Uma garota comum

2 Capítulo Um — Uma jóia


Eu me chamo Isla. Eu sei, é um nome estranho… Às vezes parece o nome de outra pessoa, não meu. Mas foi o nome que minha mãe, a verdadeira, escolheu, em homenagem às minha bisavó. O nome significa "mulher de vontade"... O que é uma piada, convenhamos. Uma ironia.

Nasci em Hudson, no Condado de Columbia, no estado de Nova York. Uma cidade tão pequena que todos estavam no casamento dos meus pais, quase trinta anos atrás. Segundo minha avó, o casamento deles foi o evento da década. Trouxeram um parque de diversões para que todos da cidade pudessem ir. Papai e mamãe fizeram seus votos no topo da roda gigante. Sempre adorei a história, mas, para mim, sempre foi como conto de fadas, uma história bonita e fantasiosa, mesmo quando ainda era bem novinha.

Meu pai nunca foi, para mim, o homem dessa história.

Mamãe morreu quando eu nasci. Vovó me contou, várias vezes, que foi uma gravidez de muito risco. Os médicos haviam sugerido que ela fizesse um aborto e tentasse novamente depois de um tempo. Mas ela se recusou. Havia tentado engravidar por longos anos e estava tão feliz por finalmente ter conseguido, que ignorou todos os avisos dos médicos e seguiu, para morrer na sala de parto. Por muito tempo, saber disso, ouvir sobre isso, me fez sentir tanta culpa. Para ser sincera, ainda faz, apesar de saber, hoje, que é irracional.

Depois da morte dela, vovó diz que meu pai jamais foi o mesmo. Ele se tornou o prefeito da cidade, se casou com Antonella, a filha do Ministro da época, comprou uma casa maior, enriqueceu. E continuou enriquecendo. Sempre vi meu pai como um homem muito sério. Ele sempre fez minhas vontades, desde que eu era muito nova, mas eu não me lembro de meu pai alguma vez ter me colocado para dormir ou cuidado de mim quando fiquei doente. Sempre que algo acontecia e ele me via chateada, papai me dava um novo presente.

Eu não estudei numa escola comum, sempre tive uma professora particular. Quero dizer, "professoras". Antonella dúzia que não era bom que eu firmasse laços com uma delas, porque isso me deixaria influenciável. Deus sabe o que uma daquelas mulheres, em sua maioria mulheres solteiras que haviam se dedicado demais, segundo minha madrasta, às sua carreiras para serem aceitas por um homem. Antonella fazia questão de controlar o que eu aprendia, também. Segundo ela, uma mulher não podia ser inteligente demais. Isso era intimidador para os homens.

Quando aquele fatídico dia, que lhe contei, aconteceu, alguma coisa mudou em mim. Era como se da noite para o dia, eu acordasse de um sono profundo que havia durado a minha vida toda.

Depois de uma tarde de risos nervosos e um esforço imenso para desconversar, eu cheguei em casa mais cansada do que posso descrever. Havia feito nada, só passado o dia todo com as dondocas de Hudson, mas meu cansaço era mental, espiritual, até. Minhas energias estavam drenadas. Quando papai me viu, ele soube imediatamente que algo havia acontecido.

— Que cara é essa? — ele, Elliot Bradley Sutherland, meu pai, deixa aquele cachimbo estranho de lado e se ergueu de sua típica poltrona para vir até mim.

Eu não sei explicar, não de maneira satisfatória, o que eu sinto (senti) por meu pai. Ele não era o pai mais afetuoso do mundo. Ele não me defendia quando Antonella dizia os absurdos que dizia. Ainda assim, ele estava ali. Eu sempre soube que meu pai não seria o tipo de pai que sopraria meus machucados quando eu caísse, mas eu sempre soube que ele seria o tipo de pai que não me deixaria cair, mesmo que isso significasse tirar minha liberdade. E a possibilidade de viver algo novo.

Quando o vi, logo depois daquela tarde infernal, me senti aliviada. Pensava que meu pai entenderia quando eu falasse sobre a maluquice que havia ouvido da senhora Lane. Pensei que papai me protegeria, como as tantas vezes que ele o havia feito, e não permitiria que eu tivesse aquela vida infeliz, tediosa e triste que as mulheres de Hudson viviam, na minha visão. Por isso, não pensei duas vezes antes de desabafar.

— O senhor não vai acreditar na maluquice que ouvi da senhora Lane... Ela começou a falar sobre eu me casar com o William em três meses — disparei a falar, sem parar para respirar... O que, talvez, me fez soar um pouco aguda demais.

— Isla — papai tenta me interromper uma vez. Mas eu estava frenética demais.

— Você pode acreditar nisso? Em três meses! Com William! Papai, eu sou tão nova, ela não pode esperar que eu vá me casar com aquele... Aquele... — droga, eu não conseguia pensar em nada ruim para nomear o maldito. — Ah! O senhor acredita que...

— Isla, fui eu quem fez os arranjos — papai me interrompe, cortando minha fala e destruindo o que restava de "normal" na minha vida.

Você deve ter assistido a uma cena assim em desenhos animados em algum ponto da vida. A cena em que dois rivais estão brigando e um deles deixa cair sobre o outro uma pesada bigorna de metal. Eu me senti como o personagem amassado naquele momento específico em que papai derrubou sobre mim a notícia de que era ele o carrasco dos meus poucos sonhos.

Tenho certeza que estava visivelmente abalada pela notícia, dei um passo para trás, para longe dele, quando o ouvi. Eu precisava ver que expressão ele tinha quando me dizia que havia orquestrado um casamento que eu não queria com um homem que eu não amava, que sequer conhecia. E ele parecia tão pacífico quanto sempre parecera. Era como se não estivéssemos a falar sobre a minha vida.

— Espera — sinto a risada nervosa escapar de mim. Não tinha muita energia para controlar minhas reações no momento. — O senhor está me dizendo que quer que eu me case em três meses com um homem que eu não conheço? Está me dizendo que até essa escolha você quer fazer por mim? Até essa?

Não acho que em qualquer momento da minha vida, nem no auge da adolescência, falei com meu pai daquele jeito. Havia aprendido muito cedo, com as surras de Antonella, que devia falar como uma dama, sempre suave, serena e tranquila. Papai nunca me ouviu erguer a voz assim. No entanto, aquele estava sendo um dia de enorme luto para mim...Talvez seria para ele, também.

— Não se exalte, filha — papai franze a testa, parecendo tão surpreso quanto eu sabia que ele se sentiria. — Não sei porque você está tão irritada. Te criamos para isso. Para ter um bom casamento.

Se eu dissesse que não sabia disso, estaria mentindo. Papai e Antonella me educaram para ser uma boa esposa, boa mãe e a senhora de uma casa. Eu sempre soube que as meninas que eu via pela cidade ou nos programas de TV não estudavam como administrar os materiais domésticos ou qual inseticida usar nas flores do jardim. Me acostumei com a ideia certo. Ponto. Mas, para ser sincera, idealizei algo e me apeguei tão firmemente a isso para suportar a insanidade dos últimos anos. Imaginei que um dia papai faria negócios com um homem de fora, possivelmente um italiano de uma família enorme e calorosa, e esse homem se interessaria por mim, papai ficaria muitíssimo satisfeito e me casaria com ele. Esse homem me levaria embora, para longe de Hudson, longe de meu pai e de Antonella.

Nunca, nem em meus piores pesadelos, me imaginei morando ali, em Hudson, convivendo com as mesmas pessoas… Pelo resto da vida.

— Mas, papai, não devia ser uma decisão sua quando ou com quem eu me caso — eu bato o pé, literalmente, o que eu acho que me tirou um pouco a credibilidade. — Eu não quero me casar com William. Não quero viver aqui para sempre. Papai, você não pode querer que eu me torne ela.

Ele não precisava que eu dissesse a que me referia a Antonella, a ênfase que dei foi mais do que suficiente. Assisti enquanto papai respirava fundo, tentando manter a calma, para não repetir o acontecimento de anos atrás, eu tinha certeza.

— Mas escolhi. E você vai se casar com ele, sim. Você jamais poderia escolher por si mesma, Isla. É tão boba e inocente quanto sua… — ele se interrompe quando aquelas palavras que ele tanto odiava dizer quase saem por sua boca. Seu rosto, já tão branco, empalideceu ainda mais.

— Quanto minha mãe — eu completo por ele, num sussurro. — Você quis dizer que eu sou tão boba e inocente quanto a minha mãe.

Minha mãe não nasceu para Hudson. Ela era como um pequeno raio de sol que teve o infortúnio de cair numa cidade tão fria, de costumes tão estranhos. Mas ela nunca se encaixou aqui… Abuela me contava as histórias mais engraçadas sobre ela, principalmente quando eu adoecia. Ela me contava histórias sobre como minha mãe havia colocado vodka no ponche do baile anual da igreja e havia deixado todo mundo bêbado. Sobre como mamãe colocou almofadas de pum em todas as poltronas na igreja… Algo que eu daria tudo para ver.

— Se o senhor me fizer casar com William, sabe que vou ter o mesmo destino que ela — eu digo, por fim, antes de sair dali e correr para o meu quarto.

Mamãe jamais se encaixou. E ter que ficar ali, em Hudson, com os costumes tão conservadores, com as fofocas, os maldizentes… A deprimiu. Abuela me conta que ela foi murchando aos pouquinhos de tristeza, como uma flor que vai perdendo a cor lentamente. Morreu por não se alimentar, por não se hidratar, por não se levantar da cama, enquanto papai viajava a negócios. Talvez, dizer aquilo para ele fosse maldade minha… Mas ambos sabiam que era verdade.

Quando eu era criança, enquanto ouvia as histórias sobre a minha mãe, imaginava que, um dia, poderia ser como ela. Um dia, quando crescesse, quando papai já não mandasse em mim e Antonella já não pudesse me ameaçar. Me imaginei tão espontânea e corajosa quanto a minha mãe, ao ponto de abandonar toda sua vida para viajar em busca de aventura. A diferença era que eu não me via terminando minha viagem em Hudson ou qualquer coisa equivalente.

Ainda muito nova, talvez uns nove anos, comecei uma lista. Coloquei nessa lista tudo o que eu queria fazer antes de morrer ou, como o nome que eu dei na época: coisas para fazer antes de ficar velha e chata. Nunca, até aquele momento, eu fui capaz ou corajosa o suficiente para fazer como minha mãe e abandonar a vida confortável que eu tinha. Convenhamos que sofrer com jóias penduradas em seu pescoço e adornando sua mão é muito menos penoso do que sofrer como uma pessoa comum.

Mas na manhã seguinte, depois de chorar a noite toda porque não conseguia ter qualquer ideia sobre como fugir daquela sina, levantei-me para ser surpreendida pela ideia que me salvaria que havia sido dada por meu pai, sem perceber.

Desci para o café da manhã determinada a não trocar com ele uma palavra sequer. Muito menos com Antonella. Como me sentei na minha cadeira de costume, à esquerda de meu pai e de frente para minha madrasta — que ostentava os cabelos pretos presos num coque refinado, que alongava ainda mais seu pescoço. Assim que acomodei o lenço sobre meu colo e me preparei para me servir com o costumeiro suco de laranja, papai colocou a minha frente uma caixinha de veludo azul, que só podia vir de uma loja cara.

— Você foi se deitar muito chateada ontem, querida — ele abre um daqueles sorrisos diplomáticos que erguia, bem levemente, as rugas ao redor de seus olhos azuis. — Comprei-lhe um presente. Sei que gosta de anéis bonitos.

Naquele momento, naquela fala em especial, papai me fez recordar todas as vezes que ele me presenteou com algo caro quando algo dava errado. Quando quebrei o braço brincando no jardim e ele me proibiu de voltar a brincar, papai me deu uma gargantilha de ouro. Quando tirei uma nota ruim nos exames e Antonella me puniu batendo em minhas mãos até que mal pudesse usá-las, papai me deu um bracelete. Eu me descobri colecionando totens caros de desculpas. Agora, ao planejar me casar contra minha vontade, papai se desculpava com um lindo anel de incrustado de diamantes.

— Ele é lindo — é tudo o que eu digo, segurando a caixinha entre os dedos. Não consigo lhe explicar com precisão o que eu estava sentindo, mas tudo aquilo se avolumava em meu estômago, como se houvesse engolido uma enorme pedra.

— Lindo e caro — papai ri, ao que é ecoado por Antonella, que, claramente, não achava graça. — Essa belezinha me custou vinte mil, Isla. Mas você merece. Vai deixar seu pai muito orgulhoso.

O tom dele deixava claro que considerava a discussão de ontem superada. Considerava o casamento marcado e minha concordância insignificante. Mas eu não achava devesse mais discutir… Afinal, se aquele anel valia vinte mil, quanto mais conseguiria por todos os presentes de desculpa que havia recebido dele todos aqueles anos?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.