Uma flor
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Ele tinha um segredo. Todos tinham, mas este era diferente. Não só por manter-se segredo ao longo dos anos, mas pelo valor que tinha. Todo segredo tem um valor, mas este era especial. Como era especial, cultivava-o toda madrugada. Por que na madrugada saía de fininho para dar a devida atenção ao segredo. Fazia isso já há anos. Era sempre entre às quatro e cinco da madrugada, quando os pássaros começavam a cantar. Subia uma ladeira íngreme que dava para uma encruzilhada, seguia os trilhos do trem até um amplo campo, depois adentrava o bosque e seguia o caminho de uma trilha. No fim da trilha parava no centro de uma clareira, em frente a um banquinho feito de um tronco velho. Sentava no tronco e apoiava a cabeça numa árvore, pensava. Depois erguia-se e se dirigia para um vaso deixado embaixo de outra árvore, no vaso se achava uma única flor, uma flor que crescera tanto que batia no tronco, assim, imitando-o. Passava o dedo em cada pétala, com cuidado e sem pressa, sentindo no tato a sua delicadeza, um macio acolchoado. Depois, tirava da mochila que trouxera consigo um cantil e a regava.
Retornava para casa e voltava a dormir.
Só acordava para arrumar a casa, e mais tarde montar a barraca. Era o seu pequeno ritual do dia a dia, e se alegrava com ele, com esses pequenos momentos. Desde criança acreditava que nascera para saciar a fome de outras pessoas. Assim como seu adorado prato mexia com seus sentimentos, acreditava que mexeria com o coração de amigos próximos. Sentia-se realizado quando os seis irmãos vinham de tardinha para a sua barraca, a algazarra que faziam e a felicidade estampada no rosto de cada um deles compensava toda a atenção que dedicava no preparo do oden.
Por isso, quando qualquer um deles chegava sozinho, sentia-se arrasado, pois sabia que alguma coisa tinha acontecido. Quando foi a vez de ajudar Karamatsu deu o seu melhor, convidou-o para jantar, até mesmo tentou incentivar seus irmãos a recebê-lo outra vez. Quando nada funcionou, voltou desolado para sua barraca. O fracasso ficou consigo até o dia em que conheceu a flor, não era a mesma que ele mantinha em segredo, era uma mágica que se transformou numa bela jovem e o convidou para um encontro. Ela o alegrou como ninguém mais havia feito, e assim como veio se foi. Lembrava como o buraco que ela deixou foi bem maior do que o seu fracasso. O oden tinha gosto de mar.
Certo dia, Karamatsu aparecera sozinho outra vez em sua barraca, notara o gosto diferente da comida e cheio de si tirara do bolso de trás da calça uma semente. “Para dar boa sorte em sua nova jornada” dissera ele. Chibita contemplou o presente, abriu as duas mãos em concha para recebê-la e ficou olhando bem para ela. Karamatsu havia tirado os óculos escuros e mirava Chibita com um olhar sério, um pouco constrangido.
Incrédulo, perguntou a Karamatsu qual era a ocasião. “Uma lembrança; para uma bela flor” respondera, suas bochechas estavam rosadas, e foi quando Chibita entendeu. Ele mesmo abaixou a cabeça e ficou observando o caldo borbulhar.
No final daquele dia, subiu o morro. Adentrou a floresta, plantou a flor dentro de um vaso, e a deixou guardada sob a copa de uma árvore. Quando voltou para casa ficou a imaginar o que levara Karamatsu a lhe dar a semente. Lembrou-se de quando o havia ajudado, mas naquele dia não tivera êxito, então não podia ser isso. Lembrou-se, então, de outra ocasião quando o mesmo Matsuno viera para sua barraca, apenas ele, buscar conselhos de como se tornar um cozinheiro, e de como teve prazer em ajudá-lo. Mas também não tinha como ser aquilo, e então viu novamente a expressão encabulada que dera, e ele próprio sentiu seu rosto queimar.
No dia seguinte deu outra passada na clareira e fez companhia para a futura planta que nasceria. Contou-lhe do seu dia, dos seis irmãos, das desavenças e amizades, da relação mista que tinha com eles. Nos dias que se seguiram repetiu o ritual, fez companhia para a planta até que um dia desabrochou numa linda flor, assim como a que o deixou. Deu um suspiro de pesar, mas sentiu seu peito aquecer ao mesmo tempo. Visitava-a sempre que podia.
A flor crescera também dentro dele.
Tempos mais tarde recebeu uma declaração, um buquê de rosas enfeitava o pedido. Karamatsu implorava para que o deixasse morar junto com ele, prometia arranjar um emprego e ajudar nas despesas, e acima de tudo prometia preencher o buraco que fora deixado em seu coração.
“Eu que agradeço por tudo” queria ter dito, e uma lágrima lhe escapou do canto do olho.
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