

Ela comentou, ainda tentando recuperar o fôlego.

Franzi levemente a testa, curiosa, e inclinei um pouco o corpo para olhar pela janela, mas não vi nada, nenhuma movimentação diferentd da rotina do aeroporto.

Voltei a encarar a senhora e sorri de forma educada.

– Deve ter sido um mal-entendido.

Respondi, tentando não dar importância.

Ela murmurou algo em concordância, já se acomodando melhor.

Peguei meu livro na bolsa, mais como uma tentativa de ocupar a mente do que por vontade real de ler. Abri na primeira página, mas as palavras pareciam embaralhadas diante dos meus olhos.

Não conseguia me concentrar.

Foi então que ouvi.

Vozes masculinas, mais altas do que o normal, vindo do corredor.

– Senhor, o senhor não pode…

– Chamem a segurança!

Meu corpo se tensionou imediatamente. Alguns passageiros começaram a se mexer nos assentos, trocando olhares inquietos. A senhora ao meu lado se encolheu um pouco, claramente assustada.

Franzi a testa, fechando o livro sem perceber.

Algo estava errado.

Inclinei o corpo, tentando enxergar melhor pelo corredor, mas antes mesmo que pudesse me levantar…

Eu ouvi.

Aquela voz.

Forte.

Inconfundível.

– Renesmee Cullen!

Meu coração disparou de forma violenta.

Levantei tão rápido que acabei esbarrando na senhora ao meu lado, quase a derrubando no processo.

– Desculpa…

Sussurrei, sem nem olhar direito para ela.

Porque meus olhos já procuravam por ele.

Meu corpo inteiro reagindo antes mesmo da minha mente acompanhar.

– Jacob?

A palavra saiu baixa, carregada de surpresa, incredulidade… e algo muito mais forte.