Uma fita
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Ela estava lá, ele a via nitidamente, uma linha envolta de seu tornozelo, parecia tingida de vermelho e dava voltas por toda a sua perna, ele a tentava tirar e nunca tinha êxito. Não sabia como havia feito para estar ali, não se lembrava de tê-la enrolado ali, mas assim, sem perceber, simplesmente estava. Uma fita da cor de seu irmão mais velho, uma fita da cor de Osomatsu.
A rotina mandava saírem todos juntos do banho público, e assim se sucedia. Cada um carregando suas toaletes em pequenos baldes de plástico amarelos, alguns com toalhas toda amarrotadas saindo para fora, outras com uma quantidade a mais de potes com creme para cabelos, o número sempre seis. Alguns deles iam lado a lado, outros mais afastado, iam conversando, tirando sarro de algum acontecimento recente.
Karamatsu se lembrava da faixa que adornava seu pé esquerdo, só ele a via, nenhum de seus irmãos a notara. Era um fato curioso, mas não o incomodava. Mais curioso ainda era a faixa não ter se encharcado quando entrou na banheira, ela se mantinha seca mesmo quando saíra. Ele trocava para seu pijama, ela o acompanhava. Ele tomava a sopa de misô, às vezes bocejando, ela tinha um toque delicado em sua pele.
Não se lembrava desde quando mais ou menos passou a vê-la, nem o porquê de ter passado a vê-la. Era como o destino, e a Providência estava a lhe contar algo de que ainda não se dera conta. Restava a ele desvendar tal mistério. Não lhe tirava o sono durante a noite, não lhe tirava o apetite na hora do almoço, não lhe recusava uma sobremesa, nem na hora do lanche alguns salgadinhos, ela apenas passara a fazer mais parte de sua rotina. Cada vez mais, se formos sinceros.
— Valeu pela companhia outro dia, Karamatsu. E pelos trocados também.
— Ei, Karamatsu, que tal sair para beber uma com o seu maninho?
— Não vai recusar essa, não é?
— Assim seu maninho morre de solidão, faz companhia para mim, Karamatsu.
— Vamos juntos às corridas! Só dessa vez, vai.
— Hora dos mais velhos terem conversa de adultos.
Começou a preocupar-se quando a cada dia via a faixa subir-lhe a perna e se enrolar em seu dorso. Primeiro foi à altura do joelho, agora serpenteava por suas costas. Passou a alarmar-se quando a faixa chegou à metade de sua barriga. Seria complicado se o envolvesse como uma múmia, seria uma morte cômica, das mais tristes, imaginou.
Resolveu que iria averiguar com o médico especialista, foi se consultar com o doutor Dekapan. O médico mandou sentar-se numa pequena cadeira sem encosto e veio trazendo numa mão um pequeno apetrecho, semelhante a uma lupa. Olhou através dela e chegou a suas conclusões.
Ele estava sofrendo de paixão.
Uma no estágio avançado, que poderia adentrar seus orifícios, boca, orelha, e chegar ao sistema cardiovascular até entupir alguma veia e fazê-lo ter um derrame dos sentidos. Tonturas, náuseas, eram alguns de seus sintomas.
Quando voltou da consulta estava péssimo, pálido como uma folha de papel, foi se sentar no sofá do andar de cima, e cobriu o rosto com a palma das mãos. O jeito era não pensar muito sobre o caso.
Os dias se passaram sem que a faixa subisse mais. Parecia é reduzir-se até finalmente estar como antes. Satisfeito foi celebrar tomando uma cerveja gelada nos fundos da casa. Não demorou muito até seu irmão mais velho se juntar a ele. Parecia que farejava essas ocasiões.
— São lindas, não. As estrelas. Te deixam tonto se olha muito tempo para elas.
— Talvez você não acredite, mas seu maninho andou sofrendo esses meses.
— Acho que só eu vejo.
Karamatsu desviou o olhar do céu estrelado para a lata de cerveja em suas mãos, da lata para o tornozelo de Osomatsu. Assim, singela, tinha uma fita, uma fita azul, só uma, uma única volta, e terminava num laço, tão delicado.
Ele sofria de amor.
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