A neve era um cobertor agradável de olhar. Growlithe caminhava por ela, deixando um rastro que logo era preenchido pelos passos de Jesse e James. Os garotos passeavam de mãos dadas, ambos vestindo gorro e cachecol. Ambos sorrindo. O Quagmire aproximou os lábios do ouvido do Baudelaire. O Natal é na semana que vem. Quer passá-lo na minha casa? James sentiu o rosto corar. Seus tios não se incomodam? Jesse balançou a cabeça. Que nada! Eles vão até ficar felizes por saber que eu tenho um amigo. James sorriu. Amigo. Gostava daquela sonoridade. Gostava daquele toque. Se você já teve alguém para dividir momentos tão íntimos, talvez entenda os sentimentos que circulavam entre eles, como uma música encantadora. E, por falar em música, Jesse tocava a gaita. Recostava-se em uma árvore ou na parede de um corredor vazio e soprava notas cheias de calor e magia. A Meowth fechava os olhos, sonolenta, degustando cada nota. E o Growlithe fitava seu dono, feliz por vê-lo feliz.

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A viagem para a cidade em que Jesse morava foi tranquila. James não precisara pedir autorização a seus pais — eles não estavam em casa quando chegou de seu último dia de aula antes do Natal. Tudo o que encontrou foram as empregadas correndo de um canto a outro para preparar a árvore e decorar a lareira e o corrimão da escada com enfeites que ninguém apreciaria. James arrumou seus pertences, deixou uma mensagem na caixa eletrônica do celular da senhora Baudelaire e partiu para a estação com Growlithe em seus calcanhares. Normalmente, ele seguiria para seu destino em um jato particular ou em uma limusine luxuosa. Desta vez, porém, tinha uma imagem a manter. Jesse rira dele antes de se despedirem. Vou te esperar na estação, hein? Quero ver se o riquinho sabe pegar transporte de gente pobre. James atrapalhou-se ao comprar o ticket, atrapalhou-se ao guardar a bagagem e atrapalhou-se ao servir a comida de Growlithe enquanto o trem sacolejava. Fora isso, o percurso foi tranquilo. E ele não poderia se sentir mais completo.

Quando desceu do vagão, buscou desesperado pelos cabelos ruivos. Sentia-se deslocado naquela cidade pequena e simples, perdido entre pessoas que seguiam seus caminhos sem nenhuma hesitação. Um menino apontou para ele. Mamãe, olha, um Growlithe! O cachorro virou o focinho, a língua de fora. James chamou-o e deu alguns passos em direção à entrada. Ora, vejam só quem chegou aqui inteiro! O coração do Baudelaire aqueceu-se. Logo diante dele estava o Quagmire, sorrindo-lhe maroto. E como ele estava lindo naquele casaco de lã com um Pidgey bordado! James teve de resistir ao impulso de correr e se atirar em seus braços, roubar um beijo doce e... Oh, não é momento para isso! Recomponha-se homem! Ei... Que susto tomou o Baudelaire. Jesse estava a centímetros de distância. Quando se movera tão rápido? É brincadeira, tá? Eu já estava com saudades. E James não precisou mais se censurar por pensar em beijos. Porque Jesse pensara em beijos por ele.

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Cheguei! Jesse jogou as chaves sobre uma pequena mesa e fez carinho em Meowth, que dormia sobre o encosto do sofá. Tia, cheguei! Trouxe o James! Uma mulher de meia idade saiu da cozinha, secando as mãos no avental. Abriu um sorriso caloroso. Ora, vejam só! Se não é o jovem de quem tanto fala o meu sobrinho. É um prazer conhecê-lo, James. Ele estendeu o braço para cumprimentá-la. O prazer é todo meu. O Growlithe latiu. É um prazer conhecê-lo também, Growlithe. Bom, neste caso, comida para dois meninos, uma gata e um cachorro, certo? Ela beijou a bochecha de Jesse — Tia Mary! — e retornou à cozinha para terminar o almoço. Jesse esfregou as pálpebras antes de fitar o amigo. Vem, vamos esperar no meu quarto enquanto isso. James gelou. No seu quarto? Jesse abriu um sorriso travesso. É. Onde pensa que vai dormir enquanto estiver aqui em casa? Na sala é que não vai ser. Passaram vários minutos conversando, sentados na cama. Jesse insistiu em lhe mostrar todos os prêmios que ganhara na antiga escola. E James só elogiava, elogiava... mas as palavras que mais queria dizer estavam presas na garganta. Jesse deitou a cabeça sobre suas pernas. O queixo de Growlithe caiu.

Ei, James... O coração de Baudelaire era uma Ponyta desgovernada. Si-sim, Jesse? O Quagmire fechou os olhos, suspirando. Deixou-se estar assim por longos minutos. Na verdade, durou apenas um minuto, mas nós sabemos muito bem o quanto o tempo torna-se enganoso em momentos como esse. Eu acho que estou apaixonado por você. O coração de James batendo Rapidash. Eu acho que estou mesmo apaixonado por você. Quer ser meu namorado? Ele abriu os olhos. No azul, apenas a expectativa. James engoliu em seco, os lábios tremendo. Quero... E Jesse sorriu.

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O tio Benjamin era bem humorado. A todo momento, puxava James para perto de si para contar histórias antigas sobre seu tempo de meninice. O Baudelaire apreciava — seu próprio pai nunca fizera tal coisa. Mas o Quagmire sentia ciúmes. Queria a atenção de James apenas para si e não fazia questão de esconder. A tia balançava a cabeça, rindo. Deixe os meninos, querido. Não vê que querem aproveitar o Natal juntos? Se eles perceberam o namoro, não disseram nada. Jesse não era exatamente discreto. Segurava a mão de James. Beijava o canto de seus lábios quando se sentavam à mesa. Deitava a cabeça em seu ombro enquanto assistiam a um filme no sofá. Não faça isso... É constrangedor... Seus tios... Jesse dava de ombros. Eles não ligam. E não ligavam. Pelo contrário, a cada dia que passava, eram ainda mais acolhedores com o Baudelaire.

Feliz Natal! Jesse retirou a guirlanda da porta e jogou-a sobre os cabelos de James, como se fosse um chapéu. O próprio Jesse vestia um gorro vermelho que se misturava a seus cabelos ruivos. Em um canto da sala, os tios bebiam vinho, sorrindo para a felicidade dos garotos. Tome, para você. Jesse retirou um pequeno embrulho da pilha sobre a árvore e entregou nas mãos do Baudelaire. Não precisava! O Quagmire balançou a cabeça. Você me deu uma gaita de ouro. De ouro, cara! Minha tia nem acreditou quando viu. Até escondi no meu armário, com medo do tio Benja vender quando eu não estivesse olhando. Benjamin riu. Vender uma beleza dessas? Eu ia era pegá-la para mim! Virou-se para a esposa, risonho, mas ela lhe lançou um olhar de censura. Obrigado... James apertou o presente, sem saber o que fazer. Growlithe decidiu por ele. Afanou o embrulho de suas mãos e rasgou o papel com os dentes. Growlithe! Seu levado! O livro caiu no chão. Tinha uma capa bonita, com o título brilhando em alto relevo. James alisou-a com um sorriso. Este não é o livro que você estava sempre lendo lá na escola? Jesse sorriu. É. Olha, o título é dourado. Para compensar a gaita. O Baudelaire ficou vermelho de tanto rir.

Se acreditava que as surpresas haviam acabado, enganou-se. Mary fizera um casaco de lã para ele. Com estampa de Rattata! Jesse riu, beliscando sua bochecha. James logo entendeu que era uma piada por conta do Rattata que roubara seu sapato quando era criança. Growlithe também ganhou presentes: uma bola que poderia morder à vontade e um casaquinho roxo. O Baudelaire pegou os embrulhos que ele mesmo deixara sob a árvore ao chegar. Uma coleira rosa com brilhantes para Meowth. Um conjunto de colar e brincos de prata para Mary. Um relógio caro para Benjamin. Todos agradeceram pelos presentes e mostraram-se genuinamente surpresos. Em um primeiro momento, James sorriu. Mas seu olhar encontrou o de Jesse, e ele percebeu um resquício de nojo. E... pensando bem... havia constrangimento nos rostos dos tios. James sentiu o rosto corar. Que idiotice sua comprar presentes tão caros! Parecia até que estava se exibindo. Vejam só como eu sou rico! O único ali que o compreendia era Growlithe, mas ele estava ocupado demais cheirando o casaquinho roxo.

Desculpe por isso... James esfregou as mãos, fitando o tapete. Estavam sozinhos na sala. As luzes da árvore piscavam. Você é idiota, sabia? Os olhos de Jesse não tinham piedade. Acha que somos o quê? Seus amiguinhos da escola? Nós não vivemos de aparências, James! Vivemos de sentimentos verdadeiros. Mas vale um beijo e um abraço sinceros do que essas extravagâncias que você trouxe. Ele suspirou. Não que meus tios tenham ficado realmente tristes. Eles poderiam trabalhar a vida inteira para comprar coisas como aquelas. James piscou os olhos lacrimejados. Desculpe! Não foi minha intenção, eu... Essa é a única forma de carinho que eu conheço... O Baudelaire encolheu-se, diminui-se. Aos seus pés, Growlithe soltou um ganido baixo. Jesse suspirou outra vez. Tocou seu rosto. Tudo bem, tudo bem... Também peço desculpas. Fui injusto com você... Você só não sabe... Ah, garoto! Eu tenho tanto para lhe ensinar... James sentiu-se um tiquinho melhor. Arriscou erguer o rosto. Me ensinar a não ser um riquinho esnobe? Jesse riu. E ficou sério. Você não vai se reconhecer, James. Eu vou te transformar em ralé. James riu, fechando os olhos. Sério mesmo. Descuide-se por um segundo e se encontrará dentro de um ônibus. Não um desses ônibus executivos com aquecedor e serviço de quitutes. Ônibus mesmo! Daqueles que te fazem pensar que está em uma aventura! As lágrimas escorreram por seu rosto, mas ele estava rindo. E, quando descer o ônibus, vai comprar algum salgado de procedência desconhecida, comer tudo com gosto e achar uma delícia. Bem melhor que caviar! James abriu os olhos outra vez. As lágrimas não caíam mais. Eu te amo, Jesse. Elas saíram assim... As palavras, essas malditas... Nunca sabem a hora de permanecer em nossas bocas. Jesse hesitou por um instante. Eu te amo também.

Growlithe afastou-se. O momento era deles.

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James abriu a porta do quarto de Jesse tentando não fazer barulho. O Quagmire provavelmente estava dormindo. Os dois haviam passado quase uma hora na sala, trocando beijos e carícias enquanto assistiam a um filme — do qual não recordavam cena alguma. Depois disso, James teve de se ausentar para atender ao telefone. A senhora Baudelaire dera por sua falta. Onde está meu filho querido para nossa ceia de Natal? Ele suspirou. Explicou toda a história. A senhora Baudelaire soltou uma exclamação de surpresa. Você está onde? Não me venha com isso, James. Quer mesmo que eu acredite que você pegou um trem? Esse transporte imundo? Para passar alguns dias na casa de um garoto que eu nem conheço, ainda por cima! Volte para casa agora mesmo! Eu vou falar com o chofer para ele ir te pegar. James trincou os dentes. Mãe, eu quero ficar aqui, está bem? Me deixa! Do outro lado da linha, o balbuciar, a iminência das lágrimas. Mas, filho... Ele fechou os olhos. Mãe, eu tenho um amigo, está bem? Um amigo. Sabe o que é isso? Eu não vou sair daqui. Dê uma folga ao bendito do chofer. É Natal! Eu volto na primeira semana de janeiro, está bem? Um arfar. Eu vou contar tudo ao seu pai, mocinho! James suspirou. Tchau, mãe. Feliz Natal para a senhora. Desligou o aparelho, fez carinho nas orelhas de Growlithe. Sentia-se exausto e confuso. Por que justo agora ela tinha de ligar? Por que justo agora tinha de fazer de conta que se importava? Venha, Growlithe, vamos dormir.

Ele esperava encontrar uma cama cuidadosamente preparada no chão. De fato, encontrou-a. Mas havia um intruso. Jesse não estava deitado na própria cama. Ou melhor, seu colchão não estava no lugar de sempre. Jesse colocara-o sobre o piso para dormir ao lado de James. Foi demais para o Baudelaire. Ele fez menção de se retirar. Talvez pudesse dormir no sofá naquela noite. Growlithe escolheu justamente esse instante para latir. James? O pobrezinho gelou. James? Vem cá. Deita comigo. Tudo o que o Baudelaire mais queria era ir embora — quem sabe até voltar para casa. Mas alguma coisa empurrou-o. Alguma coisa chamada Growlithe. James deu dois passos destrambelhados e caiu sobre as cobertas. Ai! Eu disse “deita”, não “se joga”! James recuou, murmurando desculpas. Growlithe saltou sobre os garotos e se deitou no cesto de Meowth, aconchegando seu corpo contra o dela. Ei, vamos, deite logo aí. James assentiu. Aconchegou-se no travesseiro, puxou as cobertas para si. Na penumbra do quarto, apenas os contornos de Jesse eram visíveis. Com vergonha? James sentiu o rosto corar. Agradeceu mentalmente pela escuridão. Mas é claro. Não estou acostumado a dormir ao lado de outro homem! Ele ouviu uma risada abafada. Relaxe. Mordeu os lábios. E se os seus tios descobrirem? Jesse moveu-se. Relaxe. Não estamos fazendo nada de errado. James virou o rosto. Não conseguia enxergar Jesse. Boa noite, James. Ele sentiu o toque em seu peito. Jesse afagou-o com o carinho e deixou a mão ali. Sua respiração tornou-se cada vez mais leve. James permaneceu imóvel por um tempo assim, temeroso das consequências daquele ato. Aos poucos, virou o corpo com cuidado, puxando a mão de Jesse contra seu peito. Acariciou-a, sentindo a textura. Deitou o rosto perto do rosto de Jesse. Podia sentir a respiração dele em sua testa. Boa noite, Jesse. E, após alguns minutos, sua respiração tornou-se leve também.

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O final do primeiro ato aproxima-se. Não há muito mais a ser dito. Jesse e James aproveitaram a Festa da Virada juntos, acordados até o amanhecer. Passearam pelo lago. Observaram Growlithe lançar suas chamas em direção aos céus para aquecê-los. Viram o sol nascer sentados perto de uma árvore, um nos braços do outro. James pegou o trem para voltar para casa. Despediu-se de Jesse na estação, prometendo encontrá-lo na primeira semana de aula. Não se atrapalhou ao guardar a bagagem. Não desta vez. Quando desceu do vagão horas depois, percorreu o resto do caminho a pé. Uma longa caminhada até chegar à mansão Baudelaire, mas ele não se importava. Aquele momento a sós com Growlithe era precioso. Tinha gosto de infância. E tinha um gosto a mais. Porque Growlithe não era seu único amigo no mundo.

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(A senhora Baudelaire não estava em casa quando James chegou para o jantar. Ela fora convidada para um baile ou qualquer outra besteira do gênero. O senhor Baudelaire lia um jornal, sentado em sua poltrona favorita em uma das dezenas de salas de estar. Cumprimentou o filho sem desviar os olhos da notícia. Não lhe deu nenhuma bronca por chegar tão tarde. Talvez sequer soubesse que ele passara duas semanas inteiras fora.)

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Ei, James! O Baudelaire sorriu. Estava feliz por reencontrar Jesse. Os dois conversaram brevemente no corredor. Growlithe olhava de um para o outro com a língua de fora. Assustou-se com um roçar em seu dorso, mas era apenas Meowth dizendo olá. Você precisa ver a minha tia! Acredita que ontem eu a peguei experimentando as joias que você deu? Quando eu fui censurá-la, ela olhou para mim toda manhosa e disse “Ah, meu querido, mas elas são tão lindas”! James riu, balançando a cabeça. O tio Benja também gostou do relógio. Ele até que precisava, sabe? Saiu para um passeio antes de eu voltar para cá, então eu disse bem assim para ele “Ei, não vai perder o relógio para um Geodude, não, está bem?” James abriu um sorriso travesso. Ou para um Rattata. Jesse assentiu, solene. Ou para um Rattata.

Eles estudavam em classes separadas, mas se encontravam nos intervalos. James lia livros na companhia de Jesse. E Jesse acompanhava os treinamentos de James com Growlithe. Em meio a essa alegria serena, nenhum dos dois imaginou que receberiam uma notícia triste. O tio Benjamin acidentou-se durante um passeio. Seu estado era grave. Eu não sei como isso foi acontecer! O Quagmire soluçava. O Quagmire soluçava, e o Baudelaire não sabia o que fazer. Nunca vira Jesse chorando. Puxou-o para um abraço, afagou suas costas. Pouco importava que estivessem no meio do corredor. James fora ao encontro do namorado assim que recebera a mensagem em seu celular. Os dois abraçavam-se diante da sala do diretor. Com licença, rapazes. Jesse lançou um olhar choroso ao homem. Peço, por gentileza, que se dirijam à enfermaria. Para não obstruírem o caminho. Ele fitou o ruivo por cima dos óculos. Sinto muito por seu tio, Quagmire. Sabe que tem toda a minha compreensão. Se for necessário trancar sua matrícula, não haverá problema. Você é um bom aluno. Jesse fungou, limpando as lágrimas. Obrigado, diretor.

James acompanhou-o até o pátio. Os dois fitaram o céu em silêncio. Eu vou voltar para casa. James assentiu. Na verdade... Não exatamente para casa. Meus tios tiveram de ir para a capital para cuidar dos ferimentos. É bem grave... Não sei se o plano de saúde vai cobrir. Terei de passar algumas semanas fora... James mordeu o lábio. Não conseguia imaginar a dor que Jesse estava sentindo. Segurou sua mão para oferecer apoio. O diretor vai entender. Ele foi bem gentil com você. Tenho certeza de que vai ajudar. A risada de Jesse foi amarga. Gentil? Você ouviu bem o que ele disse? Notas, James. É tudo uma questão de notas. Eu sou pobre, mas sou um bom aluno. Eles não são burros, sabe? Se existe a possibilidade de eu alcançar a fama algum dia, é claro que eles vão me ajudar. Afinal, que honra poder dizer que um futuro grande treinador formou-se aqui, nesses corredores, não é? Quando chegou aqui, era um ninguém, mas vejam-no só agora! Jesse fungou. James desviou o rosto, envergonhado. Você é ingênuo, James. Não conhece o mundo de verdade. Você vive em uma realidade diferente da minha. Às vezes eu acho que é diferente até demais... James sentiu seu coração preencher-se de medo. Encarou Jesse com pesar. Não diga uma coisa dessas! Não fale como se nós não fôssemos dar certo! Eu... eu sei que é difícil, Jesse, mas... Nós podemos superar isso! O Quagmire balançou a cabeça. Você é ingênuo demais... O Baudelaire abaixou o rosto. Seus olhos brilhavam. Você... disse que eu era legal... Era tudo mentira? Os olhos azuis fitaram-no. Não era... Eu... Desculpe... Eu estou confuso... James abraçou-o, tímido. Tudo bem. Eu também estou...

Nos dias que se seguiram, Jesse organizou os documentos para trancar a matrícula. Arrumou seus pertences. Os olhos arderam quando pegou a gaita. Eu não vou deixar você desistir da gente. Jesse piscou algumas vezes, hesitando. Virou-se para trás. Ele e James estavam sozinhos no saguão. Lá fora, um táxi esperava o Quagmire. Eu não vou deixar, está bem? Você prometeu que ia me ensinar, Jesse! Disse que ia me fazer andar de ônibus e comer salgados de origem duvidosa. Eu estou esperando, está bem? Eu vou cobrar essa promessa! Ele estufou o peito e abriu o paletó, revelando a quem quisesse ver o casaco de lã com estampa de Rattata. Jesse arregalou os olhos, incrédulo. Aos poucos, o sorriso dominou seu rosto. Ele jogou a cabeça para trás, gargalhando. Uma vez riquinho metido, sempre riquinho metido, não é? Seus olhos brilharam de malícia, indo da expressão orgulhosa de James à postura determinada de Growlithe. Meowth enroscou-se em suas pernas. Também se divertia com a situação. Escute, riquinho. James ergueu o queixo, desafiando-o. Quando meu tio melhorar — porque ele vai melhorar — eu vou voltar para esta Academia podre e esfregar as minhas vitórias na cara de todos os riquinhos daqui, está bem? E esteja preparado, porque eu vou beber muito refrigerante quando estiver na capital e vou voltar com uma coleção de tampinhas bem melhor que a sua! James riu com descrença. A Meowth ronronou. O Growlithe pôs a língua de fora. Eu duvido, Quagmire. Jesse jogou a cabeça de lado, exibindo seu Charme. Veremos, Baudelaire. Veremos.

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Eu disse que esta peça não teria um final feliz. Pode ir. Pode ir. Não há nada mais para ver. Não há reencontro. Não há competição de tampinhas. Não há música de gaita. O terceiro ato acaba aqui. Mas não se deixa apreender. Algumas histórias são mais interessantes quando não sabemos seu desfecho. Isso nos permite imaginar as possibilidades, tecendo o fim ao nosso próprio gosto. Eu mesma não sei se o tio Benjamin melhorou, ou se Jesse bebeu os refrigerantes. Mas existe essa imagem bonita que eu gosto de ter em mente — e talvez você goste também. Eu imagino um garoto de cabelos azuis sentado em sua cama enquanto troca mensagens com um garoto ruivo. Imagino um Growlithe deitando-se a seu lado para receber carinho entre suas orelhas. Imagino que eles trocam sorrisos, ansiando o reencontro — o Baudelaire pensando no Quagmire; o cachorro pensando na gata. E é isso. Afinal, todo esse romance deveu-se à coragem de Growlithe, que tentou unir os treinadores contra todas as probabilidades. Como eu disse, uma dessas famosas histórias sobre um menino e seu cachorro.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!