Uma garota e seu caderno
2 Mãos geladas
Notas iniciais
Talvez se eu lembrasse daquela noite, seu sorriso pudesse ter restado em minha mente. A unica lembrança de uma vida, apaguei por completo. Havia eu prometido lembrar de ti? Havia eu prometido pensar em ti?
Seus sorrisos sempre me faziam sentir aquilo. Aquele momento era o melhor de meus dias. Você sentava naquele banco e esperava-me chegar, trazendo margaridas brancas, como sempre fazia. Sempre atrasando, você dizia. E eu apenas te abraçava.
Todas aquelas promessas que te fiz. Valeu a pena? Tudo o que te falei foi sincero. Eu esperei até o momento certo, até aquela sexta-feira de lua cheia, dia 27 de janeiro, para pedir-te em casamento. Lembro-me perfeitamente que você chorou, me abraçou, me olhou e selou nossos lábios em um beijo. O melhor beijo.
No dia do casamento, lembro perfeitamente de teu vestido branco. Longo e rendado. Você se segurava para não chorar, não queria borrar sua maquiagem. Julguei ser bobagem, mas logo percebi o quanto pensei errado.
Lembro quando disse que iria aquela festa. Poderia ter te impedido, mas não o fiz. Deixei que fosse. Não queria ter deixado. Sabia o que aconteceria depois. Só quis ser a pessoa que prometera ser boa para você. Que prometera te dar liberdade. Me arrependo cada dia mais de ter deixado.
Hoje estou aqui, sete dias depois daquela noite, olhando para ti, a mulher que amei. Vestida naquele vestido amarelo que lhe comprei. Olhos fechados. Lábios carnudos com batom vermelho. Cabelo castanho solto, caindo em ondas por seus ombros. Toco em suas mãos. Estão geladas. Você está pálida. Você está morta.
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