Eu estava passando dos limites, como sempre, até onde eu sabia invasão de propriedade privada não era algo que meu avô pudesse me livrar tão fácil. Mas se pular o muro, rastejar pelos arbustos do jardim e escalar até a varanda do quarto da garota que você sente tanta falta ( mesmo em menos de 24 horas) que chega a te partir por dentro for crime. Eu não teria como me importar menos. Victoria preenchia minha mente, e isso estava me consumindo por dentro.

Tentei limpar minha roupa como pude assim que cheguei na varanda, mas tive que me conter até que as luzes da casa estivessem apagadas. Se o Sr. Curtis me visse sabe Deus o que ele faria comigo. Respirei fundo, mas hesitei ao abrir a maçaneta da porta. E se ela tivesse caído em si? Se o pai dela tivesse a ameaçado mais, ceus! Se ele tivesse encostado mais algum dedo nojento nela, eu juro que...

Mas eu não consegui manter meus conflitos internos por muito tempo, consegui ouvir uma musica vinda do quarto da Vick, e eu conhecia cada verso. Era minha pasta que estava tocando baixinho. As musicas que me lembravam dela. E de repente a necessidade de vê-la se tornou tão urgente, que eu simplesmente abri a porta devagar.

"And when the daylight comes I'll have to go, but tonight I'm gonna hold you so close"

O quarto da Victoria era simples. Seu abajur iluminava muito pouco do ambiente, tudo que pude diferenciar foi uma escrivaninha com livros e livros mal empilhados, como se ela lesse todos ao mesmo tempo e não conseguisse decidir qual colocar na prateleira. O guarda roupa e a estante ocupavam quase todo o resto do quarto, e a luz do espelho refletia um pouco da luz que vinha da cama dela. E Victoria estava lá. Deitada com os cachos bagunçados enquanto a musica tocava do notebook. Senti um aperto no peito, tão pouco tempo e tanta coisa que gostaria de saber dela.

Mas primeiro precisava avisar minha presença sem que ela surtasse ( afinal pelo menos no meu caso, se percebesse alguém andando no meu quarto a noite, eu gritaria como uma louca e checaria quem é só depois de acordar a vizinhança inteira. Poisé, filmes de terror demais pra se correr o risco de perder tempo, ou esperar que uma garota estivesse fazendo uma visita noturna)

Esperei a musica acabar e me direcionei para o ponto em que a luz da lua entrava pelas frestas da cortina.

– Sabe, essa musica não poderia se encaixar melhor no momento....

Victória abriu os olhos e se levantou da cama em um pulo. E toda essa velocidade acabou quando ela se levantou da cama. Até aquele momento ela pareceu não acreditar que era verdade.

– Celine... o que você....- Eu não consegui deixá-la falar, acabei com o espaço que havia entre nós, e com uma das mãos na cintura dela, puxei Victoria para um beijo. No começo foi calmo, eu precisava sentir os lábios dela nos meus, saber que era real, mas logo quando ia me afastar, Vick me puxou pela nuca e nosso beijo se tornou urgente. E eu correspondi com toda vontade que eu tinha, todo o medo de perdê-la, todo o amor que eu tinha por aquela garota, tudo em um só beijo, como se não houvesse outra chance dessas.

Afastamos nossos rostos um pouco, minha respiração estava ofegante e pude ver que Victoria agora lembrava também que respirar era importante.

– Celine, se pegarem você aqui, meu pai, ele....

– Eu sei, eu sei, mas eles não vão me pegar.- disse isso sorrindo passei meus dedos de leve sobre um lado do rosto dela, eu queria lembrar cada detalhe. Senti então como se tivesse levado um soco no estomago, uma das bochechas dela estava com um arranhão bem pequeno. Provavelmente do anel do idiota do pai dela. — Eu queria ter impedido, eu não suporto imaginar que machucaram você e eu não consegui fazer nada... eu...

– Shhhh, não não fale assim.- Victoria falava tão baixo, quase um sussurro e me abraçou forte. — Eu não sei como as coisas serão, mas eu não vou depender dele para sempre, só que...amanhã depois da peça, ele quer que eu vá com Bruno para a França...para acabar meus estudos e fazer uma faculdade lá.

Eu pude ver, mesmo com a luz fraca que pequenas lágrimas rolavam sem controle pela face dela. Aquilo me partiu em duas.

– Celine, esses últimos meses, eu queria ter entendido antes, eu queria ter passado tanto tempo com você...parecia que ia ser sempre assim...e agora talvez a gente nunca mais se encontre.

– Victoria, confie em mim. Eu conversei com meu avô e ele disse que me ajudaria. Eu não posso prometer que não vamos nos separar mas eu vou tentar tudo, tudo que for possível e impossível para você ficar... porque eu te amo.

– Eu estou com medo.

A abracei mais uma vez, e ficamos lá não sei quanto tempo, sem falar nada. O medo dela era o meu medo afinal. E parecia um momento tão frágil, que algum gesto errado poderia desmanchar tudo. Quando percebi que Vick estava lutando contra o sono, ela insistiu para que eu não fosse embora. E eu esperei até que ela durmisse, encostada em meu peito. Me afastei lentamente quando ela caiu no sono, se não usasse toda minha coragem no momento não me afastaria nunca daquela garota. E eu precisava sair antes que amanhecesse. O caminho de volta parecia mais silencioso do que nunca, eu estava perdida em possibilidades para lidar com a situação. Para evitar que ela fosse embora.

Me lembrei da conversa que tive com meu avô, logo depois que os pais da Victoria a arrastaram para casa. Max tinha pedido pelo telefone para encontrá-lo em uma das salas do ultimo andar. Ele estava lá, assinando alguns documentos enquanto Madre Suh os carimbava.

– Celine, pelos Céus, seu uniforme está uma bagunça, você correu a maratona antes de chegar aqui? — Meu avô olhava com reprovação para meu uniforme pela metade, a camisa social para fora da calça jeans, e meu cabelo devia estar totalmente bagunçado. Podia não ser uma maratona, mas eu tinha corrido feito uma louca até lá.

– Vô, você precisa me ajudar, Vick o pai dela quer arrastá-la para um internato... na França!

– Minha criança, eu sinto muito que vai se afastar da sua amiga, mas é uma decisão dos pais dela.

– NÃO! Eu vi o que ele fez, ele apavora as duas, a mãe da Victoria estava apavorada...ele...ele bateu na Victoria...e parecia que violência não era algo incomum naquela casa...

Meu avô finalmente parou o que estava fazendo, agora eu tinha sua atenção.

– Celine, violência doméstica é algo muito grave, contra uma menor é um crime pesado.

– Max, ela esta falando a verdade, eu vi o que houve naquele corredor, eu cheguei para impedir que algo pior ocorresse. — Madre Suh, o fitou com firmeza. — Mas não sei o que pode ser feito, afinal não se pode interferir na escolha de criação ditada pelos pais.

– Celine, sinto muito querida, a situação é ruim mas o Sr. Curtis pediu os papéis de transferência já. Amanhã Victoria já pode ser matriculada em outra escola. Eu preciso de um tempo para pensar se há alguma possibilidade para resolver isso. Por favor Celine, vá para casa.

Eu sai de lá com a cabeça cheia, eu me sentia impotente por ser só uma "criança" sem poder para mudar nada, nem ter a garota que eu amo comigo. Isso é tão injusto. Cheguei em casa quase amanhecendo, meus momentos com a Vick, planos mirabolantes, mas nada vinha na minha cabeça. Assim que encostei minha cabeça no travesseiro eu apaguei.

Quando dei por mim, senti um vento forte bater no meu rosto, eu não estava mais no meu quarto. Eu estava num penhasco, e já sabia o que viria. Will já estava próximo a beirada, me olhando. Só que dessa vez eu não sentia medo. Já tinha um pesadelo na vida real para me atormentar.

Agora era hora de acertar as coisas com a minha própria cabeça.