Uma lesma e seu menino

1 Capítulo 1: National Geografic na ilha de Sardenha


Quando acordou em seu novo corpo Nora já tinha uma vaga noção do que sua raça esperava dela. Aparentemente essas lesmas mentais tinham um tipo de memória ancestral datada de milhares de anos e como sua capacidade de copiar DNA do hospedeiro e assimilar essa informação com o do próximo, o que garantiu não só sua sobrevivência como a soberania e paz do planeta natal.

Claro que as outras raças alienígenas não gostaram nem um pouco da possibilidade de serem os próximos a serem assimilados. Então os planetas tinham de ser conquistados na encolha, pelo menos até terem tecnologia para se defenderem.

E basicamente foi o que levou aquelas naves a Terra, depois de séculos de guerra contra a Aliança Intergaláctica sua raça queria expandir território para compensar a perda de diversas colônias. Aparentemente explodir alguns planetas bichados era um pequeno preço a se pagar pela segurança do universo.

Do ponto de vista dos vermes, eles só queriam viver. Mas com seu senso analítico, Nora teve certeza de que apesar de não serem exatamente maus, seus métodos eram. Privar um ser vivo, pensante ou não, do controle de seu corpo e mente era apenas uma forma de escravidão.

Explicar isso a seus colegas de ninhada é que era complicado.

—Você não pode abdicar a seus deveres, você é uma rainha de ninhada, nossa espécie vai entrar em extinção. – Azul disse com suas anteninhas tremendo.

—Eu não sou a única rainha. –Nora respondeu. –Além disso, talvez seja uma boa hora para mudar. Quem sabe não explodam o planeta de novo.

—A rainha não vai gostar disso.

Realmente ela não iria, do pouco que vira de sua mãe dava para notar que se tratava da típica mãe de ninhada alienígena, que via seus filhos como números e força de trabalho.

—Eu me entendo com ela.

Assim Nora foi expulsa do ninho, e só poderia voltar quando, intendesse a “importância de sua vida e o dever com sua raça. ”

Apesar de seus ideais serem nobres, logo se provou que ser uma lesma na cor de banana com listras neon e ridículos 8cm de comprimento não era fácil, claro a maioria dos animais achavam que ela era venenosa, mas os que arriscavam não encontravam muita resistência.

E foi assim que ela acabou nas garras de um pequeno falcão. Desesperada ela se contorcia tentando escapar do aperto das garras do animal que se fecharam sobre ela como uma armadilha de urso.

De tanto mexer ela acabou olhando para baixo, apesar da vertigem seu cérebro pode registrar algumas coisas. Este lugar novo parecia uma praça, o ninho do bicho ficava no alto de uma árvore de onde podia se ver uma fonte, bancos de pedra e crianças brincando. Mas Nora só teve um relance dessa pacifica visão antes de se solta e engolida.

Dentro do bico de um filhote de falcão ela começou a entrar em pânico, a língua preta do bicho tentava força-la para baixo, enquanto ela se contorcia tentando evita-la. Com uma tentativa desesperada de se segurar ela abriu a boca e com seus milhares de dentes pontiagudos ela se agarrou no céu da boca do animal, penetrando o osso.

O filhote começou a tossir engasgado enquanto Nora literalmente se agarrava a própria vida. Em seu desespero os instintos que tanto tentava ignorar falavam mais cada vez mais alto. “Morda mais forte” “Abra caminho” “Cérebro, cérebro, cérebro. ”

Ela o fez. Os ossos fizeram um barulho crocante quando ela os quebrou, o cérebro da criatura era pulsante, quente e macio. Guiada por uma força invisível ela rastejou para dentro, devorando aquela massa extremamente doce até encontrar o lugar certo de fixar sua calda de ferrão.

Do lado de fora, o filhote de falcão espasmava, claramente em dor, até parar de repente como se estivesse morto. Alguns segundos depois ele voltou a mexer, mas agora Nora via por seus olhos.

Sua primeira reação foi estranhar a visão binocular do falcão, enxergar suas laterais muito bem mas sem ver o que estava na frente era muito estranho. A segunda foi entender que apesar de protestos havia feito o que disse que não faria.

Poderia argumentar que foi legitima defesa, mas o falcãozinho também só estava tentando viver, e agora que comera uma parte de seu cérebro para se alojar duvidava que ele pudesse ter uma vida normal, caso fosse embora.

Ela olhou para os outros falcões no ninho, brancos e extremamente fofos, eles pareciam não notar que algo aconteceu. De fato, a ignoravam enquanto brincavam esperando mamãe voltar com mais comida.

Triste e ilhada no alto da árvore, Nora tentou se adaptar ao corpo de falcão, brincava com seus “irmãos”, pedia comida, batia as asas tentando voar, e quando não estava fazendo nenhuma dessas coisas observava os humanos lá embaixo.

Sempre havia velhinhos alimentando pássaros e crianças brincando. Mas uma coisa que chamou atenção foi um pequeno garoto de cabelos rosa que sempre estava sendo perseguido pelas outras crianças.

Algumas vezes parecia brincadeira, outros claramente era perseguição, o chutava e principalmente pareciam ter implicância com seu cabelo rosa, apontavam, puxavam e jogavam coisas nele. Nora havia sido vítima de Bully em sua outra vida e reconhecia os sinais, e mesmo que não fosse aquilo era claro como o dia.

Será que não havia ninguém para impedir aquelas crianças de serem tão más?

Decidiu que se ninguém fizesse algo ela faria, assim que aprendesse a voar, o que não deveria estar longe já que os pais falcão pareciam estar sistematicamente destruindo o ninho aos poucos.

Em um dia nenhum dos pais falcão fez qualquer esforço para alimentá-los. Já devia ser meio dia, o sol estava bem alto no céu, quando mamãe falcão apareceu com um rato, mas em vez de alimentá-los ela se sentou em outra árvore e começou a comer sozinha.

Os filhotes, com fome, começaram a gritar de dentro do ninho, sem entender porque os pais estavam sendo assim.

Nora foi quem entendeu, era hora de voar, e com determinação ela foi ao lado oposto do ninho, onde correu para pegar velocidade e voar.

Foi um desastre, ela caiu como uma pedra. Seus pais a pegaram e levaram para o ninho para que pudesse tentar de novo. Foi um dia bem longo de quedas, mas ao menos os pais os recompensaram com comida pelos seus esforços.

Mais 3 dias de treino antes que pudessem voar direito, e Nora claramente não era a melhor da classe. Levou um tempo para entender que voar não dependia de bater as asas rápido sim surfar nas correntes de ar.

A próxima fase do treinamento consistia em aprender a caçar, o pais levaram seus filhotes para lugares como rios e celeiros, onde pudessem pegar ratos e peixes. Nora sentia pena dos ratos, mas fome as vezes é maior que a razão e quanto aos peixes, ela gostava dos peixes, não sentia pena olhando em seus olhos inexpressivos.

Os dias passavam, aos poucos seus irmãos haviam partido e Nora era a única que faltava. Mais uma vez ela observava os humanos, esperando um em especial, aquele que ela sabia que precisava de um amigo, como ela precisou um dia...

Mas ninguém veio.— Ela suspirou ao lembrar dessas dolorosas memorias.

Ali estava, um ponto rosa sozinho, na fonte com água até os joelhos cascaviando o fundo. Nora abriu as asas e mergulhou.

Pousando na beira da fonte bem do lado do garoto, evitou barulhos altos, se ele fosse realmente como ela era iria se assustar e fugir. Paciente ela esperou que ele a notasse.

—Si. – Ele disse feliz, ele tirou as mãos da água, estavam cheias de moedas pequenas. — Puoi già comprare...

Ele olhou para Nora, Nora piscou percebendo que por mais que quisesse interagir com o garoto era ainda uma tímida introvertida que não fazia ideia de como fazer isso. A é e pássaros não falam.

— Cosa ci fai qui, uccellino? – O garoto perguntou enquanto guardava o dinheiro nos bolsos.

Nora não entendeu nada. Em sua mente tentava imaginar como fazer ele entender que ela era um Pokémon amigável. Mas não tinha ideia.

Por sorte criança é criança e quando viu que o pássaro não se mexia, o garoto esticou os dedos em sua direção. Ele encostou os dedos em sua cabeça e Nora não demostrou nenhum desejo de sair. Ele começou a passar os dedos em suas penas e Nora acompanhou com a cabeça.

— Sei così carino. – Disse o garoto, depois ele tirou a mão. — Ciao, ciao uccellino.

O garoto então saiu da fonte, ao perceber que ele ia embora ela levantou voo e o seguiu a certa distância. E tentando se convencer que isso não era ser Staker.

Notas finais
Tradução no italiano de google tradutor que usei:
Si. - Sim; Puoi già comprare...- Posso comprar agora
Cosa ci fai qui, uccellino? - O que faz aqui passarinho?
Sei così carino. - Você gosta de carinho.
Ciao, ciao uccellino. - Tchau, tchau, passarinho.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.