Notas iniciais
YEH!perdi o sono e resolvi escrever, pra esquecer dos trabalhos um pouco. espero que tenha ficado bom.
Esse capitulo gostaria de dedicar para Losferato. Unica review que recebi esses dias e que me deu um pouco de animo para continuar escrevendo.

Enfim...Boa leitura!

#9 Quebrando a perna

Eu confesso, eu não estava pensando direito, não deveria ter contado aquilo para Victória.

Já fazia mais de uma semana que eu matava todas as aulas, só para não correr o risco de encontra-la. Que ótimo, por trás dessa fachada de durona, eu ficava agindo feito criança.

Mas... O que ela deveria estar pensando... Que eu era problemática? Bom não deixava de ser verdade. Que eu gostava de apagar em jardins e chorar por qualquer coisa? Eu podia pensar em mil coisas, mas a verdade era que eu não queria que ela me olhasse com pena... Sabe quando alguém primeiro olha para você com calma e depois de alguns segundos abre um pequeno sorriso, como um “eu entendo você, seja forte”.

Ou talvez eu seja paranoica demais e acabe analisando algo que não existe...

Ah minha cabeça estava uma bagunça, decidi ficar no quarto mesmo olhando para o teto, meus pensamentos não andavam coerentes mesmo. Olhei para o livro que meu avô tinha me dado esses dias, “Drácula, de Bram Stoker”, o velho entendia do meu humor. Com certeza.

Tudo estava lindo até ouvir uma batida no quarto, ok, era um eufemismo. Parecia que era o fim do mundo e a única forma da pessoa sobreviver seria passando pela porta.

Corri para abrir antes que a porta quebrasse... E quem diria...

– E ai Madre Suh! – Tentei o meu melhor sorriso, mas eu sei que não adiantaria.

– du Mas... Você sabe que dia é hoje... — putz ela tinha me pegado, não que eu estivesse no mundo da lua ou algo assim, é só que um dos meus defeitos é me esquecer dos dias da semana, ainda mais quando não vou para as aulas. Mas eu nem tive tempo de responder... – QUANTO TEMPO A SENHORITA VAI CONTINUAR MATANDO AULA? HEIN?

Cara, ela podia ser uma freira, mas a expressão dela parecia que ela abandonaria todo aquele papo de amor ao próximo só pra quebrar meus dentes.

– Er... Eu não estou muito bem na verdade – Não era verdade. – Mas é claro que hoje eu iria na aula de...

– Matemática?

–Isso! Claro, matemática. – Ainda bem que ela estava me ajudando... Ou não, porque ela estava sorrindo agora.

– Celine, hoje é sábado.

– Ah. – Ela tinha me pegado, mas se era sábado por que o desespero? Ela queria me arrastar pra missa? Talvez tomar um chá?

– Você tem uma reunião lembra? Do seu clube. Daqui uma hora.

Caramba, o clube de teatro. Eu tinha me esquecido completamente. Fechei a porta e me arrumei para ir para o anfiteatro do Centro, e repetia o mantra “que não tenha ninguém da minha sala, que não tenha ninguém da minha sala”. Eu não teria saco para aguentar JES e companhia, e estava sem graça demais para ver a Victoria.

Bati as mãos no bolso antes de sair. Velho hábito. Faltava alguma coisa... MERDA! MEU IPOD SUMIU! Foi ai que eu tive um flashback, eu tinha deixado tudo para trás naquele dia no jardim... E o problema não era ter perdido, eu tinha certeza que Vick pegaria tudo. Esse era o problema.

Eu não consigo viver sem musica, como se cada momento meu precisasse de uma trilha sonora. E um tempo atrás, eu montei uma pasta com algumas musicas e todas elas me lembravam dela. E a pasta chamava “V”. Ela não sacaria certo? Ela podia nem estar no grupo.

Ninguém da minha sala estava. Respirei aliviada.

– Hey gata.

– Rony, que diabos você esta fazendo aqui criança? – Ele era dois anos mais novo. E ficava puto quando eu o chamava assim. Ainda mais na frente dos amigos dele.

– Desculpa tia – ok, ele também era bom em me irritar. Ele se afastou dos amigos e sussurrou bem perto do meu ouvido. – não ria... O sonho da minha mãe era que um dos filhos fosse ator.

–HAHAHA – Eu quase engasguei de tanto rir, eu sabia que Rony odiava aparecer. E que ele queria ser gamer (típico nerd adolescente... quem nunca ouviu essa história?) A mãe dele devia ser assustadora para convencê-lo de algo assim. E mais do que tudo, ele e os garotos se reuniam para jogar nos fins de semana. – a senhora Weasley faz jus ao nome hein.

Ele me fez uma cara de “Aff”. O que me fez rir mais ainda.

– Esse nem é o nome dela, você sabe...

Olhei para a sala, a maioria deles era mais nova, só que os meninos estavam olhando demais para o canto do palco, e tudo que tinha lá era um monte de cortinas...

– Rony, seus amigos estão olhando o que?

– Ah, umas meninas mais velhas. – ele falou com desdém. – sabe a garota do corredor e...uma garota branquela lá.

NÃO, não não não não. E isso não expressava o processo de negação que eu estava passando. Jessica passaria o sábado comigo. Ia ser um tempo de qualidade. Eu poderia me enforcar com uma das cortinas se tivesse sorte.

Foi como se o Rony tivesse invocado o diabo. Mal acabou de falar e Jessica saiu do fundo do palco com um monte de folhas na mão, junto com a professora de teatro que estava mandando alguém carregar uma caixa de roupas. A garota parecia um pouco atrapalhada enquanto andava.

Dei um soco no braço do Rony. Ele mal teve tempo de reagir.

– Ouch! Qual o seu problema du Mas?

– O nome dela não é branquela. É Victória.

Poderia ter sido pior. Vick deixou a caixa onde a professora mandou e olhou diretamente para frente. Direto para mim. E ela sorriu, de orelha a orelha e acenou. Tudo que eu consegui foi balançar a cabeça. Ela parecia a mesma de antes.

Nos sentamos e a professora começou a falar:

– Boa tarde, alunos! A paixão pelo teatro os chamou nesse dia fatídico para suas vidas. – Sério, de onde essa mulher tinha saído. Ela estava vestida a caráter, com um vestido de época, daqueles de várias camadas. Parecia um dos piratas do Jack Sparrow vestidos de mulher. – E hoje começaremos os preparativos para a apresentação e o tema desse ano será...

Olhei com tédio, desde que eu nasci, ou antes, era sempre o mesmo...

– William Shakespeare pessoal! – Ela batia palmas animada. — e iremos interpretar...ROMEU E JULIETA!

Ah beleza. Como se não pudesse ficar pior... Eu adoro Shakespeare. Geralmente não conto para ninguém para evitar aquele olhar de “Nossa, como você é culta. Mas você fica ai escutando rock e lendo mangás, nem parece...”. Como se essa frase fizesse algum sentido. Mas eu sabia o que iria acontecer. E Bingo eu estava certa.

Jessica já tinha puxado um garoto para frente, chegando mais perto da professora.

– Senhora Mcnally, já tem seu Romeu e Julieta...

– É senhorita Mcnally é essa decisão é minha. – Eu comecei a gostar mais dela, Jessica estava vermelha feito um pimentão. Senhorita Mcnally agora se virou para turma, ignorando o casal – Enfim, como sabem depois do incidente do ano passado, vários pais vieram até nós e tivemos que tomar uma decisão. Para evitar constrangimentos, teremos os atores principais do mesmo sexo. Quem se voluntaria?

Epa...que história era aquela? Não sei aonde constrangimentos seriam evitados já que a maioria dos garotos já deu dois pulos para ficar mais perto da saída.

– Cara que história é essa? – Cochichei para o Rony. Só na minha cabeça aquilo parecia estranho...

Ele se limitou a virar os olhos, parecia incomodado e ao mesmo tempo com tédio por ter que responder isso.

– No ultimo ano, nós fizemos A megera domada, e o casal principal virava as noites no Centro ensaiando, e a Mcnally adorava a dedicação dos dois. Só que ai no dia da apresentação, o garoto não apareceu... Acho que se chamava... Bom não importa... Mas ai depois de um tempo, toda cidade descobriu. A garota estava grávida.

– Que fria mano...

– Poisé, só que depois disso o grupo quase foi fechado, já que a Macnally deveria ter tomado conta dos alunos. Como se a coitada tivesse culpa. E ai esse ano a opção era que os pais viessem nas reuniões o que segundo ela “mataria sua inspiração” e agora ela veio com essa...

– Já nos tempos antigos, somente homens contracenavam, então não deveriam ficam acanhados... — Pobre senhorita Mcnally, aqueles garotos nunca topariam, eles sairiam no tapa pelos outros papéis... Então os interessados, por favor, um passo a frente...

Dei dois tapinhas no ombro do Rony e fui falando...

– Você ia ser a Julieta mais gostosa de toda história do Saint Edwiges, sabia? E ainda vai fazer sua mãe feliz — Dei uma piscadela para ele. Só que ele retribuiu me dando um empurrão para o lado. – Hey.

– Muito bem senhorita du Mas, tudo bem que essa idéia não tinha passado muito pela minha cabeça, mas pode dar certo...

Mcnally estava falando comigo... Me esforcei para falar alguma coisa coerente, e tudo que saiu foi um:

– Oi?

– Hora duas garotas! Seu cabelo é um pouco curto, seus traços são finos, mas com a roupa certa... sim, sim pode dar certo... – Foi ai que eu olhei onde eu estava. Quando Rony me empurrou eu fui parar a uns três passos longe de todo mundo. Eu tinha me candidatado. Droga!- Bom Jessica, você poderia ser a Julieta...

Ah, NÃO! Preferia ser queimada viva. Meu avô poderia rasgar o contrato e me dar para comer com a salada.

– Só se o inferno congelasse. — Jessica respondeu no ato, e pela primeira vez na vida eu concordava totalmente.

Mcnally cerrou os punhos e apontou o dedo para ela.

– Olha aqui mocinha, o teatro não é lugar para suas manhas, estamos além do preconceito, o que eu busco é a arte e o amor pela atuação. Se você não quer, sinta-se feliz pintando o cenário do o garoto Mike.

Olhei para o Rony, aquele era o nome de verdade dele. Ah ele tinha se ferrado.

– Eu não...não foi isso... eu não ligo... mas é que ela é...

A professora não deu tempo para que ela se explicasse. Olhou para a turma passando o olho por cada um de nós...

– Bom, vocês parecem que combinam... A altura está boa até... Está decidido, peguem seus papéis e comecem a decorar! Confio em você senhorita Curtis, para orientar Celine já que você cresceu nos palcos. Quero ver o empenho principalmente de vocês duas, senhorita du Mas e senhorita Curtis!

Olhei para o outro lado da sala, e Victoria olhava para mim também parecendo surpresa.

– Você deve estar de brincadeira... – Rony falou atrás de mim. Eu perdi a voz e só consegui me virar e voltar para o lado dele.

– É. — Foi tudo que eu consegui responder, enquanto Victoria vinha caminhando na minha direção carregando os cadernos com as nossas falas.