Minha vida mudou antes mesmo de ele chegar. Não tive um desses momentos épicos das histórias em que o protagonista é atingido por algum acontecimento terrível ou transformador. Eu estava tomando chá.

A Primeira Igreja Renovada sediava, semanalmente, um chá para as damas da cidade, enquanto os homens se reuniam para o jogo semanal de golfe. Mulheres vestidas em elegantes trajes em tons de pastel, ostentavam as diferentes jóias que ganharam de seus maridos no decorrer da semana (geralmente porque ele fora pego com a amante no único hotel da cidade, o que todos sabiam e fingiam não saber). Sentavam-se nas cadeiras caras, tomavam seus chás e comiam biscoitos coloridos, enquanto falavam sobre suas vidas tão amenas.

Eu fui uma delas. Estava sendo uma delas, ali, sentada entre a senhora Millania Lane, mãe de William, e a senhora Miracle Greene (que, vai por mim, é nada “milagrosa”). Eu as ouvi falar, pacientemente, sobre como é difícil encontrar um jardineiro de qualidade atualmente. As ouvi dizer sobre o tamanho que a grama devia ter e sobre o horário correto de cortá-las. Enquanto as ouvia, as imaginava como uma raça de alienígenas tão curiosa que, talvez, se eu prestasse bastante atenção, conseguiria evitá-las no futuro.

Mas, para lhe ser sincera, até aquela tarde, jamais parei para pensar que eu também era uma das dondocas com dinheiro e tempo demais, vestida num maldito terninho cor-de-rosa. Até aquele momento, seguia minha vida numa espécie de piloto automático. Eu ia nos eventos da igreja, todos eles, cantava os hinos, lia a bíblia junto ao ministro, me reunia com os jovens da minha idade no sábado à noite (no culto, é claro), fazia os eventos de caridade… Sempre um dia após o outro. Não havia muito o que pensar. Minha vida estava pronta, escrita por alguém. Eu só precisava atuar.

Até, é claro, aquela conversa (que se provaria muito libertadora). A senhora Lane abandonava sua indignação para falar do filho. William realmente é um rapaz muito bom, nas poucas vezes que conversamos, ele não me entediou completamente, mas sua mãe enfeitava muito a coisa toda. Ele era um bom rapaz, mas não era um novo Jesus Cristo como ela fazia parecer.

— Então… — ela se interrompe, com as reticências claras no jeito que falava. — O que acha do meu William?

Naquele momento, aquele em específico, eu devia ter reparado que havia algo errado, devia ter apanhado algum tipo de aviso, para pelo menos não me surpreender tanto com o que estava por vir. Mas, como já lhe disse, até aquela conversa, eu estava no automático.

— William é um bom rapaz. Papai disse que talvez ele se torne prefeito um dia — respondo com naturalidade. As palavras não eram minhas. Só repetia o que papai sempre dizia (o que também devia ser um sinal).

Eu não vi o olhar que a senhora Lane e a senhora Greene trocaram, mas fui avisada sobre ele mais tarde, quando minha única amiga, Lily Kemp — a menina sentada no fundo da sala jogando um jogo barulhento em seu celular —, me ouviu chorar. Segundo ela, as duas pareciam dois enormes abutres analisando a mais nova presa.

— Fico feliz que pense assim. O casamento de vocês será o mais lindo da cidade. Estava pensando em reservar o Chateau Resort para… Três meses — senhora Lane começa a tagarelar, cada palavra caindo no “chão” da minha consciência como pequenas pedras, que se acumulavam e pesavam em mim. — Tenho certeza de que conseguimos contratar um bom buffet, a florista e a decoradora a tempo.

Não acho que consigo descrever o que aconteceu comigo naquele exato momento. Mas… Sabe quando dizem que quando você está morrendo um filme sobre sua vida passa por sua cabeça? Então, eu sentia como se estivesse morrendo. Mas não vi o passado, vi o que o futuro me prometia. Me vi casando com William, usando um vestido enorme (para competir com o vestido que a filha do Ministro usou no casamento dela). Logo, me vi grávida, enquanto carregava outra criança, loirinha, nos braços. Me vi assando tortas de maçã. Me vi brigando com William porque havia me traído com a treinadora de tênis do Country Club. Me vi mandando meus filhos para a faculdade. E, pior, me vi sentada, anos no futuro, naquele mesmo sofá, falando sobre meu próprio jardineiro.

Minha vida já havia sido traçada. E perceber isso me enlouqueceu.