Uma história incompleta de Sai de Baixo
1 Único - Incompleto
Abri meus olhos me sentindo estranha. Não me movi na cama tentando decifrar porque dá sensação diferente no meu corpo. Um leve enjoo se fazia presente me deixando com preguiça de me mexer, mas não era só isso… Há algo a mais que eu ainda não consigo identificar.
Caco sai do banheiro falando alguma coisa que não consigo entender… Essa é mais uma sensação estranha. Apesar de eu ouvir, eu não entendia. As palavras entravam num ouvido e saiam pelo outro.
– Magda? — Pela primeira vez pareço ter domínio do meu corpo. Me mexo na cama para encarar meu marido, que me olhava parado em frente da cama. — Está tudo bem? Estou te chamando.
Apenas aceno positivamente. A sensação de enjoo continua, mas forço meu corpo a se levantar da cama e começar o dia.
Não troquei de roupa, pois a sensação de letargia me consome. Fui para a sala tomar café da manhã de camisola e um robe. Eu ainda não sei o que tem de errado comigo, não estou doente tenho certeza, mas eu não estou bem.
Novamente eu escuto as conversas, mas não consigo me concentrar. O enjoo não tinha ido embora, mas fazia minha vontade de comer desaparecer. O cheiro diversificado da mesa do café só piorou minha sensação.
– Magda?! — acho que mamãe me chamou.
– Ela está assim desde que acordou — Caco fala. — Deu de ficar encarando o nada e não responder.
Dissociação da realidade. Eu estou sentindo uma dissociação da realidade, um sintoma interessante para eu analisar do porquê amanheci assim. Será que comi algo que não me fez bem noite passada?
– Não comeu nada, querida — tio Vavá diz empurrando um pão na chapa com manteiga. — Come alguma coisa. Vai se sentir melhor.
– Estou enjoada — consigo dizer as primeiras palavras do dia.
O cheiro daquilo fez meu estômago dar uma manifestação contrária do que eu queria. Rejeito a oferta, sentindo um calafrio com o cheiro.
– Vou me deitar novamente.
– Assinou o divorcio, Magda? — Daniel me questiona no carro.
– Não consegui — sabia que a resposta não agradaria meu amigo.
Eu nem precisei abrir os olhos para saber que ele para de mexer no celular para me encarar. O movimento do carro está me deixando enjoada de novo. Daniel me questiona do motivo, sendo que já fizemos a parte mais difícil que é fazer Caco assinar sem ele saber.
– Eu não me senti bem na hora — isso me fez perceber algo que me fez abrir os olhos.
– Está tudo bem, Magda? — ele fica preocupado. — Você está pálida e quieta demais.
– O balanço do carro está me deixando enjoada — respiro fundo. — Agora eu me lembro… eu não assinei porque na hora tive um enjoo e desde lá não estou bem.
Daniel coloca a mão na minha testa. Eu estava um pouco gelada e suando, meu enjoo está piorando com esse balançar. Meu amigo oferece me levar no hospital, mas nego dizendo que eu devo ter comido algo que não me fez bem.
Eu estava tentando ler o jornal na sala, quando Caco apareceu com Neide.
– Passei na sua padaria favorita e trouxe para você.
Me estende a caixinha delicada da Galanthic, mas preciso afastar quando sinto o cheiro da comida. Eles devem ter retirado a pouco tempo do forno para o cheiro estar tão forte.
– Tira isso de perto de mim — reclamo. — Só o cheiro me deixa enjoada.
Uma onda de náusea percorre meu corpo. Caco volta a estranhar minha atitude e na verdade, até eu me estranho. Neusa se aproxima perguntando se está tudo bem comigo, se desejo um médico, uma água…
– Eu desejo que me deixe em paz — quase grito. — Vou deitar.
Eu estava saindo do banho quando sinto Caco me abraçar por trás e começar a me beijar dizendo que estava com saudades. Tento me soltar, eu não estou com cabeça para isso.
– Caco, me solta! Hoje não — digo.
Caco estranha minha atitude, mas me solta. Ele me questiona o que eu tenho, mas não consigo acreditar que ele realmente esteja preocupado.
– Estou enjoada — deito na cama. — Aquele… nossa só de lembrar do cheiro eu sinto vontade de…
– Precisa ir ao médico. Anda! Vou te levar — puxa minhas cobertas.
– Por favor, não! Foi só algo que eu comi…
– Magda…
– Por favor! Só… deita aqui comigo que eu melhoro.
– Sem fome de novo, Magda? — mamãe questiona.
– Sim.
Me levanto para ir para o quarto e me trocar para os compromissos, mas ao fazer isso sinto uma tontura e preciso me equilibrar na mesa.
Caco se levanta para me segurar e tio Vavá pergunta o que aconteceu.
– Foi só uma tontura. A pressão baixou.
– Claro! Não come nada desde ontem — Neide me entrega. — Senta aí e come, mulher.
Todos começam a falar e isso me irrita. Peço um chá para Neide, que diz que fará um chá preto para mim.
– Ainda enjoada, Magda? — Daniel questiona.
– Eu comi um pouco no café hoje cedo por isso. Eu ainda não estava bem, mas tio Vavá insistiu que eu comesse algo depois que minha pressão baixou e eu tive uma tortura… tontura.
Não sei porque falei isso, mas por sorte o motorista anuncia a chegada ao nosso destino.
– Senhora… se me permite — o motorista fecha a porta do carro. — Acho que a senhora está grávida.
Gelei com a sugestão, depois achei graça. Daniel se aproxima querendo saber o motivo dele achar isso.
– Bom… eu tenho cinco filhos. Minha esposa teve os mesmos sintomas em todas. Enjôo, tontura, vômitos, mudanças de humor, irritabilidade, depois desejos. E como a senhora disse já tem alguns dias o enjôo.
– Eu não estou grávida — digo.
– Farmácia e para minha casa — diz Daniel.
Eu não posso rebater a ordem dele. Eu havia tido outra tontura na reunião, que fez meu amigo não ter outra opção a não ser testar a teoria do nosso motorista.
– Então…
Saí do banheiro trêmula. Tudo parece ter piorado. Meu enjôo aumentou, minha cabeça rodava, minha garganta queimava por tentar segurar o choro, não consigo respirar direito… Eu estava desesperada.
– … Já sei o resultado.
Daniel me abraça e eu desabo no choro.
Fiquei na casa do meu amigo até tarde me recuperando do susto inicial. Eu não sei o que fazer, não sei o que sentir, não sei como vou dar essa notícia para Caco. Subi para meu apartamento em silêncio, já passava da meia-noite e espero que não tenha ninguém me esperando para querer saber por onde eu estava e não queria dar explicações.
O apartamento estava em silêncio e as luzes apagadas. Solto um suspiro longo e começo meu caminho para o meu quarto ainda mais em silêncio. Para minha sorte, Caco parecia estar dormindo, então pude respirar mais aliviada e ir para o banheiro.
– Magda? — Tio Vavá estala os dedos na frente do meu rosto me despertando. — Está novamente distraída. Está tudo bem?
– Filhinha, acho que deve ir ao médico. Está tão estranha…
– Eu também acho. Nem vi a hora que chegou. — Caco diz. — E essa coisa de não querer ir ao médico é coisa de pobre. Pobre que só vai ao médico, quando está para morrer.
Respiro fundo de olhos fechados para me manter calma e também para passar a sensação de enjoo, que até está me permitindo comer.
– Eu fui ao médico — não é uma mentira, não é mesmo? Afinal sei o que tenho. — Eu estou bem, só preciso descansar.
Me forço a comer a salada de frutas. Minha resposta não parece convencer todos da mesa, que quiseram saber o nome do médico, que menti dizendo não lembrar.
– Vou me retirar e descansar.
Me levanto e agradeço por não ter uma tontura. Mas mamãe está insistente.
– Filhinha, pode falar para a mamãe o que está acontecendo. O que foi? Caco fez alguma coisa? — Mamãe me puxa para sentar no sofá e não posso evitar de olhar meu marido. — Caco Antibes, o que você fez?
– Eu não fiz nada — protesta.
– Fazer nada também é fazer algo — Vavá diz. — Esqueceu de fazer algo? Por isso que a Magda está triste?
– Genteeh!! Eu estou bem.
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