Notas iniciais
yo! boa leitura

#13 Enganos

– Ai, ai, ai... ei vai com calma gata, assim eu vou preferir voltar pra briga, ia doer menos.- Victória agora me olhava com um bico, segurando o algodão um pouco longe do meu rosto.

– Para de manha, depois isso vai infeccionar e vai só piorar...

– Okay sir, eu vou mostrar minha resistência a torturas.- dei um sorriso pra Vicky, o que não ajudou muito já que ela só revirou os olhos e continuou trabalhando no meu machucado.

Na verdade foi bem rápido, e eu só ganhei um arranhão em cima do olho. Jess só soube chorar e gritar enquanto eu depois que seu nariz começou a sangrar por causa do soco, eu virei e chutei sua perna pra evitar que ela corresse. Só quando eu me aproximei pra mais ela começou a pedir desculpas, e eu relaxei. Foi ai que eu ganhei meu arranhão. Que estava ardendo pra caramba agora.

– Viu só já passou...- Vicky estava tentando me animar, mas ela era quem ficou mais desesperada com tudo. — Só se prepare que vai arder a hora que você for tomar banho Celine.

Eu tinha desligado, Vicky estava perto demais pra que eu pensasse eu algo que não fosse beijá-la. Instantaneamente coloquei minhas mãos na cintura dela, a puxando pra mais perto. Ela não resistiu.

– Eu realmente queria entender o que se passa na sua cabeça sabia? — Eu disse isso enquanto a puxava pra um abraço me aninhando no seu cabelo, encostando meu rosto no seu ombro. Aquele perfume era difícil de resistir.

– Celine, eu sinto muito, quando eu estou com você é tudo tão novo, e eu cresci acreditando em algo e agora a vida me revira do avesso mostrando que nada vai ser como o planejado.

– Você está confusa?

– Eu estou com medo,porque eu não tenho mais controle sobre mim. Eu não deveria estar com você agora, mas eu sou egoísta e estou, porque dói muito mais quando você não está por perto.

Aquilo era novo pra mim. Pensei que só eu ou a Victória dos meus sonhos que se sentiria assim. Aqueles olhos amarelos estavam suplicando que eu entendesse. Eu não entendia, mas sabia que tinha algo mais por trás disso. Bom ela foi mandada pra um colégio infestado de freiras, talvez a família dela a tenha criado pra ser intolerante. E isso só dificultava as coisas agora.

Me segurei para não puxar o rosto dela pra mim e a beijá-la. Aquela novela mexicana estava me corroendo por dentro. Foi a coisa certa a fazer porque enquanto nos abraçávamos, ouvi uma tossida vindo da porta da sala de enfermaria.

– Celine seu avô e a senhorita Jessica te esperam. — Madre Suh falou em um tom sério, que me fez pular no ato da cadeira e a seguir.

Ela parecia... triste, não brava como eu esperava. Quando eu passei por ela, Madre Suh virou meu rosto com uma das mãos para olhar melhor meu pequeno corte.

– Ah, minha criança, não faça isso com você...

Somente acenei com a cabeça e segui em frente, deixando Madre Suh e Victória para trás.

Na sala do meu avô o clima estava tenso. Olhei para Jessica sentada, com um saco de gelo sobre o nariz inchado.

Instantaneamente lembrei do que ela estava gritando durante a briga...

Flashback

– VOCÊ É SIM UMA ASSASSINA, VOCÊ O MATOU! VOCÊ O SEDUZIU E QUANDO ELE NÃO TE QUIS VOCÊ O MATOU...

– Jessica, o que você tem se chama burrice, você não tem ideia do que aconteceu aquela noite. Eu apaguei na floresta, Will bateu a moto enquanto voltava pra mostrar o caminho pros médicos.

– VOCÊ O MATOU, ELE DEVERIA TER TE DEIXADO LÁ ENTÃO.... VOCÊ O MATOU...- Jessica começou a soluçar enquanto abraçava os joelhos sentada no chão. — Você o tirou de mim..

E foi ai que tudo fez sentido. " Você o tirou de mim". Aquele ódio, as ofensas gratuitas. Sim Jessica continuava sendo uma vadia, mas ela tinha o próprio motivo distorcido. Eu pensava que era só homofobia mesmo, junto com um ego enorme.

E me veio como estalo. Will me contava tudo. Inclusive que ele era pedido em casamento todo o dia, pela menininha filha da vizinha. Ele achava aquilo engraçado e falava que somente quanto ela crescesse e se formasse que ele aceitaria a proposta. E depois me contava que era uma garotinha muito fofa e inocente e que ele sempre ria enquanto ela reclamava que ia demorar muito pra ela formar. E que ela queria ser modelo e não ir pra faculdade.

E nós dois riamos a beça com isso. Já que eu estava me mantado de estudar só pra passar em qualquer faculdade.

Mas a garotinha fofa e inocente cresceu não é? E estava ali me arranhando e chorando feito um gato acuado.

Eu não tive mais vontade de bater nela depois disso. Ela estava tão patética no chão, chamando pelo Will que eu simplesmente deixei que a Victoria me guiasse pra enfermaria.

Agora eu estava aqui, nessa sala pequena demais pra aguentar o tamanho do ódio daquela garota por mim.

– Celine, sente-se. — meu avô estava com um olhar impassível. E eu sabia que tudo que eu podia fazer agora era obedecer. — Como regra do colégio vocês duas estão suspensas até a semana que vem.

– Mas senhor a peça é daqui dois dias... — Balancei a cabeça, Jessica falava aquilo porque não conhecia a fera. Aquilo não era um dialogo, era somente um que falava. Os espertos obedeceriam

– Pensassem nisso antes de brigarem nas dependencias da minha escola. Manchando o senso de racionalidade e respeito desse lugar.- Jess fechou a boca instantaneamente. — Agora peço que conversem e se resolvam. E se eu ouvir algum grito, as cartas de expulsão estão carimbadas já, só precisarem de alguns segundos para assiná-las.

Max se retirou de forma elegante da sala, me dando calafrios. Ele sabia ser profissional, tanto que mal me olhou nos olhos. Eu amava meu avô e por mais que brigassemos eu sabia que ele estava preocupado. Só que como diretor ele tinha que manter a ordem. E eu tinha que resolver essa história aqui e agora.

– Sabe Jessica, não foi minha culpa, foi um acidente. Will estava distraído e o caminhão vinha rápido demais...

– Só que foi você du Mas que o levou até lá, se não fosse você ele estaria do meu lado agora...

– Você sabe que foi idéia dele, porque naquele dia ele passou na sua casa antes de me buscar. — Jessica me olhou assustada naquele momento. Me assustei porque um brilho apareceu nos olhos dela.

– Ele falava de mim?

– Sim Jessica, você vivia pedindo ele em casamento... -Ela corou naquele momento.

– E ele, ele pensava em mim? Ele me achava bonita? — Ela agora tinha colocado uma das mãos no meu braço, como se não tivessemos saído no tapa horas atrás.

Foi ai que eu entendi, não era ódio. Era um ciúme doentio. Jessica amava o Will e eu estive sempre no caminho.

De repente eu senti pena... não me julguem mal, não me arrependo de ter batido nela, nem perdoo tudo que ela me fez. Só que não é triste, viver apegado a algo que não existe mais? A verdade nada mais é do que aquilo que queremos acreditar. Eu queria acreditar desesperadamente que a Victória me amava. Jessica queria acreditar que Will estaria com ela se não tivesse morrido.

Nós eramos diferentes mas ainda assim, depositávamos todas as nossas esperanças em suposições. E Jessica nunca teria como saber, e eu talvez não gostasse de descobrir.

– Ele falava que você era uma criança fofa e engraçada...

– Mas era você que ele amava, você era mais madura que eu e mais inteligente. — Jessica me encarava agora. Eu tinha que ser rápida ou aquela conversa não valeria nada.

– Jess, todos nós eramos crianças. Will era muito novo pra saber o que queria para vida toda. Se ele visse você agora, linda e madura, você tem dúvidas de quem ele escolheria? — Ok. A primeira parte podia ser, mas a segunda NEM QUE O INFERNO CONGELASSE.

Mas eu tinha ligado o Modo du Mas de " cinismo e convencimento" cultivado através de gerações. Eu queria que ela largasse do meu pé. E eu faria tudo o que estivesse no meu alcance.

– É verdade, você não teria chances. Eu podia ser infantil naquela época mas agora, olhe pra mim! — Preferi não olhar, eu ia acabar fingindo que estava vomitando e isso acabaria com meu plano. — Eu sou a aluna modelo enquanto você a rebelde que gosta de meninas.

– É eu realmente gosto de meninas.

– É verdade!? Você é estranha, tenho certeza que Will iria voltar pra mim...

Vou dizer uma coisa. A G-A-R-O-T-A É D-O-I-D-A. Desliguei um pouco escutando os devaneios dela. Todo aquele tratamento por conta do ego. Por conta de uma paixão infantil. Talvez você pense que isso é improvável. Mas você realmente não tem aquela amiga que sempre volta pro mesmo assunto e enquanto suspira fala de novo " ah...mas se eu não tivesse feito isso tudo teria sido diferente" ou o famoso " Ah, ele fez isso mas era porque no fundo ele sentia outra coisa e não sabia como lidar".

No fundo cada um tem a sua loucura. A da Jessica era aquela e eu me levantei porque escutá-la já estava me dando calafrios.

Quanto estava perto da porta, eu escutei ela me chamando.

– du Mas, eu queria pedir uma coisa. — Revirei os olhos. Estava bom demais pra ser verdade.

Jessica jogou um molho de chaves e eu peguei no ar. Parecia familiar...perai isso era meu... Estava no porta luvas do carro...

Ah, Rony, eu te mato.

– Era você que ele queria agradar? — Ela levantou as mãos fingindo uma cara de culpada. — Mas pra que essas chaves?

Era um segredo. Eu tinha feito a cópia da sala do meu avô. Para ter acesso aos cadastros e quem sabe, encontrar meu histórico ou deletar o contrato e vazar daquele lugar.

Mas ai a Vicky me apareceu e aquele plano evaporou da minha mente. Mas porque Jess ia precisar daquilo. Ter todo o trabalho de seduzir um adolescente ( como se fosse muito trabalhoso) pra aumentar as notas? Ver os arquivos de alguém?

– Sabe não fique brava, ele não sabia. — Ah eu já estou brava, Eu vou estrangular aquele geek, com o controle do xbox dele. — Sabe ele até que é fofo, me contou das chaves de acesso, mas nem reparou que eu as levei embora do carro.

– E porque me devolver agora?

– Sabe eu queria fazer com que a Victória visse o erro que estava cometendo, que entendesse que ela não podia jogar a vida dela pro alto... por uma gentinha... como você. Sem ofensas.

Só a olhei de volta. Eu não estava entendendo. Victoria realmente estava sentindo alguma coisa por mim. Mas que merda Jess poderia fazer...

– Então eu peguei e fiz uma ligação...

– Jess você precisa ser mais clara, eu não estou te acompanhando.

Ela bufou e se levantou enquanto falava.

– Eu já sabia que não seria mais Romeu... Até porque estou dando as chances da Victória estar com o principe encantado dela. E para isso precisava dos arquivos de matrícula.

– Principe encantado?

– Você vai ver du Mas... — Jess olhou pro relógio com desdém — Ele já deve estar no teatro, e a Victória deve estar radiante. Mas relaxa, esse é o ultimo favor que eu faço para ela e você. Tenho que cuidar da minha vida e da minha carreira....

Sai correndo deixando que ela falasse sozinha. Abri as portas do teatro, com meu coração saindo pela boca. Que raios foi esse papo de principe encantado?

Mas eu saquei, saquei na hora que entrei no teatro e vi a senhora Macnally dando tapinhas nos ombros de um garoto e aplaudindo a cada vez que ele falava algo.

Ele era lindo. Não muito alto, usava um terno apesar de provavelmente ter no máximo uns 20 anos. Mesmo com o terno dava pra ver que ele era forte, provavelmente um atleta. Os olhos dele eram verdes e o cabelo preto com gel arrepiado, fingindo um descaso. Todo aquele visual teria feito qualquer garota perder o ar.

Mas eu fiquei sem ar. Mas não por isso, nem de longe foi por isso. Ele estava casualmente com um braço em volta da cintura da Victória.

E quando eu cheguei, pude ver que ela virou o rosto. Mas Macnally já tinha me visto.

– Ah, du Mas... sua arteira... mas não se preocupe, o senhor Bruno....ah que maravilha, poderemos colocar sexos diferentes pro casal, porque creio que nesse caso, os pais não verão problemas... e ainda teremos um Romeu tão bem apessoado... ah....

– Nesse caso? — Eu devia parecer um papagaio naquela hora.

Bruno veio até mim trazendo Victória. Ele estava com um sorriso no rosto. E parecia sincero, continuou com aquele olhar feliz enquanto me estendia a mão.

– Muito prazer Celine, posso te chamar assim? — Só consegui acenar que sim com a cabeça, meus olhos estavam vidrados na Victória, que ainda não me olhava nos olhos. — Vivi me falou muito de você, estava preocupado no começo, mas pelas histórias dela, a senhorita transformou os dias nublados em momentos felizes. E tenho muito a agradecer por isso.

– Ah, de nada...

Continuava olhando para Victoria,e ela agora abraçava o próprio corpo, se afastando do corpo do Bruno. E ela finalmente me olhou, e eu pude ver seu rosto contorcido. Ela parecia prestes a desabar, como se não conseguisse segurar o choro. Ela me olhava e aqueles olhos pareciam estar vendo o fim do mundo.

Só que eu ainda apertava as mãos do garoto, e as engrenagens da minha cabeça já estavam processando tudo aquilo. Eu tinha entendido, e tudo que eu queria era sair de lá. Mas antes disso, ele apertou mais uma vez minha mão. Aquele sorriso me embrulhava o estomago agora.

– Nossa, que cabeça a minha. Esqueci de me apresentar, sou Bruno Casablanca, noivo da Victória. — Ele ainda não tinha percebido que Victória não estava correspondendo a alegria dele.

Eu desejei a eles uma boa peça e sai cambaleando, tudo rodava na minha cabeça. Noivo. Minhas mãos e as dela entrelaçadas. Noivo. Meu sonho, os cabelos dela. Noivo. Aquele beijo roubado, ela me dizendo que não tinha chorado por minha causa. Noivo.

Nem sei como cheguei na estufa da biblioteca, mas olhei para o sofá e me joguei nele. Minha mente estava fazia.

Quanto tudo estava indo bem, um furacão arrasta toda minha felicidade pra longe.